Tag Archive for: metodologia

“Então, juntaste muita informação, mas, mesmo assim, não conseguiste ensinar um quarterback a receber um snap”

“Então, como há muito negócio e o futebol gera um volume económico espetacular, começa a entrar gente que não tem nada a ver com futebol e que se apodera do futebol. Intermediários e representantes ganham mais dinheiro do que muitos treinadores e jogadores, sem jogarem. Especialistas de todo o tipo. Aparece a ciência e trata de dizer aos donos, aos que têm dinheiro, que há uma forma de controlar o jogo, de medir o jogo, quando é absolutamente falso. Eu acredito na ciência, claro que acredito na ciência, mas naquela ciência que tem em conta a incerteza.”

(Óscar Cano, 2022)

“Havia algo irresistível em estar perto desses grupos que me fazia desejar mais conexão.”

No livro “The Culture Code” de (Daniel Coyle, 2018) encontramos um texto interessante sobre a coesão de equipa, a qual, nalguns casos de sucesso atinge o estatuto de “família”. De facto, também no Futebol vai emergindo internamente nas melhores equipas a denominação “família” perante um alto nível de ligação, alinhamento, solidariedade e cumplicidade. No fundo, o tal tão desejado entrosamento. Tal, nem sempre significará resultado desportivo pois para o mesmo também concorrerá a qualidade individual dos jogadores e a qualidade da oposição. Contudo, a qualidade colectiva estará então conquistada.

“Quando se pede às pessoas dentro de grupos altamente bem-sucedidos para descreverem a sua relação umas com as outras, todas tendem a escolher a mesma palavra. Essa palavra não é amigos ou equipa ou tribo, ou qualquer outro termo igualmente plausível. A palavra que usam é família. Além disso, tendem a descrever o sentimento dessas relações da mesma maneira:

“Não consigo explicar, mas as coisas simplesmente parecem certas. Na verdade, tentei sair algumas vezes, mas continuo a voltar. Não há sensação igual. Estes caras são meus irmãos.” (Christopher Baldwin, SEAL Team Six da Marinha dos EUA)

“Não é racional. Ninguém que seja puramente racional faz as coisas que acontecem aqui. Existe um trabalho em equipa que vai muito além de equipa e se sobrepõe ao resto da vida das pessoas.” (Joe Negron, escolas charter KIPP)

“É uma adrenalina, saber que podes correr um grande risco e essas pessoas estarão lá para te apoiar, aconteça o que acontecer. Somos viciados nessa sensação.” (Nate Dern, Upright Citizens Brigade, grupo de comédia)

“Somos todos sobre ser um grupo familiar, porque isso permite correr mais riscos, dar permissão uns aos outros e ter momentos de vulnerabilidade que nunca se poderia ter num ambiente mais normal.” (Duane Bray, IDEO design)

Quando visitei esses grupos, notei um padrão distinto de interação. O padrão não estava nas grandes coisas, mas nos pequenos momentos de conexão social. Essas interações eram consistentes, fosse o grupo uma unidade militar, um estúdio de cinema ou uma escola no centro da cidade. Fiz uma lista:

  • Proximidade física estreita, frequentemente em círculos
  • Grandes quantidades de contacto visual
  • Toque físico (apertos de mão, toques de punho, abraços)
  • Muitas trocas curtas e energéticas (sem longos discursos)
  • Altos níveis de mistura; todos falam com todos
  • Poucas interrupções
  • Muitas perguntas
  • Escuta intensiva e activa
  • Humor, risos
  • Pequenas cortesias atentas (agradecimentos, abrir portas, etc.)

Mais uma coisa: descobri que passar tempo dentro desses grupos era quase fisicamente viciante. Estendia as minhas viagens de reportagem, inventando desculpas para ficar mais um ou dois dias. Encontrava-me a sonhar acordado com mudar de profissão para poder candidatar-me a um emprego com eles. Havia algo irresistível em estar perto desses grupos que me fazia desejar mais conexão.

O termo que usamos para descrever este tipo de interação é química. Quando se encontra um grupo com boa química, percebe-se instantaneamente. É uma sensação paradoxal e poderosa, uma combinação de excitação e profundo conforto que surge misteriosamente com certos grupos especiais e não com outros.”

(Daniel Coyle, 2018)

Modelo de treino de Kazimierz Fidelus

Publicamos um novo tema na área Metodologia, sub-tema Metodologia geral do Treino, sub-sub-tema História do treino do futebol. Abordamos o capítulo Modelo de treino de Kazimierz Fidelus.

Referimos que apesar de não encontrarmos muitas referências bibliográficas a propósito do trabalho de Kazimierz Fidelus, vários autores e trabalhos sobre a história do treino apontam o trabalho do autor como importante na era pós Matveyev.

“o critério mais importante para perspectivar e avaliar os requisitos técnicos decorre da sua efectividade no jogo, portanto, da sua conformidade às tarefas tácticas que os reclamam”

(Fidelus, 1983) citado por (Júlio Garganta, 1997)

Pequenas decisões, grandes consequências.

“a imagem do líder é o seu exemplo. Em todas as suas atitudes.”

(Tomaz Morais, 2014) 

A última substituição de Roger Schmidt no Benfica x Arouca terá simbolizado a despedida de Rafa do Benfica após oito anos no clube. Mas não só. Por outro lado, foram os primeiros minutos de João Rêgo na equipa principal do Benfica após seis anos no clube e o lançamento de mais um produto do futebol de formação português.

Se ao contrário das últimas décadas, o lançamento de um jovem jogador formado num clube português já não é um acontecimento surpreendente e grande notícia, este caso concreto torna-se especial porque naquele momento o treinador alemão podia ter optado pela estreia do jovem argentino Gianluca Prestianni contratado esta época ao Vélez Sarsfield por 9 milhões de euros.

O nosso foco não se coloca na comparação e na avaliação do potencial e qualidade de cada um dos jogadores em causa. Coloca-se sim na decisão de Roger Schmidt, que pode parecer pequena, mas apresenta potencial para produzir grandes consequências. O momento futebolístico de João Rêgo é fruto do investimento e das qualidades do próprio, eventualmente dos seus familiares, e do trabalho de muitas pessoas durante o seu processo formativo. E ainda, de um grande investimento do clube em conjunto com um pequeno contributo da FPF dada a sua presença nas selecções nacionais jovens.

Deste modo, é dado um sinal. É reforçado e indicado um rumo. Interna e externamente. Um sinal que demonstra confiança e aposta nesse projecto de longo prazo do clube e no trabalho dessas inúmeras pessoas envolvidas no Futebol de Formação. Contribuindo assim, decisivamente, não só para a motivação das mesmas com também para a motivação dos jogadores mais jovens que virão a seguir. Em última instância trata-se da valorização do jogador português de uma forma geral. Sendo ainda que o valor que o argentino custou ao clube fortalece ainda mais a transmissão desta ideia. É portanto, uma dose de “fermento” em todo o processo. O próprio diretor-geral do Benfica Campus, (Pedro Mil-Homens, 2022), aponta isso mesmo, ao sustentar que “um clube como o Benfica só pode ter um projeto de formação na dimensão que tem — investimento, recursos humanos, instalações, expectativas — se o principal objetivo for retirar deste projeto jogadores para o seu futebol profissional”.

Treinadores de futebol de formação do AC, Milan, em entrevista ao canal do clube (AC Milan, 2013) descreveram que a maior recompensa para um treinador de formação pode ter é “ver crianças crescerem e tornarem-se homens e que alguns destes jogadores atinjam o futebol profissional. Isso quer dizer que no percurso, nós ensinámo-lhes alguma coisa valiosa”.

“Gere-se havendo diálogo, escolhendo pessoas para a direção técnica da equipa principal que se alinhem com o projecto do clube. O clube tem um projeto e as pessoas encaixam, com certos graus de liberdade, mas num rumo que é preciso manter. De outro modo o clube perde a sua identidade e o seu ADN.”

(Pedro Mil-Homens, 2022)

A era da Periodização Física

Publicamos um novo tema na área Metodologia, sub-tema Metodologia geral do Treino, sub-sub-tema História do treino do futebol. Abordamos o capítulo A era da Periodização Física.

“Nos meus primeiros anos como treinador fazia coisas piores do que me faziam a mim e as quais repudiava. Porque não sabia fazer mais nada.”

(Luís Castro, 2017)

Erros metodológicos comuns: Excessiva variabilidade dos exercícios

Publicamos um novo sub-tema na área Metodologia.Abordamos um erro metodológico comum: Excessiva variabilidade dos exercícios.

“um tipo de treino que seja a variar constantemente, não permite que o jogador distinga a informação relevante da que não é relevante. Que consiga actuar sobre essa informação. Variabilidade e estabilidade devem estar sempre presentes no treino.

(Duarte Araújo, 2022)

O paradigma de Matveyev

Publicamos um novo tema na área Metodologia, sub-tema Metodologia geral do Treino, sub-sub-tema História do treino do futebol. Abordamos o capítulo O paradigma de Matveyev.

“Foram 400 anos de pensamento analítico ou cartesiano.”

(Vítor Frade, 2017)

Erros metodológicos comuns: Ideia de jogo e treino ambíguos

Publicamos um novo sub-tema na área Metodologia.Abordamos um erro metodológico comum: Ideia de jogo e treino ambíguos.

“é por isso fundamental saber o que se quer. Quer em termos de ideias (concepção do Modelo) que ao nível da operacionalização no plano prático (concretização do Modelo em Especificidade)”.

(Pedro Pereira, 2009)

O Desporto Escolar enquanto oportunidade para passar valores. A jogadores, treinadores e pais.

“O técnico aponta para o desporto escolar como caminho para criar a cultura desportiva que falta e que poderia gerar interesse e aumentar a presença em estádios e pavilhões para jogos ao vivo, algo ainda em falta num país que já consegue formar atletas incríveis.”

(Vítor Matos, 2024)

O pensamento de Vítor Matos sobre o Desporto Escolar é sem dúvida interessante e importante, sendo fundamental a reflexão sobre o papel do mesmo no desenvolvimento do Desporto associativo.

Se do ponto de vista desportivo, um maior investimento neste contexto propiciaria mais um espaço que procurasse colmatar o desaparecimento das práticas e jogos que se realizavam na “rua”. Simultaneamente permitiria oportunidade de prática e evolução aos jovens que, ou ainda não manifestam o desejo de progredir no seu percurso desportivo, ou que não são seleccionados para o desporto formal (clubes). É sabido que os timings de maturação e desenvolvimento são diferentes para cada um e que muitos, também por essas razões acabam por não encaixar imediatamente nos clubes. Esse é outro problema, outra discussão.

“Está a acontecer uma espécie de fabricação de campeões em laboratório, o que é uma ilusão. Tem de haver um trabalho correto ao nível do clube, da escola, do desporto escolar, da educação física… Porque o trabalho no clube e no desporto escolar é para os que têm mais jeito, mas a educação física é para todos. Mas em todos estes casos há que respeitar as tais etapas de desenvolvimento das crianças e dar-lhes autonomia e liberdade de participação.”

(Carlos Neto, 2017)

Porém, o Desporto Escolar nunca será o verdadeiro substituto da “rua” e o principal meio introdutório da criança ao jogo e ao desporto. Deste modo tudo deverá ser feito para preservar a “rua” e todas as suas qualidades. Desde logo por ser genuinamente prática deliberada, território sagrado da autonomia, da auto-aprendizagem, da criatividade e derradeiramente, da… liberdade. Porque o Desporto Escolar será sempre dirigido por adultos, com tudo o que de bom e mau estes potencialmente podem trazer. Paralelamente, se no mesmo também há assistência, nomeadamente dos pais, isso torna o contexto abissalmente diferente.

E sobre estas duas últimas características, torna-se importante dar dois exemplos negativos, até para percebermos o que urge mudar. No actual Desporto Escolar existem treinadores que o conduzem como se tratasse do desporto de rendimento dos adultos. Existem exemplos de treinadores que, em competição, deixam, sistematicamente, jovens jogadores e jogadoras com pouca ou sem qualquer minuto de utilização. Tudo pelo resultado. Se já seria altamente questionável em treinadores de formação, quando são professores de Educação Física a fazê-lo, se a situação já era grave, torna-se ainda mais perversa. Ou, noutro exemplo, quando o feedback e o estilo de liderança na relação como os jogadores / jogadoras é tão agressivo e autocrático que até com adultos os mesmos seriam questionáveis.

Por outro lado, os maus exemplos também vêm da assistência, propriamente dos pais. Exemplos de palavras agressivas, injuriosa e repletas de ódio, contra árbitros, adversários e os próprios filhos chegam-nos com uma frequência assustadora. Inclusive relatos de agressões entre pais. Futsal, basquetebol, voleibol. Não é o desporto em si e até os maus exemplos que possam vir do desporto de rendimento que são decisivos. O que é decisivo, são a falta de regras, de educação, de valores. Dos adultos. Sendo que a crescente desvalorização dos contextos informais, semi-formais, formais e da própria educação física contribuem decisivamente para sintomas preocupantes que vamos assistindo na nossa sociedade. Porque, quer acreditem, quer não, o desporto e o jogo, são um dos principais veículos de transmissão de… bons… valores.

Assim, concordando com as palavras de Vítor Matos, mas mais do que cresçam em número, preocupa-nos que os espectadores cresçam em qualidade. Será um enorme desafio para o Desporto Escolar, mas também para o federado, a educação desses espectadores. Até porque o cenário alternativo, a proibição de espectadores no Desporto Escolar e mesmo no federado de Formação, colocando a possibilidade de resolver o problema a curto prazo, criará um ambiente hermético que não preparará os jovens desportistas para a pressão que mais tarde irão ser sujeitos na eventualidade de progredirem para o desporto de rendimento. Mas até podemos até acrescentar… em muitas outras vias profissionais. Por outro lado, proibindo espectadores nesses contextos, perder-se-á essa oportunidade preciosa de fazer reflectir e passar valores em quem frequenta a bancada. Porque nunca é tarde para crescer.

“Devemos olhar para os espaços de treino com mais cuidado; devemos olhar para a formação de treinadores com mais cuidado; devemos olhar para o desporto escolar com muitíssimo cuidado e atenção, pois é o desporto escolar que é o início de tudo. Se Espanha, Alemanha e Inglaterra avançaram, esteve tudo muito na base do desporto escolar, na forma como os professores e a dinâmica do ensino despertou os alunos para aquilo que são as necessidades da prática desportiva e despertou os pais para esse fenómeno.”

(Luís Castro, 2018)

O talento, a qualidade e a relação da “rua” no desenvolvimento de ambos. E ainda o potencial.

“Que saudades… (de Jackson Martínez e de James Rodríguez). Com os jogadores que fui tendo depois… percebi que não sou Deus…” 

(Vítor Pereira, 2017)

Os treinadores de Futsal, Nuno Silva e Cláudio Moreira, vão ao encontro de uma ideia que temos vindo a desenvolver. O que é o talento, o que é a qualidade individual e a relação da tão falada “rua” no desenvolvimento de ambos.

Apesar de muito referidos, quer por quem joga e treina, quer em bibliografia e por quem pensa o processo, a verdade é que não estão claros. Nem o que realmente significam, nem a sua abrangência. Nós temos uma proposta aparentemente idêntica à visão destes dois treinadores.

“Como família, éramos naturalmente rijos. Os meus pais eram rijos e o ambiente em que crescemos era rijo. Caíamos e voltamos a levantar-nos. E damos sempre o nosso melhor e tentamos ganhar. Detestávamos perder.”

irmão de Michael Jordan, Ronnie Jordan em (The Last Dance, 2020)

Antes, há ainda outra ideia que é a propensão genética. Ou seja, a influência que os genes herdados terão no talento. Uma noção clássica que ditou durante séculos vários papéis sociais e que também surgiu no desporto. Porém, vários autores como por exemplo Daniel Coyle, Anders Ericsson e Robert Pool têm-se dedicado ao tema e têm descrito um papel residual da genética no desenvolvimento do talento. Mais do que uma propensão genética, referem a importância de uma propensão social ou contextual. Seja qual for a sua influência, é o talento que apontamos como o primeiro patamar para obtenção de um elevado nível qualitativo no jogo de futebol.

“O jogador de futebol ‘faz-se’. Levei esta ideia para o Barcelona e foi uma confusão total. Eles acreditavam que o jogador de futebol nasce feito. Quase toda a gente no futebol ainda pensa assim hoje em dia. Veja, perguntei a jogadores de futebol: quantas horas na tua infância, todos os dias, dedicavas ao futebol? As respostas dos mais velhos variavam entre 6 e 8 e os atuais nunca menos de 4. E Maradona e Messi deram-me a mesma resposta: ‘Quantas horas? Todas!!’. Acreditar que o jogador de futebol nasce ensinado é um grande erro, nem mesmo acontece com os grandes craques. Cruyff é um bom exemplo; os que o viram jogar com aquela espantosa facilidade para tornar fácil o mais difícil, pensavam que ele tinha nascido jogador. Não acreditem, Johan teve a sorte de nascer junto ao campo do Ajax e de a sua mãe ser funcionária do clube. Se tivesse nascido num lar eminentemente musical, com pais profissionais e apaixonados por esta arte, Cruyff, dada a sua grande inteligência natural, teria sido um grande músico, mas não jogador de futebol.”

(Laureano Ruiz, 2014)

Em cima da propensão genética e contextual constrói-se então o talento. Para nós este surge principalmente em regime autónomo, em auto-descoberta, auto-aprendizagem e prática intensiva deliberada. Portanto, na rua, em casa, na escola, etc., mas quase sempre em auto-iniciativa e através de um desenvolvimento não assistido e liderado. É no fundo o estado mais puro do jogador de futebol, porque ainda não foi aculturado por nenhum treinador / clube e nenhuma Ideia específica de jogo ou no mínimo cultura de clube. É certo que durante o processo autónomo, naturalmente a criança e o adolescente também não estão imunes a influências culturais, aliás, desde logo estas levaram-no a jogar futebol… no entanto, nesta fase estas serão sempre uma escolha sua e não imposição.

“Ter talento não é suficiente. Porque o Futebol é um desporto de equipa.” 

(Leonardo Jardim, 2017)

Se entretanto a criança ou adolescente entrarem num clube e na prática federada, então, de forma mais ou menos intensiva de acordo com o escalão, ideias do treinador para o Futebol de Formação e eventualmente a Coordenação Técnica do clube, haverá a tal aculturação mais profunda e dirigida por terceiros, conhecimento do jogo transmitido, valores, etc.  Bons e maus. Tudo isso numa procura da optimização da eficiência e eficácia do jogador no jogo num contexto colectivo, portanto, num objectivo de alcançar qualidade. Porém, se nos aludimos ao Futebol de Formação, é seguro referir que durante este processo praticamente todas as crianças e adolescentes, paralelamente, também continuam a praticar o jogo no contexto informal, continuando assim a fazer crescer o seu talento.

“Entre as muitas histórias contadas por Vilà, sobre Messi, Xavi, Iniesta e outros tantos, apareceu uma particularmente interessante sobre Puyol. O defesa, que só chegou aos 15 anos ao Barcelona, não tinha, no entender de quem mandava, qualidades técnicas suficientes para ficar no clube. Mas aquele rapaz demonstrou tanta vontade, tanta determinação, tanto querer… que, no final, acabou por ficar. Foi aprendendo, foi melhorando, foi ficando. E, mesmo já na equipa A do Barcelona, continuava a treinar-se com Vilà, por fora, porque queria disfarçar os defeitos que tinha e, no fundo, ser melhor. E, até ao final da carreira, foi sempre melhorando. Jogadores ou treinadores, estamos sempre a aprender – e isso vai muito além dos resultados. Basta querer.”

(Mariana Cabral, 2019)

Regressando ao contexto do clube, o desenvolvimento da qualidade individual deveria ser objectivo prioritário em idades mais baixas do Futebol de Formação, e a qualidade colectiva de forma progressiva. Nomeadamente ao nível da complexidade e exigência das imposições comportamentais aos jogadores no seio de uma equipa. E finalmente já perto do escalão de seniores, um desenvolvimento, optimização e exigência sobre o seu rendimento. Individual e colectivo. Mas importa referir que qualidade individual e qualidade colectiva são interdependentes, e portanto que uma cresce com a outra, sendo o inverso também constatável. Tantos são os casos de jogadores que apresentam um alto rendimento em determinado contexto e depois noutro cai abismalmente.

“Aqui no City acho que ainda fiz um upgrade. Há uma preocupação enorme pelo detalhe e em perceber como esta equipa joga. Sinto que cresci imenso.”

(Bernardo Silva, 2019)

E aqui chegamos ao potencial. O potencial é a qualidade que perspectivamos, quer individual, quer colectivamente, e que ainda não produz, ou deixou de produzir rendimento. Deste modo, talento obviamente também perspectiva potencial. Mas num estado muito cru. A construção de uma qualidade em cima do talento, fará crescer esse potencial e aproximará a concretização desse talento em rendimento. E mais ainda em equipa. Porque num jogo colectivo ninguém verdadeiramente joga sozinho.

“Aparente paradoxo então

a auto-eco-hetero afirmação

no crescer colectivo

exalta o da individualidade

mas sem equipa consigo

nenhum jogador é bom,

e o inverso pode também

ser verdade

e assim qualidade tem.”

(Vítor Frade, 2014)

Memórias do Futebol de Rua. O golo ao ângulo.

A infância e adolescência imprimiu-nos memórias incríveis. Num plano de imaginação e criatividade infindável, as brincadeiras e os jogos que realizávamos na rua tinham um poder fenomenal para nos fazer sonhar. O futebol, culturalmente o jogo de maior impacto na maioria das sociedades, absorvia muitas crianças nesses contextos, fazendo-as visualizar feitos incríveis no próprio jogo da rua. Porém, em paralelo, também um dia num grande estádio numa final de uma grande competição.

Mas essa imaginação levava-nos a sonhos concretos. Na galeria dos mais notáveis, tínhamos o golo em pontapé de bicicleta, o golo em em remate “de primeira”, a jogada em que driblávamos todos os adversários e marcávamos ou assistíamos, a intercepção imperial sobre a linha de golo, o desarme limpo em tackle a um adversário que se preparava para ficar isolado, o túnel perfeito, o drible que desorientava por completo o adversário, a defesa do guarda-redes completamente em voo que interceptava um remate extraordinariamente colocado, e claro está… o fenomenal golo ao ângulo da baliza. Indiscutivelmente um local místico do campo de futebol. Símbolo da perfeição, de lendas e de mitos.

O golo ao ângulo da baliza ou lá próximo, era até antecedido por uma sensação de sucesso na execução de quem rematava, imediatamente após a bola sair do seu pé. Era como que uma espécie de premonição do que estava para acontecer. E nesse caso, no mínimo a bola encontrava o poste ou a barra da baliza, o que não providenciando eficácia, seria na mesma espectacular.

Na rua, ou no jogo de rendimento, este golo lendário promove uma sensação de admiração e êxtase entre jogadores e adeptos, pois é visto como um momento de pura genialidade. Assim, é muitas vezes lembrado e revivido, tornando-se parte da história e da mitologia do jogo.