Conhecimento do Jogo

“No desporto, tão importante como a aprendizagem de métodos é a aprendizagem de conteúdos. Os métodos, sem conteúdos, para pouco servem. É o conteúdo que torna, ou não, apetecível o método. E, no conteúdo, não há só tecnociência, há também filosofia e pedagogia e poesia e amor. Sabem estas coisas os especialistas em Desporto?”

(Manuel Sérgio, 2016)

Há temas que, no Futebol, não podem ser tratados de forma lateral. O conhecimento do jogo é um deles. Não é um luxo intelectual. Não é um adorno teórico reservado a treinadores mais reflexivos. Não é uma conversa para congressos ou livros. É uma das bases mais decisivas da competência no Futebol, porque jogar, treinar, analisar, corrigir, ensinar, planear, liderar ou decidir só ganham profundidade quando assentam numa compreensão cada vez mais rica daquilo que o jogo é, do que pede, do que permite e do que impede. O jogo pode parecer simples a quem o olha de fora. Mas essa simplicidade é enganadora. Como escreveu (Miguel Quaresma, 2021), “o futebol é um jogo simples de ver e, aparentemente, de jogar, mas difícil de conhecer e complexo de construir e desconstruir. O desafio é conseguirmos compreendê-lo cada vez melhor!”

É precisamente nessa passagem do ver para o compreender que começa o verdadeiro problema. Porque olhar não basta. Ver também não basta. É necessário saber o que observar, o que interpretar, o que valorizar e o que relacionar. Vítor Frade, citando Edgar Allan Poe (1990), formulou isso com enorme precisão: “O CONHECIMENTO necessário é o de OBSERVAR O QUÊ”. A frase é fundamental porque desloca o problema do mero acesso à informação para a qualidade do olhar. Num tempo em que há cada vez mais imagens, dados, estatísticas, plataformas e discursos sobre Futebol, continua a ser decisivo perceber que o essencial não está em recolher tudo, mas em distinguir o relevante do acessório. O conhecimento do jogo começa aí: na capacidade de ver melhor porque se entende melhor.

É por isso que a bibliografia reunida neste projecto insiste tanto na ligação entre conhecimento e rendimento. O autor (João Costa, 2001), ao estudar inteligência e conhecimento do jogo, colocava a pergunta de forma directa: poderá um melhor conhecimento do jogo contribuir para um nível de rendimento superior? A resposta, à luz da investigação e da prática, parece ser claramente afirmativa. Diversos estudos mostram que os praticantes de melhor nível tendem a possuir maior conhecimento declarativo e melhor qualidade de decisão do que colegas menos experientes ou menos expostos a contextos competitivos ricos. O que isto sugere é simples, embora longe de ser banal: conhecer melhor o jogo ajuda a decidir melhor, e decidir melhor é uma das chaves do rendimento.

A literatura cognitiva vai exactamente no mesmo sentido. Outro autor que estuda o papel do treinador, (Doug Lemov, 2020), lembra que o conhecimento constitui a base de todas as funções cognitivas de ordem superior, incluindo o pensamento crítico, a resolução de problemas e a tomada de decisão. E acrescenta algo especialmente importante para o nosso tema: o pensamento crítico não se transfere mecanicamente de um contexto para outro; depende fortemente do conhecimento específico do domínio em causa. Sem conhecimento, não se pensa criticamente: adivinha-se. Torna-se evidente o transfer deste pensamento para o Futebol. Não se pode esperar que um jogador, um treinador ou um analista interpretem bem uma situação se não possuírem, na memória e na experiência, um património sólido de referências, princípios, padrões, relações e significados ligados ao jogo. A própria percepção, como Lemov recorda, é baseada no conhecimento. Só se começa verdadeiramente a ver quando se entende. Foi uma das ideias fortes de Cruyff. O ex-jogador e treinador holandês, citado por (Simon Kuper, 2011), sustenta:“só começas a ver quando o entendes”.

No Futebol, esta verdade ganha ainda mais força porque estamos perante um jogo táctico-estratégico, colectivo, dinâmico, incerto e profundamente relacional. Não se trata apenas de executar gestos ou reproduzir movimentos. Trata-se de captar configurações, antecipar possibilidades, reconhecer padrões, ajustar comportamentos, interpretar intenções e decidir em tempo escasso. Como referem (Garganta, 2004) e outros autores, a investigação sobre expertise nos jogos desportivos colectivos mostrou há muito que as acções dos jogadores se apoiam em estratégias cognitivas que guiam a percepção e a tomada de decisão. Isto significa que o jogador de qualidade não é apenas o que executa bem; é, antes de mais, o que lê melhor, selecciona melhor e escolhe melhor.

Não admira, por isso, que tantos treinadores insistam neste ponto. Julen Lopetegui, citado por (Adriano Fernandes, 2015), lamenta que muitos jogadores cheguem aos 17, 18 ou até 30 anos sem perceberem verdadeiramente o jogo, e afirma que “o melhor jogador será sempre o que tomar a melhor decisão”. Rui Quinta, citado por (António Ribeiro, 2009), reforça a mesma lógica ao dizer que, para o jogador jogar o jogo, tem de ter capacidade de compreensão, de resolução das tarefas do jogo e de superação perante aquilo que o próprio jogo lhe coloca. Paulo Bento, por seu lado, sublinha que quanto melhor se entende o que o último jogo deu e o próximo jogo pede, mais clara se torna a organização do treino, da equipa e do próprio jogo. Tudo isto aponta para a mesma conclusão: o conhecimento do jogo não é um suplemento; é uma dimensão estruturante da competência.

Mas importa perceber de que conhecimento estamos a falar. Não apenas de um saber verbal, escolarizado ou discursivo sobre o Futebol. Não apenas de cultura táctica num sentido livresco. Esta dimensão do projecto procura desenvolver bem essa distinção ao identificar dois níveis de conhecimento do jogo. Um, que se manifesta no plano inconsciente, nas tais intenções em acto de que falam Pierre Jacob e Gilles Lafargue, citados por (Fernando Cardoso, 2006). Outro, que opera no plano consciente, deliberado, reflectido, representando um saber sobre o saber fazer. Esta diferenciação é muito importante porque ajuda a ultrapassar um erro recorrente: pensar que conhecer o jogo é apenas ser capaz de falar sobre ele. Não. Há um conhecimento que já desceu ao corpo, ao hábito, ao sentir da situação, à resposta rápida, ao aqui e agora do jogo, na formulação de Vítor Frade. E há outro conhecimento que organiza, reforça, clarifica e expande esse saber-fazer, tornando-o mais consciente, mais transmissível e mais susceptível de ser orientado.

Na verdade, o mais importante é precisamente a interacção entre estes dois planos. Como escreve (Paulo Sousa, 2006), apoiando-se em Garganta, Frade e Guilherme Oliveira, importa desenvolver simultaneamente um saber-fazer e um conhecimento sobre o saber-fazer. O primeiro refere-se à capacidade de executar com êxito determinada acção; o segundo inclui tanto uma cultura táctica mais abrangente como uma compreensão mais específica do projecto de jogo colectivo. Quando esta articulação se dá, o jogador não só age melhor como começa também a perceber melhor o que faz, por que o faz e em que lógica o faz. Não se trata de substituir espontaneidade por cerebralismo excessivo, mas de enriquecer a acção com entendimento e o entendimento com acção.

É aqui que o papel do treinador ganha relevo particular. Porque o conhecimento do jogo não é apenas algo que o jogador adquire espontaneamente pela simples exposição à prática, embora essa exposição continue a ser decisiva. O treinador pode ser um catalisador poderoso desse processo. Pode ajudar a ver o que antes passava despercebido. Pode organizar o caos aparente. Pode hierarquizar informação. Pode acelerar aprendizagens. Pode tornar consciente o que estava apenas vagamente intuído. E pode, sobretudo, criar contextos de treino e de análise que aproximem os jogadores de uma compreensão mais rica da lógica do jogo. Não por acaso, Jorge Jesus surge tantas vezes, nos testemunhos que reunimos, como alguém que dava autênticas aulas de Futebol. Júlio César recorda ter aprendido no Benfica coisas que jamais imaginaria no final da carreira. Filipe Luís, agora treinador, no término da sua carreira de jogador no Flamengo, vai ainda mais longe ao dizer que cada dia era uma aula de futebol, que Jesus parava uma imagem durante quinze minutos para falar de um detalhe, e que acabou por ser o aluno número um. Pode discutir-se estilo, método ou excessos. Mas uma coisa emerge com clareza desses relatos: o conhecimento do jogo, quando profundo, ensina.

Esta centralidade do conhecimento ajuda também a compreender melhor a relação desta dimensão com as outras duas grandes dimensões que estão na génese da competência do treinador: metodologia e liderança. O conhecimento do jogo não existe isolado. Alimenta a metodologia, porque é dele que nascem os conteúdos, os problemas, os critérios, os princípios e as prioridades do treino. Alimenta também a liderança, porque grande parte da credibilidade do treinador assenta justamente na percepção, por parte dos jogadores, de que ele entende profundamente o jogo que quer construir. E da coerência entre o jogo que propõe e os valores humanos que defende. A relação está em tudo. É nesse sentido que a frase atribuída a um jornalista anónimo no trabalho de (Nuno Pinho, 2009) é tão feliz: entre as três dimensões vitais do treinador de excelência estão o conhecimento do jogo nas múltiplas acepções, o domínio do treino e a capacidade de liderar. Não são três universos separados. São três dimensões que se entrelaçam, interagem e se reforçam mutuamente.

Talvez por isso o nosso projecto aponte que o conhecimento do jogo, influenciado por determinados valores que o treinador deseja manifestar e por reflexos metodológicos, será a base para a concepção de uma ideia de jogo e posteriormente para a construção de um modelo de jogo. Esta ligação é absolutamente central. O conhecimento do jogo não é apenas acervo conceptual; é a matéria-prima a partir da qual o treinador constrói a sua leitura, a sua intenção, a sua selecção de princípios e, finalmente constrói o modelo. Aqui, a bibliografia que mobilizamos a partir de diversos autores, analistas e treinadores converge de forma muito expressiva: o modelo não é apenas sistema, nem diagrama, nem distribuição posicional. É articulação de princípios, compromissos, comportamentos, circunstâncias e padrões. É, em grande medida, conhecimento organizado do jogo.

As ideias de Vítor Frade são, a este respeito, particularmente ricas. Quando afirma que “o Modelo é tudo”, que é “a Ideia de Jogo mais as circunstâncias”, ou que “o Modelo de Jogo começa como ideia, intenção prévia, transcendência e depois passa para o plano simbólico”, está a mostrar que o conhecimento do jogo não pode ser reduzido a taxonomias pobres ou a modelos estáticos. O conhecimento do jogo, quando verdadeiro, é sempre sistémico, relacional, aberto à complexidade e atento ao que ainda não foi totalmente detectado. Por isso, o próprio modelo não é território, como lembra Júlio Garganta; é mapa, negociação, construção, reconstrução. E por isso Pedro Bouças acerta ao falar da necessidade de sistematizar o jogo para minimizar o caos, perceber o que se está a passar e poder dar respostas.

Neste ponto, o pensamento complexo volta a tornar-se indispensável. Porque o conhecimento do jogo, se for realmente profundo, tem de ser capaz de pensar o Futebol não como soma de elementos separados, mas como tecido de interacções. Não como sequência de acções isoladas, mas como emergência de relações. Não como mecanização, mas como organização dinâmica da incerteza. É isso que Óscar Cano sublinha quando fala de um futebol mais natural, mais próximo da vida, onde a incerteza é determinante e onde o talento e a complementaridade marcam a diferença. É isso Mara Vieira, recorrendo a Vítor Frade reforça quando insiste que com bola e sem bola, perto ou longe dela, importa pensar o jogo como unidade.

Também por isso o conhecimento do jogo não é apenas um saber do treinador. Ultrapassa-o. É decisivo para o analista, para a observação, para a emissão de feedback, para a interpretação do adversário e da própria equipa. É também para um scout quando avalia o conhecimento de jogo de um jogador e mais importante, o que dele é mais profundo e demorará mais tempo a alcançar, como por exemplo a relação com bola nas acções individuais, e o que dele se torna mais rápido acrescentar através de uma boa equipa técnica.. No fundo, quem trabalha no Futebol e quer realmente acrescentar valor não pode fugir a este problema: precisa de algum nível de especialização no jogo, precisa de saber o que observa e por que observa, e precisa de transformar dados em informação útil. Caso contrário, como alertava (Pedro Silva, 2006), apoiando-se em Garganta e outros, corre o risco de se tornar cada vez mais especialista em informática e cada vez menos especialista do jogo.

No fundo, o conhecimento do jogo deve ser entendido como uma das bases mais profundas da competência no Futebol porque é ele que dá densidade à leitura, qualidade à decisão, sentido ao treino, coerência à metodologia, fundamento ao modelo e credibilidade e coerência à liderança. Não se trata de acumular factos ou opiniões dispersas. Trata-se de construir uma compreensão cada vez mais fina da lógica do jogo, das suas regularidades, das suas tensões, dos seus problemas, dos seus momentos, das suas relações e das suas possibilidades. Trata-se de pensar melhor para ver melhor. E de ver melhor para agir melhor.

Talvez seja por isso que Mickey Mantle, no filme Moneyball, surge citado com uma frase que, transportada para este contexto, mantém enorme força: “it’s unbelievable how much you don’t know about the game you’ve been playing all your life”. Há, nesta formulação, uma humildade epistemológica de que o Futebol precisa. Porque o conhecimento do jogo não é ponto de chegada. É caminho. Não é património fechado. É processo de aprofundamento. Não é certeza estática. É busca exigente. E é justamente por isso que merece, neste projecto, um lugar próprio: porque sem ele, as restantes dimensões ficam sem chão; com ele, ganham direcção, sentido e possibilidade de crescimento.

“Todo o conhecimento é bem vindo, toda a discussão é bem vinda, qualquer ideia é bem vinda, e no fim o que eles têm de aprender é a pensar o futebol por si próprios. Apenas poderás dar vida a exercícios de treino, ou a sessões de treino, quando compreenderes o jogo, tiveres as tuas ideias e vires claramente o que é fundamental para ti. (…) No fim és tu que produzes a tua própria metodologia.”

(José Mourinho, 2016)

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