Uma das muitas razões para não se jogar… com 11 médios

Durante algum tempo procurou-se fazer passar a ideia de que jogar com muitos Médios seria sinónimo de superioridade e eficiência e, por arrasto, aproximaria a equipa do sucesso e da eficácia. Isto parte de uma premissa incompleta — melhor, redutora. Com frontalidade: é confundir causa e efeito; tomar a estética (que deveria ser consequência da eficiência-eficácia) como ponto de partida e, a partir dessa utopia, tentar chegar às primeiras. Uma estética desligada da realidade do jogo.

Clarificando: a utopia é crer que “onze” Médios trarão automaticamente maior qualidade aos momentos ofensivos, garantirão mais critério e, no limite, a totalidade da posse de bola. Isso nunca aconteceu num jogo de futebol — e podemos arriscar que não acontecerá. 100% de posse não existe; haverá sempre momentos em que a equipa terá de defender: por vezes mais alto, por vezes mais baixo. Quando mais baixo, é provável que tenha de defender cruzamentos. E nesses momentos torna-se crucial ter jogadores competentes nessa acção. “Competentes”, aqui, é também consequência de muito volume de acções, logo muita experiência específica.

Sem ignorar a importância da estatura nesses lances — recorde-se que o 1.º golo sofrido pela Selecção contra a Hungria expôs uma desvantagem na estatura no duelo envolvendo Vitinha — a verdade é que sempre existiram Defesas-Centrais de baixa estatura e excelentes no jogo aéreo: Cannavaro, Puyol, Passarella, Baresi, Ayala, Gamarra, Córdoba e Otamendi, entre outros. O volume de exposições a esse tipo de acção, a experiência acumulada, o conhecimento do jogo próprio da função e a inteligência e antecipação tendem a tornar a estatura um critério secundário.

Já no segundo golo sofrido, a falta de experiência específica e a consequente não-antecipação da desmarcação de ataque ao cruzamento do jogador húngaro foram evidentes. Natural em Rúben Neves, cuja maior expertise é a de Médio e não de Defesa-Central — as tais 10.000 horas foram, compreensivelmente, passadas poucas vezes a defender cruzamentos.

Se é utópico garantir a totalidade da posse, também não é realista imaginar que se consegue anular sempre os momentos defensivos do adversário logo no primeiro sub-momento da Transição Defensiva, a Reacção à perda, apenas por se alinhar com “mais Médios”. Em quase todos os jogos, mesmo em equipas de grande qualidade com bola, haverá momentos defensivos e cruzamentos aéreos — nem que sejam de situações de bola parada.

Tal como na sobrevivência e evolução das espécies, uma das chaves não é a paridade, é a diversidade. A melhor equipa, para lá da linguagem comum e do entrosamento, é também a que dispõe de mais soluções para responder aos problemas do jogo. Porque o jogo é diverso — ou melhor… complexo — e, por isso, não traz sempre os mesmos problemas.

“Estética duma eficiência que,

ao almofadar a eficácia,

dá à inteligência, na perspicácia,

o fermento p’rà transcendência.”

(Vítor Frade, 2016)

Quando menos é mais

No bom espírito quantitativo, falando-se em amplitude, quanto maior… melhor. Mas não. Quando os jogadores se afastam em demasia, a equipa fica como um universo em expansão: perde densidade, energia e “calor” colectivo; as interacções arrefecem e a qualidade do jogo dissipa-se.

Largura máxima relativa é, por isso, dar a largura e a profundidade máximas úteis para abrir espaços no bloco adversário sem perder ligações. É “relativa” porque depende da posição da bola, da organização do adversário e das nossas ligações: não é viver colado à linha por princípio. Os autores (Paulo Correia, et al., 2014) defendem que “quando em posse de bola, a equipa deverá fazer ‘campo grande’ (…) para uma circulação de bola rápida, segura e eficaz (…) A distância dos jogadores sem bola ao seu colega com bola depende sempre de imensos factores” — daí “amplitude máxima relativa”.  

No primeiro golo do FC Porto em Alvalade, em sub-momento de Construção, este princípio foi decisivo. No início da construção, a primeira linha do FC Porto não abriu. Aproximou-se para criar superioridade numérica local e encadear ligações curtas com o jogador adiantado na segunda linha. Menos amplitude (por instantes) → mais densidade → melhores ângulos de passe → saída limpa. Logo a seguir, a equipa voltou a alargar onde fazia sentido. Isto é largura máxima relativa em acção: fechar para ligar e atrair, abrir imediatamente para progredir. 

Um bom exemplo de pensamento divergente…. o cruzamento de calcanhar de Raúl Jiménez.

Um bom exemplo de pensamento divergente.

Onde os defensores do Manchester City viram acções como a recepção, controlo e protecção, Raúl Jiménez viu mais. Viu um cruzamento de calcanhar.

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(o post é gratuito)

“Porém, é importante salientar que a necessidade de se considerar o pensamento divergente, não se confina apenas ao processo de formação. Ela deverá ser uma preocupação constante, qualquer que seja o processo, nomeadamente ao nível do rendimento superior, o que nem sempre se verifica. Neste sentido, a menor qualidade observável no jogo de Futebol pode resultar não apenas de uma menor qualidade individual dos jogadores, talvez relacionada com a progressiva extinção do futebol de rua e com a falta de um espaço de aprendizagem que possa colmatar tal lacuna, mas também de uma redutora compreensão daquilo que poderá ser a complexidade do jogo e a organização funcional de uma equipa.”

(Hélder Fonseca & Júlio Garganta, 2006)

Defesas-Laterais dentro e Médios-Laterais fora. O Vitória de Guimarães como exemplo.

O erro de Otamendi. Uma das diferenças do treinador de Formação para o de Rendimento.

Atrair fora para criar dentro. Um exemplo.

Um contra-ataque 3×2+GR… ou melhor… 3×3+GR e possíveis soluções.

A situação sucedeu no México x Equador da Copa América. O momento para o Equador é de Transição Ofensiva, sub-momento de Contra-Ataque. No ângulo de análise que trazemos, o protagonista é Enner Valencia, atacante com bola que conduz o contra-ataque.

Num primeiro momento, sendo a situação inesperada por ser resultado de um ressalto, a recepção de Valencia é muito boa. Sendo orientada para a baliza adversária ganha imediato tempo e vantagem sobre a oposição, possibilitando uma situação de contra-ataque em 3×2+GR, que, se desenvolvida eficientemente, antecipava grande probabilidade de golo. Valencia toma ainda outra boa decisão. A condução, não caindo na tentação de passar para o companheiro à sua esquerda, que com mais espaço, aparentava estar em melhor condição para progredir para a baliza adversária. Não atendendo às especificidades individuais dos jogadores em causa, de uma perspectiva geral poderia ser um erro fatal ao contra-ataque porque não só este não se encontrava no corredor central, mas também porque o percurso para a baliza tinha uma elevada probabilidade de ser interceptado pelo opositor mais próximo, até porque este também se encontrava orientado e com os apoios virados para esse espaço.

Contudo, o equatoriano comete um erro de execução, deixando a bola para trás por um breve momento mas que numa situação com esta foi o tempo suficiente para permitir a recuperação de um terceiro defensor, tornando-se a situação num 3×3+GR, portanto elevando o grau de dificuldade para os atacantes.

Depois, a grande questão que na situação é colocada, torna-se a decisão sobre o último passe ou a opção tomada, a finalização. Sendo a simplificação da relação o desejável, ou seja, eventualmente colocar um segundo atacante em 1×0+GR, o ângulo em que este acabará para a baliza e tendo também em conta o seu pé dominante e qual ficará mais disponível para rematar, serão questões relevantes e uma análise e decisão extremamente difícil de fazer em tão pouco tempo e sob enorme desgaste. Deste modo, quando em condução pelo corredor central e já próxima da grande área, a opção pela finalização dificilmente se torna uma péssima opção porque existe um eventual enquadramento com a baliza e é possível que a contenção não esteja a ser muito agressiva por também ter a preocupação com os outros atacantes. Foi o caso. Nesta decisão, o que não correu bem foi a execução do remate.

Ainda assim, apesar da situação em causa não permitir o resposta fácil, podia ter surgido uma solução mais eficaz. Para decisão de último passe, para nós a decisão mais evidente seria realizá-lo quando, Chávez, o opositor mais próximo e que se encontra dividido por Valencia e pelo atacante mais à direita, decide rodar os apoios e enquadrar-se com o espaço exterior. O passe nesse momento encontraria-o em reduzida capacidade de reação e mobilidade o que colocaria o segundo atacante em 1×0+GR pela direita. Valencia também podia ter atacado o ímpar, ou seja, fixado esse defensor de forma a garantir que ficaria efectivamente fora da situação, tomando assim similar opção. Outra alternativa seria atacar o par, ou seja, atacar o espaço entre o defensor do meio e o à direita do portador, procurando criar indefinição entre os dois e possivelmente atraindo ambos à bola o que poderia permitir mais espaço para o mesmo último passe à direita ou, caso o defensor ao meio, Pacho, saísse à bola, poderia arrastar consigo a cobertura defensiva de Mena, o defensor da esquerda, abrindo dessa forma uma nova solução: o último passe para o terceiro atacante, mais à esquerda, Páez.

O Programa de Treino que desenvolvemos procura chegar a este nível de detalhe, garantindo propensão a diversas situações de relação numérica de contra-ataque para que surjam diversos contextos e possibilidades, e a eventual correção das decisões nos mesmos. A repetição é fundamental não só para compreender as melhores opções em diversos cenários, mas também para a apropriação dessas conclusões pelo sub-consciente do jogador, para o entrosamento entre os mesmos e em última instância para o crescimento do modelo de jogo da equipa. Desse modo, a tal velocidade e desgaste que o jogo proporciona torna-se menos condicionante e relevante na eficácia final da acção. Propiciar o crescimento da eficiência no jogo é o caminho para se atingir este derradeiro objectivo.

A “passivo-agressividade”… táctica… de Bruno Fernandes

“(…) é importante que as equipas dos nossos dias dominem a acção de atrair como forma de poderem corresponder aos cada vez mais exigentes problemas que se deparam em jogo. Esta necessidade assume especial destaque quando as equipas adversárias têm um posicionamento defensivo irrepreensível, tornado escassas as opções de penetração em direcção à baliza que defendem, ou quando até evidenciam falhas de posicionamento, mas aglomeram praticamente todos os jogadores atrás da linha da bola, dificultando em alguns momentos a entrada na direcção da baliza que defendem. Em ambas as situações descritas anteriormente, torna-se evidente que a equipa com bola terá que conscientemente atrair os jogadores adversários para uma determinada zona do terreno de jogo com o objectivo de posteriormente tirar vantagem de outro local.”

(Paulo Correia, et al., 2014)

A situação decorreu no passado jogo de preparação Portugal x República da Irlanda. Em momento de Organização Ofensiva e sub-momento de Construção, Bruno Fernandes, fazendo jus à sua inteligência e qualidade de execução, perante um denso bloco médio baixo adversário imaginou e executou uma acção ofensiva que permitiu à equipa imediatamente saltar da Construção para a Criação.

É verdade que Cristiano Ronaldo, voluntária ou involuntariamente deu um contributo importante na interacção que estabeleceu com o adversário directo, contudo o irlandês em questão não foi o único iludido na situação. Dada a pouca profundidade que existia entre a última linha adversária e o seu Guarda-Redes, o passe directo em profundidade seria mais facilmente antecipado e interceptado caso tivesse sido realizado directamente e mostrando essa intenção. Assim, Bruno Fernandes com a ajuda de António Silva troca três passes de forma provocatória, concentrando aí a atenção da equipa irlandesa. A postura e linguagem corporal do jogador do Manchester United é passiva, escondendo até ao último momento a intenção ofensivamente agressiva de atacar a profundidade em passe longo. Mesmo a leitura que faz da potencial ruptura de Dalot é sempre subtil de forma a não evidenciar a intenção que criou na sua mente.

Será também importante referir que o entrosamento manifestado com Dalot pode provir da relação do Manchester United, no entanto, não será necessário treinar e jogar muitas vezes com Bruno Fernandes para, reconhecendo-lhe as qualidades que evidencia, antecipar intenções como esta. Sejam eles companheiros, sejam adversários. Porém… quem defende poderá estar sempre um passo atrasado se estiver em reação como foi o caso da selecção Irlandesa. E também não ajudou a forma como os Irlandeses mais próximos do corredor por onde Dalot se desmarcou colocaram os apoios e não se orientaram para o potencial espaço a explorar. Mas estes erros também terão tido mérito dos portugueses, em especial de Bruno Fernandes, porque num cenário aparentemente controlado a sua acção de provocação em passe atraiu a atenção do adversário, potenciando assim a desconcentração para outros espaços e comportamentos.

“Muito difícil foi dizer aos meus jogadores que em alguns momentos tinham era de estar quietos num determinado sítio. Espera, porque nós atraímos aqui para libertar aí. Estando aí, tu vais ser decisivo e a bola quando vier a ti não podes ficar com ela, é para tocar, porque atraíste para outros poderem entrar, para outras coisas poderem acontecer.”

(Miguel Cardoso, 2018)

Esconder a acção táctica. David Simão explica a qualidade.

Há algumas semanas atrás publicámos o sub-tema na área Ideia de Jogo proposta que se propõe como uma qualidade da Acção táctica: o Esconder a acção táctica. No passado dia 27 de Maio, David Simão e Pedro Bouças analisaram uma acção de passe do jogador português que incluiu esta qualidade.

“Identidade não é jogar sempre com os nossos argumentos expostos.”

(Silveira Ramos, 2017)

“a pausa, esta pausa é a marca dos melhores”

“A pausa refere-se sobretudo à capacidade para temporizar, para tomar decisões correctas no timing certo. Por não se desfazerem da bola porque sim, mas somente no momento e para o espaço ideal. Enfim, a pausa, esta pausa é a marca dos melhores. Dos que jogam o que o jogo dá, não o tendo decorado. As suas acções não surgem porque sim, mas porque aproximam sempre a sua equipa do sucesso. Têm ideias.”

(Pedro Bouças, 2015)

Vitinha… o mestre do “Privilégio pelo passe vertical”

A 21 de Março publicámos o sub-princípio ofensivo Privilégio pelo passe vertical. 

O português Vitinha apresenta uma qualidade tremenda nesta acção táctica. Seja em Transição Ofensiva, seja em Organização Ofensiva. Num momento da evolução do jogo em que, tendo em conta o exemplo do Barcelona de Guardiola, se temia a exacerbação da posse e circulação de bola através de “más cópias” e de excessiva lateralizarão do jogo, continuam a emergir jogadores que procuram privilegiar, em primeiro lugar, o jogo vertical. Mas não qualquer jogo vertical com probabilidade elevada de perda da bola. Um jogo criterioso, em que se esse solução está fechada, então si, opta-se por outra em vez da perda da bola.

Como tal, nos jogos da fase de eliminatórias da edição desta época da Liga dos Campeões (jogos à partida de elevado nível de dificuldade), realizámos uma compilação de todas as acções de passe vertical ou de tentativa de passe vertical do português que acabaram por resultar em pelo menos passe diagonal. Estas, na maior parte dos casos, resultaram em passes para o corredor lateral. Mas a intenção prioritária estava lá: procurar a progressão pelo corredor central. No mínimo atraiu adversários a fechar o espaço central, libertando os corredores laterais, o que também é muito importante para a progressão da equipa.

Porque não juntámos ao video as imensas intenções de passe vertical, fica o desafio ao leitor: analisar no futuro o comportamento do português sempre que recebe a bola e está enquadrado com a baliza adversária, e a procura prioritária por linhas de passe verticais. Não será exagerado dizer que Vitinha, de frente ou lateralmente para a baliza adversária, procura o passe vertical em mais de 80% das situações. A maioria das restantes são situações de enorme pressão em que decide, bem, tirar a bola da pressão lateralmente ou para trás.

Este privilégio sucede porque há um momento, ou após recuperação da bola, ou então numa fase inicial da construção, em que a equipa que defende ainda não percebeu se a intenção de quem ataca vai para a progressão pelo corredor central ou lateral. Nesse momento pode apresentar mais espaços intra-linhas por estar a procurar controlar toda a largura do campo, e sendo assim estes podem ser aproveitados para a realização de um passe vertical, de foram a que a equipa que ataca consiga chegar rapidamente ao sub-momento de criação.

“O Jürgen falou sobre as “novas” ideias, como jogar o primeiro passe para a frente.”

(Pep Lijnders, 2022)

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