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Vitinha… o mestre do “Privilégio pelo passe vertical”

A 21 de Março publicámos o sub-princípio ofensivo Privilégio pelo passe vertical. 

O português Vitinha apresenta uma qualidade tremenda nesta acção táctica. Seja em Transição Ofensiva, seja em Organização Ofensiva. Num momento da evolução do jogo em que, tendo em conta o exemplo do Barcelona de Guardiola, se temia a exacerbação da posse e circulação de bola através de “más cópias” e de excessiva lateralizarão do jogo, continuam a emergir jogadores que procuram privilegiar, em primeiro lugar, o jogo vertical. Mas não qualquer jogo vertical com probabilidade elevada de perda da bola. Um jogo criterioso, em que se esse solução está fechada, então si, opta-se por outra em vez da perda da bola.

Como tal, nos jogos da fase de eliminatórias da edição desta época da Liga dos Campeões (jogos à partida de elevado nível de dificuldade), realizámos uma compilação de todas as acções de passe vertical ou de tentativa de passe vertical do português que acabaram por resultar em pelo menos passe diagonal. Estas, na maior parte dos casos, resultaram em passes para o corredor lateral. Mas a intenção prioritária estava lá: procurar a progressão pelo corredor central. No mínimo atraiu adversários a fechar o espaço central, libertando os corredores laterais, o que também é muito importante para a progressão da equipa.

Porque não juntámos ao video as imensas intenções de passe vertical, fica o desafio ao leitor: analisar no futuro o comportamento do português sempre que recebe a bola e está enquadrado com a baliza adversária, e a procura prioritária por linhas de passe verticais. Não será exagerado dizer que Vitinha, de frente ou lateralmente para a baliza adversária, procura o passe vertical em mais de 80% das situações. A maioria das restantes são situações de enorme pressão em que decide, bem, tirar a bola da pressão lateralmente ou para trás.

Este privilégio sucede porque há um momento, ou após recuperação da bola, ou então numa fase inicial da construção, em que a equipa que defende ainda não percebeu se a intenção de quem ataca vai para a progressão pelo corredor central ou lateral. Nesse momento pode apresentar mais espaços intra-linhas por estar a procurar controlar toda a largura do campo, e sendo assim estes podem ser aproveitados para a realização de um passe vertical, de foram a que a equipa que ataca consiga chegar rapidamente ao sub-momento de criação.

“O Jürgen falou sobre as “novas” ideias, como jogar o primeiro passe para a frente.”

(Pep Lijnders, 2022)

“O Futebol não traduz nem mais nem menos o que é a sociedade neste momento no mundo”

https://www.facebook.com/SaberSobreOSaberTreinar/videos/1905123779516880/

O autor (Neto, 2012) sustenta que “esta omnipresença do Futebol na nossa sociedade levou, Costa (1990) a considerar esta modalidade com a grande festa dos tempos modernos, que suscita fascínios, ao ponto de ninguém ficar indiferente, constituindo-se como um idioma global”. De acordo com (Reilly & Williams, 2005), citados por (Gil, 2012), “o Futebol é a forma de desporto mais popular do mundo, sendo praticada por todas as culturas à escala planetária”. O autor (Gil, 2012)  reforça o papel do Futebol no mundo moderno, descrevendo que “o futebol deixou de ser considerado apenas um jogo, reunindo, atualmente, o estatuto de atividade profissional altamente remunerada, estando revestido de um crescente interesse comercial, político e social (Ali, 1988, citado por Silva, Castelo & Santos, 2011) altamente dependente da obtenção de sucesso”. Na opinião de (Sérgio, 2012), “o Futebol hoje, é o fenómeno cultural de maior magia no mundo contemporâneo”. Segundo o mesmo autor, “hoje, falar de Futebol é outra forma de falar de religião. Numa altura que se diz, e esta frase é de Nietzsche portanto já é uma frase do século XIX, que Deus morreu, o Futebol é um constante fazedor de deuses. (…) Hoje falar de Futebol é uma outra maneira de falar de religião”. Também Manuel Sérgio, citado (Neto, 2012) por refere que “o Futebol reproduz e multiplica as taras da sociedade. O desporto é altamente competitivo porque a sociedade é altamente competitiva. Se não era de outra maneira. Um indivíduo vai para dentro do campo e sai de lá “pior” do que entrou”. Ainda (Neto, 2012), justifica esta ideia explicando que “vivemos em concorrência, ou em competição, generalizada e, porque assim é, a performance é o seu principal padrão de medida”. José Neto cita ainda Michael Porter, descrevendo que “num mundo de competição global crescente, os países são mais ou menos importantes, consoante são mais ou menos competitivos. Poderemos dizer outro tanto do Futebol? Julgo que sim”. O mesmo autor, citando Toledo (1996 cit. Costa 2005), reforça esta ideia, sustentando que “o Futebol é considerado uma das modalidades mais difundidas nas manifestações desportivas das sociedades modernas, exercendo um grande impacto nos hábitos culturais desportivos dos nossos dias, podendo mesmo constituir-se como laboratório de análise social”.

in Introdução de Saber Sobre o Saber Treinar

Um novo começo

Euro 2016 – «O Filme» – Tomás Rondão & Telmo Esteves 2016.

Seria para nós incontornável, até como forma de celebrar esta nova etapa do projecto Saber Sobre o Saber Treinar, que o primeiro artigo do blog deste novo site abordasse o recente êxito da Selecção Portuguesa no Campeonato da Europa. Após a ressaca emocional, na qual um pouco por todo o lado se produziram textos e videos marcantes, abordamos aqui também o momento histórico vivido. Sendo um objectivo deste projecto evitar fronteiras, subsistem no entanto naturais diferenças culturais entre os muitos povos que têm contribuído para a história deste jogo, tornando-se as mesmas oportunidade de reflexão. Não nos esquecemos ainda das nossas origens, as mesmas de um povo que apesar de pouco numeroso, habituou o mundo a grandes feitos, e origens essas que são também o berço de muitas das ideias aqui estudadas e desenvolvidas.

Neste sentido, sentimos que essas raízes foram os alicerces do sucesso da equipa portuguesa, e recuando na história do país, recordamos outros momentos tão ou mais marcantes que este que agora vivemos. Se for possível resumir tudo isso numa palavra, talvez esta seja, superação. Reforçada por uma criatividade sem paralelo que possibilita  a este povo a resolução dos problemas mais difíceis, no entanto, só essa superação permite que um país pequeno, em muitas situações perante escassos recursos, consiga realizar feitos à partida impossíveis. Se os Descobrimentos foram provavelmente o derradeiro exemplo de conquista que Portugal proporcionou ao mundo, a história do desporto português e em particular do futebol, encontra-se rica em feitos notáveis. Muitos não significaram títulos, mas constituíram desempenhos que colocaram selecções e clubes entre a elite do futebol mundial, facto que muitos apontam como presentemente inigualável para a maioria das áreas de actividade do país. Será que tem de ser mesmo assim? De qualquer forma, independentemente dos diferentes contextos, este acumular de conquistas, fez crescer a auto-confiança, a experiência e potenciou futuras gerações. A vitória da selecção Portuguesa no Euro 2016 é por um lado uma consequência de todo o trajecto realizado até aqui, e por outro, um enorme catalisador para o futuro.

Falando concretamente do jogo da equipa, não procuramos uma análise estética do mesmo, que entre adeptos é geralmente atribuído ao espectáculo que as equipas proporcionam. Também porque, tal qual uma obra de arte, este será sempre discutível perante os valores, sensibilidade e cultura de cada espectador. Esse não é nosso foco, até porque no futebol, a noção de espectáculo apresenta-se nesta fase da sua evolução  muito associada à intermitência da organização das equipas, e consequentemente à ausência de controlo do jogo pelas mesmas. Este contexto resulta em mais oportunidades de golo e assim, provavelmente, em maior número de golos, o que é imediatamente associado a essa ideia mais difundida de espectáculo. Portanto, se aqui procuramos e idealizamos uma forma de jogar futebol, coerente com as suas regras e contexto, que nos permita uma aproximação ao rendimento, isso não está directamente relacionado com o espectáculo que eventualmente pode ou não proporcionar à maioria das pessoas. Neste âmbito, o da forma de jogar, temos que dizer que a selecção portuguesa, apesar de ter apresentado abordagens ao jogo diferentes ao longo da competição, manteve-se nalguns momentos afastada das ideias que procuramos. Porém, isso não significa que o seu trajecto e a sua conquista não tenham sido meritórias, e que não tenha demonstrado outras qualidades exemplares. O contexto, tornou-se uma vez mais decisivo. Procuramos porém compreender, de todas as dimensões do seu desempenho, o que nos pode aproximar do sucesso mais vezes, e retirar daí experiência para o futuro.

Assim, e apesar das análises a desempenhos “mentais” serem por nós muitas vezes relativizadas dada a sua incrível complexidade, torna-se para nós evidente que a mentalidade demonstrada pela equipa portuguesa, expressa pela ambição na procura da superação foi sem dúvida algo em evidência.

Ainda na face visível do desempenho, o jogo da equipa, observou-se um crescimento táctico ao longo da competição. Abordámos aqui o primeiro jogo da equipa portuguesa, fundamentalmente pelos erros basilares de organização defensiva apresentados, e a realidade é que a equipa evoluiu e ultrapassou algumas dessas deficiências até ao final do campeonato. Naquele contexto competitivo isso foi para nós decisivo, e se isso não tivesse acontecido, mesmo não defrontando as equipas mais fortes do torneio, Portugal dificilmente teria chegado à final. O que importa sublinhar é que esta equipa mostrou-nos a todos que tudo é possível partindo de uma dimensão mental fortíssima. Como grande grande exemplo individual, temos Éder Lopes, que mostrou e transmitiu, que mesmo num momento em que praticamente ninguém do lado de fora da equipa acreditava na sua qualidade, foi mesmo possível ser decisivo no desfecho final da competição. Deste modo, mais do que táctica, organização ou cultura de jogo, este foi um momento que expôs qualidades a um povo que vivia acreditando que não as possuía. Tornou-se acima de tudo uma oportunidade para um novo começo. A oportunidade para uma cultura construir em cima das suas qualidades e conhecimentos ímpares, uma mentalidade que já não se satisfaz com o “quase”. Provou-se ser mesmo possível o derradeiro sucesso e assistiu-se no fundo, a uma mudança cultural no Futebol Português.

Mais recentemente, nos Jogos Olímpicos, Telma Monteiro reforçou esta ideia após a medalha conquistada:

Telma Monteiro, 2016.

Este momento surge então como uma enorme oportunidade para potenciar a mentalidade de todos os que actuam no Futebol, mas não só. Neste espaço é também nossa missão passar a convicção que as razões que levam os portugueses a tudo isto são bem mais profundas que o fenómeno desportivo. Tal como o poeta e filósofo Agostinho da Silva disse, “a nossa matéria-prima é o que temos entre as orelhas”.

Neste enquadramento, acreditamos que há muito que Portugal apresenta escolas de pensamento e ideias sobre o jogo e o treino mundialmente revolucionárias. Apesar de alargamos a nossa investigação a muitas mais culturas, não nos é indiferente o enorme contributo que os portugueses têm garantido ao Futebol, através de jogadores, treinadores e autores que ficarão para a história como referências no jogo. Acreditamos ainda que actualmente, também influenciada pelo sucesso de algumas dessas figuras, vivemos um momento ímpar de interesse sobre o papel do treinador, o que tem gerado enorme debate de ideias, nomeadamente na internet, que se constituiu como um suporte decisivo nesta evolução. Neste movimento, constatamos que proliferam pessoas, cada vez mais novas, a pensar e a discutir o jogo e isto só poderá resultar em evolução, melhores treinadores, melhores equipas e melhores jogadores. Como explicado desde a sua génese, este projecto procura contribuir também nessa missão. E este novo website irá proporcionar meios para tal.

É então oportunidade para um novo começo. No futebol português e neste projecto.

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