Acções Elementares

“São a escolha e execução (…), por parte dos jogadores, tanto no ataque como na defesa, do complexo de procedimentos técnico-tácticos com o objectivo de resolução das situações parciais do jogo.”

(Teodorescu, 1984)

Acções Individuais, Acções Elementares e a Técnica

“A acção (comportamento, procedimento) técnica individual, não é um objectivo em si, mas um meio para atingir uma capacidade, que deve ser dimensionada e equacionada com a constante mutação das situações (movimentações dos companheiros e adversários) de jogo e intenção táctica. Por outras palavras, a intenção táctica é o fim, enquanto que a técnica é um meio, não se podendo conceber um meio independentemente do fim a que se destina.”

(Castelo, 1996)

Numa fase inicial do projecto, considerávamos as acções menos complexas do ponto de vista do critério táctico Número, como Acções Individuais, que depois se subdividiam em Ofensivas e Defensivas. Porém, desde logo, identificá-las como simples, mesmo que apenas da perspectiva numérica, sentimos ser logo um erro de partida. Isto porque em tudo está presente a interacção, e sendo assim, uma acção pode ser simples na perspectiva numérica, mas depois, outros critérios, como o Espaço, Tempo e Qualidade tornam-na complexa. E em muitos casos, para além de complexa, a interacção entres estas dimensões da acção táctica, tornam a acção, inclusivamente difícil, para quem a realiza. Dando um exemplo, é comum dizer-se que uma situação de 1×1 é mais simples que uma de 2×2. Seja na perspectiva de quem ataca ou de quem defende, o 1×1 pode ser mais difícil que o 2×2, porque a qualidade do adversário é superior e porque a presença de um companheiro, potencialmente, faz aumentar o número de soluções tácticas, e desta forma o jogador pode não estar restringido a acções em que poderá não ser melhor que o adversário. Deste modo, a situação torna-se mais complexa, mas simultaneamente pode tornar-se mais fácil para determinado jogador.

Por outro lado, sentimos também não ser totalmente correcto identificar estas acções como individuais. É certo que, por exemplo o Drible, a Condução, a Protecção de Bola, a Intercepção, o Desarme a Carga, numa perspectiva de avaliação da qualidade da acção, estarão muito mais dependentes do jogador, e portanto, do individual, do que da sua relação com outro companheiro ou com a equipa. Mas mesmo nestes casos, tal não é completamente preciso. Por exemplo, a intercepção de um passe, pode ter sido realizada com sucesso, porque a pressão de um companheiro sobre o adversário com bola, levou-o a menos tempo e espaço para realizar o passe, o que fez com que essa intercepção fosse alcançada com mais sucesso. O autor (Sá, 2001) confirma esta ideia referindo no seu estudo sobre os exercícios de treino que “quanto menor for o espaço menor será o tempo para os jogadores percepcionarem, decidirem e executarem as acções individuais e colectivas que a situação exige (Queirós, 1986, p.54; Mombaerts, 1996:62)”. Uma vez mais… nada é linear no Futebol… tudo é complexo, mesmo ao nível das acções mais… elementares. Mas um dos melhores exemplos é mesmo, na perspectiva ofensiva, o Passe. Constantemente considerado como uma acção Individual, ele pode ser considerado, ao invés, a acção “colectiva” mais básica do jogo. No fundo a forma mais específica de comunicação no jogo e como tal, exigirá sempre, pelo menos, dois jogadores. O que o realiza, e o que o recebe. E da qualidade das acções dos dois, resultará o seu sucesso. Naturalmente podemos e vamos identificar a Recepção como outra acção elementar. No entanto, o que queremos explicar, é que para a eficiência e eficácia… de cada uma delas, cada uma das acções estará sempre dependente da outra, assim, de outro jogador. Ou seja, a avaliação da qualidade de um passe, estará sempre dependente da forma como um segundo jogador se disponibiliza para receber a bola e depois, pela forma como a executa.

Assim, sentimos ser mais adequado designar estas acções, que sucedem a um nível mais micro do jogo, como Elementares. Mas temos que ser claros. Elementares, não do ponto de vista da sua complexidade, dado esta ser sempre relativa a diversos critérios, mas do ponto de vista da estrutura do jogo. Acções elementares porque envolvem um número mínimo de jogadores para a sua realização. Um, ou no máximo, dois jogadores.

Por outro lado, existem ainda fronteiras muito ténues, entre o conceito de acções individual ou elementar, e o conceito de técnica. Partindo da perspectiva de Teodoresco, desenvolvida por (Silveira Ramos, 2003), “o Futebol pode ser decomposto nas suas partes constituintes – técnica, táctica, física, psíquica, social, das leis de jogo, etc.; ou então pode ser decomposto em – acções individuais e colectivas – considerando que cada uma delas é constituída em termos técnicos, tácticos, físicos, psíquicos, sociais, etc.”Porém o autor português defende que o futebol é um todo indivisível que, por razões metodológicas, pode ser considerado pelas partes que o constituem – os factores – ou pelas acções individuais e colectivas, desenvolvidas no decurso dos processos ofensivo e defensivo. O que se pretende é conciliar estas duas posições diferentes, num caminho integrador que, partindo das referidas acções, as relacione com os factores que lhes dão expressão”. No mesmo sentido posiciona-se (Pacheco, 2002), defendendo que independentemente de qualquer uma das técnicas que se pretenda utilizar, estas são fortemente determinadas do ponto de vista estratégico-táctico (Castelo, 1994; Garganta, 1997a) o que se fica a dever ao sistema de referências utilizado, que apresenta várias componentes: companheiros, adversários, bola, objectivos (baliza) e terreno de jogo, onde todos os jogadores têm de se integrar, e com as quais se devem confrontar activa e constantemente (Konzag, 1991). Também Araújo (1992) sustenta que a acção de jogo está muito para além dos processos motores contidos na dimensão gestual da técnica, já que um jogador que recorre a uma dada técnica, no decurso de um jogo, fá-lo sempre em função de um contexto (Moreno, 1989). Neste sentido, as acções técnicas estão estreitamente associadas à componente táctica, condicionando-se e influenciando-se reciprocamente (Castelo, 1994 e Teodorescu,1984) pelo que qualquer elemento técnico só adquire sentido se for qualificado e avaliado em função da natureza específica do confronto desportivo (Garganta, 1997a). A dominante técnica está de tal modo associada dominante estratégico-táctica que, no entender de Teodorescu (1984), a técnica deve ser perspectivada como parte integrante da táctica individual, entendida como o conjunto de acções individuais utilizadas conscientemente por um jogador nas suas interacções com os seus colegas e adversários.”

” (…) a acção de jogo está muito para além dos processos motores contidos na dimensão gestual da técnica, já que um jogador que recorre a uma dada técnica, no decurso de um jogo, fá-lo sempre em função de um contexto.”

(Moreno, 1989) citado por (Pacheco, 2002)

Deste modo, e concordando com esta ideia, a Acção de Jogo, é algo que inclui Técnica, mas é muito mais do que isso. O autor (Garganta, 1997), refere que “na tentativa de ultrapassar alguns equívocos, Teodorescu (1975) preconiza que a técnica nos jogos desportivos deve ser perspectivada como parte integrante da táctica individual, entendida como o conjunto de acções individuais utilizadas conscientemente por um jogador nas suas interacções com os seus colegas e adversários. Na medida em que o jogador não executa isoladamente os procedimentos técnicos, mas acções de ataque e de defesa, as acções técnicas devem integram-se nos saber-fazer tácticos“. Assim, independentemente de elementar, ela, tal como uma fractal que representa o rendimento no jogo, é constituída, numa escala mais micro, por um complexo de qualidades cognitivas, técnicas, físicas, psicológicas, etc.. Portanto, usando a expressão do Professor Vítor Frade no Futebol, reduzir em empobrecer, este pensamento leva-nos ao estudo da acção e não apenas da sua técnica ou da sua execução.

“A sorte está nos detalhes.”

(Jorge Maciel, 2017)

Um contexto micro sempre subordinado ao macro

“(…) a assistência e o golo, por maior notoriedade que tenham, não têm mais importância que outras acções simples ou aparentemente banais, mas que são no fundo o que proporcionam a que metros mais à frente, a magia aconteça.”

(Bouças, 2017)

Como (Bouças, 2009) refere, “no futebol, importa contribuir com algo para a equipa. As boas equipas, não vivem de impulsos individuais. A capacidade para tomar (boas) decisões, em todos os momentos, a forma como definem as jogadas, e os excelentes timings, com que se executam as acções, são apanágio dos melhores jogadores do mundo. Ainda que, se continue a valorizar, somente, quem dá nas vistas”. Ou seja… apesar de nos últimos anos sentirmos, em geral, uma evolução na cultura de jogo no sentido oposto, a verdade é que ainda é muito valorizado o jogador que apresenta uma execução estética vistosa, mas que no entanto a sua acção pode não ter significado qualquer espécie de eficácia no jogo. Deste modo, ainda (Bouças, 2013), acrescenta que esta perspectiva do jogo produz jogadores “a crer que o jogo se resolve em acções individuais. Acções essas sempre condicionadas a um dia feliz, que poderá não aparecer com regularidade. Perde-se o talento e a qualidade técnica porque não se soube conduzir qualidades inatas para o jogo para o que cognitivamente este pede”.

Também por esta razão, importa-nos identificar as acções do ponto de vista de toda a sua complexidade, e não só do ponto de vista da sua estética ou eficiência. Isto porque no fundo, as mesmas devem estar inseridas num contexto colectivo, no qual o seu derradeiro objectivo passa por beneficiar toda uma equipa. Assim, como novamente (Bouças, 2014) sustenta, qualquer futebolista que em 100 acções procure unicamente a sua notoriedade, ou êxito pessoal, acabará por o obter algumas vezes. A questão é que se nessas 100 acções procurar o que é melhor para a equipa, mesmo que isso seja um simples tocar em quem está de frente, fará com que a equipa tenha os seus êxitos de forma muito mais frequente“. O autor (Silva, 2008) reforça, referindo que “os jogadores de uma equipa devem entender uma movimentação individual, num projecto colectivo (entenda-se modelo de jogo). Cada jogador deve pensar acima de tudo, colectivamente nas suas acções individuais e dar o seu melhor à equipa”. 

Na mesma linha de pensamento, o autor (Baptista, 2019) aponta “ser fundamental recordar aquilo que é a essência deste jogo e mais ainda a essência do processo de criação de algo eminentemente colectivo – criar uma Equipa. A cooperação entre os jogadores é o fundamental, isso irá sempre transcender qualquer virtuosismo individual, aliás é essa cooperação que propicia a criatividade (falo daquela que tem valor inequívoco). As relações/interacções entre os jogadores são o que mais deveremos presar e é precisamente por isto que a ideia do treinador e aquilo que ele acrescenta ao processo de aprendizagem são muito importantes, precisamente na medida em que aproxima cada um dos jogadores duma visão mais colectiva e por isso mais coerente com aquilo que os caracteriza e que deve ser sempre respeitado.”

Neste sentido, no seu estudo, o autor (Silva, 2009) define a diferença entre Técnica e Táctica Individual. Assim, descreve a primeira como todas as habilidades fundamentais necessárias para o desenrolar do jogo, enquanto a segunda como o o conjunto das acções individuais, com ou sem bola, realizadas por um jogador, de acordo com o modelo de jogo adoptado pela sua equipa, no sentido de perseguir os objectivos do jogo, quer na fase de ataque quer na fase de defesa“. 

E prosseguindo para a diferença entre Táctica Individual e Táctica Colectiva, o mesmo autor explica a última como “todas as acções colectivas dos jogadores da equipa, desenvolvidas de forma organizada, ordenada e uniformizada e que se processam em função dos objectivos e momentos de jogo da equipa“. No mesmo sentido surge (Garganta, 1997) que descreve que segundo Teodorescu (1965), o desenvolvimento das acções de jogo, nos JDC, depende das acções individuais e colectivas realizadas numa situação de cooperação com os companheiros e de oposição face aos adversários, de acordo com um pensamento táctico que deve ser coordenado entre os jogadores da mesma equipa. Ainda Júlio Garganta, explica que “deste modo, as equipas em confronto operam como colectivos, organizados de acordo com uma lógica particular, em função de regras, princípios e prescrições. As acções dos jogadores da mesma equipa tendem a ser convergentes, na medida em que as estratégias e acções individuais são direccionadas no sentido de satisfazer finalidades e objectivos comuns”. Estas acções serão então as que integraremos nos sub-temas de Ideia do Jogo designados pelos quatro momentos do jogo.

Deste modo, o objectivo deste tema, vai mais além do que apenas a habilidade para executar determinada decisão. Aqui o objectivo será, independentemente de num contexto mais micro do jogo, ou seja, numa escala de relação numérica mais reduzida do jogo, identificar o acções pelo seu todo complexo constituinte. Portanto, como vimos atrás, não apenas pela sua técnica ou execução. Contudo, na linha de diversos autores, sentimos que muitas vezes é nesta escala do jogo que ele se decide. Ao nível do plano do detalhe, muitas vezes na qualidade de determinada acção elementar, ou mesmo, no que é observável em jogo, ao nível da execução, portanto, técnico. Temos aqui que ressalvar, que se pensamos a acção na perspectiva complexa, a sua execução / técnica estará consequentemente influenciada pelas outras dimensões do rendimento, e do ponto de vista de quem observa, será praticamente impossível perceber o que causou determinado insucesso. Porém, será a este nível de detalhe, dada a limitação humana para compreender a acção a partir de determinada profundidade de análise, que o rendimento no jogo é muitas vezes confundido com conceitos como sorte ou azar. Um exemplo clássico é o do jogador que nas disputas de bola, ganha muitos ressaltos. Habitualmente é classificado como “sortudo”. Mas essa sorte não será uma maior experiência e conhecimento, mesmo que “armazenada” ao nível subconsciente, portanto, ao nível de um saber fazer, levando-o, por exemplo, a timings, determinadas formas de colocar o pé na bola dividida com o adversário e confiança na própria acção, que então o levam a uma maior eficiência e consequentemente… eficácia na situação?

“(…) o desenvolvimento das acções de jogo, nos JDC, depende das acções individuais e colectivas realizadas numa situação de cooperação com os companheiros e de oposição face aos adversários, de acordo com um pensamento táctico que deve ser coordenado entre os jogadores da mesma equipa.”

Teodorescu (1965), citado por (Garganta, 1997)

Um sistema… noutro sistema

“(…) numa primeira análise a implicar na totalidade das acções individuais e colectivas como uma unidade definida e, das partes constituintes [mais ou menos fixas e permanentes e, determinadas no sentido de pertencerem a determinado «todo», de o integrarem e receberem dele o seu carácter Especifico].”

(Almeida, 2009)

Na sua teorização do jogo, (Castelo, 1996) explica que “o subsistema cultural que deriva da noção de organização de uma equipa de futebol, é definida por um conjunto complexo de representações, valores, finalidades, objectivos, símbolos, etc., partilhados em interacção por todos os jogadores, que estabelecem as formas como a equipa encara e conduz a competição desportiva, tendo em atenção as Leis do jogo que traduzem normas condicionantes das atitudes e comportamentos técnico-tácticos dos jogadores. A natureza do subsistema cultural é resultante da dialéctica estabelecida, por um lado, pelo conjunto de interacções individuais dos jogadores que constituem o grupo, que derivam das aprendizagens, experiências e modelos de acção e pensamento eficientes e, por outro, dos treinadores que procuram “controlar” e aperfeiçoar este subsistema”.

O autor (Almeida, 2009), descreve que “a Estrutura do jogo revê-se para além do posicionamento dos Jogadores no terreno de jogo, ou seja, na disposição espacial perceptível, no sistema de relações estabelecidas entre os Jogadores [companheiros e adversários], com a bola, com o espaço de jogo, etc., … e numa primeira análise a implicar na totalidade das acções individuais e colectivas como uma unidade definida e, das partes constituintes [mais ou menos fixas e permanentes e, determinadas no sentido de pertencerem a determinado «todo», de o integrarem e receberem dele o seu carácter Especifico]”. O autor acrescenta que “acerca da finalidade, Marisa (2008a, p.34) refere que “… é a forma como se quer jogar ou seja, define-se numa «Ideia de Jogo» que o Treinador objectiva para a sua Equipa e que vai desenvolvendo ao longo do processo. Assim podemos entender como uma conjectura que vai configurar as interacções individuais e colectivas da Equipa”. Bertrand e Guillemet (1994; cit. por Machado, 2008) referem que a finalidade e a intencionalidade dão tom à complexidade processual de uma organização, pelo que a finalidade se converte em valores, em critérios e objectivos”.

De acordo com (Fagundo, 2008), “Júlio & Araújo (2005) referem-se ao jogo de Futebol como um sistema dinâmico onde se desenvolvem diferentes padrões de acção, tomadas de decisão e julgamentos numa relação colectiva específica diferente do somatório das acções individuais (Júlio e Araújo, 2005). A actividade motriz de que falamos é complexa pela capacidade que o jogador evidencia ao ter que tomar decisões quando confrontado com as mais diversas situações (Mombaerts, 1998)”. Neste sentido, o autor (Silva, 2008) sustenta que “antes de avançarmos mais, é importante definir sistema. Segundo Ackoff (1985, citado por Bertrand & Guillemet, 1988, p. 47), “um sistema é um todo que não pode ser decomposto sem que perca as suas características essenciais. Deve, portanto, ser estudado como um todo. Além disso, antes de explicar um todo em função das partes, é preciso explicar as partes em função do todo”. Por consequência, as coisas devem ser vistas como partes de totalidades maiores e não como entidades que devem estar separadas e isoladas, isto é, o jogador de futebol é visto como um microsistema de um todo que é a equipa. Esta linha de pensamento veio romper por completo com a filosofia cartesiana que vigorou até ao Séc. XX, que se apresentava como demasiado reducionista (Lourenço & Ilharco, 2007) e que se fosse aplicada ao futebol, certamente, observaria as acções individuais de uma forma isolada e sem um sentido colectivo (Amieiro, Oliveira, Resende, & Barreto, 2006)”.

O autor (Castelo, 1996) explica que “num segundo nível de análise, Teodorescu (1984), ao referir que “as acções individuais constituem os procedimentos técnicos que têm uma estrutura específica, desenvolvidos sob a égide de um comportamento diferenciado denominado de pensamento táctico“, consubstancia que a acção é portadora de um sentido e, por conseguinte, de um significado para os outros jogadores (companheiros e adversários), que é sempre função de um contexto no qual este está inserido”. Assim, o autor sublinha ser fundamental subordinar as acções individuais às colectivas, através de uma distribuição coerente dos seus comportamentos por forma a assegurar a coordenação e cooperação destes que consubstancia o aumento da rentabilidade e da eficácia da equipa. Todavia, isto não significa que cada jogador não encontre dentro desta concepção de organização da equipa o “espaço” necessário para reflectir a sua própria personalidade, improvisação e criatividade, pois este é um pressuposto integrante do subsistema estrutural”. Também o reconhecido autor (Gréhaine, 1991), citado por (Silva, 2008), sustenta que “os jogadores de uma equipa devem entender uma movimentação individual, num projecto colectivo (entenda-se modelo de jogo). Cada jogador deve pensar acima de tudo, colectivamente nas suas acções individuais e dar o seu melhor à equipa“.

Aprofundando a questão, o mesmo (Silva, 2008), vai mais longe e explica que “segundo Ackoff (1985, citado por Bertrand & Guillemet, 1988, p. 47), “um sistema é um todo que não pode ser decomposto sem que perca as suas características essenciais. Deve, portanto, ser estudado como um todo. Além disso, antes de explicar um todo em função das partes, é preciso explicar as partes em função do todo”. Por consequência, as coisas devem ser vistas como partes de totalidades maiores e não como entidades que devem estar separadas e isoladas, isto é, o jogador de futebol é visto como um microsistema de um todo que é a equipa. Esta linha de pensamento veio romper por completo com a filosofia cartesiana que vigorou até ao Séc. XX, que se apresentava como demasiado reducionista (Lourenço & Ilharco, 2007) e que se fosse aplicada ao futebol, certamente, observaria as acções individuais de uma forma isolada e sem um sentido colectivo (Amieiro, Oliveira, Resende, & Barreto, 2006)“.

Neste enquadramento, (Costa, 2001) transmite que então “parece evidente, que as soluções associativas dos jogadores nos seus diversos lugares devem formar um todo conveniente, optando pela mesma solução colectiva para resolver uma situação e que adaptando as suas acções individuais. Contudo, permanece ainda espaço na formação para um pensamento táctico criador e para uma actualização dos conhecimentos, porque as únicas restrições do pensamento em jogo são os limites de tempo (Mahlo, 1980)“.

Deste modo sentimos ser redundante falar em Acções Tácticas Individuais ou Acções Tácticas Elementares. Porque, na realidade, o táctico, a decisão estará sempre presente. Toda a acção no jogo parte do pressuposto que está a ser realizada com determinada intenção. Intenção essa de resolver um problema do jogo. Um jogo que é táctico… Assim, a “táctica individual” de acordo com (Almeida, 2011), e recorrendo a (Teodorescu, 1984), sao “o conjunto de acções individuais utilizadas conscientemente por um jogador na luta com um ou mais adversários e em colaboração com os companheiros, com o objectivo da realização das missões do jogo, tanto no ataque como na defesa”. Para o autor “os jogadores devem saber o que fazer em conjunto (táctica colectiva), para poderem resolver o problema subsequente, o como fazer (táctica individual), ou seja seleccionar e utilizar a resposta motora mais adequada (Dugrand, 1989; Garganta e Pinto, 1996)”. Assim, o autor acrescenta que “o entendimento do conjunto de acções individuais utilizadas conscientemente pelos jogadores, revela a execução de um trabalho de consciencialização dos jogadores por parte do treinador, no que se refere à sua função dentro da equipa e respectivas tarefas tácticas individuais, culminando na manifestação de uma cultura organizacional por parte da equipa e de cada um dos elementos nos seus mais variados momentos dentro do jogo. Assim, “quando os jogadores estão totalmente focados no objectivo da equipa, os seus esforços podem criar reacções em cadeia. É como se eles se tornassem totalmente conectados uns com os outros, em sincronia uns com os outros, como os cinco dedos de uma mão. Quando um dedo se move, o resto de todos eles reagem a ele” (Phil Jackson, 2006)“.

Portanto, (Sousa, 2006) refere que “segundo Garganta & Pinto (1998) a relação de cooperação/oposição constante no jogo de Futebol, manifesta a realização de acções individuais, de grupo e colectivas, específicas e congruentes com os objectivos em cada momento do jogo, segundo regras de acção e princípios de gestão bem definidos. Para os mesmos autores, o jogo de Futebol ao ser jogado com elevada qualidade requer o desenvolvimento de um pensamento táctico operacional, para responder à imprevisibilidade das situações de jogo”.

quando os jogadores estão totalmente focados no objectivo da equipa, os seus esforços podem criar reacções em cadeia. É como se eles se tornassem totalmente conectados uns com os outros, em sincronia uns com os outros, como os cinco dedos de uma mão. Quando um dedo se move, o resto de todos eles reagem a ele”

(Phil Jackson, 2006), citado por (Almeida, 2011)

A operacionalização do individual

“(…) o treinador deve ter em consideração que a competência de um jogador não depende apenas do aspecto mecânico da acção que se restringe ao saber como executar determinadas técnicas, mas também da sua aptidão para seleccionar os recursos motores mais adequados à configuração do jogo num dado instante, e da capacidade de os utilizar no momento de materializar a acção.”

(Garganta, 1997a) citado por (Pacheco, 2002)

No seu estudo, (Gonçalves, 2009) descreve que “ao nível das intervenções da táctica individual os treinadores privilegiam uma boa parte das suas intervenções de conteúdo táctico nas acções individuais ofensivas realizadas pelo atleta da equipa que tem a posse de bola”. Também (Silveira Ramos, 2003), refere que “é exactamente o conjunto de acções individuais e colectivas do futebol que é o centro da nossa atenção, aplicadas de forma dinâmica pelos praticantes, através de “gestos motores integrados” (Teodoresco). Estas acções são o objecto de estudo dos técnicos, que procuram influenciar os praticantes, através do treino e da competição, para que estes as executem de forma cada vez mais eficiente”.

Nesta perspectiva, novamente (Castelo, 1996), defende então que “a verdadeira técnica deve ter em conta os condicionalismos próprios de qualquer situação táctica, ou seja, a colocação dos companheiros, adversários e do espaço de jogo, que por si irá consubstanciar que procedimento técnico é mais eficaz, a utilizar para a referida situação”. Nesta lógica, (Pacheco, 2002) fundamenta que “no decurso do processo de treino e na condução da competição, o treinador tem por vezes necessidade de intervir acerca da competência técnica dos jogadores. Neste caso, o treinador deve ter em consideração que a competência de um jogador não depende apenas do aspecto mecânico da acção que se restringe ao saber como executar determinadas técnicas, mas também da sua aptidão para seleccionar os recursos motores mais adequados à configuração do jogo num dado instante, e da capacidade de os utilizar no momento de materializar a acção (Garganta, 1997a). De acordo com Garganta (1997a), os factores de execução são assim determinados por um contexto de oposição e cooperação, pelo que a proficiência técnica decorre deste compromisso”. Também neste sentido, o autor (Tavares, 1996) defende que “o treinador, ao estruturar a relação existente entre os factores técnico e táctico no ensino dos JDC, deve proceder de modo a que o praticante entenda o que é que deve fazer (intenção táctica), antes de conhecer como é que deve fazer (modalidade técnica)”. Deste modo, o autor conclui que o conceito de táctica individual deve ser o ponto de referência básico para estruturar uma sequência de aprendizagem das acções individuais nos jogos desportivos que possibilite a formação de jogadores com capacidades de decisão própria“.

Esta subordinação da execução da execução à decisão, naturalmente não sucede apenas ao nível micro do jogo. O autor (Teodorescu, 1984) defende que a racionalização e optimização das acções individuais e colectivas só é possível se previamente se tiver realizado um real conhecimento da estrutura do jogo e do sistema que naturalmente se cria como consequência das influências recíprocas entre as acções dos jogadores“. Para (Barbosa, 2009), “no Futebol procura-se que as equipas tenham uma identidade própria, capaz de unificar as acções dos jogadores para objectivos comuns (Garganta, 1997; Razykov, 2006). Para tal, tenta-se desenvolver uma determinada forma de jogar incrementada através de rotinas, onde se procura uma assimilação de princípios de acção e regras de gestão da equipa, que vão ser os responsáveis por coordenar as acções individuais dos jogadores, tornando-as colectivas (Garganta & Pinto, 1994; Teodorescu, 1984)”. O autor (Castelo, 1996) expõe que Mahlo (1966), refere o seguinte exemplo: “se todos os membros de uma equipa tivessem uma formação táctica idêntica (se jogassem juntos há muito tempo beneficiando duma educação teórica e prática comum) existiria entre eles uma compreensão quase cega fundada sobre esta solução associativa. Estas associações não se limitam forçosamente a problemas simples, podem-se também resolver problemas mais difíceis que exigem a intervenção de vários jogadores, se a aprendizagem táctica foi realizada com correcção. É evidente, então, que as soluções associativas dos jogadores nos seus diversos posicionamentos tácticos devem formar um todo conveniente, e que todos devem optar pela mesma acção colectiva para resolver a situação competitiva adaptando as suas acções individuais“.

Aqui, o entendimento de Modelo de Jogo torna-se vital. Nesta lógica, (Castelo, 1996) entende que “o modelo de jogo da equipa deverá estabelecer um conjunto de relações e interrelações que consubstancie e permita resolver todas as situações tácticas momentâneas de jogo com pleno sentido de equipa. Com efeito, a funcionalidade da equipa não pode ser encarada pela justaposição das acções individuais, mas sim no ajustamento dos vários comportamentos técnico-tácticos dos jogadores em função das contingências e do desenvolvimento das situações de jogo numa complementaridade coerente e dinâmica“.

O autor (Almeida, 2009), vai mais longe e descreve que “segundo Teodorescu (2003) esta «Funcionalidade Geral» é uma funcionalidade constante – realizada com base em princípios e regras de coordenação das acções, existindo também uma «Funcionalidade Especial» – variável para cada jogo, para cada adversário, em função de condições diversas etc, pertencendo ao que parece ao Lado Estratégico da Operacionalização do Jogo. Tanto a Funcionalidade Geral e Especial da Equipa realiza-se através de uma determinada programação das acções individuais e colectivas dos Jogadores, segundo um sistema de relações e interrelações dinâmicas desenvolvidas e coordenadas segundo estes Princípios e regras Tácticas“. Nesta linha de pensamento, (Silva, 2007) explica que “o modelo de jogo é a articulação de tudo, do consciente e do subconsciente. Ele proporciona uma base concebível que permite canalizar a tomada de consciência, por parte de todos os jogadores, sobre os seus direitos e deveres, fundamentalmente no que diz respeito aos seus comportamentos/conhecimentos. Por outras palavras, subordinar as acções individuais às colectivas, através de uma distribuição coerente dos seus comportamentos/conhecimentos, de forma a assegurar a coordenação e cooperação destes, que consubstancia o aumento da rentabilidade e da eficiência da equipa.”.

De acordo (Teodorescu, 1984), citado por (Silva, 2006) confirma então que no modelo pode constar de acções individuais e colectivas dos jogadores, integradas com o esforço físico e psíquico característico do jogo, modelando-se assim a actividade que o jogador deverá ter durante o jogo. Este está, permanentemente, aberto aos acrescentos individuais e colectivos e, por isso, em contínua construção, sendo o Modelo final inatingível (Oliveira, 2003)”.

Também do ponto de vista psicológico, nomeadamente ao nível emocional, (Almeida, 2009) explica que “Morin (1977, 1980), Zazzo (1978), Goleman (1999, 2006), Machado (2008) e Maciel (2008) afirmam a preponderância de se desenvolver acções individuais no «sentido colectivo», como uma forma de segundo Goleman (1999) de desenvolver uma inteligência superior a «Inteligência emocional» que o mesmo autor em (2006) salientar ser uma «Inteligência Social», praticando a Equipa um Futebol um tanto mais qualitativo quanto mais as «Intencionalidades» dos Jogadores estiverem voltadas para este «sentido», aliado ao facto de suas acções serem evidentemente eficazes, e para além disso, no berço da organização há a atribuição de responsabilidades, a tomada de decisão, o agrupamento de funções, a coordenação e o controlo, sendo requisitos fundamentais que possibilitam a operação contínua da mesma (Soucie, 2002)”.

A propósito do trabalho de José Mourinho, (Gaiteiro, 2006) explica que o treinador português “realiza uma “modelação projectiva” pois é orientada para um dado futuro, isto é, baliza as acções individuais dentro de uma lógica grupal, que possibilita perante determinada situação, que todos os jogadores pensem da mesma maneira (Resende et al., 2006, 37)”. O autor reforça, defendendo que “o treino apresenta uma capacidade de fabricar atractores estranhos em territórios desconhecidos, tornando a acção, nestes territórios, familiar para quem a realiza, sendo a estranheza, a variabilidade inicial substituída pela familiaridade posterior, adquirindo hábitos, tornando não-conscientes os programas geradores da acção cultural. Se assim acontece, faz sentido que Mourinho comece desde o primeiro dia a construir a sua ideia de jogo, jogando como deseja competir, para que rapidamente se expressem as acções individuais como uma cultura colectiva, mas de forma que todas as suas dimensões sejam formadas e aperfeiçoadas em conjunto, pois está é uma condição vital para a sua expressão qualitativa“.

Deste modo, (Azevedo, 2009) acredita que “o desafio é dotar a equipa da capacidade de manifestar o seu jogo de forma constante durante a prática ou durante o treino (Tani e Corrêa, 2006). Faz então todo o sentido, que haja ao nível do alto rendimento, o reconhecimento da necessidade de se trabalhar desde o primeiro dia a forma de jogar idealizada, com tudo que ela acarreta, jogando como se deseja competir (Faria, 1999). Isto para que rapidamente se expressem as acções individuais como uma cultura colectiva, mas de forma que todas as suas dimensões sejam formadas e aperfeiçoadas em conjunto, pois esta é uma condição essencial para a sua expressão qualitativa“.

(…) Morin (1977, 1980), Zazzo (1978), Goleman (1999, 2006), Machado (2008) e Maciel (2008) afirmam a preponderância de se desenvolver acções individuais no «sentido colectivo», como uma forma de segundo Goleman (1999) de desenvolver uma inteligência superior a «Inteligência emocional» que o mesmo autor em (2006) salientar ser uma «Inteligência Social» (…)

(Almeida, 2009)

Tendências futuras

Segundo (Pacheco, 2002), no momento do seu estudo, “as equipas de alto nível privilegiam as seguintes acções individuais:

  • No ataque – condução da bola rápida para a frente; passe ao primeiro toque, comprido e em profundidade; remate sem preparação e em situações acrobáticas e desmarcação de ruptura (Pinto e Garganta, 1989).
  • Na defesa – marcação agressiva sobre o portador da bola, em todo o campo e logo após a perda da posse da bola, o que leva a equipa a actuar em bloco e cobertura defensiva (Pinto e Garganta, 1989)”.

O autor (Laranjeira, 2009) sente que “a evolução imposta ao jogo de Futebol parece exigir uma maior velocidade de jogo, ao nível das acções individuais e colectivas. Mas tal como refere Carvalhal (2000), mais importante do que correr é o como correr e o quando correr, tudo feito em elevada intensidade, entenda-se velocidade em concentração“. Ainda treinador português (Carvalhal, 2002) aprofunda a ideia defendendo que “a evolução imposta ao jogo de futebol parece exigir uma maior velocidade de jogo, quer ao nível das acções individuais quer das colectivas. Tanto no passe como na movimentação táctico-técnica dos jogadores“.

Novamente (Laranjeira, 2009), acrescenta que “a capacidade de utilização de um ritmo variado, quer nas acções individuais como colectivas, adaptado às situações momentâneas de jogo, determina o nível táctico de uma equipa. Muitas vezes, numa partida entre duas equipas de valor idêntico, a vitória é decidida pela capacidade de uma das equipas impor o seu ritmo de jogo (Castelo, 1994)”.

Deste modo, mais do que, por exemplo, o aumento da velocidade ou da eficiência do gesto motor, ou seja, do foco na melhoria da execução das acções, na nossa perspectiva, a grande evolução do jogo ao nível das acções elementares, passará pela crescente melhoria, mesmo ao nível do mais pequeno detalhe, da decisão em função do contexto, e portanto da escolha da melhor execução para cada situação. Neste sentido, também uma bagagem de recursos cada vez maior, de forma a possibilitar mais soluções ao jogador, também nos parece um caminho evolutivo. E não o caminho oposto como sucedeu durante largas décadas no ensino do jogo, que restringiu-o apenas a algumas soluções, que à vista de alguns, seriam mais estéticas ou eficientes. Se outras, que nessas perspectivas não estarão dentro destes padrões, revelarem maior eficácia para determinado jogador, serão então para nós, melhores soluções. Deste modo, variabilidade e criatividade, trarão maior sucesso à relação eficácia-eficiência-estética, na resolução de um eventual problema que o jogo traga.

“Uma equipa pressupõe uma funcionalidade geral (constante – realizado com base em princípios e regras de coordenação das acções) e uma funcionalidade especial (variável – para cada jogo, para cada adversário, em função de condições diversas, etc.)” …” Tanto a funcionalidade geral e especial da equipa realiza-se através de uma determinada programação das acções individuais e colectivas dos jogadores, segundo um sistema de relações e interrelações dinâmicas desenvolvidas e coordenadas segundo estes princípios e regras tácticas.”

(Teodorescu, 1984)


Última actualização da página