Uma das muitas razões para não se jogar… com 11 médios

Durante algum tempo procurou-se fazer passar a ideia de que jogar com muitos Médios seria sinónimo de superioridade e eficiência e, por arrasto, aproximaria a equipa do sucesso e da eficácia. Isto parte de uma premissa incompleta — melhor, redutora. Com frontalidade: é confundir causa e efeito; tomar a estética (que deveria ser consequência da eficiência-eficácia) como ponto de partida e, a partir dessa utopia, tentar chegar às primeiras. Uma estética desligada da realidade do jogo.

Clarificando: a utopia é crer que “onze” Médios trarão automaticamente maior qualidade aos momentos ofensivos, garantirão mais critério e, no limite, a totalidade da posse de bola. Isso nunca aconteceu num jogo de futebol — e podemos arriscar que não acontecerá. 100% de posse não existe; haverá sempre momentos em que a equipa terá de defender: por vezes mais alto, por vezes mais baixo. Quando mais baixo, é provável que tenha de defender cruzamentos. E nesses momentos torna-se crucial ter jogadores competentes nessa acção. “Competentes”, aqui, é também consequência de muito volume de acções, logo muita experiência específica.

Sem ignorar a importância da estatura nesses lances — recorde-se que o 1.º golo sofrido pela Selecção contra a Hungria expôs uma desvantagem na estatura no duelo envolvendo Vitinha — a verdade é que sempre existiram Defesas-Centrais de baixa estatura e excelentes no jogo aéreo: Cannavaro, Puyol, Passarella, Baresi, Ayala, Gamarra, Córdoba e Otamendi, entre outros. O volume de exposições a esse tipo de acção, a experiência acumulada, o conhecimento do jogo próprio da função e a inteligência e antecipação tendem a tornar a estatura um critério secundário.

Já no segundo golo sofrido, a falta de experiência específica e a consequente não-antecipação da desmarcação de ataque ao cruzamento do jogador húngaro foram evidentes. Natural em Rúben Neves, cuja maior expertise é a de Médio e não de Defesa-Central — as tais 10.000 horas foram, compreensivelmente, passadas poucas vezes a defender cruzamentos.

Se é utópico garantir a totalidade da posse, também não é realista imaginar que se consegue anular sempre os momentos defensivos do adversário logo no primeiro sub-momento da Transição Defensiva, a Reacção à perda, apenas por se alinhar com “mais Médios”. Em quase todos os jogos, mesmo em equipas de grande qualidade com bola, haverá momentos defensivos e cruzamentos aéreos — nem que sejam de situações de bola parada.

Tal como na sobrevivência e evolução das espécies, uma das chaves não é a paridade, é a diversidade. A melhor equipa, para lá da linguagem comum e do entrosamento, é também a que dispõe de mais soluções para responder aos problemas do jogo. Porque o jogo é diverso — ou melhor… complexo — e, por isso, não traz sempre os mesmos problemas.

“Estética duma eficiência que,

ao almofadar a eficácia,

dá à inteligência, na perspicácia,

o fermento p’rà transcendência.”

(Vítor Frade, 2016)

Quando menos é mais

No bom espírito quantitativo, falando-se em amplitude, quanto maior… melhor. Mas não. Quando os jogadores se afastam em demasia, a equipa fica como um universo em expansão: perde densidade, energia e “calor” colectivo; as interacções arrefecem e a qualidade do jogo dissipa-se.

Largura máxima relativa é, por isso, dar a largura e a profundidade máximas úteis para abrir espaços no bloco adversário sem perder ligações. É “relativa” porque depende da posição da bola, da organização do adversário e das nossas ligações: não é viver colado à linha por princípio. Os autores (Paulo Correia, et al., 2014) defendem que “quando em posse de bola, a equipa deverá fazer ‘campo grande’ (…) para uma circulação de bola rápida, segura e eficaz (…) A distância dos jogadores sem bola ao seu colega com bola depende sempre de imensos factores” — daí “amplitude máxima relativa”.  

No primeiro golo do FC Porto em Alvalade, em sub-momento de Construção, este princípio foi decisivo. No início da construção, a primeira linha do FC Porto não abriu. Aproximou-se para criar superioridade numérica local e encadear ligações curtas com o jogador adiantado na segunda linha. Menos amplitude (por instantes) → mais densidade → melhores ângulos de passe → saída limpa. Logo a seguir, a equipa voltou a alargar onde fazia sentido. Isto é largura máxima relativa em acção: fechar para ligar e atrair, abrir imediatamente para progredir. 

A decisão de Endrick. Pensá-la de forma linear ou de forma complexa.

“Não é fácil, e sobretudo temos de ter perfeita noção que não há receitas, apela fundamentalmente ao Sentido da Divina Proporção, daí que não faça sentido estabelecer momentos para a utilização tanto do feedback ou do feedfoward. E esse é o lado engraçado e desafiador do processo, não há receitas, tem de haver arte na gestão de tudo isto. Eu penso inclusive que muita da robotização manifesta por muitos jogares resulta da renúncia da parte dos treinadores ao lado intuitivo da gestão dos processos de treino. Parece que parte da pergunta feita, “em que momentos utiliza-os” espelha uma tendência generalizada nos treinadores, e que quanto a mim radica na não capacidade de lidarem com a complexidade e com o que esta implica, nomeadamente a necessidade de estarmos perante uma realidade que não é à partida totalmente conhecida.”

(Jorge Maciel, 2011)

Durante muito tempo acreditámos que existiam melhores decisões para resolver um determinado problema que o jogo coloque. Referimo-nos principalmente a situações que vão emergindo como padrão. Por exemplo, como decidir do ponto de vista atacante um contra-ataque em 3×2+GR, tendo inclusive em conta os diferentes comportamentos que os defensores e o Guarda-Redes poderão adoptar. Ainda acreditamos que existem melhores decisões do que outras. A principal passa por o Futebol ser um jogo com determinadas regras e especificidade, no qual não vale tudo, nem tudo tem a mesma validade qualitativa para o jogar ou se ser bem sucedido. Ou no limite, diferentes comportamentos, mesmo que no mais ínfimo detalhe, diferentes consequências na eficiência e eficácia no jogo. Resumindo, melhores decisões farão então crescer a eficiência e a eficácia no jogo.

Porém, a experiência e conhecimento levam-nos a reflectir, se hoje os treinadores em geral, não estão a condicionar as decisões de forma excessiva. É um debate recorrente, tendo em conta o argumento já clássico que recorre à forma como jogávamos na rua, e como, sem a presença do treinador, o jogo nos ensinava pela tentativa, erro e feedback sócio-emocional a regular a e modelar o nosso jogar do ponto de vista do trinómio Estética-Eficácia-Eficiência. E influenciando directamente tudo isso, obviamente que todos tínhamos velocidades e interesses diferentes sobre este desenvolvimento, o que se tornava decisivo no processo. Como maior exemplo, se quase todos sonhávamos em vir a ser jogadores de futebol profissionais, apenas alguns acreditavam mesmo nisso com a suficiente ambição, determinação e resiliência para efectivamente lá chegar.

Emerge então essa questão fundamental. Se os treinadores e a sua eventual excessiva intervenção, mecanização, e castração da criatividade, autonomia e individualidade, não estão então a condicionar e formatar os jogadores para perfis idênticos e de limitado poder autónomo, cognitivo, criativo e de pensamento divergente. A resposta parece-nos clara no Futebol de Formação. Mas quando a discussão se alarga ao Futebol de Rendimento, tendo em conta as necessidades do contexto em maximizar a eficácia e o pouquíssimo tempo que existe para treinar, a questão torna-se mais complexa.

O golo marcado por Endrick no Real Madrid x Estugarda para a Liga dos Campeões levantou uma importante discussão num grupo de treinadores de Futebol. A situação foi a referido atrás: o clássico contra-ataque 3×2+GR com mais 2 atacantes a chegar. Na nossa mente, são vários os sub-princípios ofensivos que podem ajudar a tornar mais eficiente a resolução da situação e portanto, mais fácil a finalização. Por outro lado, a finalização pelo jogador em condução pelo corredor central é uma dessas soluções e que acontece muito frequentemente no Futsal quando os dois defensores permitem aproximação à sua baliza e abrem espaço entre si, para que o remate seja efectuado com sucesso. E tão próximo da baliza, a capacidade de reação do Guarda-Redes torna-se mais curta. Mas não foi o caso. O jovem brasileiro finalizou de uma posição ainda distante da baliza.

Neste enquadramento, apesar da eficácia da decisão que tomou, tendo em conta a eventual dificuldade da mesma, terá decidido mal. Clarificando, decido mal numa perspectiva a prazo. Ou seja, repetindo a decisão mais 10 vezes, poderia não ter sucesso em mais nenhuma. Isto porque num pensamento lógico e linear, tomando uma decisão mais difícil muitas vezes, logo, de probabilidade de sucesso menor, irá perder essa oportunidade várias vezes. Diminuindo a eficiência, teremos então consequências na eficácia.

Mas perante uma potencial evolução de pensamento, este raciocínio, sublinhamos, torna-se simplificado e linear. Isto porque só estamos a pensar em tempo, espaço, número e na ”média“ da dificuldade das acções individuais para os jogadores em geral. Não estamos a pensar de forma complexa. Não estamos a pensar em que a acção humana não é linear, que existem jogadores que resolvem determinados problemas e acções muito melhor que outros. E neste caso concreto, a questão será… se Endrick voltar a tomar a mesma decisão… se voltará a marcar golo. É provável que não. Mas não sabemos sequer se volta a tomar a mesma decisão, até porque as circunstâncias são irrepetíveis. Cada ser humano é único. Como cada uma das suas decisões.

Fruto da nossa educação e cultura, somos levados a pensar de forma. Como tal tendemos a ignorar dimensões influentes no processo. Não ”vemos” intuição, qualidade da criatividade e do pensamento divergente. Temos dificuldade em sentir o que, naquele momento, a confiança de cada um pode aportar à situação. E isto são só alguns dos fenómenos que não vemos ou sentimos. Haverá muito mais certamente. Desejamos fechar o espectro de análise para conseguir catalogar, colocar em caixas, moldar e guiar, mesmo que na nossa mente isto não seja num sentido fechado. Mas no final torna-se sempre. O problema é se as “regras” traçadas pelo treinador ao jogo que quer que os jogadores joguem, limitam qualidades que o jogador tem ou está a ter, e o treinador não as vê ou sente.

Não existem jogadores iguais, com qualidades iguais, em momentos qualitativos iguais. Tal como as circunstâncias, por muito que se aproximem de forma semelhante. E é de facto o papel do treinador no treino, aproximá-las do jogo, tendo no entanto a consciência que nunca se irão verdadeiramente repetir. Assim, deve então propiciar contextos que se posicionem num limiar onde existirá transfere do treino para o jogo, conseguindo dessa forma potenciar e não castrar ou prejudicar.

Este caminho passa pela criação de princípios a diferentes escalas do jogo. Que são isso mesmo… princípios. Porque o seu desenvolvimento e final irá caber sempre aos jogadores e ao ”aqui e agora” do jogo. Dando o mesmo exemplo, dificilmente criamos a real condição da acção de Endrick, em ter acontecido nos derradeiros segundos dos descontos… e como o resultado se encontrava naquele momento. E consequentemente, o contexto emocional vivenciado. E “só” isto tem potencial para mudar a decisão de um jogador.

Por outro lado estamos sempre, no registo do certo ou errado. Da boa e má decisão. Estamos formatados para isso. Para a dualidade, para o binário. O que a ciência começa-nos a provar, é que a realidade não é assim. O “gato está vivo e morto até abrirmos a caixa”… 

Não estamos a defender o oposto da mecanização. Estamos a argumentar que devemos ter sensibilidade para o contexto de cada acção. E como Vítor Frade defende, devemos dar espaço à “divina proporção”. E como também diz… em ajudar a construir “mecanismos não mecânicos”. E isto passa pela intuição e decisão do treinador em criticar, valorizar, ou às vezes não intervir e deixar fluir. Como pensamos que deve ser este caso. Se no futuro começar a originar um padrão negativo… aí sim… condicionar ou mesmo reprimir a decisão. Até porque, na decisão tomada pelo jogador brasileiro, e sublinhado a ideia passada anteriormente, nas tais características lineares (tempo, espaço, número), não estamos a considerar a intuição, o pensamento divergente e a confiança. Que não só são fundamentais para muitas vezes desbloquear situações de jogo, como a nível macro, para o jogo evoluir. O Guarda-Redes do Estugarda, muito provavelmente, tal como nós, não previu aquela decisão do Endrick e por isso não a defendeu melhor…

Todos os que jogámos, e principalmente na rua, sentimos em determinados momentos uma intuição e uma confiança inabalável numa decisão ou execução mais difícil. Mesmo perante outras alternativas de decisão e execução bem mais fáceis. Mas decidimos fazê-lo porque sentimos que íamos ter sucesso. E tivemos. E como, do ponto de vista externo, medir ou avaliar isto? Não sentindo, torna-se de facto muito difícil. Por outro lado, avaliar uma acção pelo seu sucesso, torna-se o caminho mais simples, apesar dos riscos em si inerentes. E no fundo, é informação superficial. Tonar-se claro o grande desfio evolutivo que temos pela frente.

Concluindo, e lançando um tema futuro, é curto avaliar uma acção de jogo apenas através de tempo-espaço-número. Se há algum tempo para trás referíamos a importância de acrescentar a qualidade, hoje sentimos que a mesma também não pode ser considerada de fechada, mas sim muito influenciada por diferentes estados emocionais e diferentes contextos. Portanto, continuamos a acreditar que existem melhores decisões para resolver um determinado problema. No entanto, compreender as mesmas carece de uma visão mais complexa, do homem, do jogador, e está também mais dependente do contexto e do aqui e agora do jogo.

“nós normalmente quando acentuamos muito o que é táctico, temos tendência a robotizar, temos tendência a querer um futebol quase sem erros, um futebol mecânico. Eu já tive essa tendência, por exemplo, direccionar muito o feedback do exercício, sistematicamente parar para corrigir e não deixando que o jogo flua, é importante deixar fluir o jogo. Ás vezes estou no treino a ver uma solução, que para mim é a melhor solução, porque vem no sentido daquilo que é a minha ideia de jogo, por exemplo, quando a bola entra no corredor quero que haja a tentativa de forçar esse corredor em situações de dois contra um, através do envolvimento do lateral ou através do envolvimento do médio centro. Mas eu tenho um extremo direito que é muito melhor jogador daquilo que eu fui, mas muito melhor jogador, e muitas vezes aquilo que eu fui como jogador limita-me em termos de leitura daquilo que está acontecer, isso acontece montes de vezes, estou à espera de um movimento qualquer e o movimento sai correcto, o movimento sai correcto e a bola não entra, tenho a tentação de dizer é neste momento, tau, mas esse meu extremo direito inventa futebol, mas inventa futebol com uma qualidade acima da minha, do meu entendimento. Ele consegue descobrir soluções que eu no meu entendimento não consigo perceber, no momento não consigo perceber o que ele quer mas ele descobre, ele descobre porque ele tem muito mais qualidade do que eu algum dia tive e apesar de eu estar de fora ele é capaz de descobrir soluções… Aqui há uns anos se ele não jogava no movimento que eu pretendia, ficava chateado, porque achava que ele não estava a corresponder à dinâmica do colectivo. Agora deixo fluir, porque percebo que ele me consegue dar, a maior parte das vezes, soluções muito mais ricas do que aquelas que eu estava à espera. Eu não limito a criatividade, eu deixo criar mas tem que ser… agora, se ele me cria uma vez e perde a bola, se me cria duas vezes e perde a bola, sistematicamente colocando em causa o que é o colectivo, ai isso para mim não é criatividade. Para mim ele está a recrear, não está a criar para a equipa. O problema é nós deixarmos que eles do ponto de vista individual consigam emprestar o mais possível ao colectivo.”

(Vítor Pereira, 2009)

Um contra-ataque 3×2+GR… ou melhor… 3×3+GR e possíveis soluções.

A situação sucedeu no México x Equador da Copa América. O momento para o Equador é de Transição Ofensiva, sub-momento de Contra-Ataque. No ângulo de análise que trazemos, o protagonista é Enner Valencia, atacante com bola que conduz o contra-ataque.

Num primeiro momento, sendo a situação inesperada por ser resultado de um ressalto, a recepção de Valencia é muito boa. Sendo orientada para a baliza adversária ganha imediato tempo e vantagem sobre a oposição, possibilitando uma situação de contra-ataque em 3×2+GR, que, se desenvolvida eficientemente, antecipava grande probabilidade de golo. Valencia toma ainda outra boa decisão. A condução, não caindo na tentação de passar para o companheiro à sua esquerda, que com mais espaço, aparentava estar em melhor condição para progredir para a baliza adversária. Não atendendo às especificidades individuais dos jogadores em causa, de uma perspectiva geral poderia ser um erro fatal ao contra-ataque porque não só este não se encontrava no corredor central, mas também porque o percurso para a baliza tinha uma elevada probabilidade de ser interceptado pelo opositor mais próximo, até porque este também se encontrava orientado e com os apoios virados para esse espaço.

Contudo, o equatoriano comete um erro de execução, deixando a bola para trás por um breve momento mas que numa situação com esta foi o tempo suficiente para permitir a recuperação de um terceiro defensor, tornando-se a situação num 3×3+GR, portanto elevando o grau de dificuldade para os atacantes.

Depois, a grande questão que na situação é colocada, torna-se a decisão sobre o último passe ou a opção tomada, a finalização. Sendo a simplificação da relação o desejável, ou seja, eventualmente colocar um segundo atacante em 1×0+GR, o ângulo em que este acabará para a baliza e tendo também em conta o seu pé dominante e qual ficará mais disponível para rematar, serão questões relevantes e uma análise e decisão extremamente difícil de fazer em tão pouco tempo e sob enorme desgaste. Deste modo, quando em condução pelo corredor central e já próxima da grande área, a opção pela finalização dificilmente se torna uma péssima opção porque existe um eventual enquadramento com a baliza e é possível que a contenção não esteja a ser muito agressiva por também ter a preocupação com os outros atacantes. Foi o caso. Nesta decisão, o que não correu bem foi a execução do remate.

Ainda assim, apesar da situação em causa não permitir o resposta fácil, podia ter surgido uma solução mais eficaz. Para decisão de último passe, para nós a decisão mais evidente seria realizá-lo quando, Chávez, o opositor mais próximo e que se encontra dividido por Valencia e pelo atacante mais à direita, decide rodar os apoios e enquadrar-se com o espaço exterior. O passe nesse momento encontraria-o em reduzida capacidade de reação e mobilidade o que colocaria o segundo atacante em 1×0+GR pela direita. Valencia também podia ter atacado o ímpar, ou seja, fixado esse defensor de forma a garantir que ficaria efectivamente fora da situação, tomando assim similar opção. Outra alternativa seria atacar o par, ou seja, atacar o espaço entre o defensor do meio e o à direita do portador, procurando criar indefinição entre os dois e possivelmente atraindo ambos à bola o que poderia permitir mais espaço para o mesmo último passe à direita ou, caso o defensor ao meio, Pacho, saísse à bola, poderia arrastar consigo a cobertura defensiva de Mena, o defensor da esquerda, abrindo dessa forma uma nova solução: o último passe para o terceiro atacante, mais à esquerda, Páez.

O Programa de Treino que desenvolvemos procura chegar a este nível de detalhe, garantindo propensão a diversas situações de relação numérica de contra-ataque para que surjam diversos contextos e possibilidades, e a eventual correção das decisões nos mesmos. A repetição é fundamental não só para compreender as melhores opções em diversos cenários, mas também para a apropriação dessas conclusões pelo sub-consciente do jogador, para o entrosamento entre os mesmos e em última instância para o crescimento do modelo de jogo da equipa. Desse modo, a tal velocidade e desgaste que o jogo proporciona torna-se menos condicionante e relevante na eficácia final da acção. Propiciar o crescimento da eficiência no jogo é o caminho para se atingir este derradeiro objectivo.

Manipular o espaço, o tempo, o número e a qualidade do adversário. Toni Kroos… “remastered”.

A “passivo-agressividade”… táctica… de Bruno Fernandes

“(…) é importante que as equipas dos nossos dias dominem a acção de atrair como forma de poderem corresponder aos cada vez mais exigentes problemas que se deparam em jogo. Esta necessidade assume especial destaque quando as equipas adversárias têm um posicionamento defensivo irrepreensível, tornado escassas as opções de penetração em direcção à baliza que defendem, ou quando até evidenciam falhas de posicionamento, mas aglomeram praticamente todos os jogadores atrás da linha da bola, dificultando em alguns momentos a entrada na direcção da baliza que defendem. Em ambas as situações descritas anteriormente, torna-se evidente que a equipa com bola terá que conscientemente atrair os jogadores adversários para uma determinada zona do terreno de jogo com o objectivo de posteriormente tirar vantagem de outro local.”

(Paulo Correia, et al., 2014)

A situação decorreu no passado jogo de preparação Portugal x República da Irlanda. Em momento de Organização Ofensiva e sub-momento de Construção, Bruno Fernandes, fazendo jus à sua inteligência e qualidade de execução, perante um denso bloco médio baixo adversário imaginou e executou uma acção ofensiva que permitiu à equipa imediatamente saltar da Construção para a Criação.

É verdade que Cristiano Ronaldo, voluntária ou involuntariamente deu um contributo importante na interacção que estabeleceu com o adversário directo, contudo o irlandês em questão não foi o único iludido na situação. Dada a pouca profundidade que existia entre a última linha adversária e o seu Guarda-Redes, o passe directo em profundidade seria mais facilmente antecipado e interceptado caso tivesse sido realizado directamente e mostrando essa intenção. Assim, Bruno Fernandes com a ajuda de António Silva troca três passes de forma provocatória, concentrando aí a atenção da equipa irlandesa. A postura e linguagem corporal do jogador do Manchester United é passiva, escondendo até ao último momento a intenção ofensivamente agressiva de atacar a profundidade em passe longo. Mesmo a leitura que faz da potencial ruptura de Dalot é sempre subtil de forma a não evidenciar a intenção que criou na sua mente.

Será também importante referir que o entrosamento manifestado com Dalot pode provir da relação do Manchester United, no entanto, não será necessário treinar e jogar muitas vezes com Bruno Fernandes para, reconhecendo-lhe as qualidades que evidencia, antecipar intenções como esta. Sejam eles companheiros, sejam adversários. Porém… quem defende poderá estar sempre um passo atrasado se estiver em reação como foi o caso da selecção Irlandesa. E também não ajudou a forma como os Irlandeses mais próximos do corredor por onde Dalot se desmarcou colocaram os apoios e não se orientaram para o potencial espaço a explorar. Mas estes erros também terão tido mérito dos portugueses, em especial de Bruno Fernandes, porque num cenário aparentemente controlado a sua acção de provocação em passe atraiu a atenção do adversário, potenciando assim a desconcentração para outros espaços e comportamentos.

“Muito difícil foi dizer aos meus jogadores que em alguns momentos tinham era de estar quietos num determinado sítio. Espera, porque nós atraímos aqui para libertar aí. Estando aí, tu vais ser decisivo e a bola quando vier a ti não podes ficar com ela, é para tocar, porque atraíste para outros poderem entrar, para outras coisas poderem acontecer.”

(Miguel Cardoso, 2018)

Vitinha… o mestre do “Privilégio pelo passe vertical”

A 21 de Março publicámos o sub-princípio ofensivo Privilégio pelo passe vertical. 

O português Vitinha apresenta uma qualidade tremenda nesta acção táctica. Seja em Transição Ofensiva, seja em Organização Ofensiva. Num momento da evolução do jogo em que, tendo em conta o exemplo do Barcelona de Guardiola, se temia a exacerbação da posse e circulação de bola através de “más cópias” e de excessiva lateralizarão do jogo, continuam a emergir jogadores que procuram privilegiar, em primeiro lugar, o jogo vertical. Mas não qualquer jogo vertical com probabilidade elevada de perda da bola. Um jogo criterioso, em que se esse solução está fechada, então si, opta-se por outra em vez da perda da bola.

Como tal, nos jogos da fase de eliminatórias da edição desta época da Liga dos Campeões (jogos à partida de elevado nível de dificuldade), realizámos uma compilação de todas as acções de passe vertical ou de tentativa de passe vertical do português que acabaram por resultar em pelo menos passe diagonal. Estas, na maior parte dos casos, resultaram em passes para o corredor lateral. Mas a intenção prioritária estava lá: procurar a progressão pelo corredor central. No mínimo atraiu adversários a fechar o espaço central, libertando os corredores laterais, o que também é muito importante para a progressão da equipa.

Porque não juntámos ao video as imensas intenções de passe vertical, fica o desafio ao leitor: analisar no futuro o comportamento do português sempre que recebe a bola e está enquadrado com a baliza adversária, e a procura prioritária por linhas de passe verticais. Não será exagerado dizer que Vitinha, de frente ou lateralmente para a baliza adversária, procura o passe vertical em mais de 80% das situações. A maioria das restantes são situações de enorme pressão em que decide, bem, tirar a bola da pressão lateralmente ou para trás.

Este privilégio sucede porque há um momento, ou após recuperação da bola, ou então numa fase inicial da construção, em que a equipa que defende ainda não percebeu se a intenção de quem ataca vai para a progressão pelo corredor central ou lateral. Nesse momento pode apresentar mais espaços intra-linhas por estar a procurar controlar toda a largura do campo, e sendo assim estes podem ser aproveitados para a realização de um passe vertical, de foram a que a equipa que ataca consiga chegar rapidamente ao sub-momento de criação.

“O Jürgen falou sobre as “novas” ideias, como jogar o primeiro passe para a frente.”

(Pep Lijnders, 2022)

Uma linha de contenção perante bola no interior da grande-área. Outro exemplo.

Na semana passada publicámos o sub-princípio defensivo Uma linha de contenção perante bola no interior da grande-área. Analisando, por outras razões, o jogo entre Real Sociedad e Paris Saint Germain da presente edição da Liga dos Campeões deparámo-nos com mais uma situação que expõe a necessidade deste sub-princípio. Deste modo, o alinhamento da última linha e a proximidade entre, pelo menos, os dois defensores mais próximos da bola não é um mero detalhe, exagero ou extravagância. É que, como a situação ilustra, por centímetros, passa a haver ângulo de finalização, a bola passa e é obtido golo.

É verdade que há muito mérito de Mbappé, nomeadamente quando simula o remate e dá mais um toque para o interior do campo, abrindo mais espaço para ganhar ângulo de finalização, no entanto, desde o momento inicial que os dois defensores mias próximos de si não estavam alinhados e a procurar reduzir o espaço entre ambos e para poder alvejar a baliza. A bola sai extremamente colocada ao segundo poste, porém caso o defensor em cobertura defensiva tivesse lado a lado com o companheiro em contenção, a bola não passaria.

Quando Mbappé simula e conduz para dentro, Traoré (em cobertura defensiva) deveria se ter aproximado e alinhado com Zubeldía (em contenção). Com esta acção os restantes dois jogadores posicionados na última linha deveriam alinhar-se por Traoré e Zubeldía reduzindo o espaço à sua frente e colocando-se mais próximos de reagir a uma possível dobra aos companheiros ou à reação a uma segunda bola que ressaltasse destes.

“Outro aspecto determinante para a consecução do encurtamento dos espaços é a regra do fora de jogo. A sua existência possibilita a diminuição da profundidade do processo ofensivo adversário e, portanto, dificulta a criação de espaços livres (Yagüe Cabezón, 2001, cit. por Amieiro, 2004).”

(Pedro Soares, 2009)

Qualidade colectiva e qualidade individual. Rodrigo Mora dá o exemplo.

Os princípios de jogo e a necessidade dos mesmos na resolução de uma situação de contra-ataque 2×2+GR III. Desta vez acrescentando pensamento divergente.

Como sofrer um ataque rápido de um lançamento defensivo. E como reduzir de forma significativa a probabilidade disso suceder.

“Enquanto a referencia bola nos permite lazer um «varrimento» dos espaços em função da sua importância e, dessa forma, tornar o bloco defensivo compacto, a referência companheiros possibilita-nos o escalonamento permanente das diferentes linhas e, nessa medida, a existência do um «sistema do coberturas sucessivas». É a existência o a permanência deste «jogo do coberturas» no seio da equipa, que torna o bloco defensivo verdadeiramente solidário.”

(Nuno Amieiro, 2004)

A situação passou-se no Manchester United x Fulham de 24 de Fevereiro da presente época. O jogo encontrava-se no período de descontos, aos 97’.

Uma observação menos atenta da situação diria que o Fulham marcou o golo da vitória numa situação de contra-ataque. O que se torna ainda mais grave é que não foi isso que sucedeu. O Fulham encontrava-se em Organização Ofensiva, ainda na fase de Construção e numa situação de bola parada, mais especificamente num lançamento lateral, junto a um dos cantos do seu meio-campo. Será um desafio encontrar uma situação potencialmente menos perigosa para quem defende.

Com tempo para se reorganizar defensivamente (14 segundos), o Manchester United não o fez eficientemente. Se o objectivo era chegar à vitória, não pressionou convenientemente todas as linhas de passe próximas ao lançador e permitiu que o Fulham, no primeiro e segundo passes, saísse a jogar curto. A partir do passe longo, e apesar de ganhar a primeira bola, a equipa não se encontrava suficientemente concentrada espacialmente, ou seja, o seu bloco não estava suficientemente compacto para ganhar a 2ª bola e garantir cobertura defensiva a Maguire que também deveria ter realizado contenção e não tentar o desarme.

Deixamos uma proposta para defender mais eficientemente a situação em causa:

Poderá-se justificar a desorganização defensiva com a vontade de vencer e de assumir maiores riscos. Porém, a equipa estava num momento de organização defensiva e perante uma bola parada, com muito tempo para se reorganizar. Arriscar posicionamentos mais ofensivos e situações de igualdade numérica não fará sentido perante as circunstâncias. Além disso, o Manchester United nem se encontrava a perder. Um ponto é sempre melhor que nenhum…

“Eu vejo mais os nossos centrais a apertarem o espaço à sua frente do que a terem que recuperar, defensivamente, o espaço atrás de si. A equipa pressiona como um todo, pressiona como um bloco, quando há movimentos verticais de pressão a minha linha defensiva faz o mesmo tipo de movimento e, quando assim é, as linhas estão juntas.”

José Mourinho citado por (Nuno Amieiro, 2004)

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