Metodologia

“Ter a convicção que o resultado desportivo pode nascer do improviso é ignorar os objectivos e conhecer o insucesso.”

(José Mourinho, 2001)

Há temas que, no Futebol, não admitem tratamento superficial. A metodologia é um deles. Não pode ser reduzida a um conjunto de exercícios, nem confundida com um receituário de sessões, nem encerrada numa dimensão estritamente técnica do treino. A metodologia diz respeito, em sentido mais fundo, ao modo como se pensa, organiza, orienta e operacionaliza uma intervenção. É o modo como se passa de uma concepção a uma prática. É o modo como se transforma uma intenção numa acção coerente. É o modo como se fecha, como recorda (Leon Teodorescu, 1984) em (Carlos Carvalhal, 2003), um círculo que parte da prática, teoriza, e regressa à prática para a orientar.

Talvez por isso tenha sido importante, na evolução deste projecto, alargar a designação de “Metodologia de Treino” para simplesmente “Metodologia”. A mudança não é meramente nominal. Ela traduz uma necessidade de abrir espaço para outras intervenções técnicas ligadas ao jogo, para além do treino em sentido estrito. Como sustenta (Jorge Braz, 2006), a actividade do treinador não se resume à orientação do processo de treino e de competição. Inclui também a participação activa noutros domínios de intervenção que tornam a organização mais sólida e eficiente na procura do rendimento desportivo. Quando, recorrendo a (Lozano Cid et al., 2002), o mesmo autor enumera como tarefas fundamentais do treinador a definição de uma ideologia de jogo e de treino, a procura de talentos, a orientação da competição, do treino, dos jogadores e da equipa, mostra precisamente isto: a metodologia não é apenas o modo de conduzir o treino; é a arquitectura global de uma intervenção.

Neste sentido, a metodologia surge como uma das expressões mais elevadas da inteligência prática do treinador. Segundo a definição mais elementar, metodologia é o estudo dos métodos. Mas essa formulação só ganha valor quando percebemos que o método não é um artefacto neutro, desligado de pressupostos filosóficos, de uma ideia de homem, de uma ideia de jogo, de uma ideia de aprendizagem e de uma ideia de rendimento. É por isso que a própria definição citada da Wikipédia acerta num ponto importante quando lembra que a metodologia não se refere apenas a um conjunto de métodos, mas também aos fundamentos e pressupostos filosóficos que sustentam um estudo ou uma intervenção. No Futebol, isto significa que a metodologia nunca é apenas técnica; é sempre também visão.

É por isso que a metodologia se articula de forma inevitável com as outras duas grandes dimensões deste projecto: a liderança e o conhecimento do jogo. Não há metodologia consequente sem uma forma de compreender o jogo. Não há metodologia viva sem liderança capaz de a tornar prática colectiva reconhecida. O conhecimento do jogo oferece os referenciais, as ideias, os princípios e os problemas. A liderança cria adesão, convicção e coerência humana. A metodologia, por seu lado, organiza os meios, os processos, os tempos, as prioridades e as mediações que tornam possível fazer viver essas ideias no quotidiano. Separadas, estas dimensões empobrecem-se. Em interacção, reforçam-se. É nesse sentido que a metodologia deve ser pensada a partir de uma lógica complexa: não como compartimento, mas como elo.

Também por isso, a metodologia não pode ser confundida com repetição estéril, nem com adoração do treino enquanto fim em si mesmo. A advertência de (Johan Cruyff, em conversa com Ángel Cappa, 2008) continua actual quando diz ter a sensação de que, para muitos treinadores, os treinos são mais importantes do que os jogos, como se o jogo servisse apenas para confirmar se se treinou bem. A crítica é justa. A metodologia não existe para se contemplar a si própria. Existe para servir o jogo. Existe para criar condições para que os jogadores pensem, proponham, decidam, reajam, executem e joguem melhor. Não por acaso, Tite, em (Israel Teoldo et al., 2022), afirma: “para que o futebol seja jogado com ideias, a modelação do treino e do jogo deve proporcionar aos jogadores condições para pensar, para propor o jogo”. A frase toca o essencial: a metodologia não é mera organização externa da actividade; é construção de condições para o emergir de um jogar.

É neste ponto que a modelação ganha centralidade. Diversos autores presentes neste projecto insistem na mesma porque se cruzam análise, antecipação e construção. O autor (Kaio Fonseca, 2018), retomando Teodorescu e Teoldo et al., lembra que a modelação do jogo e da equipa abre caminho a metodologias mais eficazes no planeamento do treino, na escolha de jogadores, no estudo de adversários e na definição da Ideia de jogo. A metodologia, neste sentido, não é apenas resposta ao que acontece; é também tentativa de antecipar, de estruturar, de reduzir o improvável sem jamais cair na ilusão de o controlar totalmente. Por isso Gil Sousa escreve, em (The Tactical Room, 2018) que “não há caminhos fáceis. (…) São tantas as variáveis desconhecidas, que não cuidar do que se sabe pode significar errar mesmo antes que os acontecimentos ocorram“. E noutra formulação acrescenta que pensar previamente, estudar métodos antes de chegar ao campo, encontrar detalhes que sustentem a naturalidade do dia a dia, é uma forma de reduzir a probabilidade de que as coisas corram mal.

A metodologia aparece, assim, como esforço permanente de organização perante a inevitável complexidade. Não para a anular, mas para a tornar mais habitável. Há aqui uma afinidade clara com a formulação de (Nuno Luz, et al., 2012): “a quantidade de variáveis contempladas na planificação reduz a margem de erro. É por isso que Mourinho erra pouco. Na medida do que é possível prever, está tudo previsto”. Naturalmente, não se trata de defender uma fantasia de controlo absoluto. Como escreve (Antonio Gagliardi, 2023), não se pode ter a presunção de entender todas as variáveis e ser capaz de as prever. Mas essa impossibilidade não anula a exigência metodológica; antes a reforça. O que não pode ser conhecido integralmente obriga a maior preparação, maior estudo, maior capacidade de síntese e maior qualidade organizativa.

É também aqui que o detalhe passa a ter valor estrutural. O excerto de (James Clear, 2018) sobre Dave Brailsford e a agregação dos ganhos marginais tornou-se célebre porque mostra como uma transformação extraordinária pode emergir de uma atenção obsessiva a pequenas melhorias em múltiplos aspectos. No fundo, a história do ciclismo britânico é uma história metodológica: não se limitou a procurar uma grande solução milagrosa; construiu uma lógica sistemática de aperfeiçoamento contínuo. A mesma ideia reaparece em (Doug Lemov, 2020), quando defende que há centenas de aspectos do ensino que podem ser optimizados e sistematizados, cada um com potencial para gerar retornos notáveis. No Futebol, esta lição é igualmente importante: a metodologia vive também dessa capacidade de detectar pormenores negligenciados que, acumulados, alteram a qualidade do processo e, a prazo, o rendimento. Ou então, um que ainda que parecendo pequeno, gera o famoso “efeito borboleta”.

Mas a metodologia não é apenas rigor e detalhe. É também singularidade. Não no sentido de excentricidade gratuita, mas no sentido de apropriação criativa. A citação de Francis Ford Coppola, trazida por (Austin Kleon, 2012), assim como as reflexões do mesmo autor sobre imitação e emulação, recordam que o crescimento metodológico não nasce do vazio. Aprende-se com os outros, observa-se, copia-se, falha-se, transforma-se, até que algo se torne verdadeiramente nosso. Nessa mesma linha, (Jorge Braz, 2006) lembra que cada treinador deve actuar de acordo com a sua individualidade, as suas características e limitações, tomando consciência de que os métodos são bons quando os seus utilizadores reconhecem o respectivo alcance e limites, e não a sua omnipotência. E (Gérman Castaños, 2018), ao citar Tito Ramallo, reforça esta ideia quando mostra que uma maneira própria de interpretar o treino pode recolher elementos da periodização táctica, do microciclo estruturado e da experiência pessoal acumulada, sem por isso deixar de se tornar singular.

É por isso que a criação metodológica deve ser entendida como acto simultaneamente teórico e prático. Não basta ter ideias; é preciso operacionalizá-las. Não basta ter ferramentas; é preciso saber por que se usam, para quê se usam, em que momento se usam e em que lógica se inserem. Como escreve (Vítor Gouveia, 2023), a metodologia pode ser vista como o conjunto de ferramentas ao alcance do treinador para potenciar o rendimento individual e colectivo nas diferentes dimensões do rendimento e para resolver os problemas com os quais se depara a cada passo do processo. Mas a própria formulação de (Vítor Frade, 1990) é talvez ainda mais precisa: “uma metodologia: conhecimento dos procedimentos que possibilitem agir sobre a especificidade do próprio objecto”. A força desta frase está em colocar a metodologia no lugar certo: não como forma abstrata e universal, mas como conhecimento procedimental ajustado à especificidade daquilo sobre o qual se intervém.

No Futebol, isso é decisivo. Porque o que interessa não é apenas o acontecimento isolado, mas o processo que o faz emergir. Um golo é um acontecimento. Um título é um acontecimento. Mas o que importa compreender e construir é o processo que lhes deu forma. É nessa passagem do episódico ao processual que a metodologia ganha a sua verdadeira espessura. Não vive do fascínio pelo instante, mas da construção das condições que o tornam mais provável. Não idolatra o resultado desligado da sua génese. Procura antes compreender como o rendimento pode ser preparado, sustentado, modelado e continuamente aperfeiçoado.

É por isso que a metodologia merece ser tratada, neste projecto, como dimensão central e não como capítulo secundário. Porque ela diz respeito ao modo como o treinador transforma a sua visão em intervenção. Como transforma o conhecimento em organização. Como transforma a intenção em processo. Como transforma a complexidade em caminho. E como faz tudo isso sem perder de vista que o método não vale por si mesmo, mas pela forma como serve o jogo, os jogadores e o crescimento do colectivo.

“Uma metodologia: conhecimento dos procedimentos que possibilitem agir sobre a especificidade do próprio objecto.”

(Vítor Frade, 1990)

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