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“entre a realidade e as nossas ideias há uma diferença”

“Quando eles começam a sentir o gosto por aquilo que estão a fazer…”

“Uma equipa pode jogar de qualquer maneira. É mesmo assim: de qualquer maneira. Desde que se trabalhe de modo a sistematizar as coisas para esse objectivo, de maneira a que todos acreditem. Se o treinador acredita; se os adjuntos acreditam; se os jogadores acreditam, tudo é possível.”

(José Mourinho, 2004) citado por (João Romano, 2007)

A especificidade e a Especificidade do Programa de Treino

Flexibilidade e adaptabilidade do Programa de Treino

“Os exercícios apenas são potencialmente específicos”

Guilherme Oliveira, citado por (Esteves, 2010)

Continuamos a explorar o Programa de Treino que temos vindo a desenvolver, aprofundando a flexibilidade do mesmo.

Sublinhamos que o Programa não é dirigido a nenhuma Ideia de Jogo Específica. Porém, será ele exequível para todas as Ideias? Essa foi uma das nossas preocupações e intenções, mas lançamos um verdadeiro desafio à criatividade. Será possível criar uma Ideia de Jogo que não seja operacionalizável desta forma? Caso afirmativo, por outro lado, será um óptimo tónico à evolução do trabalho realizado.

À imagem de um Microciclo ou Morfociclo padrão, no qual a preocupação seja transmitir uma Ideia de Jogo à equipa, enquadrando uma série pressupostos para que a “óptima” aquisição deva acontecer, por sua vez o Programa enquadra um ciclo mais alargado (quatro semanas), nas quais são abordadas todas as dimensões da Ideia de Jogo da equipa.

Se a Ideia de Jogo (o projecto do treinador) é o ponto de partida e o Modelo de Jogo (o jogar propriamente dito da equipa) o ponto de chegada, o Programa será um dos veículos, através dos quais podemos fazer esse trajecto. Cremos nós, e esse foi o principal objectivo na sua elaboração, com grande eficiência e eficácia.

No passado texto escrevemos o seguinte sobre o tema:

“Também procurámos que o Programa fosse, por um lado, suficientemente fechado para se conseguir um razoável controlo do processo de aquisição e repetição num plano macro, por outro, que também fosse suficientemente aberto para poder ser implementado com diferentes Ideias de Jogo, diferentes níveis competitivos e ainda diferentes escalões etários.”

Para tal, usámos a Sistematização do Jogo que desenvolvemos no passado, para definir diferentes escalas de actuação. Os momentos, os sub-momentos, os princípios, os sub-princípios e as acções individuais.

Relativamente aos momentos, temos uma sessão por semana direccionada para cada um deles. Quanto aos sub-momentos, procurámos dar maior volume aos que surgem mais vezes no jogo. Por exemplo, em relação à Transição Defensiva é facilmente perceptível que as equipas passam mais tempo na Reação à perda e menos na Defesa do contra-ataque, logo, será lógico dar maior propensão a um sub-momento que pode até evitar que a equipa não tenha que defender um contra-ataque adversário.

Em relação aos princípios, tratam-se de ideias comuns a todas as equipas. No mesmo enquadramento, Transição Defensiva, sub-momento de Reação à perda, damos o exemplo da “Pressão imediata na bola”. É algo que todas as equipas procuram. Se é para procurar recuperar imediatamente a bola ou apenas para conter, não permitindo o contra-ataque adversário e procurar garantir a reorganização defensiva da equipa, isso será território específico da Ideia de Jogo de cada treinador. Como exemplo de sub-princípio, “Referências de pressão”, ou seja, em que circunstâncias a equipa passa da contenção à pressão para recuperar a bola, ou se simplesmente não o faz nunca. Importa referir que os sub-princípios são comuns a diferentes princípios. O exemplo que acabámos de dar confere isso, pois “Referências de pressão” estará também presente noutros sub-momentos do jogo, nomeadamente nos de Organização Defensiva.

O mesmo sucede com as Acções Individuais. Neste caso, defensivas, e damos o exemplo da “Posição de base”, através da qual o defensor procura orientar-se, posicionar-se, adoptar determinada postura corporal, etc., para, da forma mais eficiente possível, passar da contenção à eventual pressão com objectivo de recuperar a bola.

Ora bem, nesta lógica, o Programa define o quando (momentos e sub-momentos do jogo) e o quê (princípios, sub-princípios e acções individuais). Contudo, não define o como e porquê, ficando esse domínio contemplado na Ideia de Jogo Específica de cada treinador.

Deste modo, o Programa também se torna ajustável a cada nível de jogo. Se, por exemplo, o nível é o da Etapa de Iniciação do Futebol de Formação, a Ideia (extremamente simples, reduzida, necessariamente aberta e ampla) e a intervenção do treinador deverão ter determinado carácter. O que não implica que não hajam conteúdos programados, tal como sucede nos programas nacionais do ensino básico. De uma forma geral, abordados de forma mais elementar e muitas vezes apenas usando um exercício / jogo simples como estímulo ao conteúdo desejado, e sem grande intervenção do treinador. Noutro exemplo, se o Programa é aplicado no Futebol de Rendimento Profissional, o detalhe, a exigência, o plano estratégico, etc., deverão estar contemplados através da Ideia de Jogo, conteúdos e da actuação do treinador em cada exercício. Mesmo que não haja intervenção do treinador no exercício. Isso deve ser deliberado e fruto de um pensamento estratégico e operativo naquele contexto específico. Não porque o nível de intervenção pressupõe isso.

Haverá sempre uma questão pertinente no nível de Rendimento. Se o Programa engloba quatro semanas, dado que uma não será suficiente para se atingir todas as dimensões do jogo da equipa na propensão desejada, então, atendendo à eventual necessidade de investimento na dimensão estratégica em função do próximo jogo, essa semana do Programa poderá não atingir em volume de forma satisfatória determinado sub-momento do jogo e / ou da forma desejada (espaço do campo onde determinados princípios se desejam trabalhar). Neste caso, a manipulação do exercício, nomeadamente na sua operacionalização, torna-se decisiva.

Não modificando conteúdos, ao longo da semana o treinador vai encontrar momentos e sub-momentos contrários aos objectivos estratégicos que persegue. Nesses momentos, pode usar o contra-exercício, ou seja, os objectivos inversos aos do Programa em determinado exercício para intervir e tornar-se o protagonista maior no foco e, possivelmente feedback, que pretende. Por exemplo, na semana C do Programa, no exercício C-3OO2B:

Os objectivos, sub-momentos da Organização Ofensiva, são a Criação e Finalização, e ainda com ligação à Reacção à perda na Transição Defensiva. O exercício é passado no meio-campo adversário.

Se, em função do próximo adversário, o treinador tem a preocupação de preparar determinado(s) princípio(s) da Organização Defensiva, sub-momento, Impedir a Criação em bloco médio ou baixo, poderá escolher este e eventualmente outro(s) exercício(s) para garantir essa intervenção. Nesta semana do programa, para além deste, surgem mais 5 exercícios em que pode atingir, ou no objectivo principal, ou no contra-exercício, este propósito. Assim, no enquadramento da equipa técnica e definição de tarefas no treino, poderá trocar o seu papel, inicialmente no objectivo principal, com outro treinador responsável pela equipa / grupo de jogadores que se encontram no objectivo inverso. Ou seja, trocar a sua intervenção para a equipa que, com maior propensão no exercício em causa, defende e transita ofensivamente no exercício. Deste modo, o programa não perde os objectivos iniciais e a estimulação sistemática de determinadas ideias. Simultaneamente o treinador encontra o espaço e o momento para dar mais ênfase a determinada preocupação e objectivo estratégico.

Estamos, e não nos cansamos de repetir, perante um processo altamente complexo. O Programa de Treino, torna-se para nós um caminho muito interessante para o treinador ter um satisfatório controlo sobre o jogo da sua equipa. No caso particular do Futebol de Rendimento, controlo sobre a dimensão da sua Ideia de Jogo e também sobre a dimensão estratégica.

“Treinar deve implicar

que a percepção cumpra sua função

não é a de memorizar, mas de percepcionar

a complexidade do jogo na complexificação.

Resultante…

De cada instante

duma e outra equipa na acção.”

(Vítor Frade, 2014)

Fórum da ANTF 2019

“Nós, portugueses, temos a capacidade de ligar as pessoas. Pelo jogo, pelo nosso trabalho.”

(Carlos Carvalhal, 2019)

Sendo este projecto, prioritariamente direccionado para treinadores de Futebol, e sendo ele também Português, faz-nos todo o sentido abordar o Fórum da Associação Nacional de Treinadores de Futebol. Para mais, numa edição em que marcaram presença vários dos, reconhecidamente, melhores treinadores Portugueses.

Estes eventos, como é referido muitas vezes pelos seus participantes, mais do que um reforço ao conhecimento, surgem com uma excelente oportunidade para trocar experiências e promover ligações. A frase de Carlos Carvalhal, é assim, nos mais diversos contextos, extremamente feliz.

Na edição de 2019, foram abordados vários temas extremamente pertinentes, sem contudo sentirmos estar a viver um período de ruptura ou grande evolução no conhecimento do treinador. Mas, como no treino, nem sempre o percurso é feito de aquisição. Têm, obrigatoriamente de existir momentos de consolidação.

Sentimos, ao nível metodológico, estar perante um deles. Se há cerca de 10 anos atrás ainda se discutia sobre o que devia ser o núcleo das preocupações do treinador na construção do seu treino, hoje sentimos haver uma crença generalizada, de que o “jogar” da equipa deverá assumir esse papel. Deste modo, a Periodização Táctica, nos seus alicerces fundamentais, passou para muitos, de adversária a companheira de viagem. Na sua especificidade, nomeadamente ao nível dos seus princípios metodológicos, ainda subsiste um longo caminho a percorrer, muito devido à enorme complexidade que protagoniza. Porém, como vimos a referir há anos, a ruptura epistemológica mais importante ao nível metodológico, parece-nos ter vindo para ficar. Hoje, o treinador, e não nos referimos a alguns técnicos que gravitam à sua volta, acredita que treina-se para jogar, fundamentalmente… jogando.

O conhecimento do jogo, e o contexto cultural que o treinador encontra foi um dos temas mais abordados. Dadas as diferentes experiências culturais dos intervenientes no Fórum, a importância que o treinador deve dar ao contexto onde se insere, é hoje tida como decisiva. É fundamental o treinador ter ideias para o jogo da sua equipa, ter a sua metodologia, ter consciência e ideias para a sua liderança. Mas é também fundamental, que considere e tenha em conta o contexto cultural onde trabalha nas suas decisões. Só neste domínio, o seu papel exige que pense de forma bidimensional, interagindo entre as suas ideias e convicções, e as dos que lidera e suas características. Um treinador que é autista em relação a qualquer uma delas, coloca-se perante uma grande probabilidade de fracasso.

“Um treinador que chega ao Futebol Chinês ou Árabe, tem de estar preparado para ensinar o jogo e o treino, tem de estar preparado para ensinar coisas básicas.”

(Vítor Pereira, 2019)

Como também o será se igualmente ignorar a relação do Modelo de Jogo com a Dimensão Estratégica. É outra discussão que se encontra em cima da mesa: o peso da dimensão estratégica nas decisões do treinador. José Mourinho referiu que acredita que uma tendência evolutiva nas equipas será “as equipas terem vários sistemas tácticos dentro do mesmo Modelo, nomeadamente na Organização Ofensiva. As equipas já defendem tão bem e estão tão bem organizadas que para fazer face a isso, quem ataca tem de conseguir dar resposta com várias soluções”. Também o seleccionador português de Futsal, Jorge Braz, apresentou-se na mesma linha de pensamento, ao explicar que no seu trabalho pensa “a estratégia, procurando perceber quem tenho do outro lado, e procurando ter várias soluções e um pensamento aberto”. Se este tem sido um dos nossos pensamentos, de há muito para cá, parece-nos que a ideia de que uma Ideia de Jogo é muito mais do que um sistema, se está a generalizar entre os treinadores. A ideia, é tanto mais rica quando mais soluções conseguir garantir a problemas que os diferentes adversários e contextos poderão trazer ao jogo. Deste modo, sem cair numa amálgama de ideias com pouca coerência entre si, a necessidade que a realidade competitiva traz às equipas, potencia o crescimento de Modelos ricos e adaptáveis ao envolvimento. Para nós, objectivamente, as fronteiras dessa coerência, por motivos tácticos e consequentemente… humanos, estarão entre “jogares” que sustentem ideias colectivas e ideias individuais. Deste modo, não nos parece coerente conjugar métodos Defensivos e Ofensivos Colectivos, com métodos Individuais. São formas muito distintas de ver a realidade, de estar… e consequentemente… de jogar.

Mas esta evolução… tem obrigatoriamente… como constantemente defende o professor Manuel Sérgio, de surgir de uma relação entre a prática e a teoria. Se durante muito tempo se criticaram os dogmas dos que fundamentavam o conhecimento, exclusivamente pela prática, hoje parece assistir-se à inversão dessa lógica. Foi outra questão, pertinente, colocada no Fórum.

“Na nossa geração, tínhamos que vencer e depois fazíamos doutrina, hoje faz-se doutrina antes de se vencer.”

(José Mourinho, 2019)

Mas vejamos… estes debates que hoje estão em cima da mesa, relacionam-se com o jogo. Com a forma de jogar das equipas e sua relação com o envolvimento. Isto é para nós uma enorme prova da evolução do nosso conhecimento. Até porque em muitas culturas ainda se acredita que o físico-energético deve ser a grande preocupação do treinador no treino…

Paralelamente, actualmente, parece-nos que é ao nível da Liderança que o treinador está também perante grandes desafios. Os vários intervenientes no Forúm, relatando variadíssimas experiências, sublinham que são inúmeros os potenciais problemas com que o treinador se confronta diariamente nos mais diferentes contextos de jogo e realidades culturais. Na gestão da equipa e também do seu envolvimento. Hoje torna-se também fundamental ao treinador conhecer o homem que lidera. Na sua generalidade e na sua especificidade. Actualmente, apenas dirigir, deixou de funcionar. É fundamental interagir. As redes sociais, como abordado, são um bom exemplo das tremendas mudanças que a sociedade enfrenta, e consequentemente, o papel do Treinador. Como referimos atrás noutro contexto, ser autista também em relação a este domínio… é condenar-se ao fracasso. Por arrasto, por exemplo, como Vítor Pereira referiu, no Futebol Profissional acabaram-se os contratos de uma página. São agora às dezenas, contemplando os mais ínfimos pormenores. O que traz ao treinador, a necessidade de reforçar a sua equipa técnica com especialistas de mais áreas. Contudo… partindo e reduzindo… “sem empobrecer”… e sem perder o sentido e o controlo do “todo”.

Mas há um ponto em que, nós portugueses, somos unânimes. A qualidade das ideias do treinador português, a sua criatividade como não se cansa de referir Jorge Jesus, mas também o sublinhou Rui Quinta, e fundamentalmente, o impacto do seu trabalho. Mesmo, como abordámos há pouco tempo noutro artigo, em condições de trabalho na maioria dos casos, paupérrimas. Rui Quinta, ilustrou precisamente isso no seu trabalho no Sporting Clube de Espinho, no terceiro escalão do Futebol Português. Partilhou que operacionaliza várias sessões de treino por semana num campo secundário, que mais parece um terreno baldio, com piores condições que muitos espaços onde as crianças jogam na Rua. Mas em vez de encarar o cenário como um problema, encara-o como um desafio e uma oportunidade para estimular outras coisas, muitas que eram vividas pelo próprio Futebol de Rua.

Isto levantará sempre uma questão: será que é por essas dificuldades que o treinador português é uma referência a nível mundial? Naturalmente, que inventar soluções para os mais diversos problemas, a precariedade na sua profissão, juntando a uma enorme concorrência e competitividade para o desempenho da mesma, ajudam. Mas, dados os sentimentos que a maioria expressa, o mais importante acreditamos ser a sua paixão pelo jogo, pelo treino e pela missão. Por outro lado, os enormes benefícios que poucos alcançam serão “apenas” um bónus e não será por isso que é movida, a maioria. Se a premissa fosse simplesmente a falta de condições de trabalho, os melhores treinadores do mundo surgiriam de muitos países Africanos, Asiáticos e até da América do Sul. A realidade não é essa.

Para os que são principais responsáveis pela precariedade da função e das condições de trabalho, não adianta apontar que… perante algumas realidades… será bom não ter as melhores condições. É definitivamente um pensamento errado. Para o treinador e para a sua equipa, é sempre melhor ter o máximo de condições. Onde se inclui o campo pelado cheios de buracos. Para que algumas vezes, o treinador possa optar (e não ter que obrigatoriamente recorrer a ele), em detrimento do campo do relvado perfeito. Porque… estímulos diferentes, adaptações diferentes. Porque… é pelo conhecimento, pelo sentir, planear, operacionalizar e liderar, que a gestão do treinador desses recursos se deve realizar. E então aí, eventualmente surgirá também a sua genialidade.

E vamos ainda mais longe… imaginamos o cenário onde a maioria dos treinadores não tem a mente ocupada por preocupações mais básicas, como contas para pagar no final do mês ou o seu futuro. Um cenário, onde simplesmente tem a possibilidade de ser… profissional… numa área em que lidera a nível mundial e eleva Portugal a um reconhecimento e a mais valias económicas… incríveis.

Infelizmente, perdeu-se mais uma oportunidade para abordar este problema basilar. Com quem realmente interessa, porque muitos dos presentes, apesar de terem atingido o topo ao nível profissional, também passaram pelas dificuldades da maioria. Mas como é habitual, a representação política no Fórum, foi extremamente elogiosa ao treinador português, porém parece apenas preocupar-se com a minoria dos treinadores. Sendo assim, voltamos a lembrar: são estes “responsáveis” que estão no topo da hierarquia. Portanto, mais do que são com estes com quem os treinadores trabalham… são contra estes que o treinador trabalha.

“Se não fores feliz, não podes ser treinador.”

(Fernando Santos, 2019)

A estratégia os meios e a identidade

 

https://www.facebook.com/SaberSobreOSaberTreinar/videos/343446756499258/

“Os exércitos não têm identidade, têm é meios. O futebol tem é que ter meios. Se a identidade for isso, muito bem. Se a identidade não for isso eu discordo completamente.”

(Silveira Ramos, 2019)

 

“Se nós formos fazer um estudo da quantidade de golos que ocorrem nos últimos 2 anos em Portugal, com a quantidade de bolas que saíram do Guarda-Redes para os Defesas-Centrais, se calhar é… 3000% a mais do que era nos anos anteriores. Porque agora identidade é toda a gente querer sair com os Guarda-Redes a jogar com os Defesas-Centrais, e às vezes não há condições para isso.”

(Silveira Ramos, 2019)

 

“O Barcelona tem sido muito copiado e eu acho que as pessoas às vezes só copiam metade, só percebem metade do que se lá passa, e portanto, ou copiam tudo ou não copiam nada, portanto acho que é melhor não copiarem nada e cada um procurar os seus meios.”

(Silveira Ramos, 2019)

Finalização

“Eu jogava com o Marco Van Basten no Milão. Eu perguntava-lhe como lhe deveríamos entregar a bola. Ele dizia, “passem-na apenas, e depois comecem a correr para festejarmos”. Ele estava sempre convicto que iria marcar, e normalmente estava certo.”

Carlo Ancelotti, citado por (Henry, 2018)

Acções individuais ofensivas + Organização Ofensiva | Finalização | Controlo de bola aérea + Remate em pontapé à meia volta | Rony Lopes 2019

A falta táctica

Recentemente, num programa televisivo, discutia-se a falta… particularmente a que se vulgarizou na gíria, como “falta inteligente”. Se logo à partida existe uma conotação que a pode identificar como um comportamento inteligente, revela que na opinião de muitos, falta pode significar uma boa decisão. Porém, evidentemente que isso por si só, não nos diz muito. O que não faltam no futebol são lugares comuns, tantas vezes repetidos e que não se questionam.

Se a falta marca presença no regulamento do jogo, obviamente faz parte do mesmo. A sua génese é simples. Numa análise fria, como sucedeu em todos os desportos, e num contexto mais amplo noutros domínios da sociedade, a determinado momento surgiram indivíduos que quiseram obter sucesso na actividade em causa recorrendo a a formas de actuar que a maioria condenou. Com tal, essa maioria criou leis e regras de forma a penalizar esses comportamentos. Ignorar esses comportamentos nesses momentos, não seria certamente a atitude certa para a evolução do jogo ou, na perspectiva mais ampla, de uma sociedade. Tal como ignorá-los agora, não será com certeza a atitude certa de forma a dar continuidade a essa evolução. Defende-se muitas vezes a ideia de que a evolução táctica do jogo, sucedeu nos seus momentos defensivos por resposta a novas ideias ofensivas, e vice-versa. Então o mesmo sucederá com a sua regulamentação.

Um exemplo concreto foi a situação do atraso de bola para o Guarda-Redes, recorrendo aos pés. Durante quase um século de jogo foi um comportamento permitido. Até que, a determinado momento, as equipas perderam um eventual “constrangimento moral”, ou então, noutra perspectiva, ganharam lucidez táctica, e uma vez mais numa análise fria e objectiva, utilizaram essa possibilidade que o jogo oferecia para manterem a posse de bola e evitarem que o adversário atacasse. Os opositores teriam então que pressionar muito alto para evitar a situação, algo que também devemos ter consciência, não muito habitual no jogo da época, pelo menos de forma organizada, o que trouxe problemas ao jogo das equipas. Outra leitura da situação, mais “romântica”, é que as equipas estariam a incorrer em comportamentos anti-desportivos e estavam a abdicar de jogar. A questão é que, na realidade, jogar, é tudo o que as leis do jogo permitem e sancionam. Enquanto se está em jogo… joga-se. Da forma “A”, “B”, “C”, etc… fazendo-se mais ou menos faltas… mas, joga-se. Jogar, não é o que a perspectiva, ou cultura, que cada um de nós tem do jogo, indica como importante. Todos nós formamos opiniões e convicções sobre cada jogar. Se é mais estético, se é mais eficiente, se é mais eficaz. Se esse jogar também expressa os valores humanos que nos alicerçam. Mas não é isso que está aqui em causa.

Portanto sublinhamos: enquanto um jogador está em campo e o jogo decorre, ele joga. Movimentando-se, posicionando-se, ou por exemplo, realizando uma intercepção, um passe, um remate… ou mesmo fazendo uma falta. Repetimos, não estamos a tecer juízos de valor às diferentes decisões que o jogador pode tomar em campo. Mas a realidade é que as leis do jogo permitem que o jogador possa decidir a falta como eventual recurso. Caso contrário seria expulso de imediato. Em determinado momento, o jornalista (Tadeia, 1999), identificou “a proliferação da falta táctica, estratégia usada para impedir o desenvolvimento do futebol do adversário sem causar grandes mossas no cadastro da equipa que as comete”. O mesmo autor opina ainda que “a falta táctica é um flagrante exemplo de benefício do infractor, uma vez que obriga o adversário a recomeçar a sua movimentação, pois permite a recolocação da defesa da equipa que a comete. Por isso, é urgente que este tipo de infracção seja punida nas leis do jogo”. Paralelamente, (Torrijos, 2001) descreve que “a “falta táctica” é efectuada mais pelos médios do que pelos defesas. A falta táctica é a cometida numa zona do campo pouco perigosa de forma a parar um contra-ataque e permitir tempo a que a equipa que a efectua se reorganize. A questão plantou-se quando Albelda fez dez faltas a Zidane no arranque da Liga. O resultado  do castigo (livre directo no centro do campo) é menos penoso que a ameaça de contra-ataque”. Foi então, nessa fase da evolução do jogo, identificado um problema com a acumulação de faltas deste género por determinado jogador. Nessa altura foi então solicitado às equipas de arbitragem que fossem menos permissivas e punissem, disciplinarmente, um jogador que recorresse sistematicamente à falta. A partir daí vemos o árbitro mostrar cartão amarelo enquanto sinaliza gestualmente a acumulação de faltas desse jogador. Um exemplo da evolução do jogo perante um problema identificado. Assiste-se hoje a uma redução no número dessas faltas, o que obrigou as equipas a desenvolverem outras formas de minimizar os contra-ataques perigosos do adversário. Serem mais rigorosas ao nível posicional e na gestão do espaço no equilíbrio defensivo no ataque, é um bom exemplo.

Assim, a discussão pode ser realizada em torno do peso da penalização em determinadas situações de jogo, mas sempre com a consciência que a penalização máxima por qualquer falta, nunca sucederá. Caso contrário, estaríamos perante outro jogo, que não Futebol. Desta forma, enquanto subsistir a falta que não expulsa o jogador da partida, não prejudicando com isso a sua equipa de forma grave, ela será sempre uma possível decisão. E como tal, entrando então no campo da cultura de jogo de cada um, determinada falta, poderá então ser perspectivada como má ou boa decisão. Como decisão inteligente ou não. Neste contexto o autor (Bouças, 2017), dá um exemplo, defendendo que “sem situação controlada em termos numéricos e de espaço, surgem as faltas tácticas como uma marca bem definida das equipas mais inteligentes. No passo à frente, encostar nas costas, e parar em falta com portador sem enquadramento, significa que não há sequer risco de admoestação disciplinar, e de transição defensiva, o jogo pára e entra-se no momento de organização. Onde é substancialmente mais difícil ferir quem tem os melhores, sobretudo quando bem organizados”. Também o espanhol Jesús Botello em (The Tactical Room, 2019), explica que acumulando muitos jogadores em organização ofensiva no meio-campo adversário, “a falta táctica afigura-se vital para evitar contra-ataques”.

Então, se a táctica se constitui como todo o comportamento voluntário em campo. A falta… nessas circunstâncias, torna-se assim, táctica. Prevendo e aceitando depois, o jogador e a equipa, as suas consequências. Na obra “Guía para jugar a fútbol”, os autores (Benigni et al., 2016) também concordam com esta perspectiva ao referirem que “uma das circunstâncias que ocorre cada vez mais no futebol moderno é a chamada falta táctica, que consiste em realizar uma acção voluntariamente incorreta para cortar uma acção contrária, que, continuando, coloca em grande perigo a equipa. Fala-se de uma falta táctica, porque a acção ocorre longe da grande-área, ou seja, na zona de meio-campo, onde, teoricamente, ainda não constitui um grande perigo para a equipe que defende”. O treinador Fran Beltrán em (Club Perarnau, 2013), vai mais longe e explica que o seu Modelo de Jogo “variará se sei que em determinado país são mais ou menos permissivos com o cartão amarelo perante a falta táctica”.

Para nós, a falta enquanto comportamento opcional tem de estar circunscrita aos valores que alicerçam o nosso jogo. Nunca colocando em risco o bem estar físico do adversário, nunca de forma a ludibriar o árbitro e as leis do jogo. Portanto aceitamos e definimos a falta como uma possível decisão, sempre como último recurso em situações nas quais outras acções falharam, e também sempre conscientes das respetivas penalizações que as mesmas enfrentam. Assim, trata-te para nós de uma decisão pontual e não recorrente, mas sim, uma decisão, que em determinadas circunstâncias, se revela… inteligente.

O jogo de Futebol não é aquilo que desejamos que seja. O jogo de Futebol é aquilo que de facto é. Ignorar isto é, ignorar as regras do jogo e jogar em desvantagem. E devemos ter a consciência que os mesmos que apelam ao romantismo do jogo sem faltas, serão os mesmos a crucificar esse romantismo quando o mesmo enfrentar o insucesso.

Construção do Modelo de Jogo [Subscrição Anual]

Publicamos um excerto de uma nova publicação de Saber Sobre o Saber Treinar exclusiva a assinantes do projecto. Desta vez abordamos a construção do Modelo de Jogo. Acrescentamos que no futuro irão ser publicadas sub-páginas deste tema, desenvolvendo outras ideias subjacentes.

Dada a sua extensão, a própria página Construção do Modelo de Jogo, encontra-se também dividida nos seguintes temas:

  1. A construção no… processo
  2. A concepção, a construção e as suas motivações
  3. O… contexto
  4. O derradeiro objectivo
  5. Organizar e planear… o sucesso
  6. Compreender e dominar o objecto de ensino
  7. Todas as formas de jogar garantem a mesma Estética-Eficácia-Eficiência?
  8. O Modelo de Jogo… um claro sistema aberto

(…)

Neste cenário, o autor (Silva, 2008) ainda que aludindo-se apenas ao contexto específico do jogo defende que “a equipa constitui uma totalidade em permanente construção, na qual as acções pontuais, mesmo que aparentemente isoladas, influem no comportamento colectivo, que consiste numa rede de interacções complexas de cooperação e oposição, integrando distintos níveis de organização“.

(…)

Este pensamento é justificado por Freitas (2005), citado por (Ribeiro, 2008), ao sustentar que “depois de se compreender a lógica do jogo e de termos consciência que existem tantos “jogares” quanto o número de treinadores que existem, importa então definir claramente qual a nossa ideia de jogo“.

(…)

O autor sublinha que “no fundo, temos de considerar sempre o facto dos jogadores poderem ter ideias diferentes até porque, e apesar da concepção do treinador ser o que se pretende que se aplique na equipa, de acordo com Silva (2008) há que considerar também que os jogadores poderão ter uma “paisagem mental” diferente da do treinador. Nesse sentido, Frade (2003, cit. por Silva, 2008) refere que há a necessidade de se criar uma “paisagem mental” idêntica para todos eles, uma vez que o desenvolvimento de jogo tem de nascer, em primeiro lugar, na cabeça dos jogadores“.

(…)

A autora (Gomes, 2011), acrescenta que “o processo de uma equipa tem como preOCUPAÇÃO desenvolver uma identidade colectiva. O jogo que caracteriza o clube e a equipa. Por isso, é fundamental que o treinador (autor e gestor do processo) SAIBA o que pretende. Torna-se imprescindível conhecer o que pretende, ou seja, sistematizar os princípios de jogo da sua equipa”.

(…)

O neurocientista (Damásio, 2006), citado por (Campos, 2007), afirma que o que o intriga no funcionamento de uma equipa de Futebol “tem a ver com a forma como múltiplos executantes se comportam em torno de um projecto singular como se fossem uma entidade única, embora mantenham as suas individualidades”.

(…)

Deste modo, a autora (Gomes, 2011) explica que “as melhores equipas têm uma identidade viva, com sensibilidade para falar uma língua como um idioma prático (mesmo que muitas das vezes não se consigam entender na linguagem oral) comum a quem o vivencia de forma partilhada.“

(…)

Também nesta linha de pensamento, (Bouças, 2012) explica que “num momento em que o jogo é do ponto de vista técnico e físico, cada vez mais equilibrado (longe vão os tempos em que só os grandes clubes treinavam), as tomadas de decisão surgem como um dos traços mais decisivos no jogo moderno. Por tomadas de decisão, deve entender-se, as opções que cada jogador toma a cada momento (com ou sem bola). Para onde deslocar? A que velocidade o fazer? Que espaço ocupar? Para onde desmarcar? Quando soltar a bola? E para onde? Quando progredir com a bola? Cada situação de jogo tem uma forma mais eficiente de ser resolvida. Tal não significa que optando pelo pior caminho, se estará sempre condenado ao insucesso. Tão pouco que, optando bem, se será sempre bem-sucedido. Significa somente que, optando bem, está-se sempre mais próximo de ser bem-sucedido”.

(…)

O autor (Almeida, 2016) descreve que o Modelo de Jogo “cresce, configurando um todo que é muito mais que a soma das partes, já que é algo utópico, podemos andar perto de atingir, mas nunca conseguimos, pois o mesmo está em constante evolução e reconstrução (Carvalhal et al., 2014)”.

Continua…

A “carne toda no assador”

A frase do genial Quinito, recentemente também usada por Carlos Carvalhal na Premier League, tornou-se uma das marcas do Futebol Português. Apesar de no sentido lato percebermos o seu contexto, se pensarmos na interpretação e conhecimento do jogo de cada um, no sentido restrito a mesma pode conhecer diferentes expressões. Muito provavelmente, a que mais se generalizou, foi a substituição, de jogadores de outras funções por “avançados”. Outra ideia, directamente associada a esta, é a mudança, na forma de jogar da equipa, de um jogo paciente, criterioso e curto, para um mais vertical, aleatório e directo. Sublinhamos a palavra aleatório, uma vez que um jogo mais vertical e directo, quando treinado, quando crença, e em determinados cenários, também pode ser bem sucedido. A questão aqui residirá… que ideias poderão ter maior probabilidade de sucesso perante o jogo que o futebol é, consequência daquilo que o ser humano também é, nomeadamente em “sociedade”.

Apesar de não encontrarmos notícias sobre razões, que não táctico-estratégicas, para a substituição de Emil Forsberg por Martin Olsson na selecção Sueca no jogo dos quartos de final do Campeonato do Mundo contra a Inglaterra, não conhecendo com exactidão o contexto e não possuindo a real justificação para a substituição, correremos sempre o risco, de errarmos logo à partida na interpretação da decisão. No entanto, para nós o interessante não é a análise desta decisão concreta, mas o que ela pode significar numa perspectiva mais ampla. Precisamente, essa ideia que se generalizou no jogo, que perante um resultado adverso e dificuldades nos sub-momentos ofensivos de Construção e Criação, trocar o tal critério, paciência e criatividade, por aleatoriedade, inquietação, pressa e um jogo desprovido de imaginação, seria a eterna principal solução nesse cenário. Mas mais do que aquilo que a substituição em causa significava, mais importante no fundo foi a forma como influenciou o jogar da Suécia, que defrontava um adversário que manifestava conforto na sua última linha durante o momento defensivo, quer pelo número de jogadores que na situação colocava, como pela significativa qualidade dos seus comportamentos.

Todas as acções ofensivas de Emil Forsberg no Suécia x Inglaterra do Campeonato do Mundo de 2018.

Todas as acções ofensivas de Martin Olsson no Suécia x Inglaterra do Campeonato do Mundo de 2018.

O número de perdas de bola de Olsson foi muito superior ao de Forsberg, ainda por cima tendo em conta que o último esteve mais tempo em jogo e envolvido em bastantes mais acções com bola. Mas se este pode não ser um dado relevante ao nível individual, uma vez que se torna fundamental compreender o contexto de cada acção e as suas relações com os companheiros e adversários nesses momentos. Um problema tradicional das análises quantitativas. Porém, a quantidade de perdas tem, habitualmente, reflexos mentais e fisiológicos negativos… no todo, que é o desempenho – a qualidade do jogo da equipa e consequentemente do jogador. Aqui nem se trata do “bater de asas da borboleta“, mas de acontecimentos mais significativos que perturbam os momentos seguintes do jogar da equipa.

Transportar a equipa para um maior caos… será eficaz e a resposta na maioria das situações? No fundo estaremos a trocar a racionalidade pela emocionalidade… a zona de conforto, o trabalho e o entrosamento… por potencial desconforto, improvisação e desorganização.

Porém… “a carne toda no assador”, à imagem da nossa perspectiva do conceito intensidade, pode não passar por fazer mais, de forma mais agressiva, mais directa, se isso significar… fazer pior tendo em conta o jogar da equipa. Deste modo, no contexto de uma cultura que privilegie o critério, “a carne toda no assador” poderá significar, por exemplo, garantir maior velocidade à circulação de bola, maior número de jogadores no interior do bloco adversário, combinações a menos toques e consequentemente mais rápidas, mais soluções de ruptura, decisões de último passe de maior risco de perda da bola e decisões de finalização em condições mais difíceis, excluindo destas as que se incluem nas más decisões. Do ponto de vista individual, poderá não significar a troca de um jogador de uma função por outro de outra, mas sim a aposta em jogadores de maior criatividade, de cariz mais desequilibrador, mas que em contrapartida também fazem crescer o risco de maior acumulação de perdas de bola. Foi, por exemplo, o caso da entrada de Ricardo Quaresma no jogo Portugal x Uruguai.

Se perguntássemos a Quinito o sentido que dava à sua expressão… Quinito o homem que se tivesse dinheiro comprava Pedro Barbosa para o ver a jogar no seu quintal e que se declarava “um amante da arte, da magia e beleza estética”, apostamos que responderia… “é colocar lá dentro os mais talentosos, ofensivos e criativos”.

“É de estética vazia

e o Futebol assim jaz…

Jogo directo nada cria

correm, correm, mas nenhum sabe o que faz.”

(Frade, 2014)

O todo… organização defensiva… que está nas partes… sectores e jogadores

É notória a evolução que o Futebol manifestou nos últimos anos. Na liderança, no jogo e no treino. Contudo, o pensamento analítico sobrevive e ainda influencia as três dimensões. Naturalmente, porque como Vítor Frade referiu no I Congresso da Periodização Táctica “foram 400 anos de pensamento analítico ou cartesiano”.

Não é por acaso que Miguel Cardoso, e o seu processo… no fundo, o resultado da interacção da sua liderança com a sua visão do jogo e da forma como treina, tem demonstrado qualidade. Tem demonstrado qualidade no critério, na nossa opinião, mais importante para um treinador. A qualidade de jogo da sua equipa. Porque esta é o grande resultado do seu trabalho e será esta a conduzir a uma regularidade nos resultados. Na conferência de imprensa após o Porto x Rio Ave para a Taça da Liga, a questão do jornalista procurou separar a equipa nos que defendem e nos que atacam. Miguel Cardoso, mostrou o porquê da qualidade das suas ideias.

https://www.facebook.com/SaberSobreOSaberTreinar/videos/1899278386768086/

O treinador do Rio Ave demonstra, dentro e fora do campo, pensar o jogo como um todo. Num artigo que publicámos recentemente, o responsável técnico pelo ciclismo na Federação da modalidade defendia que o atleta era um todo. Sendo o jogo composto por vários homens, consequentemente também o é um todo. Entendê-lo em complexidade é procurar compreender esse todo. E procurar ir ao plano do detalhe e perceber as suas partes, implica não lhes ignorar as relações e a interação que estabelecem entre si e as consequências que isso provoca no todo. Neste sentido (Azevedo, 2011) explica que “ (…) de acordo com Gaiteiro (2006) podemos afirmar que aquilo a que chamamos “parte” é apenas um padrão numa teia inseparável de relações, não existindo portanto, partes em absoluto”. Um dos principais defensores do pensamento complexo, Edgar Morin (2003, p. 108, 109), citado por (Tamarit, 2013), esclarece que “num holograma físico, o ponto mais pequeno da imagem do holograma contém a quase totalidade da informação do objecto representado. Não apenas a parte está no todo, mas o todo está na parte. O princípio hologramático está presente no mundo biológico e no mundo sociológico… a ideia de holograma ultrapassa, quer o reducionismo que só vê as partes quer o holismo que só vê o todo”. O mesmo autor acrescenta que “então pode enriquecer-se o conhecimento das partes pelo todo e do todo pelas partes, num mesmo movimento produtor de conhecimentos”. Xavier Tamarit reforça “que parece especialmente relevante para o futebol sobretudo se tivermos em consideração o facto de que como sugere, “a relação antropossocial é complexa, porque o todo está na parte, que está no todo”. Importa contudo salientar que da relação do todo com as partes podem resultar estados diversos de complexidade do todo. O todo pode ser menos que a soma das partes, pode ser igual à soma das partes e pode ser mais que a soma das partes. Mas só o todo organizado será maior que a soma das partes“. No fundo foi o que Miguel Cardoso explicou quando expôs a sua visão do jogo e a forma como identificou os problemas da sua equipa.

“É da problemática da complexidade

a natureza do que é nela interacção,

esfacelar tal realidade

é o que promove a mono explicação.”

(Frade, 2014)

Saber sobre o saber jogar de… Kevin De Bruyne

Kevin De Bruyne deu uma fantástica entrevista a Jamie Redknapp na antevisão do Manchester City x Arsenal. Ninguém melhor para falar do jogo do que aqueles que o vivenciam e que sobretudo revelam conhecimento sobre o mesmo através da suas decisões dentro do campo. É uma realidade que a qualidade de muitos deles restringe-se à esfera do “saber fazer”. Porém, De Bruyne mostra mais, uma consciência sobre o jogo, e portanto o tal “saber sobre o saber fazer”. Provavelmente muito fruto da inteligência táctica que manifesta, porém será também consequência da liderança e metodologia de Pep Guardiola. Urgem mais programas deste género e a abertura para o diálogo com esta frontalidade.

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“Se toda a gente na equipa “compra” o modelo tudo fica mais fácil.(…) Tem que haver muita confiança entre nós para que o modelo resulte.”

“É posse com sentido. Guardiola odeia a palavra posse. É um jogo de passes para muitas vezes descobrir-me a mim e ao David Silva para que possamos criar. Ele não gosta da posse pela posse, a não ser para controlar o final dos jogos.”

“É esta confiança… (no início da construção) toda a gente tem de estar na sua posição para criarmos os espaços necessários.”

“O sistema varia todos os jogos um pouco. Naquele jogo ele disse para o Leroy e Raheem ficarem abertos até termos a bola no último terço e aí fariam o que quisessem. No início a intenção era fazer com que o Azpilicueta e o Alonso ficassem o mais baixos possível e assim ficávamos com superioridade numérica numa estrutura 3:4:3 com o Kyle Walker e o Fabian Delph a virem para dentro e o David Silva a jogar como número 10. Portanto depende sempre de como a outra equipa se organiza.”

“(Em construção) há muitas situações a 1 e a 2 toques, o jogo flui e toda a gente se movimenta em conjunto. (Em criação) nós podemos fazer o que quisermos. Não há uma restrição. Podemos ir para dentro, para fora, finalizar ou criar alguma coisa.”

“(já perto da área adversária, quando recebo um passe atrasado vindo do corredor lateral), primeiro olho para o lado contrário para perceber o que está a acontecer. Jogamos muito de um lado e toda a gente do lado contrário está a fazer um movimento. E depois sinto que se rematar eles vão bloquear o remate e sei que o David, Raheem ou Leroy vão também fazer o movimento e então é um pouco como saber e tentar ver se estão a fazê-lo e… confiar na equipa. Se não é um passe ridículo. Mas toda a gente estava com o mesmo pensamento, a mesma ideia e aqui foi muito bom.”

“Gosto mais de assistir do que de marcar. Dá-me outro sentimento. Marcar é sempre um grande sentimento, mas assistir é também algo especial para mim. Acho que se dá pouco crédito à assistência.”

“(quando alguém se está a desmarcar em ruptura) eu vejo-o. Não o vejo claramente, mas vejo-o a correr e já sei antes o que vai acontecer.”

“Assistir é um instinto que temos que ter no jogo. Leva tempo a perceber o que eles preferem. Joguei com um jogador, Bas Dost, ele era muito forte na área e eu só tinha que cruzar todo o tempo porque ele ia lá estar. Mas com o Sergio Agüero é diferente, com o Gabriel Jesus é diferente, então preciso de saber o que eles gostam. Se gostam mais no pé, Raheem ou Leroy gostam mais no espaço. O caminho é aprender o que eles gostam e como serão favorecidos perante as suas qualidades.”

“É uma questão de tomar decisões. Eu gosto de ver a NBA, sou um grande fã. Muitos jogadores jogam no físico, mas eu sou um grande fã do Lebron James, que pode fazer o que quiser, mas ele tenta sempre tomar a melhor decisão para a equipa. É o que eu gosto de fazer.”

“(nos livres directos) é algo que o staff técnico sempre nos transmitem. Se a barreira tem a tendência de saltar ou não.”

“acho o David Silva muito subvalorizado. Ele é classe. Jogou mais de cem jogos pela Espanha e ganhou tudo por eles. Ele dá-me o equilíbrio perfeito. Aprendi muito com ele a conservar a bola. Quando cheguei era um jogador de maior risco, de aproveitar e criar oportunidades, mas também perdia a bola mais vezes.”

“(a propósito da quantidade de passes bem sucedidos) nós fazemos sempre muitos meinhos. É estranho veres um treinador fazer meinhos como estes. Para ele isto é a “masterpiece” do futebol. Se fores bom a fazê-lo vais jogar bem no jogo. Normalmente fazêmo-lo no aquecimento. Não são permitidos toques da calcanhar e são sempre passes simples. Ele quer que os que estão no meio corram. Se fizermos 60 passes eles vão correr.”

“Nós agora jogamos com o Kyle Walker que é muito ofensivo. Às vezes temos que estar na posição dele. Podemos trocar, Kyle avança, os alas aparecem mais como médios-ofensivos e eu não fico como Defesa-Direito, mas fico num espaço intermédio. Funciona para manter a posse e parar os contra-ataques adversários.”

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