Tag Archive for: metodologia

Monge da Silva e a impossibilidade de separar o que o jogo… e a vida… junta

O texto “Teoria do treino: Que qualidades físicas? Que classificação?”, publicado por David Monge da Silva em 1985 na revista Treino Desportivo, é um daqueles documentos que não deve ser lido apenas pelo que diz, mas sobretudo pelo lugar que ocupa na história da teoria do treino em Portugal.

Monge da Silva pertenceu a uma geração que viveu num espaço de transição: entre a prática de campo, a reflexão académica e a necessidade de construir uma linguagem mais rigorosa para o treino desportivo. Foi professor universitário, investigador, formador e preparador físico no Futebol, tendo estado ligado a diferentes modalidades, federações, diferentes contextos de rendimento e à reflexão metodológica sobre o treino.

Esse percurso ajuda a explicar a natureza do artigo. Não se trata de uma especulação afastada da prática. Trata-se de uma reflexão teórica feita por alguém que conhecia o treino, mas que percebia que o treino precisava de outro pensamento.

Logo no início, (Monge da Silva, 1985) identifica um problema central: a confusão terminológica no treino português. Muitos treinadores e técnicos tinham sido influenciados por formações oriundas de países diferentes e, por isso, transportavam linguagens diferentes, conceitos diferentes e classificações diferentes. O resultado era uma teoria fragmentada, muitas vezes incapaz de ajudar verdadeiramente a prática.

Mas o problema de Monge da Silva não era apenas terminológico. Era mais profundo. Não se tratava apenas de escolher melhores palavras. Tratava-se de perceber se as palavras usadas eram capazes de explicar a realidade.

A pergunta do artigo é simples e decisiva: quando falamos de força, velocidade e resistência, estamos a falar de realidades claramente separáveis ou estamos a criar divisões artificiais sobre uma realidade que, no movimento desportivo, é contínua?

É aqui que o texto ganha valor histórico.

Segundo (Monge da Silva, 1985), “quando observamos qualquer actividade desportiva não vemos força, velocidade ou resistência e muito menos as qualidades intermédias”. O que vemos são movimentos. Movimentos que acontecem no espaço e no tempo. E esses movimentos tornam-se possíveis, também, através da contracção muscular.

Esta ideia muda o ponto de partida. Em vez de partir das chamadas qualidades físicas tradicionais, Monge da Silva recua para algo fundamental que está por detrás do movimento: a contracção muscular.

A partir daí, propõe três parâmetros quantificáveis: duração, velocidade e grau de tensão.

A duração corresponde ao tempo durante o qual a contracção muscular se prolonga. A velocidade corresponde à rapidez com que essa contracção e descontração ocorrem. A tensão corresponde ao grau de força produzido para vencer uma resistência exterior.

Para (Monge da Silva, 1985), nenhuma contracção muscular pode ser correctamente caracterizada sem a articulação destes três parâmetros. É daqui que nasce o seu modelo tridimensional das qualidades físicas.

Até aí, o treino tradicional tendia a pensar de forma linear. A força era uma linha. A velocidade era outra. A resistência era outra. Depois, quando a realidade começou a mostrar-se mais complexa, surgiram qualidades intermédias: força rápida, resistência de força, resistência de velocidade. Mas, para Monge da Silva, esse caminho apenas prolongava o erro. Criavam-se mais nomes, mas não se compreendia melhor a realidade.

O modelo tridimensional propõe outra coisa. Em vez de pensar a força, a velocidade e a resistência como compartimentos autónomos, pensa-as como zonas de um mesmo volume. A tensão, a duração e a velocidade são três eixos que se combinam continuamente. Quando um parâmetro se aproxima do máximo, os outros tendem a baixar. Mas a maioria das acções desportivas não vive nos extremos. Vive nas combinações intermédias.

É por isso que (Monge da Silva, 1985) mostra que entre força e velocidade não existe uma fronteira clara. Entre força e resistência também não. Entre velocidade e resistência também não. Segundo o autor, “entre força e velocidade não existem soluções de continuidade que definam onde começa uma e acaba outra”.

A consequência é enorme: classificar pode ajudar a pensar, mas também pode deformar a realidade.vNo Futebol, isto torna-se decisivo.

Monge da Silva percebe que os jogos desportivos colectivos não pertencem aos vértices clássicos do modelo. O jogador de Futebol não é um halterofilista, embora precise de produzir tensões elevadas. Não é um velocista, embora precise de ser rápido. Não é um maratonista, embora precise de resistir. Por isso, a sua preparação não pode ser a soma de métodos importados da halterofilia, do atletismo ou da corrida de fundo.

Segundo (Monge da Silva, 1985), “os jogos desportivos colectivos exigem esforços intermitentes em que o atleta desenvolve grandes tensões musculares mas não é halterofilista, precisa de resistência mas não é maratonista e tem de ser rápido mas não é velocista”. Esta frase continua actual.

Ainda hoje, muitas propostas de treino caem no mesmo erro. Retiram o jogador do jogo para desenvolver capacidades que, depois, se espera que regressem ao jogo por transferência quase automática. Corre-se para ganhar resistência. Levanta-se peso para ganhar força. Fazem-se sprints para ganhar velocidade. Mas o Futebol não pede “força” em abstracto, nem “resistência” em abstracto, nem “velocidade” em abstracto.

O Futebol pede acções situadas. Pede tensão, duração e velocidade em contexto. Pede contracções musculares subordinadas a intenções, decisões, relações, espaços, adversários, companheiros, bola e baliza. É por isso que este artigo está tão próximo do terreno conceptual que mais tarde será aprofundado por Vítor Frade.

Convém sermos rigorosos: não se deve afirmar, sem prova documental directa, que o artigo de Monge da Silva foi um dos alicerces da Periodização Táctica. Essa afirmação seria excessiva e metodologicamente frágil. O que se pode afirmar, com maior segurança, é que o seu pensamento pertence ao mesmo clima intelectual que ajudou a tornar possível a ruptura metodológica protagonizada por Vítor Frade. Monge da Silva surge como uma referência próxima, respeitada e reconhecida pelo próprio Frade, não apenas no plano pessoal, mas também pela importância que teve na sistematização do Treino Desportivo em Portugal.

A sua crítica à separação artificial dos factores do rendimento, a recusa de uma preparação física desligada do jogo e a defesa de um treino mais enraizado nas situações reais aproximam-no das preocupações que viriam a ser radicalizadas pela Periodização Táctica. Ainda assim, há uma diferença decisiva: Monge da Silva ajuda a abrir caminho à crítica; Frade transforma essa sensibilidade num novo paradigma, fazendo da forma de jogar, da especificidade, da intencionalidade colectiva e da operacionalização do Modelo de Jogo o núcleo organizador de todo o processo.

Sintetizando, Monge da Silva é então um autor nuclear na evolução do treino desportivo. Primeiro, porque rompe com a divisão analítica do treino. Depois, porque defende uma leitura globalizante da preparação. Finalmente, porque coloca a contracção muscular e a dinâmica da carga numa lógica específica, e não abstracta.

E Vítor Frade desenvolveu a Periodização Táctica a partir de uma ideia ainda mais radical: no Futebol, o treino deve ser comandado pelo jogar que se pretende construir. A dimensão física não desaparece, mas deixa de existir isolada. Passa a estar subordinada à organização de jogo, aos princípios, aos subprincípios, aos comportamentos colectivos, às acções individuais e às regularidades que a equipa pretende estabilizar.

Portanto, neste sentido, a proximidade entre Monge da Silva e Frade é evidente.

Em (Monge da Silva, 1985), a crítica incide sobre a impossibilidade de separar força, velocidade e resistência como qualidades autónomas. Em (Vítor Frade, 1985), a crítica metodológica aponta para a necessidade de pensar o Futebol a partir da sua especificidade e não a partir de modelos importados de outras modalidades ou de outras lógicas de treino.

Monge da Silva fornece uma gramática. Frade reorganiza essa gramática em função do jogar.

É também aqui que aparecem os conceitos que se tornarão muito importantes na operacionalização da Periodização Táctica: tensão, duração e velocidade da contracção muscular. No morfociclo, estes conceitos deixam de ser apenas categorias fisiológicas ou mecânicas. Passam a ser formas de regular a alternância horizontal em especificidade.

Ou seja, não se trata de treinar “força” num dia, “resistência” noutro e “velocidade” noutro, como se fossem qualidades independentes. Trata-se de manipular, ao longo da semana, diferentes dominâncias da contracção muscular, sempre dentro do objectivo dominante da especificidade do jogar.

Num dia, o regime pode estar mais associada à tensão específica. Noutro, à duração específica. Noutro, à velocidade específica. Mas sublinhamos, tudo deve emergir de exercícios que pertencem ao jogo da equipa. A contracção muscular não é separada da decisão. A carga / estímulo não é separada do comportamento. O esforço não é separado da intenção.

É aqui que a influência conceptual de Monge da Silva ganha força.

Porque, ao substituir a linguagem clássica das qualidades físicas por tensão, duração e velocidade da contracção muscular, abre-se a possibilidade de pensar o esforço de forma mais específica, mais contínua e mais ajustada ao Futebol.

A diferença está no centro de gravidade. Em Monge da Silva, o ponto de partida ainda é a contracção muscular e a dinâmica da carga. Em Vítor Frade, o ponto de partida passa a ser o jogar. Mas a crítica de fundo é comum: o Futebol não pode ser compreendido pela soma das suas partes.

E é isto que é fundamental. Monge da Silva não está apenas a discutir fisiologia. Está a discutir a relação entre modelo de jogo e modelo de preparação. Segundo o autor, é necessário caracterizar o tipo de esforço que o jogador desenvolve em competição, porque é a partir desse modelo que se deve enquadrar o processo de treino.

Isto antecipa uma das grandes ideias do treino contemporâneo: o treino deve nascer da competição que se quer jogar. Não de uma competição genérica, mas do jogo concreto que a equipa pretende construir. No Futebol, isto obriga a uma mudança profunda.

Um exercício não é bom porque “trabalha força”. É bom se provoca o tipo de tensão que o jogador precisa de manifestar no jogo que a equipa quer jogar.

Um exercício não é bom porque “trabalha resistência”. É bom se faz emergir a duração específica de acções, decisões e interacções que a competição solicita.

Um exercício não é bom porque “trabalha velocidade”. É bom se a velocidade que promove tem sentido no jogo: acelerar para pressionar, travar para ajustar, desmarcar para receber, fechar por dentro, temporizar, saltar à pressão, atacar a profundidade, reagir à perda, sair da pressão.

Por isso, o artigo de Monge da Silva continua a ter impacto prático.

Ele obriga o treinador a olhar para o exercício como uma unidade complexa. O espaço, o tempo, o número de jogadores, a dimensão do campo, as regras, as balizas, as pausas, a densidade, a oposição, a direcção, a bola, a fadiga, a concentração e a intenção não são detalhes. São condições que alteram a contracção muscular, a tomada de decisão e a adaptação.

O próprio autor identifica factores da carga como massa muscular solicitada, condições objectivas e concretas de realização do movimento, intensidade, volume e complexidade. A complexidade, em particular, é entendida como dimensão neurológica da carga, relacionada com o grau de dificuldade do movimento e com a solicitação da estrutura perceptivo-cinética.

Este ponto aproxima ainda mais Monge da Silva do Futebol actual. Porque o Futebol não é apenas correr. É correr percebendo. Não é apenas contrair. É contrair decidindo. Não é apenas repetir. É repetir com sentido. Talvez esteja aqui a sua maior actualidade.

O texto de 1985 combate uma consequência nefasta do atomismo: a ilusão de que o conhecimento nasce da divisão infinita, de um atomismo nefasto, como se compreender melhor significasse apenas partir a realidade em unidades cada vez mais pequenas, isoladas e autónomas. É evidente que analisar é necessário. Mas, no Futebol, analisar sem regressar ao todo é perder o essencial.

Passados mais de 40 anos, o atomismo crescente nos clubes e nas equipas técnicas em “especialistas” de tudo — fisiologia, análise de jogo, “técnica e táctica individual”, “performance”, nutrição, psicologia, entre tantas outras áreas — recupera o mesmo problema central: a tendência para dividir o rendimento em partes e, depois, acreditar que a soma dessas partes devolve o jogador inteiro. Não devolve. O jogador não joga com a força, a velocidade, a resistência, a técnica, a táctica e a psicologia em gavetas separadas. Joga inteiro. Decide inteiro. Erra inteiro. Adapta-se inteiro.

Nesse sentido, David Monge da Silva não escreveu apenas sobre qualidades físicas. Escreveu contra a ingenuidade das classificações. Escreveu contra o treino que confunde nomes com conhecimento. E abriu caminho para uma compreensão mais específica, mais global e mais futebolística da preparação.

Quarenta anos depois, a sua pergunta continua viva: que qualidades físicas?

Talvez a resposta mais futebolística seja: nenhuma, se forem entendidas isoladamente.

O que existe é o jogar. E, dentro dele, tensões, durações, velocidades, decisões, intenções e relações que só ganham sentido quando pertencem a uma ideia de jogo.

“A preparação física não existe.”

“A preparação física não existe.”

(Paco Seirul·lo)

“O vídeo é um instrumento poderosíssimo”

“quando a qualidade é muito elevada, até por video consegues passar as tuas ideias, embora depois os timings perfeitos só surjam com o trabalho de campo. Quanto maior a qualidade, menos tempo precisas…”

(Pedro Bouças, 2017)

“Às vezes temos a tendência de não valorizar a parte em relação ao todo, mas a parte faz parte do todo e é fundamental para que tudo flua da melhor forma”

“É útil olhar para o experimento da maçã podre sob esta perspectiva. Nick conseguiu perturbar a química dos grupos apenas enviando alguns sinais de não pertença. O seu comportamento foi um sinal poderoso para o grupo — não estamos seguros — o que imediatamente fez com que o desempenho do grupo desmoronasse. Jonathan, por outro lado, forneceu um fluxo constante de comportamentos subtis que sinalizavam segurança. Ele conectou-se individualmente, escutou atentamente e sinalizou a importância da relação. Ele foi uma fonte inesgotável de sinais de pertença, e o grupo respondeu de acordo.”

(Daniel Coyle, 2018)

Nos últimos séculos, a sociedade foi dominada por um pensamento analítico, caracterizado pela divisão e dissecação do conhecimento em partes menores para melhor compreensão e controlo. Essa abordagem trouxe grandes avanços científicos e tecnológicos, mas também levou a uma visão fragmentada da realidade. Hoje surge uma tendência oposta: a sobrevalorização do pensamento holístico na demanda de integrar diferentes partes e reconhecer a complexidade do todo. No entanto, esta nova tendência surge eventualmente como compensatória ao tremendo domínio que o pensamento analítico exerceu e vai além do patamar de equilíbrio da análise com a síntese. Deste modo, em diversas áreas observa-se, pensa-se e actua-se excessivamente sobre o todo e esquece-se a importância das partes. O futebol, ainda que repleto de diferentes exemplos, também vai manifestando este problema.

Muitas vezes observa-se o jogo, seja quantitativa ou qualitativamente pela sua totalidade, quer pela estatística e quantidades de acontecimentos recolhidos, quer através da análise qualitativa de comportamentos colectivos, intersectoriais, sectoriais  e grupais. Esquecem-se as acções individuais e a execução técnica. O pensamento contagiou muitos treinadores que descuram a dimensão individual do jogo, quer no crescimento dos jogadores a este nível quer no combate às suas lacunas. Esquece-se então o jogador, a sua unicidade e individualidade e o quanto isso pode fazer a diferença no seio de uma equipa e no jogo. Como esclarece Vítor Frade, em entrevista a (Xavier Tamarit, 2013), “o que dirige o Processo é uma matriz, é uma ideia de jogo e de operacionalização, porque a Especificidade só é garantida… não é garantida pelo macro, é garantida pela intervenção que você consegue ter em todas as particularidades, de forma que elas contribuam para o todo, porque senão, não é Especificidade. Caso contrário, você não vai identificar que Joaquim é diferente de Manuel, e isto é diferente daquilo. Portanto, a Especificidade também está aí… e as partes melhorando, melhoram o todo”.

Uma equipa técnica é outro bom exemplo. A competência da mesma é certamente gerada pelo todo que se gera na interação das partes, ou seja, cada técnico. Mas a individualidade, aérea de especialidade, experiência e competência individual, são também fundamentais para que esse todo seja melhor.

Um destes técnicos, Vítor Matos, no passado formando equipa com Pepijn Lijnders no Liverpool de Jürgen Klopp e que agora acompanhou o neerlandês num novo desafio no Red Bull Salzburg, aborda a questão pela dimensão sócio-afectiva e dinâmica do grupo. O treinador português defende a importância da individualidade e das escolhas do treinador na construção da equipa. Certamente, nada de novo. Os bons e mais experientes treinadores terão há muito (para não dizer desde que o futebol é futebol), uma intuição e sensibilidade para tal. Racionalizar isto, na perspectiva de alguém que, pelo trajecto que teve no futebol acreditará na mudança de paradigma vivida nas últimas décadas nomeadamente ao nível do pensamento holístico, complexo e sistémico, é que é  se torna raro na hoje em dia. Porque tal como na restante sociedade, vivemos uma tendência para a polarização de crenças e atitudes.

“É um desafio pelas relações que se vão criando. Por isso é tão importante a ideia de jogo e este compromisso coletivo. É normal, quando tens dois ou três jogadores de uma nacionalidade e dois ou três de outra e por aí fora, que eles se relacionem mais entre eles, por grupos. O desafio é que nos consigamos conhecer melhor, de forma a que, no jogo, tudo flua naturalmente. Às vezes, é o próprio jogo que leva a essa naturalidade. Por essas razões, ao olharmos para o mercado, fomos buscar alguém com mais experiência, o Janis Blaswich, um jogador com maturidade, um capitão, que ajudasse a que existisse uma maior maturidade também nestas questões. É importante ter sensibilidade para este tipo de questões. Mas, mais do que aquilo a que nós [treinadores] possamos apelar, os jogadores também têm de, eles próprios, criar o seu próprio espírito de equipa. Acreditamos muito que os jogadores têm ownership, que sejam capazes de construir e criar uma cultura partilhada. Às vezes temos a tendência de não valorizar a parte em relação ao todo, mas a parte faz parte do todo e é fundamental para que tudo flua da melhor forma”.

(Vítor Matos, 2024)

A construção do talento

“As habilidades são apenas circuitos no teu cérebro.”

Daniel Coyle

 

Um tema desta importância e magnitude merecerá uma abordagem mais profunda no futuro e uma página exclusiva no projecto Saber Sobre o Saber Treinar. Inclusivamente, o talento já foi contextualizado num artigo recente sobre a nossa visão do desenvolvimento do jogador de Futebol. Mas tal não nos impede de irmos acrescentando ideias e conhecimento sobre o assunto.

Torna-se fundamental compreender em definitivo que o talento, ao contrário do que durante muito tempo era defendido, trata-se de uma construção. Nenhum ser humano nasce a saber e dominar determinado assunto, área ou actividade. Isso acontece quando várias condições… e tempo… se reunem. O professor Júlio Garganta justifica que se parte “do princípio de que o talento, que um jogador de futebol já nasce, um grande treinador já nasce, um grande músico já nasce. Isso causa-se algumas dúvidas importantes, porque não só porque há vários estudos que comprovam que isso não é verdade, não há em nosso genoma de entre 25.000 a 27.000 genes, nenhum que tenha sido identificado como traduzindo o que é um arquiteto, um jogador de futebol, não digo já se é guarda-redes, avançado, médio, um pivô, um médico ou músico, algo assim, não foi encontrado até agora. Quando olhamos para as histórias de vida dos grandes executantes, em várias atividades humanas, vemos que o que devemos fazer é perceber a história onde começaram, como se desenvolveram, as oportunidades que foram criadas, as que não foram criadas, as que foram conquistadas. E vemos que o talento se treina, se aprende, é muito construído. Muitas pessoas têm, e é por isso que digo que o potencial talento pode existir antes, mas o jogador só existe depois do treino dos jogos”.

É referido no vídeo que “a cultura em que vivemos faz uma grande diferença”. Facilmente se compreende porque é que, entre outros exemplos, um país como os Estados Unidos da América, perante o seu volume populacional, programas desportivos escolares e condições disponibilizadas para a prática desportiva, não gere a quantidade de talento que por exemplo emerge no Brasil. Já para não darmos exemplo de países mais pequenos como Portugal. Entre várias diferentes condições destaca-se o diferente valor social dado ao Futebol o que influencia mais ou menos jovens à sua prática deliberada intensiva. O professor (Silveira Ramos, 2003) sustenta que “tendo o futebol um grande impacto socio-cultural e desportivo, isso provoca uma enorme atração para a sua prática, e normalmente é na rua que, por hábito, começa a paixão e o gosto pela prática do futebol, sendo “iniciada por muitos praticantes de forma absolutamente espontânea, sem qualquer base teórica nem orientações para a sua aprendizagem”.

Ora, essa prática “espontânea” ou deliberada, requisitará uma necessária adaptação do conhecimento da criança ao fenómeno complexo que é o jogo de Futebol. Como é dito no vídeo, o cérebro humano, e ainda mais enquanto criança e jovem, detém uma enorme neuroplasticidade e capacidade de aprendizagem possibilitando a aquisição de qualquer conhecimento ou habilidade… o que no fundo… também é conhecimento como referia Daniel Coyle. Até a reconhecidamente complexa física quântica. Não acredita? A autora (Zeeya Merali, 2023) relata uma experiência educacional que envolveu 54 estudantes, com idades entre os 15 e os 17 anos. Os mesmos “foram seleccionados aleatoriamente de entre cerca de 1.000 candidatos, de 36 escolas do Reino Unido – maioritariamente escolas públicas. Os adolescentes passaram duas horas por semana em aulas online e, após oito semanas, realizaram um teste utilizando questões de um exame de física quântica de pós-graduação de Oxford. Mais de 80% dos alunos foram aprovados e cerca de metade obteve distinção”.

Para não alongarmos muito esta abordagem ao tema, deixamos a visão de dois “cientistas do talento”. Os autores (Anders Ericsson & Robert Pool, 2016), através dos seus estudos, explicam que “se conversares com estas pessoas extraordinárias, perceberás que todas elas entendem isto a um nível ou outro. Podem não estar familiarizadas com o conceito de adaptabilidade cognitiva, mas raramente aceitam a ideia de que atingiram o pico nos seus campos por serem os sortudos vencedores de alguma lotaria genética. Elas sabem o que é necessário para desenvolver as habilidades extraordinárias que possuem porque experienciaram isso em primeira mão“.

“Tive sorte porque na minha geração, onde vivia, havia muitos rapazes da minha idade. Fora da escola, o tempo todo era: “Vamos jogar futebol.” Eu sempre tinha cerca de cinco ou seis rapazes a jogar futebol comigo. É a forma clássica de futebol de rua, não é? Mas o meu irmão Marcel não teve isso porque só havia raparigas da idade dele. Por isso, para ele era completamente diferente. Ele não tinha ninguém da idade dele para jogar. Então ele tinha que jogar ou comigo e com os meus amigos ou com o Ronald, que é mais velho. Por isso, quando as pessoas me perguntam: “Como é que te tornaste num jogador de futebol profissional?” talvez seja uma das razões.”

Dennis Bergkamp em (David Winner, 2013)

A decisão de Endrick. Pensá-la de forma linear ou de forma complexa.

“Não é fácil, e sobretudo temos de ter perfeita noção que não há receitas, apela fundamentalmente ao Sentido da Divina Proporção, daí que não faça sentido estabelecer momentos para a utilização tanto do feedback ou do feedfoward. E esse é o lado engraçado e desafiador do processo, não há receitas, tem de haver arte na gestão de tudo isto. Eu penso inclusive que muita da robotização manifesta por muitos jogares resulta da renúncia da parte dos treinadores ao lado intuitivo da gestão dos processos de treino. Parece que parte da pergunta feita, “em que momentos utiliza-os” espelha uma tendência generalizada nos treinadores, e que quanto a mim radica na não capacidade de lidarem com a complexidade e com o que esta implica, nomeadamente a necessidade de estarmos perante uma realidade que não é à partida totalmente conhecida.”

(Jorge Maciel, 2011)

Durante muito tempo acreditámos que existiam melhores decisões para resolver um determinado problema que o jogo coloque. Referimo-nos principalmente a situações que vão emergindo como padrão. Por exemplo, como decidir do ponto de vista atacante um contra-ataque em 3×2+GR, tendo inclusive em conta os diferentes comportamentos que os defensores e o Guarda-Redes poderão adoptar. Ainda acreditamos que existem melhores decisões do que outras. A principal passa por o Futebol ser um jogo com determinadas regras e especificidade, no qual não vale tudo, nem tudo tem a mesma validade qualitativa para o jogar ou se ser bem sucedido. Ou no limite, diferentes comportamentos, mesmo que no mais ínfimo detalhe, diferentes consequências na eficiência e eficácia no jogo. Resumindo, melhores decisões farão então crescer a eficiência e a eficácia no jogo.

Porém, a experiência e conhecimento levam-nos a reflectir, se hoje os treinadores em geral, não estão a condicionar as decisões de forma excessiva. É um debate recorrente, tendo em conta o argumento já clássico que recorre à forma como jogávamos na rua, e como, sem a presença do treinador, o jogo nos ensinava pela tentativa, erro e feedback sócio-emocional a regular a e modelar o nosso jogar do ponto de vista do trinómio Estética-Eficácia-Eficiência. E influenciando directamente tudo isso, obviamente que todos tínhamos velocidades e interesses diferentes sobre este desenvolvimento, o que se tornava decisivo no processo. Como maior exemplo, se quase todos sonhávamos em vir a ser jogadores de futebol profissionais, apenas alguns acreditavam mesmo nisso com a suficiente ambição, determinação e resiliência para efectivamente lá chegar.

Emerge então essa questão fundamental. Se os treinadores e a sua eventual excessiva intervenção, mecanização, e castração da criatividade, autonomia e individualidade, não estão então a condicionar e formatar os jogadores para perfis idênticos e de limitado poder autónomo, cognitivo, criativo e de pensamento divergente. A resposta parece-nos clara no Futebol de Formação. Mas quando a discussão se alarga ao Futebol de Rendimento, tendo em conta as necessidades do contexto em maximizar a eficácia e o pouquíssimo tempo que existe para treinar, a questão torna-se mais complexa.

O golo marcado por Endrick no Real Madrid x Estugarda para a Liga dos Campeões levantou uma importante discussão num grupo de treinadores de Futebol. A situação foi a referido atrás: o clássico contra-ataque 3×2+GR com mais 2 atacantes a chegar. Na nossa mente, são vários os sub-princípios ofensivos que podem ajudar a tornar mais eficiente a resolução da situação e portanto, mais fácil a finalização. Por outro lado, a finalização pelo jogador em condução pelo corredor central é uma dessas soluções e que acontece muito frequentemente no Futsal quando os dois defensores permitem aproximação à sua baliza e abrem espaço entre si, para que o remate seja efectuado com sucesso. E tão próximo da baliza, a capacidade de reação do Guarda-Redes torna-se mais curta. Mas não foi o caso. O jovem brasileiro finalizou de uma posição ainda distante da baliza.

Neste enquadramento, apesar da eficácia da decisão que tomou, tendo em conta a eventual dificuldade da mesma, terá decidido mal. Clarificando, decido mal numa perspectiva a prazo. Ou seja, repetindo a decisão mais 10 vezes, poderia não ter sucesso em mais nenhuma. Isto porque num pensamento lógico e linear, tomando uma decisão mais difícil muitas vezes, logo, de probabilidade de sucesso menor, irá perder essa oportunidade várias vezes. Diminuindo a eficiência, teremos então consequências na eficácia.

Mas perante uma potencial evolução de pensamento, este raciocínio, sublinhamos, torna-se simplificado e linear. Isto porque só estamos a pensar em tempo, espaço, número e na ”média“ da dificuldade das acções individuais para os jogadores em geral. Não estamos a pensar de forma complexa. Não estamos a pensar em que a acção humana não é linear, que existem jogadores que resolvem determinados problemas e acções muito melhor que outros. E neste caso concreto, a questão será… se Endrick voltar a tomar a mesma decisão… se voltará a marcar golo. É provável que não. Mas não sabemos sequer se volta a tomar a mesma decisão, até porque as circunstâncias são irrepetíveis. Cada ser humano é único. Como cada uma das suas decisões.

Fruto da nossa educação e cultura, somos levados a pensar de forma. Como tal tendemos a ignorar dimensões influentes no processo. Não ”vemos” intuição, qualidade da criatividade e do pensamento divergente. Temos dificuldade em sentir o que, naquele momento, a confiança de cada um pode aportar à situação. E isto são só alguns dos fenómenos que não vemos ou sentimos. Haverá muito mais certamente. Desejamos fechar o espectro de análise para conseguir catalogar, colocar em caixas, moldar e guiar, mesmo que na nossa mente isto não seja num sentido fechado. Mas no final torna-se sempre. O problema é se as “regras” traçadas pelo treinador ao jogo que quer que os jogadores joguem, limitam qualidades que o jogador tem ou está a ter, e o treinador não as vê ou sente.

Não existem jogadores iguais, com qualidades iguais, em momentos qualitativos iguais. Tal como as circunstâncias, por muito que se aproximem de forma semelhante. E é de facto o papel do treinador no treino, aproximá-las do jogo, tendo no entanto a consciência que nunca se irão verdadeiramente repetir. Assim, deve então propiciar contextos que se posicionem num limiar onde existirá transfere do treino para o jogo, conseguindo dessa forma potenciar e não castrar ou prejudicar.

Este caminho passa pela criação de princípios a diferentes escalas do jogo. Que são isso mesmo… princípios. Porque o seu desenvolvimento e final irá caber sempre aos jogadores e ao ”aqui e agora” do jogo. Dando o mesmo exemplo, dificilmente criamos a real condição da acção de Endrick, em ter acontecido nos derradeiros segundos dos descontos… e como o resultado se encontrava naquele momento. E consequentemente, o contexto emocional vivenciado. E “só” isto tem potencial para mudar a decisão de um jogador.

Por outro lado estamos sempre, no registo do certo ou errado. Da boa e má decisão. Estamos formatados para isso. Para a dualidade, para o binário. O que a ciência começa-nos a provar, é que a realidade não é assim. O “gato está vivo e morto até abrirmos a caixa”… 

Não estamos a defender o oposto da mecanização. Estamos a argumentar que devemos ter sensibilidade para o contexto de cada acção. E como Vítor Frade defende, devemos dar espaço à “divina proporção”. E como também diz… em ajudar a construir “mecanismos não mecânicos”. E isto passa pela intuição e decisão do treinador em criticar, valorizar, ou às vezes não intervir e deixar fluir. Como pensamos que deve ser este caso. Se no futuro começar a originar um padrão negativo… aí sim… condicionar ou mesmo reprimir a decisão. Até porque, na decisão tomada pelo jogador brasileiro, e sublinhado a ideia passada anteriormente, nas tais características lineares (tempo, espaço, número), não estamos a considerar a intuição, o pensamento divergente e a confiança. Que não só são fundamentais para muitas vezes desbloquear situações de jogo, como a nível macro, para o jogo evoluir. O Guarda-Redes do Estugarda, muito provavelmente, tal como nós, não previu aquela decisão do Endrick e por isso não a defendeu melhor…

Todos os que jogámos, e principalmente na rua, sentimos em determinados momentos uma intuição e uma confiança inabalável numa decisão ou execução mais difícil. Mesmo perante outras alternativas de decisão e execução bem mais fáceis. Mas decidimos fazê-lo porque sentimos que íamos ter sucesso. E tivemos. E como, do ponto de vista externo, medir ou avaliar isto? Não sentindo, torna-se de facto muito difícil. Por outro lado, avaliar uma acção pelo seu sucesso, torna-se o caminho mais simples, apesar dos riscos em si inerentes. E no fundo, é informação superficial. Tonar-se claro o grande desfio evolutivo que temos pela frente.

Concluindo, e lançando um tema futuro, é curto avaliar uma acção de jogo apenas através de tempo-espaço-número. Se há algum tempo para trás referíamos a importância de acrescentar a qualidade, hoje sentimos que a mesma também não pode ser considerada de fechada, mas sim muito influenciada por diferentes estados emocionais e diferentes contextos. Portanto, continuamos a acreditar que existem melhores decisões para resolver um determinado problema. No entanto, compreender as mesmas carece de uma visão mais complexa, do homem, do jogador, e está também mais dependente do contexto e do aqui e agora do jogo.

“nós normalmente quando acentuamos muito o que é táctico, temos tendência a robotizar, temos tendência a querer um futebol quase sem erros, um futebol mecânico. Eu já tive essa tendência, por exemplo, direccionar muito o feedback do exercício, sistematicamente parar para corrigir e não deixando que o jogo flua, é importante deixar fluir o jogo. Ás vezes estou no treino a ver uma solução, que para mim é a melhor solução, porque vem no sentido daquilo que é a minha ideia de jogo, por exemplo, quando a bola entra no corredor quero que haja a tentativa de forçar esse corredor em situações de dois contra um, através do envolvimento do lateral ou através do envolvimento do médio centro. Mas eu tenho um extremo direito que é muito melhor jogador daquilo que eu fui, mas muito melhor jogador, e muitas vezes aquilo que eu fui como jogador limita-me em termos de leitura daquilo que está acontecer, isso acontece montes de vezes, estou à espera de um movimento qualquer e o movimento sai correcto, o movimento sai correcto e a bola não entra, tenho a tentação de dizer é neste momento, tau, mas esse meu extremo direito inventa futebol, mas inventa futebol com uma qualidade acima da minha, do meu entendimento. Ele consegue descobrir soluções que eu no meu entendimento não consigo perceber, no momento não consigo perceber o que ele quer mas ele descobre, ele descobre porque ele tem muito mais qualidade do que eu algum dia tive e apesar de eu estar de fora ele é capaz de descobrir soluções… Aqui há uns anos se ele não jogava no movimento que eu pretendia, ficava chateado, porque achava que ele não estava a corresponder à dinâmica do colectivo. Agora deixo fluir, porque percebo que ele me consegue dar, a maior parte das vezes, soluções muito mais ricas do que aquelas que eu estava à espera. Eu não limito a criatividade, eu deixo criar mas tem que ser… agora, se ele me cria uma vez e perde a bola, se me cria duas vezes e perde a bola, sistematicamente colocando em causa o que é o colectivo, ai isso para mim não é criatividade. Para mim ele está a recrear, não está a criar para a equipa. O problema é nós deixarmos que eles do ponto de vista individual consigam emprestar o mais possível ao colectivo.”

(Vítor Pereira, 2009)

“O futebol é um jogo de erros. E dos erros aprende-se.”

“No final, é o que fazes para poder ganhar e isso é o mais importante.”

“Então, juntaste muita informação, mas, mesmo assim, não conseguiste ensinar um quarterback a receber um snap”

“Então, como há muito negócio e o futebol gera um volume económico espetacular, começa a entrar gente que não tem nada a ver com futebol e que se apodera do futebol. Intermediários e representantes ganham mais dinheiro do que muitos treinadores e jogadores, sem jogarem. Especialistas de todo o tipo. Aparece a ciência e trata de dizer aos donos, aos que têm dinheiro, que há uma forma de controlar o jogo, de medir o jogo, quando é absolutamente falso. Eu acredito na ciência, claro que acredito na ciência, mas naquela ciência que tem em conta a incerteza.”

(Óscar Cano, 2022)

“Havia algo irresistível em estar perto desses grupos que me fazia desejar mais conexão.”

No livro “The Culture Code” de (Daniel Coyle, 2018) encontramos um texto interessante sobre a coesão de equipa, a qual, nalguns casos de sucesso atinge o estatuto de “família”. De facto, também no Futebol vai emergindo internamente nas melhores equipas a denominação “família” perante um alto nível de ligação, alinhamento, solidariedade e cumplicidade. No fundo, o tal tão desejado entrosamento. Tal, nem sempre significará resultado desportivo pois para o mesmo também concorrerá a qualidade individual dos jogadores e a qualidade da oposição. Contudo, a qualidade colectiva estará então conquistada.

“Quando se pede às pessoas dentro de grupos altamente bem-sucedidos para descreverem a sua relação umas com as outras, todas tendem a escolher a mesma palavra. Essa palavra não é amigos ou equipa ou tribo, ou qualquer outro termo igualmente plausível. A palavra que usam é família. Além disso, tendem a descrever o sentimento dessas relações da mesma maneira:

“Não consigo explicar, mas as coisas simplesmente parecem certas. Na verdade, tentei sair algumas vezes, mas continuo a voltar. Não há sensação igual. Estes caras são meus irmãos.” (Christopher Baldwin, SEAL Team Six da Marinha dos EUA)

“Não é racional. Ninguém que seja puramente racional faz as coisas que acontecem aqui. Existe um trabalho em equipa que vai muito além de equipa e se sobrepõe ao resto da vida das pessoas.” (Joe Negron, escolas charter KIPP)

“É uma adrenalina, saber que podes correr um grande risco e essas pessoas estarão lá para te apoiar, aconteça o que acontecer. Somos viciados nessa sensação.” (Nate Dern, Upright Citizens Brigade, grupo de comédia)

“Somos todos sobre ser um grupo familiar, porque isso permite correr mais riscos, dar permissão uns aos outros e ter momentos de vulnerabilidade que nunca se poderia ter num ambiente mais normal.” (Duane Bray, IDEO design)

Quando visitei esses grupos, notei um padrão distinto de interação. O padrão não estava nas grandes coisas, mas nos pequenos momentos de conexão social. Essas interações eram consistentes, fosse o grupo uma unidade militar, um estúdio de cinema ou uma escola no centro da cidade. Fiz uma lista:

  • Proximidade física estreita, frequentemente em círculos
  • Grandes quantidades de contacto visual
  • Toque físico (apertos de mão, toques de punho, abraços)
  • Muitas trocas curtas e energéticas (sem longos discursos)
  • Altos níveis de mistura; todos falam com todos
  • Poucas interrupções
  • Muitas perguntas
  • Escuta intensiva e activa
  • Humor, risos
  • Pequenas cortesias atentas (agradecimentos, abrir portas, etc.)

Mais uma coisa: descobri que passar tempo dentro desses grupos era quase fisicamente viciante. Estendia as minhas viagens de reportagem, inventando desculpas para ficar mais um ou dois dias. Encontrava-me a sonhar acordado com mudar de profissão para poder candidatar-me a um emprego com eles. Havia algo irresistível em estar perto desses grupos que me fazia desejar mais conexão.

O termo que usamos para descrever este tipo de interação é química. Quando se encontra um grupo com boa química, percebe-se instantaneamente. É uma sensação paradoxal e poderosa, uma combinação de excitação e profundo conforto que surge misteriosamente com certos grupos especiais e não com outros.”

(Daniel Coyle, 2018)

Pequenas decisões, grandes consequências.

“a imagem do líder é o seu exemplo. Em todas as suas atitudes.”

(Tomaz Morais, 2014) 

A última substituição de Roger Schmidt no Benfica x Arouca terá simbolizado a despedida de Rafa do Benfica após oito anos no clube. Mas não só. Por outro lado, foram os primeiros minutos de João Rêgo na equipa principal do Benfica após seis anos no clube e o lançamento de mais um produto do futebol de formação português.

Se ao contrário das últimas décadas, o lançamento de um jovem jogador formado num clube português já não é um acontecimento surpreendente e grande notícia, este caso concreto torna-se especial porque naquele momento o treinador alemão podia ter optado pela estreia do jovem argentino Gianluca Prestianni contratado esta época ao Vélez Sarsfield por 9 milhões de euros.

O nosso foco não se coloca na comparação e na avaliação do potencial e qualidade de cada um dos jogadores em causa. Coloca-se sim na decisão de Roger Schmidt, que pode parecer pequena, mas apresenta potencial para produzir grandes consequências. O momento futebolístico de João Rêgo é fruto do investimento e das qualidades do próprio, eventualmente dos seus familiares, e do trabalho de muitas pessoas durante o seu processo formativo. E ainda, de um grande investimento do clube em conjunto com um pequeno contributo da FPF dada a sua presença nas selecções nacionais jovens.

Deste modo, é dado um sinal. É reforçado e indicado um rumo. Interna e externamente. Um sinal que demonstra confiança e aposta nesse projecto de longo prazo do clube e no trabalho dessas inúmeras pessoas envolvidas no Futebol de Formação. Contribuindo assim, decisivamente, não só para a motivação das mesmas com também para a motivação dos jogadores mais jovens que virão a seguir. Em última instância trata-se da valorização do jogador português de uma forma geral. Sendo ainda que o valor que o argentino custou ao clube fortalece ainda mais a transmissão desta ideia. É portanto, uma dose de “fermento” em todo o processo. O próprio diretor-geral do Benfica Campus, (Pedro Mil-Homens, 2022), aponta isso mesmo, ao sustentar que “um clube como o Benfica só pode ter um projeto de formação na dimensão que tem — investimento, recursos humanos, instalações, expectativas — se o principal objetivo for retirar deste projeto jogadores para o seu futebol profissional”.

Treinadores de futebol de formação do AC, Milan, em entrevista ao canal do clube (AC Milan, 2013) descreveram que a maior recompensa para um treinador de formação pode ter é “ver crianças crescerem e tornarem-se homens e que alguns destes jogadores atinjam o futebol profissional. Isso quer dizer que no percurso, nós ensinámo-lhes alguma coisa valiosa”.

“Gere-se havendo diálogo, escolhendo pessoas para a direção técnica da equipa principal que se alinhem com o projecto do clube. O clube tem um projeto e as pessoas encaixam, com certos graus de liberdade, mas num rumo que é preciso manter. De outro modo o clube perde a sua identidade e o seu ADN.”

(Pedro Mil-Homens, 2022)

O paradigma de Matveyev

Publicamos um novo tema na área Metodologia, sub-tema Metodologia geral do Treino, sub-sub-tema História do treino do futebol. Abordamos o capítulo O paradigma de Matveyev.

“Foram 400 anos de pensamento analítico ou cartesiano.”

(Vítor Frade, 2017)

error: Content is protected!