A Ideia de Jogo no Programa de Treino

“É importante que os conteúdos a desenvolver nos diferentes dias da semana estejam inter-relacionados, sendo reforçados a cada dia através de situações diferentes, quer estruturalmente, quer na sua complexidade, facilitando as aquisições por parte dos jogadores.”

(Vítor Gouveia, 2023)

Abordámos recentemente a adaptabilidade e flexibilidade do Programa de Treino que propomos em função de diferentes Ideias de Jogo. Propriamente, o propósito do mesmo não foi servir em Especificidade determinada Ideia de Jogo, mas sim múltiplas. Referimo-nos à programação, à escala dos conteúdos e forma como estes estão construídos e distribuídos. E na maioria dos casos, mesmo os próprios exercícios.

Podemos dar dois exemplos sem aprofundar muito as sessões e respectivos exercícios. Tal ficará para as páginas respectivas que estamos a publicar. Esta explicação procurará ideias simples mas dispares, para que a explicação seja mais clara. Um treinador que defina na sua Ideia em Organização Ofensiva numa Construção e Criação num jogo mais directo e em defesa individual em Organização Defensiva, e outro que deseje que a sua equipa ataque de forma mais curta e apoiada no momento ofensivo e numa defesa zona, ou seja, colectiva, no momento defensivo.

Vamos tomar como exemplo a semana A do Programa. Primeiro treino da semana, Transição Ofensiva como grande objectivo. Exercícios de Reação ao ganho, decisão sobre a entrada no sub-momento de Contra-ataque ou Valorização da posse de bola e seu desenvolvimento. Conteúdos, para nós, transversais a todas as ideias de jogo. Desenvolve-se ainda um situação de jogo colectiva de compensação para os jogadores menos utilizados. Aí, liberdade para o treinador prescrever ideias, corrigir coisas e experimentar.

No segundo dia, Transição Defensiva. Exercícios de Reação à perda, Recuperação defensiva para a sua estrutura defensiva e Defesa do contra-ataque, serão desta forma geral, também transversais a todas as ideias. Todas dependem destes sub-momentos para terem qualidade e sucesso.

Terceiro dia, Organização Ofensiva. Exercícios de Acções individuais ofensivas reforçam, na dimensão individual, todas as ideias. Posteriormente situações de Construção, Criação e Finalização em diferentes escalas estruturais e espaciais, porém com margem para saída do Guarda-Redes curta ou longa, uma posterior construção mais curta ou longa, privilegiando o corredor central e lateral, como também em sub-momento de Criação. Todos articulados com a Transição Defensiva. Uma vez mais, espaço nos exercícios para a Especificidade.

Quarto dia, Organização Defensiva. Um exercício de objectivo diferente, velocidade e coordenação gerais, outro que apele à coesão, competitividade e Acções individuais defensivas. Posteriormente situações de Impedir a construção, Impedir a criação e Impedir a finalização. Espaço para diferentes ideias defensivas, métodos defensivos, diferentes estruturas e diferentes profundidades de posicionamento do bloco. Em bloco alto, médio ou baixo. Independentemente da Ideia de Jogo do treinador dar privilegiar uma dessas opções, cremos ser importante dominar todas elas. Diferentes contextos, diferentes situações de jogo, diferentes necessidades. Uma equipa pode defender em bloco baixo com qualidade, mas algum jogo irá estar em desvantagem. E se nesse caso o adversário optar por um maior privilégio à posse e a “defender com bola”, a equipa terá a necessidade de subir o bloco e tornar a sua pressão mais alta e mais agressiva.

Quinto dia, dia anterior à competição, situações de team-building em regime técnico, coordenativo e velocidade. Posteriormente situações de consolidação / estratégicas onde o treinador terá espaço para tais ajustamentos.

Depois poderão existir diferenças nos princípios ou no detalhe das acções individuais. Se, por exemplo, o treinador deseja valorizar mais a posse, se procura forçar mais o Contra-ataque e o privilégio pelo passe vertical, mesmo que mais longo, tal será principalmente através de um eventual condicionamento do detalhe do exercício e através do feedback e apresentação da Ideia. O mesmo sucede com as acções individuais. Haverá espaço para as mesmas nas 4 semanas do Programa, porém, dependendo do escalão e da Ideia, o treinador poderá privilegiar determinadas variantes das ações. Por exemplo, mais passe longo em detrimento do curto. Ou noutro exemplo, que o desarme seja mais estimulado quando em contenção e com o adversário enquadrado, e menos quando este ainda se encontra de costas para a baliza.

O próprio Programa propõe diferentes variantes para cada exercício (que vão sendo publicados semanalmente) que servindo de variações e progressões dos objectivos macro, permitem também dar espaço de escolha ao treinador de forma a adequar com maior precisão a Ideia ao exercício.

“No que diz respeito à tarefa de planear, o treinador terá que fixar objectivos, seleccionar conteúdos de treino e definir a melhor metodologia a implementar para concretizar os objectivos definidos.”

(Jorge Braz, 2006)