O autor
Ricardo Ferreira
Consultor, Coordenador Técnico, Treinador, Scout, Investigador e Escritor
“Quem só teoriza, não sabe. Quem só pratica, repete. O saber nasce da conjugação da teoria e da prática.”
Manuel Sérgio

Consultor, Coordenador Técnico, Treinador, Scout, Investigador e Escritor
“Quem só teoriza, não sabe. Quem só pratica, repete. O saber nasce da conjugação da teoria e da prática.”
Manuel Sérgio
Apaixonado pelo jogo desde a infância, foi o professor Francisco Silveira Ramos na especialização em Futebol durante o seu percurso universitário que lhe transmitiu o mesmo sentimento pelo treino. Como praticante marcaram-no as experiências no futebol de rua. No jogo formal, as passagens pelo Torreense no Futebol, e no Futsal pelo Ereira e Benfica e Paulenses.
Teve experiências como treinador e coordenador na Academia de Futsal de Torres Vedras e Paulenses (Futsal), em simultâneo, durante três anos. Já no Futebol, no Torreense totalizou sete anos de trabalho, depois uma época no CDA, duas no Sacavenense e outras duas na Academia Sporting de Torres Vedras.
Paralelamente, durante seis anos, foi coordenador regional de recrutamento no Futebol de Formação e Profissional do Sporting Clube de Portugal. Nesta função, apresentou uma proposta para o registo e avaliação qualitativa de talento e da qualidade do futebolista.
Posteriormente, trabalhou durante dois anos como Coordenador Técnico no Sport Lisboa e Benfica, como responsável dos escalões de Sub-10, Sub-11 e Sub-12 na Estrutura Central de Lisboa e nos Centros de Formação de Braga, Vila Real, Aveiro, Viseu e Faro. Neste contexto, para além das funções inerentes ao cargo, destacam-se a co-autoria dos novos Modelos de Jogo do clube para os jogos de 5×5, 7×7, 9×9 e 11×11, e a co-responsabilidade pela criação e desenvolvimento de novas actividades complementares com o objectivo de enriquecer a formação dos jovens jogadores, como o Futebol de Rua em Jaula e o Futsal. Acompanhou as gerações de 2008, 2009, 2010, e 2011.
Mais recentemente regressou ao Sport Clube União Torreense, liderando a equipa de Sub-19 e desempenhando funções técnicas na equipa principal, incluindo um período transitório como treinador principal interino. Com estas equipas, sagrou-se Campeão Nacional na primeira edição da Liga 3 Portuguesa, conseguindo duas promoções no mesmo ano, para a Liga 2 com a equipa principal e para a Primeira Divisão Nacional com os Sub-19, totalizando sete promoções ao longo da sua carreira como treinador.
Com base nas suas experiências e ideias, desenvolveu uma sistematização do jogo de Futebol orientada para o treino, análise e organização de conteúdos. Criou também um Programa de Treino aplicável e adaptável a todos os escalões de Futebol de 11. Mais recentemente desenvolveu ainda um Programa de Formação para uma Coordenação Técnica de uma Academia de Futebol, ou para treinadores de Futebol de Formação, integrando não só o desenvolvimento do Futebol nas suas dimensões individual e colectiva, como também actividades complementares visando qualidades de suporte ao jogador.
Actualmente é Coordenador Técnico no Al-Ula Club, ambicioso projecto desportivo da Arábia Saudita que visa tornar-se uma referência não só no país, como também no Médio Oriente, potenciando talento para a equipa principal do clube e como derradeiro objectivo para a Selecção Nacional Saudita com vista à participação no Mundial de 2034, a ser realizado no próprio país.
Paralelamente, dá consultoria, realiza investigação nas áreas da Liderança, Metodologia e Conhecimento do Jogo, e produz conteúdos sobre coordenação técnica e treino em todos os escalões e níveis do Futebol. É co-autor do livro O Efeito Lage, centrado nos porquês do sucesso de Bruno Lage na sua época de estreia como treinador principal do Sport Lisboa e Benfica. Fundou o projecto www.sabersobreosabertreinar.pt e foi autor no antigo blogue Lateral Esquerdo.
“Quem só teoriza, não sabe. Quem só pratica, repete. O saber nasce da conjugação da teoria e da prática.”
Manuel Sérgio
Saber Sobre o Saber Treinar é um projecto dirigido a todos os apaixonados pelo jogo de Futebol, com especial foco para aqueles que nele intervêm activamente. Muitos dos temas aqui desenvolvidos procuram também ter aplicabilidade noutras áreas e desportos, sobretudo os colectivos.
A ideia central é recolher, organizar e difundir informação de qualidade sobre todas as dimensões da actividade do treinador de Futebol, independentemente do nível em que estão a actuar. Naturalmente, o que se entende por “informação de qualidade” será sempre discutível, dada a diversidade de abordagens na intervenção do treinador no treino e no jogo, nomeadamente ao nível da Liderança, da Metodologia e do Conhecimento do Jogo. Ainda assim, é precisamente essa pluralidade que torna mais necessária a procura de critérios, referências, relações e quadros de leitura que ajudem a pensar e a actuar melhor. Como defende (Ignacio Benedetti, 2016), curiosamente alinhado com os desenvolvimentos mais recentes no domínio das ciências da consciência, “tal como o tempo passa, sem que percebamos, o conhecimento é o único que prolonga a existência da alma e dá alegria e sentido à nossa passagem por este mundo”.
Porém, para Gil Sousa em (The Tactical Room, 2018), “o saber costuma ser o mais difícil de alcançar, não só porque não depende apenas de nós, mas porque muitas vezes também depende da forma como nos é transmitida a informação”. Acompanhamos esta visão interactiva e complexa do conhecimento no Futebol. Como tal, perspectivamo-lo enquanto um corpo de conhecimento em permanente construção, onde a experiência prática, a interação, a observação e a reflexão teórica se entrelaçam. Tal como o jogo, o pensamento sobre o mesmo é dinâmico, contextual e relacional. Nenhuma ideia é definitiva, nenhum modelo é eterno — são respostas provisórias a realidades complexas, mutáveis e imprevisíveis.
Por isso, pensar o treino e o jogo exige disponibilidade para rever, afinar e, por vezes, abandonar o que antes nos parecia claro. Tal como um plano de jogo se ajusta em função do adversário e do momento, também o conhecimento se adapta, sem perder o seu eixo, mas sempre aberto à dúvida, ao questionamento e à possibilidade de se refazer.
Neste ponto, importa acrescentar uma perspectiva que amplia este entendimento do conhecimento enquanto processo vivo. Como sustenta (Federico Faggin, 2024), a realidade não pode ser reduzida apenas à dimensão física ou informacional; ela integra necessariamente a consciência como elemento fundamental e irreducível. O conhecimento não é, portanto, apenas acumulação de dados ou representação simbólica, mas um processo de “knowing” vivido, onde significado, experiência e interpretação são inseparáveis. Esta visão reforça a ideia de que pensar o jogo — tal como viver — exige mais do que análise externa: exige envolvimento consciente com aquilo que se experiencia, numa relação contínua entre quem conhece e aquilo que é conhecido.
“Torna-se claro, portanto, que a evolução do futebol depende, cada vez mais, da necessidade de criar e sistematizar um corpo de conhecimento que sustente a evolução das práticas. Nesse sentido, revela-se pertinente estudar o futebol, nas suas várias dimensões, para compreender os constrangimentos que favorecem ou dificultam a evolução dos jogadores, das equipas e do próprio jogo. Ao mesmo tempo, é necessário difundir o conhecimento, para que dele se possa beneficiar.”
(Israel Teoldo et al., 2022)
É exactamente neste horizonte que este projecto se inscreve: não apenas no desejo de acumular informação, mas na vontade de a ordenar, relacionar, discutir, experienciar e tornar útil. Porque não basta ter memória de factos. É preciso ter memória de conceitos. Isto é, não apenas lembrar o que aconteceu, mas compreender o que isso significa, organizá-lo num quadro conceptual, transformá-lo em saber.
Mas, na perspectiva de Faggin, é fundamental ir mais longe: não importa apenas saber, é preciso conhecer. O cientista italiano argumenta que a informação não contém significado em si mesma — o significado surge apenas quando uma consciência a experiencia e a interpreta. Ou seja, saber (no sentido de acumular factos ou representações) é insuficiente; é necessário conhecer, isto é, viver e compreender o significado desses factos através da consciência.
Isto vale para o jogo, para o treino, para a história, para a leitura de artigos, para a observação de equipas e até para a leitura de jornais. O conhecimento, para ser verdadeiramente fecundo, não pode limitar-se a arquivar; tem de iluminar, ligar, dar forma, tornar-se consciente, abrir caminho. Tem de se tornar critério para ver melhor, para interpretar melhor e, sobretudo, para intervir melhor.
Neste sentido, a articulação entre informação e conhecimento ganha uma profundidade adicional quando observada à luz das teorias contemporâneas da consciência. Faggin distingue claramente entre informação simbólica e significado vivido, e sublinhamos que a informação só adquire sentido quando existe uma entidade consciente capaz de a experienciar e interpretar. Assim, o verdadeiro saber não reside nos dados em si, mas na capacidade de lhes atribuir significado. Deste modo, este pensamento aproxima-se daquilo que aqui defendemos: não basta ver o jogo, é preciso compreendê-lo — e essa compreensão nasce de uma integração entre percepção, experiência e consciência que transcende o mero processamento de informação.
Estas ideias encontram ainda eco numa visão mais ampla da realidade enquanto sistema complexo e interligado. Desde a teoria geral dos sistemas de Ludwig von Bertalanffy até às abordagens contemporâneas da mecânica e física quântica, e da consciência, torna-se evidente que o conhecimento não pode ser fragmentado sem perda de sentido. A compreensão emerge das relações, das interacções e da totalidade — não da soma isolada das partes.
Neste quadro, o treino e o jogo de Futebol devem ser entendidos como sistemas dinâmicos, onde cada acção ganha significado apenas em relação ao todo. Tal como na realidade mais vasta, também aqui o saber exige uma leitura sistémica, relacional e integrada.
Por outro lado, Ítalo Calvino, citado por (Paulo Cunha e Silva, 1995), lembra que “alguém poderia objectar que quanto mais a obra tende para a multiplicidade dos possíveis mais se distancia desse unicum que é o self de quem escreve, da sinceridade interior, da descoberta da sua própria verdade. Ao contrário, pergunto quem somos nós, quem é cada um de nós, senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objectos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis”.
A história do Futebol mostra-nos que o sucesso pode ser alcançado por múltiplos caminhos. Contudo, sendo certo que no Universo não existem dois fenómenos exactamente iguais, nem que seja ao nível quântico, acreditamos que determinadas abordagens à intervenção sobre uma equipa ou um jogador se revelam mais eficientes e eficazes do que outras — não apenas pela sua forma aparente, mas pela qualidade do significado que encerram e pela forma como permitem compreender e intervir sobre a realidade do jogo.
Isto é, não basta conhecer os factos ou reproduzir modelos; importa apreender o sentido das relações que emergem no jogar e na construção do mesmo. São essas abordagens que, por se aproximarem com maior fidelidade da complexidade, especificidade e exigências concretas desta actividade, potenciam uma compreensão mais profunda e uma intervenção mais ajustada.
Ferran Soriano (2009) explica que “gestores de muitas empresas e sectores diversos defendem que a sua indústria é diferente de todas as outras: ‘veja, não se engane, o mundo do salão de beleza / da farmácia / da edição de livros… é diferente’. Esta é uma atitude muito humana. Existe uma expressão conhecida que diz que cada terra faz a sua guerra, embora, ao viajar pelo mundo, se perceba que, apesar das muitas características que diferenciam as várias terras, no fundo, todas as guerras acabam por se assemelhar. A verdade é que, em todas as actividades humanas, há uma lógica que as move e controla, uma lógica que opera de forma mais ou menos oculta, mais ou menos visível. Portanto, quem quiser ter sucesso numa determinada actividade deverá identificar e compreender a lógica que está por detrás dela, reinterpretá-la e ajustá-la às novas realidades e desafios. Identificar e compreender a lógica subjacente a uma actividade à qual se pretende aceder é o requisito mínimo e indispensável”.
“O melhor treinador é o maior dos ladrões.”
Fabio Capello
Assim, o grande objectivo deste projecto é criar um corpo de conhecimento organizado, procurando identificar as melhores ideias e aquilo que de mais relevante se fez e faz no treino e no jogo de Futebol. Nesse sentido, procuraremos compreender e explicar o trabalho desenvolvido por aqueles que consideramos serem os melhores treinadores da história do jogo. O autor (Gérman Castaños, 2018) sustenta esta ideia, explicando, por exemplo, que “para que um treinador seja criativo e possa transmitir essa criatividade aos seus jogadores, necessita ter tanto uma formação multidimensional como a capacidade para assimilar e conectar distintas informações, conhecimentos e experiências. Não é nenhuma vergonha tomar elementos de distintos treinadores e uni-los segundo o gosto pessoal e as necessidades da equipa”.
Copiar aquilo que se ama, como defende Yohji Yamamoto, é um passo essencial no processo de aprendizagem e descoberta pessoal. No treino e no jogo de Futebol, esse acto não é mera imitação, mas uma forma de mergulhar nas ideias dos melhores, absorver os seus princípios e, com o tempo, revelar uma identidade própria enquanto treinador.
Mas importa perceber, tal como (Austin Kleon, 2012) refere, “estamos a falar de prática, não de plágio — o plágio é tentar apresentar o trabalho de outra pessoa como se fosse teu. Copiar trata-se de engenharia reversa. É como um mecânico desmontar um carro para perceber como funciona”.
Kleon desenvolve, explicando que “primeiro, tens de descobrir quem deves copiar. Segundo, tens de perceber o que deves copiar. Saber quem copiar é fácil: copias os teus heróis — as pessoas que admiras, que te inspiram e que gostarias de ser. O compositor Nick Lowe diz: ‘Começas por reescrever o catálogo do teu herói.’ E não roubas apenas de um herói, roubas de todos. O escritor Wilson Mizner disse que, se copiares de um único autor, é plágio, mas se copiares de muitos, é pesquisa. Já ouvi o cartunista Gary Panter dizer: ‘Se tens uma pessoa que te influencia, todos dirão que és o próximo fulano. Mas, se roubas de cem pessoas, todos dirão que és tão original!’ Saber o que copiar é um pouco mais complicado. Não copies apenas o estilo; rouba o pensamento por trás do estilo. Não queres parecer-te com os teus heróis; queres ver como os teus heróis vêem. A razão para copiares os teus heróis e o estilo deles é que, de alguma forma, podes ter um vislumbre das suas mentes. É isso que realmente queres — interiorizar a forma como eles olham para o mundo. Se imitares apenas a superfície do trabalho de alguém sem compreender de onde vem, o teu trabalho nunca será mais do que uma cópia vulgar”.
“Poetas imaturos imitam; poetas maduros roubam; poetas maus desfiguram o que tomam, e poetas bons transformam-no em algo melhor, ou pelo menos algo diferente. O bom poeta funde o seu roubo numa totalidade de sentimento que é única, totalmente diferente daquela de onde foi arrancado.”
T. S. Eliot, citado por (Austin Kleon, 2012)
Novamente (Austin Kleon, 2012) acrescenta que “o artista é um coleccionador. Não um acumulador, entenda, há uma diferença: acumuladores coleccionam indiscriminadamente, artistas coleccionam selectivamente. Eles só coleccionam coisas que realmente amam. Existe uma teoria económica que diz que se tirares os rendimentos dos teus cinco amigos mais próximos e calculares a média, o resultado será bastante próximo do teu próprio rendimento. Acredito que o mesmo se aplica aos nossos rendimentos de ideias. Serás tão bom quanto as coisas com as quais te rodeias. A minha mãe costumava dizer-me: ‘Lixo entra, lixo sai.’ Costumava deixar-me louco. Mas agora sei o que ela queria dizer. O teu trabalho é coleccionar boas ideias. Quanto mais boas ideias coleccionares, mais podes escolher para te influenciares”. Este princípio aplica-se de forma clara ao treinador de Futebol, cuja qualidade do pensamento e das decisões depende, em grande parte, da qualidade das referências que colecciona, selecciona e integra no seu quotidiano.
Um treinador que se rodeia de boas ideias — sejam elas livros, jogos observados, conversas com outros treinadores ou experiências práticas — constrói um acervo que sustenta o seu conhecimento táctico, metodológico e relacional. Tal como o artista, o treinador não acumula informação por acumular: escolhe, filtra, adapta e recria. Quanto melhores forem as ideias que colecciona, potencialmente, maior será a qualidade do seu pensamento e, consequentemente, do seu trabalho.
Nesta mesma linha, (Paulo Cunha e Silva, 1995) sublinha que “um trabalho como este deverá ser sempre o trabalho de quem o produz, e por isso será inevitavelmente subjectivo. Mesmo quando cito — e cito abundantemente —, cito-me, na medida em que me revejo na obra do outro. Deve ter consciência da vertigem do tempo em que cresce e deixar-se atravessar por essa aragem. Não sendo definitivo, é precário e contingente; mas, se for reciclável, ficará algo dele nos objectos reciclados. O autor — todo o autor — deve ter posições e ser avaliado (atrevamo-nos a dizê-lo) pela sua capacidade de formulação, invenção e transformação. Há uma pirataria conceptual — ou transacção — aceitável: a que decorre da importação de conceitos de outros territórios. Além do tráfego, devemos promover o tráfico, aceitando a aprendizagem que nasce do confronto com outras culturas. Seria negativo se, impedidos de experimentar as virtudes do confronto, ficássemos presos a um discurso monológico, ao reino fechado da monografia, e não nos aventurássemos pelo terreno instável, mas fascinante, da intergrafia”.
E, no mesmo horizonte, Guattari (1992), citado ainda por (Paulo Cunha e Silva, 1995), alerta: “uma rejeição sistemática da subjectividade, em nome de uma mítica objectividade científica, continua a reinar na Universidade. Na belle époque do estruturalismo, o sujeito foi metodicamente expulso das suas matérias de expressão múltipla e heterogénea. Chegou o tempo de examinar os novos materiais da subjectividade”.
Assim sendo, o próprio Pep Guardiola, citado por (Gérman Castaños, 2018), confessa que “agarrou de tudo. De Barcelona fui a Itália e agarrei coisas; e logo fui ao México e agarrei coisas: como saía com três La Volpe e como jogou com a Argentina no Mundial dominando o jogo, ainda que depois tenham perdido com um golo de Maxi. E dali fui para o Qatar, e bom, aí… melhorei o swing. Logo meti tudo numa trituradora, fiz o mix e as coisas ficaram na minha cabeça. E essas pertencem-me. Em Barcelona roubei, roubei e roubei; fui ao México e roubei, e se quiserem roubar de mim, roubem-me, porque ao final joga-se para os adeptos. O jogo é dos jogadores, os adeptos vão vê-los, não a nós. E roubei e roubei”.
Procurando no passado alicerces para este pensamento, Castaños recorda que “os gregos não inventaram tanto como pensamos. É famosa a frase de Platão: ‘O que os gregos tomam emprestado dos estrangeiros aperfeiçoam’. Pedir emprestado é uma expressão generosa. Eles roubavam, mas depois aperfeiçoavam. Sempre foi assim. É o que se vê em Silicon Valley hoje em dia”. O próprio Pablo Picasso, citado por (Austin Kleon, 2012), sustentou que a própria “arte é roubo”. Também o músico David Bowie, citado por (Austin Kleon, 2012), declarou que “a única arte que alguma vez estudarei é aquela de onde posso roubar”.
Sendo os treinadores que se notabilizaram pelos seus trabalhos referências claras para nós, por outro lado, neste projecto daremos também voz a quem, mesmo sem grande notoriedade ou percurso no treino de Futebol, apresenta ideias e reflexões com potencial para elevar o jogo a um novo patamar de desenvolvimento. Porque o conhecimento não se esgota no prestígio, nem a verdade se mede apenas pela fama — nem sequer pelo sucesso competitivo. Há, por vezes, intuições discretas, pensamentos marginais e olhares ainda sem palco que contêm uma força renovadora capaz de fazer avançar o jogo.
No essencial, este trabalho poderá ser caracterizado como uma vasta revisão bibliográfica, que visa reunir, de forma estruturada, organizada e acessível, uma crescente «quantidade de qualidade» de informação — destinada a todos os que ambicionam alcançar um nível superior de conhecimento no treino e no jogo de Futebol. Mas ambiciona também ser mais do que isso: um espaço de ligação entre ideias, um ponto de encontro entre reflexão e intervenção, entre leitura e prática, entre herança e criação.
Assim, Austin Kleon (2012) acredita que “quando olhas para o mundo desta forma, deixas de te preocupar com o que é ‘bom’ e o que é ‘mau’ — há apenas coisas que valem a pena roubar e coisas que não valem a pena roubar”.
“É bom ter livros de citações. Gravadas na memória, elas inspiram-nos bons pensamentos.”
Winston Churchill
Segundo o autor e jornalista Miguel Esteves Cardoso, citado por (Bruno Nogueira, 2023), “falar é muito bonito, mas fica sempre muito por dizer. Por isso é que se inventou o escrever. Pensa-se quando se pensar, faz-se um apontamento e depois escreve-se quando se vai escrever. A presença de outra pessoa – nem que seja um microfone – condiciona muito o que se diz, e o que se diz condiciona o que se pensa, porque o nervosismo e a pressa de dizer ocupam bastante a cabeça, e não deixam espaço para pensar: pensar verdadeiramente”.
Ora, mais do que recolher conhecimento, este trabalho exige pensá-lo, organizá-lo e, por vezes, repensá-lo. Pode até abrir caminho à criatividade e ao nascimento de novas ideias. Até porque, citando Steve Jobs, “criatividade é, simplesmente, ligar coisas”.
Mas pensar implica também dizer, escrever e interpretar, mesmo quando isso nos expõe. Paulo Cunha e Silva (1995) observa que “opta-se, muitas vezes, por não dizer. O trabalho transforma-se num não-trabalho, em que não se observa (porque ver o que os outros não viram é pecado, ou no mínimo falta de pudor), em que não se têm resultados (porque um resultado inesperado perturba a esperança), em que não se têm ideias (porque tê-las pode ser a heresia das heresias — a liturgia do pensar reservada aos decanos do conhecimento) e, sobretudo, em que não se interpreta (porque interpretar é entrar no território do conflito e mostrar as nossas armas ao inimigo)”.
Cunha e Silva acrescenta, ainda, que “um trabalho como este, tem sobre o autor, dada a natureza da escrita, um enorme poder de sucção. À medida que vamos dizendo, escrevendo, vamo-nos comprometendo com aquilo que dizemos, e, quando damos conta, já só estamos a justificar a rede de compromissos que fomos estabelecendo. Temos, então, que fazer um esforço sobre-humano para nos libertarmos do pântano de areias movediças em que caímos e onde a nossa (eventual) originalidade está em risco de ser deglutida. Mas quando, depois de um esforço titânico, nos conseguimos libertar daquela teia de argumentos e contra-argumentos em que a nossa imaginação cristaliza, e julgamos ter encontrado terra firme para cantar a (suposta) frescura dos nossos enunciados, eis que, novamente, a escrita nos armadilha o território, e nós tombamos na sua rede paroxística”.
Gérman Castaños (2018) conclui então que “o treinador é quem decide onde e quando deseja utilizá-las (se é que deseja utilizá-las ou arquivá-las). O que não é possível é não pensá-las. Seria quase como dizia Unamuno: ‘Que pensem eles’ (os rivais). O produto da criatividade não será sempre de aplicação imediata. Pode ser rotineiro e persistente nas suas ideias tácticas, mas criativo nas suas formas de comunicar. Ou vice-versa. Ou ambas as coisas. Sempre é melhor a sua disponibilidade e uso para todos os âmbitos, desejos e necessidades, mas ninguém tira a cada treinador o poder de utilizar o produto da criatividade quando, para e onde queira”.
Para tornar compreensível a base do conhecimento que estamos a reunir e desenvolver, este trabalho — em constante construção — percorre e cruza as ideias de inúmeros treinadores e autores. Entre eles, destacam-se nomes como Edgar Morin, Fritjof Capra, Federico Faggin, Johan Cruyff, Arrigo Sacchi, Rinus Michels, Horst Wein, Javier Mallo, Jürgen Klopp, Carlo Ancelotti, Pep Guardiola, Vítor Frade, José Mourinho, Manuel Sérgio, Monge da Silva, Carlos Queiroz, entre tantos e tantos outros.
De forma geral, defendemos uma visão do Futebol como um todo complexo — mais próximo de uma ciência comportamental do que de uma ciência biológica; centrado nas qualidades em vez das quantidades, na complexidade em detrimento do reducionismo, nas interacções e não na redutora soma das partes. Acima de tudo, valorizamos o caminho antes do destino: o desempenho como forma de compreender o rendimento. Interessa-nos menos uma lógica de acumulação mecânica e mais uma lógica de compreensão viva, situada, relacional e experiencial.
Tudo isto tendo como postulado a consciência e o livre-arbítrio. Não procuramos um saber morto, arrumado e fechado; procuramos um saber operativo, crítico, revisível e fecundo. Um saber que não se contente em descrever o jogo à distância, mas que se comprometa com a exigência de o compreender por dentro.
Também por isso, (Paulo Cunha e Silva, 1995) lembra que “um trabalho rigorosamente planificado e rigorosamente cumprido é um trabalho morto, e penso que se alguma característica deve ser protegida é, justamente, a sua vitalidade”.
E, procurando uma forma de olhar o conhecimento para além da ideia linear de acumulação, (Paulo Cunha e Silva, 1995) acrescenta que “o olhar fractal, assunto que exploraremos, permite reformular uma ideia de conhecimento centrada apenas na profundidade, temperando-a com uma visão horizontal, praticando a obliquidade como postura mais fecunda”.
“A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original.”
Albert Einstein
Quanto ao nome escolhido para o projecto, partimos da expressão “saber sobre o saber fazer”, que o professor Vítor Frade associou à experiência, consciência, reflexão e conhecimento na intervenção do Jogador de Futebol. Adaptámos essa ideia para Saber Sobre o Saber Treinar, procurando representar, de forma idêntica, a experiência, a consciência, a reflexão e o conhecimento aplicados à intervenção do Treinador de Futebol.
O treinador português Vítor Pereira (2017) relatou que, quando terminou a sua carreira como jogador, a adrenalina dentro de si “era tanta que não parava de escrever. Às vezes até acordava a meio da noite para escrever. Fiz um dossiê enorme com o que achava importante trabalhar. Sabem quantas vezes o usei? Zero. Mas pensei tanto naquilo que quando o acabei já estava noutro nível, sem dar por ela. Permitam-se criar, experimentar e reflectir, porque é isso que vos vai permitir manter a paixão”.
No mesmo sentido surge o escritor argentino Jorge Luis Borges, que, citado por (Vítor Frade, 2016), sustenta que “o livro é uma extensão da memória e da imaginação”. Também (Pep Lijnders, 2022) reconhece que “a escrita ajudou-me a clarificar a mente; foi um remédio para evitar que os meus pensamentos se dispersassem por todo o lado. Ajudou-me a ter uma mente mais organizada e uma melhor compreensão do que realmente se estava a passar”.
O actual seleccionador português de Futsal, (Jorge Braz, 2006), realizou uma interessante reflexão sobre o tema. O treinador português explica que “pela importância que o treinador assume no contexto desportivo e, particularmente, na organização do processo de treino, a sua perspectiva será importante na aquisição de conhecimentos por parte dos treinadores mais jovens e dos investigadores, na procura de uma compreensão cada vez mais profunda das particularidades da orientação de um projecto desportivo. Os conhecimentos adquiridos por treinadores de alto nível não são de fácil acesso a todos os que a eles se pretendem referir, e a experiência acumulada corre o risco de se perder se não for formalizada (Leblanc et al., 2004). Tal facto é frequente, por não se considerar válido o conhecimento empírico de intervenientes fundamentais no fenómeno desportivo. No entanto, ‘a ciência só existe enquanto crítica da realidade, a partir da realidade que existe, à sua transformação numa outra realidade’ (Santos, 1989: 23)”.
Por conseguinte, o Braz acrescenta que “o treinador metódico, que metodiza, gera uma metodologia do rendimento desportivo — entendida não apenas como produto, mas também como processo específico de intra e inter-métodos — através da procura de novas formas de intervir, com base na experiência acumulada ao longo de especialidades e casos únicos em diferentes etapas, macrociclos e épocas, com dados registados sistematicamente (Martin Acero e Vittori, 1997a). Este princípio orienta a nossa atenção para procurar na realidade aquilo que acreditamos ser verdade, dado o inquestionável valor do conhecimento dos principais intervenientes no desporto de alto nível. Como refere Bento (1993: 92), ‘a realidade começa a existir quando começa a ser dita, enraizando-se nas palavras que a enunciam e a fazem, portanto, ser’”.
À luz das ideias de Federico Faggin, esta noção de realidade ganha uma densidade adicional, na medida em que deixa de ser entendida apenas como algo exterior e objectivo, passando a ser também inseparável da consciência que a experiencia e interpreta. Ou seja, aquilo que o treinador observa, regista e sistematiza não é apenas “realidade em si”, mas realidade enquanto experiência vivida, dotada de significado. A metodologia, neste sentido, não se limita a organizar informação: torna-se um processo de construção de sentido, onde a consciência do treinador — informada pela sua experiência — desempenha um papel activo naquilo que é visto, valorizado e transformado.
Jorge Braz acrescenta que “existe uma necessidade crescente de fazer existir essa realidade — de a lavrar, para a analisar, reflectir sobre ela e, se necessário, a transformar. Garganta (2004) sublinha que raramente se divulgam os processos que conduzem à construção das equipas e à preparação dos jogadores. E como reforçam Leblanc et al. (2004), para progredirmos tanto na prática profissional como na prática científica, necessitamos dos ensinamentos de treinadores mais experientes. Num tempo em que a procura de padrões qualitativos se impõe, torna-se imprescindível conhecer a natureza da actividade que se pretende estudar ou transformar — actividade essa profundamente moldada pela forma como os treinadores conduzem o jogo e, por consequência, o processo de treino”.
Nesta linha, e ainda segundo Faggin, a experiência não é um mero reflexo passivo da realidade, mas um acto consciente onde emerge o verdadeiro conhecimento — aquele que integra informação e significado. Assim, a evolução metodológica do treinador não resulta apenas da acumulação de dados ou da repetição de procedimentos, mas da capacidade de transformar experiência em compreensão. É neste espaço que se afirma também o livre-arbítrio: na possibilidade de escolher, entre múltiplas alternativas, as formas de intervir que melhor se ajustam ao contexto.
O treinador não é, portanto, um executor de modelos pré-definidos, mas um agente consciente que interpreta, decide e cria, assumindo a responsabilidade de dar forma — através da sua intervenção — à realidade do jogo e do treino.
“Para dissipar os terrores, essas trevas do espírito, não são necessários os raios de sol nem os feixes luminosos do dia, mas o estudo racional da natureza.”
Lucrécio, citado por (Vítor Frade, 1985)
A compilação deste trabalho teve início em 1999, foi sendo progressivamente enriquecida e actualizada até hoje e continuará a sê-lo no futuro. É, portanto, expectável que, com o tempo, e à medida que novas ideias e formas de pensar vão surgindo, esta estrutura de conhecimento sofra adições, transformações e reorganizações.
O treinador e autor (Xavier Tamarit, 2013) recorda que “o pensamento não estagna, e um livro também não, apesar de parecer que não se pode modificar o que está escrito nele. Um livro é um princípio, mas nunca um fim, mesmo que contenha a zona abissal”. Nicolas Boileau, citado por (Martí Perarnau, 2016), aconselha: “fazer vinte vezes, recomeçar a obra, poli-la constantemente, poli-la sem descanso”.
Ainda assim, acreditamos que, face à complexidade que a realidade — e, por extensão, que o jogo de Futebol manifesta, algumas das ideias mais fundamentais aqui defendidas não só permanecerão, como tenderão a ser cada vez mais sólidas e reforçadas à medida que novo conhecimento for emergindo. É uma convicção sustentada, não uma certeza definitiva. Não porque acreditemos em verdades absolutas, mas porque acreditamos que certos princípios, quando nascem de uma leitura mais profunda da realidade, tendem a ganhar espessura à medida que a própria realidade os vai confirmando, testando e refinando. Dando um exemplo, a complexidade é uma dessas ideias.
E porque este conhecimento se constrói em movimento, (Paulo Cunha e Silva, 1995) propõe também uma imagem de trabalho que se anuncia desde o início, mas que se reescreve enquanto avança, explicando que “ao propor-se uma cartografia fractal, não se pode deixar de anunciar o fim no princípio e resgatar o princípio no fim. Entre essas duas balizas convencionais, o trabalho cresce, dilata-se, contrai-se, experimenta alternativas, explorando as potencialidades do território definido pelo nosso atractor”.
Por outro lado, reconhecemos que, pela natureza orgânica com que este trabalho se desenvolve e organiza, a prosa possa, por vezes, parecer mais fragmentada. Procuraremos, ainda assim, manter uma lógica coerente na articulação das ideias. É igualmente expectável que alguns temas surjam mais desenvolvidos e aprofundados do que outros, em função do seu amadurecimento dentro do próprio processo. Tal não representa desordem, mas antes a marca de um trabalho vivo, que cresce a partir de núcleos de interesse, urgência, descoberta e maturação.
“Eu nunca vi a ‘bíblia’ (de José Mourinho), mas deverá ser um género de dossier ou documento que será a ‘planta’ de como ele deverá avançar e evoluir. Estou certo que passados dez anos, ele mudou muito o seu documento original, porque se ele não evoluir como treinador será ultrapassado.”
Steve Clark em (José Mourinho, 2012)
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Independentemente de se encontrar mais próximo ou mais afastado das ideias aqui apresentadas, esperamos que aprecie o trabalho desenvolvido, que tem, acima de tudo, o objectivo de trazer mais reflexão, mais exigência e mais conhecimento à evolução do treino e do jogo. Se conseguir provocar perguntas melhores, leituras mais finas, observações mais lúcidas e intervenções mais conscientes, então estará a cumprir a sua função.
Porque, no fundo, este projecto nasce dessa convicção maior: a de que pensar melhor o Futebol é também uma forma de o honrar.
“O conhecimento é o nosso destino.”
(Carl Sagan, 1977)

Mónica Capucho