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O Desporto Escolar enquanto oportunidade para passar valores. A jogadores, treinadores e pais.

“O técnico aponta para o desporto escolar como caminho para criar a cultura desportiva que falta e que poderia gerar interesse e aumentar a presença em estádios e pavilhões para jogos ao vivo, algo ainda em falta num país que já consegue formar atletas incríveis.”

(Vítor Matos, 2024)

O pensamento de Vítor Matos sobre o Desporto Escolar é sem dúvida interessante e importante, sendo fundamental a reflexão sobre o papel do mesmo no desenvolvimento do Desporto associativo.

Se do ponto de vista desportivo, um maior investimento neste contexto propiciaria mais um espaço que procurasse colmatar o desaparecimento das práticas e jogos que se realizavam na “rua”. Simultaneamente permitiria oportunidade de prática e evolução aos jovens que, ou ainda não manifestam o desejo de progredir no seu percurso desportivo, ou que não são seleccionados para o desporto formal (clubes). É sabido que os timings de maturação e desenvolvimento são diferentes para cada um e que muitos, também por essas razões acabam por não encaixar imediatamente nos clubes. Esse é outro problema, outra discussão.

“Está a acontecer uma espécie de fabricação de campeões em laboratório, o que é uma ilusão. Tem de haver um trabalho correto ao nível do clube, da escola, do desporto escolar, da educação física… Porque o trabalho no clube e no desporto escolar é para os que têm mais jeito, mas a educação física é para todos. Mas em todos estes casos há que respeitar as tais etapas de desenvolvimento das crianças e dar-lhes autonomia e liberdade de participação.”

(Carlos Neto, 2017)

Porém, o Desporto Escolar nunca será o verdadeiro substituto da “rua” e o principal meio introdutório da criança ao jogo e ao desporto. Deste modo tudo deverá ser feito para preservar a “rua” e todas as suas qualidades. Desde logo por ser genuinamente prática deliberada, território sagrado da autonomia, da auto-aprendizagem, da criatividade e derradeiramente, da… liberdade. Porque o Desporto Escolar será sempre dirigido por adultos, com tudo o que de bom e mau estes potencialmente podem trazer. Paralelamente, se no mesmo também há assistência, nomeadamente dos pais, isso torna o contexto abissalmente diferente.

E sobre estas duas últimas características, torna-se importante dar dois exemplos negativos, até para percebermos o que urge mudar. No actual Desporto Escolar existem treinadores que o conduzem como se tratasse do desporto de rendimento dos adultos. Existem exemplos de treinadores que, em competição, deixam, sistematicamente, jovens jogadores e jogadoras com pouca ou sem qualquer minuto de utilização. Tudo pelo resultado. Se já seria altamente questionável em treinadores de formação, quando são professores de Educação Física a fazê-lo, se a situação já era grave, torna-se ainda mais perversa. Ou, noutro exemplo, quando o feedback e o estilo de liderança na relação como os jogadores / jogadoras é tão agressivo e autocrático que até com adultos os mesmos seriam questionáveis.

Por outro lado, os maus exemplos também vêm da assistência, propriamente dos pais. Exemplos de palavras agressivas, injuriosa e repletas de ódio, contra árbitros, adversários e os próprios filhos chegam-nos com uma frequência assustadora. Inclusive relatos de agressões entre pais. Futsal, basquetebol, voleibol. Não é o desporto em si e até os maus exemplos que possam vir do desporto de rendimento que são decisivos. O que é decisivo, são a falta de regras, de educação, de valores. Dos adultos. Sendo que a crescente desvalorização dos contextos informais, semi-formais, formais e da própria educação física contribuem decisivamente para sintomas preocupantes que vamos assistindo na nossa sociedade. Porque, quer acreditem, quer não, o desporto e o jogo, são um dos principais veículos de transmissão de… bons… valores.

Assim, concordando com as palavras de Vítor Matos, mas mais do que cresçam em número, preocupa-nos que os espectadores cresçam em qualidade. Será um enorme desafio para o Desporto Escolar, mas também para o federado, a educação desses espectadores. Até porque o cenário alternativo, a proibição de espectadores no Desporto Escolar e mesmo no federado de Formação, colocando a possibilidade de resolver o problema a curto prazo, criará um ambiente hermético que não preparará os jovens desportistas para a pressão que mais tarde irão ser sujeitos na eventualidade de progredirem para o desporto de rendimento. Mas até podemos até acrescentar… em muitas outras vias profissionais. Por outro lado, proibindo espectadores nesses contextos, perder-se-á essa oportunidade preciosa de fazer reflectir e passar valores em quem frequenta a bancada. Porque nunca é tarde para crescer.

“Devemos olhar para os espaços de treino com mais cuidado; devemos olhar para a formação de treinadores com mais cuidado; devemos olhar para o desporto escolar com muitíssimo cuidado e atenção, pois é o desporto escolar que é o início de tudo. Se Espanha, Alemanha e Inglaterra avançaram, esteve tudo muito na base do desporto escolar, na forma como os professores e a dinâmica do ensino despertou os alunos para aquilo que são as necessidades da prática desportiva e despertou os pais para esse fenómeno.”

(Luís Castro, 2018)

O talento, a qualidade e a relação da “rua” no desenvolvimento de ambos. E ainda o potencial.

“Que saudades… (de Jackson Martínez e de James Rodríguez). Com os jogadores que fui tendo depois… percebi que não sou Deus…” 

(Vítor Pereira, 2017)

Os treinadores de Futsal, Nuno Silva e Cláudio Moreira, vão ao encontro de uma ideia que temos vindo a desenvolver. O que é o talento, o que é a qualidade individual e a relação da tão falada “rua” no desenvolvimento de ambos.

Apesar de muito referidos, quer por quem joga e treina, quer em bibliografia e por quem pensa o processo, a verdade é que não estão claros. Nem o que realmente significam, nem a sua abrangência. Nós temos uma proposta aparentemente idêntica à visão destes dois treinadores.

“Como família, éramos naturalmente rijos. Os meus pais eram rijos e o ambiente em que crescemos era rijo. Caíamos e voltamos a levantar-nos. E damos sempre o nosso melhor e tentamos ganhar. Detestávamos perder.”

irmão de Michael Jordan, Ronnie Jordan em (The Last Dance, 2020)

Antes, há ainda outra ideia que é a propensão genética. Ou seja, a influência que os genes herdados terão no talento. Uma noção clássica que ditou durante séculos vários papéis sociais e que também surgiu no desporto. Porém, vários autores como por exemplo Daniel Coyle, Anders Ericsson e Robert Pool têm-se dedicado ao tema e têm descrito um papel residual da genética no desenvolvimento do talento. Mais do que uma propensão genética, referem a importância de uma propensão social ou contextual. Seja qual for a sua influência, é o talento que apontamos como o primeiro patamar para obtenção de um elevado nível qualitativo no jogo de futebol.

“O jogador de futebol ‘faz-se’. Levei esta ideia para o Barcelona e foi uma confusão total. Eles acreditavam que o jogador de futebol nasce feito. Quase toda a gente no futebol ainda pensa assim hoje em dia. Veja, perguntei a jogadores de futebol: quantas horas na tua infância, todos os dias, dedicavas ao futebol? As respostas dos mais velhos variavam entre 6 e 8 e os atuais nunca menos de 4. E Maradona e Messi deram-me a mesma resposta: ‘Quantas horas? Todas!!’. Acreditar que o jogador de futebol nasce ensinado é um grande erro, nem mesmo acontece com os grandes craques. Cruyff é um bom exemplo; os que o viram jogar com aquela espantosa facilidade para tornar fácil o mais difícil, pensavam que ele tinha nascido jogador. Não acreditem, Johan teve a sorte de nascer junto ao campo do Ajax e de a sua mãe ser funcionária do clube. Se tivesse nascido num lar eminentemente musical, com pais profissionais e apaixonados por esta arte, Cruyff, dada a sua grande inteligência natural, teria sido um grande músico, mas não jogador de futebol.”

(Laureano Ruiz, 2014)

Em cima da propensão genética e contextual constrói-se então o talento. Para nós este surge principalmente em regime autónomo, em auto-descoberta, auto-aprendizagem e prática intensiva deliberada. Portanto, na rua, em casa, na escola, etc., mas quase sempre em auto-iniciativa e através de um desenvolvimento não assistido e liderado. É no fundo o estado mais puro do jogador de futebol, porque ainda não foi aculturado por nenhum treinador / clube e nenhuma Ideia específica de jogo ou no mínimo cultura de clube. É certo que durante o processo autónomo, naturalmente a criança e o adolescente também não estão imunes a influências culturais, aliás, desde logo estas levaram-no a jogar futebol… no entanto, nesta fase estas serão sempre uma escolha sua e não imposição.

“Ter talento não é suficiente. Porque o Futebol é um desporto de equipa.” 

(Leonardo Jardim, 2017)

Se entretanto a criança ou adolescente entrarem num clube e na prática federada, então, de forma mais ou menos intensiva de acordo com o escalão, ideias do treinador para o Futebol de Formação e eventualmente a Coordenação Técnica do clube, haverá a tal aculturação mais profunda e dirigida por terceiros, conhecimento do jogo transmitido, valores, etc.  Bons e maus. Tudo isso numa procura da optimização da eficiência e eficácia do jogador no jogo num contexto colectivo, portanto, num objectivo de alcançar qualidade. Porém, se nos aludimos ao Futebol de Formação, é seguro referir que durante este processo praticamente todas as crianças e adolescentes, paralelamente, também continuam a praticar o jogo no contexto informal, continuando assim a fazer crescer o seu talento.

“Entre as muitas histórias contadas por Vilà, sobre Messi, Xavi, Iniesta e outros tantos, apareceu uma particularmente interessante sobre Puyol. O defesa, que só chegou aos 15 anos ao Barcelona, não tinha, no entender de quem mandava, qualidades técnicas suficientes para ficar no clube. Mas aquele rapaz demonstrou tanta vontade, tanta determinação, tanto querer… que, no final, acabou por ficar. Foi aprendendo, foi melhorando, foi ficando. E, mesmo já na equipa A do Barcelona, continuava a treinar-se com Vilà, por fora, porque queria disfarçar os defeitos que tinha e, no fundo, ser melhor. E, até ao final da carreira, foi sempre melhorando. Jogadores ou treinadores, estamos sempre a aprender – e isso vai muito além dos resultados. Basta querer.”

(Mariana Cabral, 2019)

Regressando ao contexto do clube, o desenvolvimento da qualidade individual deveria ser objectivo prioritário em idades mais baixas do Futebol de Formação, e a qualidade colectiva de forma progressiva. Nomeadamente ao nível da complexidade e exigência das imposições comportamentais aos jogadores no seio de uma equipa. E finalmente já perto do escalão de seniores, um desenvolvimento, optimização e exigência sobre o seu rendimento. Individual e colectivo. Mas importa referir que qualidade individual e qualidade colectiva são interdependentes, e portanto que uma cresce com a outra, sendo o inverso também constatável. Tantos são os casos de jogadores que apresentam um alto rendimento em determinado contexto e depois noutro cai abismalmente.

“Aqui no City acho que ainda fiz um upgrade. Há uma preocupação enorme pelo detalhe e em perceber como esta equipa joga. Sinto que cresci imenso.”

(Bernardo Silva, 2019)

E aqui chegamos ao potencial. O potencial é a qualidade que perspectivamos, quer individual, quer colectivamente, e que ainda não produz, ou deixou de produzir rendimento. Deste modo, talento obviamente também perspectiva potencial. Mas num estado muito cru. A construção de uma qualidade em cima do talento, fará crescer esse potencial e aproximará a concretização desse talento em rendimento. E mais ainda em equipa. Porque num jogo colectivo ninguém verdadeiramente joga sozinho.

“Aparente paradoxo então

a auto-eco-hetero afirmação

no crescer colectivo

exalta o da individualidade

mas sem equipa consigo

nenhum jogador é bom,

e o inverso pode também

ser verdade

e assim qualidade tem.”

(Vítor Frade, 2014)

Memórias do Futebol de Rua. O golo ao ângulo.

A infância e adolescência imprimiu-nos memórias incríveis. Num plano de imaginação e criatividade infindável, as brincadeiras e os jogos que realizávamos na rua tinham um poder fenomenal para nos fazer sonhar. O futebol, culturalmente o jogo de maior impacto na maioria das sociedades, absorvia muitas crianças nesses contextos, fazendo-as visualizar feitos incríveis no próprio jogo da rua. Porém, em paralelo, também um dia num grande estádio numa final de uma grande competição.

Mas essa imaginação levava-nos a sonhos concretos. Na galeria dos mais notáveis, tínhamos o golo em pontapé de bicicleta, o golo em em remate “de primeira”, a jogada em que driblávamos todos os adversários e marcávamos ou assistíamos, a intercepção imperial sobre a linha de golo, o desarme limpo em tackle a um adversário que se preparava para ficar isolado, o túnel perfeito, o drible que desorientava por completo o adversário, a defesa do guarda-redes completamente em voo que interceptava um remate extraordinariamente colocado, e claro está… o fenomenal golo ao ângulo da baliza. Indiscutivelmente um local místico do campo de futebol. Símbolo da perfeição, de lendas e de mitos.

O golo ao ângulo da baliza ou lá próximo, era até antecedido por uma sensação de sucesso na execução de quem rematava, imediatamente após a bola sair do seu pé. Era como que uma espécie de premonição do que estava para acontecer. E nesse caso, no mínimo a bola encontrava o poste ou a barra da baliza, o que não providenciando eficácia, seria na mesma espectacular.

Na rua, ou no jogo de rendimento, este golo lendário promove uma sensação de admiração e êxtase entre jogadores e adeptos, pois é visto como um momento de pura genialidade. Assim, é muitas vezes lembrado e revivido, tornando-se parte da história e da mitologia do jogo.

Um “detalhe” pode tornar o talento indecifrável

“(…) a importância de falar primeiro com um pai de um jogador é decisiva.”

(Aurélio Pereira, 2013)

O relato de George Best não é uma novidade. Recordamo-nos de uma grande referência do nosso Futebol no processo de Scouting, Aurélio Pereira, que revelava consciência dos muitos erros cometidos quando, na década de 80, tinha de filtrar e selecionar, em conjunto com a restante estrutura do Sporting, centenas de jogadores em pouquíssimo tempo de jogo para cada um deles. Eram as condições possíveis no momento e só não erra quem não está no processo e não toma decisões.

Porém, hoje o conhecimento e experiência cresceram. Os grandes clubes, e até os de média dimensão têm outras condições e têm obrigatoriamente que errar cada vez menos. Muitos destes têm departamentos de Scouting profissionais, com acesso a muita informação e possibilidades de verem diversos jogos de um determinado jogador. Mas sejamos claros: o erro será sempre uma constante de processos de enorme complexidade como estes. Aqui, tal como no papel de treinador, o fundamental é ter consciência dessa mesma complexidade inerente ao processo, partir daí para uma análise e avaliação e procurar perceber o máximo de ângulos possíveis.

No panorama actual, tal como no treino, na eminência de entrar numa crise existencial, scout, treinador e clubes, ainda se procuram agarrar a dados mensuráveis, por vezes quantitativos, e a “métricas” com que se possam justificar. A si e a terceiros. Não que tudo isto não ajude, mas acabam por afastar tudo o que seja “ruído” e factos difíceis de mensurar ou perceber a sua influência no sistema complexo – jogador. O problema é que o tal efeito borboleta é mesmo real. E para o responsável, o que não passa de um detalhe, poderá influenciar decisivamente a análise e avaliação de um jogador. Quer falemos de rendimento, quer de potencial. Quer falemos de Futebol de Formação, quer de Futebol de Rendimento.

Se o pai de George Best não tivesse explicado a Matt Busby o que se passava com o filho, seria provável que Best não tivesse atingido o panteão dos jogadores lendários em que hoje se encontra. Uma vez mais, não é uma critica a Busby, um dos maiores da história do futebol que até ficou célebre pela aposta que fez em jovens jogadores e pelo crescimento e rendimento que os fez alcançar. O nosso foco vai para a extrema importância de todos os detalhes e da consciência que quem realiza estas escolhas tem de ter sobre isso. Ser mais “técnico”, mais “alto”, mais “inteligente”, mais “rápido”, menos “maturado”, fazer muitos golos, etc., podem ser qualidades importantes para predizer um talento. Porém, um “detalhe” pode ser o suficiente para anular tudo isto. E como no caso ilustrado, um “detalhe” pode tornar esse talento indecifrável. 

“Repara às vezes as pessoas raciocinam duma forma impeditiva, ou seja, parece um contrassenso, então como é que raciocinam? Porque estão possuídas de juízos de valor ou preconceitos. Às vezes até dizem assim: é inato. Não. Sabe-se que o inato é em sí adquirido. E o inato, a genética passou a utilizar termos novos, como epigenético, ecogenético… Precisamente para a importância de que qualquer pentelho, mesmo qualquer gene, na importância da relação com o meio envolvente. E daí que alterações bruscas ou sistemáticas possam lesar isso. É por isso que filogénese e ontogénese são coisas diferentes.”

(Vitor Frade, 2012)

“Tudo influencia. Não há uma parte que joga Futebol”

“Em primeiro lugar temos que entender o fenómeno como complexo, e se o é, jamais poderá deixar de ser complexo o modo como intervimos, reflectimos e actuamos sobre ele. (…) Há que estar perante esta realidade, reconhecendo-a como não linear e assim todo o pensamento tem de ter esta base, não linear.”
(Vítor Frade, 2013)

A importância do desenvolvimento do pé não dominante

Uma justificação mais profunda sobre a importância do desenvolvimento do membro inferior não dominante ficará para mais tarde e para o tema Metodologia do Saber Sobre o Saber Treinar. No entanto, tal como noutros temas, iremos abordá-lo sempre que uma situação da actualidade nos demonstre a sua importância.

É o caso da acção que trazemos de Di María, até porque seria difícil encontrarmos um exemplo melhor. Pelo jogador em causa e pelo contexto. É conhecida a mestria do Argentino na execução com o seu pé dominante, o esquerdo. Faz praticamente tudo com ele, inclusive cruzamentos e remates de trivela, mesmo quando a maioria dos jogadores, com maior ou menor dificuldade, sentiria-se mais confortável em recorrer ao pé direito. Na situação em causa, o remate de trivela, ou com a face externa do pé esquerdo, seria extremamente difícil dada a elevação da bola e a orientação corporal de Di María. Perante um enquadramento privilegiado com a baliza, para fazê-lo rapidamente e evitar a intercepção adversária, o remate teria que ser de pé direito. Foi o que sucedeu, e numa acção rara do argentino, acabou por revelar que o seu pé não dominante não é inábil.

Mas o mais importante, é percebermos a importância da lateralidade, neste caso, da funcionabilidade dos dois pés, e mais que isso, que eventualmente o não dominante atinja um nível similar ao dominante. Até porque, e regressando ao exemplo, mesmo para um destro o remate naquela situação apresentava um nível de dificuldade elevado.

“Da análise dos resultados destes estudos emergem duas ideias: que a capacidade de utilização dos dois pés, com semelhante proficiência, aumenta a qualidade de desempenho do jogador, e ainda que o aumento de proficiência do pé não preferido resulta de uma exercitação direcionada para esse efeito. Todavia a qualidade técnica de um jogador não pode ser analisada de uma forma isolada e descontextualizada do jogo, pois, é aí que se encontram as adversidades e variabilidades no espaço e no tempo que permitem ao jogador melhorar a sua performance (Garganta, 2006).”

(Edgar Cambão, 2014)

Uma proposta de análise qualitativa. Como exemplo, e na dimensão individual, os jogos de preparação de Di Maria.

“The dumb ones go for quantity

The wise ones go for quality

I’ve got the answer now

It’s not how much is how”

(Shirley Horn, 1963)

Há muito que é questionada a validade, mas principalmente a objectividade das análises de jogo quantitativas. Nomeadamente as construídas com base em dados estatísticos muito centrados em acções técnicas, mas por vezes também tácticas, contudo, descontextualizadas e interpretadas isoladamente do jogo da equipa. Deste modo, na maioria das equipas, hoje é usual que a análise de desempenho colectivo seja realizada em video, através de uma avaliação qualitativa tendo por referência a Ideia de Jogo a que a equipa técnica aponta. Depois, nalguns casos, são somadas à mesma avaliações individuais na mesma lógica. E nesse caso estas, ainda hoje, são muitas vezes reforçadas com dados estatísticos resultantes de dados quantitativos descontextualizados do todo… jogo da equipa e da sua interacção com os seus adversários. 

“Por muito que nos vendam estatísticas que queiram quantificar performances individuais, o jogo, o bom jogo, está completamente longe de poder ser interpretado ou quantificado por números que queiram trazer avaliações qualitativas.”

(Pedro Bouças, 2017)

Importa então clarificar já a nossa visão. Também questionamos as análises quantitativas que partem dessa base. No entanto, em 2018 desenvolvemos um modelo de análise que parte de uma análise em video, portanto de uma interpretação qualitativa do jogo e dos comportamentos da equipa ou jogador em função de uma Ideia de Jogo. Partindo daí podemos depois chegar a dados estatísticos quantitativos. Deste modo teremos quantidades e taxas de eficácia de acções qualitativas. Claro que será em função da nossa Ideia, da nossa interpretação do jogo, mas dessa forma será também altamente específica e útil ao trabalho a desenvolver posteriormente.

Exemplificando, se a equipa, por exemplo, em 10 acções de criação pelo corredor central conseguiu colocar 3 vezes jogadores em condições de finalização, chegamos a uma eficácia desse comportamento / princípio de 30%. Fazendo ele parte do sub-momento de criação, irá, numa escala superior ligar-se a outros números de acções de criação, totalizando determinado valor para esse sub-momento do jogo. Juntando esse valor aos obtidos em Construção e Finalização, chegaremos a outro número de escala ainda maior relativo ao total de comportamentos em Organização Ofensiva. Juntando os 4 momentos do jogo, teremos ainda uma eficácia decisional global.

Paralelamente podemos também avaliar o jogo na escala mais reduzida observável: ao nível da execução. Pegando no mesmo exemplo, se dessas 10 acções de criação pelo corredor central, as 3 bem sucedidas resultaram de 3 passes de qualidade, porém, se das 7 mal sucedidas, por exemplo, 2 delas foram bons passes mas foi o jogador que se desmarcou que falhou a desmarcação de ruptura ou noutro exemplo, foi-lhe assinalado fora-de-jogo claramente por erro desse jogador, teremos então no total 5 últimos passes de qualidade. Se das restantes 5 acções mal sucedidas, apenas 3 foram consequência de últimos passes falhamos, teremos então 5 passes de sucesso em 8 tentativas, resultando numa eficácia de 63%. Só para esse comportamento, porque ao mesmo se juntarão todas as acções de passe.

“Um dos processos utilizados na vertente táctica da análise de desempenho é a análise de jogo, que segundo Garganta (2001) é o termo mais utilizado para se referir ao estudo do jogo a partir da observação do comportamento dos jogadores, por englobar diferentes fases dos processos. De acordo com Carling, Williams e Reilly (2005) o processo de observação e análise do jogo deve possibilitar uma descrição do desempenho realizado em contexto de jogo, codificando acções individuais, grupais ou colectivas, de forma que sintetize informações relevantes e transforme, de maneira positiva, o processo de aprendizagem / treino. Geralmente, a informação é transmitida sob forma de feedback e utilizada para preparar para novas competições. A utilização de vídeos tem aparecido como uma ferramenta importante para fornecer feedback e modificar o comportamento dos atletas (GROOM & CUSHION, 2004). A análise de desempenho ganha uma grande importância uma vez que norteia a equipa técnica sobre os caminhos a serem seguidos após uma partida, ou seja, trazendo informações importantes para o planeamento dos treinos subsequentes ao jogo analisado.”

(Kaio Fonseca, 2018)

Tudo isto é naturalmente subjectivo à luz dos critérios de avaliação, relativos à especificidade da Ideia de Jogo adoptada e às orientações de análise do Treinador Principal. Depois, para além disso, subjectivo ao conhecimento do jogo, experiência, precisão e sensibilidade do analista. Mas tendo em conta a complexidade e imensidão de comportamentos no jogo não pode ser de outro modo. Claro que perante isto também não teremos como resultado uma análise limpa de erros, contudo acreditamos que se aproximará, não só da especificidade do jogo, mas principalmente da Especificidade do jogo de determinada equipa. Mas acima de tudo, às reais necessidades da equipa técnica e do trabalho a desenvolver. Desta forma, este trabalho permitirá formas de actuação e gestão também elas mais precisas.

Nesta lógica, o produto final são de facto, números, mas sobre a eficácia da equipa nos 4 momentos do jogo. De forma mais específica, nos 12 sub-momentos do jogo, e a partir daí nos diferentes comportamentos / princípios que categorizamos para cada sub-momento do jogo. Recordamos que na base desta metodologia de análise está a sistematização do jogo que propusemos no passado. A partir daí, se os recursos nos permitirem, podemos reduzir ainda mais a escala de análise. Não só em sub-princípios, requerendo para isso um ainda maior conhecimento do jogo do analista, mas como vimos atrás, avaliando paralelamente as acções ao  nível da execução sem procurar descontextualizá-las da sua lógica acontecimental na Ideia de Jogo, para eventualmente a partir daí poderem ser trabalhadas em fases específicas das sessões de treino ao longo do ciclo semanal. Isto naturalmente numa lógica de programação semanal e não anual, ou numa metodologia que permita esse ajuste de conteúdos em função de avaliação semanal. Porém, num processo que se baliza num plano mais macro, por exemplo, anual, uma avaliação continuada do desempenho de jogadores e equipas permitirá realizar ajustes no planeamento e programação do ciclo anual seguinte. Este processo, sentimos que tem sido um upgrade decisivo à nossa actuação no crescimento de uma equipa.

Referir-mo-nos até aqui, essencialmente à análise colectiva da equipa. Contudo, este modelo também pode ser aplicado a cada jogador à luz da sua actuação individual, tendo por base exactamente as mesmas acções e lógica estrutural de análise. Isto permitirá que a equipa técnica potencie o desenvolvimento individual, ou noutro contexto, que o jogador se consciencialize dos seus erros, lacunas e qualidades, e partir daí, preferencialmente no contexto do clube, mas caso o nível de rendimento em que actua não lhe permita essa possibilidade, que recorra a auxilio de técnicos especializados tendo por objectivo o seu crescimento individual.

Como exemplo, trazemos os jogos de preparação de Ángel Di María no seu regresso ao Benfica. Claro que sendo um período de preparação, os resultados deverão ser contextualizados e entendidos nesse enquadramento. Por outro lado, não estando dentro do processo e não possuindo um conhecimento maior desse mesmo enquadramento facilmente podemos cometer erros de análise por situações fora desse conhecimento, contudo, decisivas. Deste modo, abstemo-nos de tecer grandes conclusões ao desempenho do Argentino. Este trabalho serve principalmente como exemplo do potencial que esta ferramenta apresenta, nomeadamente utilizada no seio de uma equipa técnica ou como recurso extra solicitado pela mesma.

Mas nalguns breves pontos, identificámos os momentos de Transição Defensiva, nos quais Di María apresentou grandes dificuldades, nomeadamente no Sub-Momento de Recuperação Defensiva. Como referido, sendo o argentino um jogador que tem apresentado compromisso nos momentos defensivos das suas equipas, poderá ser o desgaste do actual período da época a principal razão para tal. Tanto que no plano colectivo foi também notória fadiga em toda a equipa, reflectindo-se a mesma na lucidez das decisões, velocidade de execução, criatividade e disponibilidade nos momentos de transição. Depois haverá também a necessidade de enquadrar a qualidade, as características e o nível de preparação de cada adversário. Regressando a Di María, as principais qualidades do Argentino estão intactas. Quer ao nível dos recursos que evidencia, quer em Transição e Organização Ofensiva, mostrando-se ainda particularmente preparado para a Ideia de Jogo de Roger Schmidt e nomeadamente ao papel ofensivo que terá, que poderá potenciar as suas qualidades pelos corredores laterais e central.

Importa referir que expomos apenas os dados decisionais globais, dos momentos e sub-momentos do jogo. E ainda os dados ao nível execução nas Acções Ofensivas e Defensivas. Os princípios, reservamos para técnicos ou clubes que demonstrem um interesse superior por este modelo de análise. Esta análise não contempla sub-princípios. Esse nível de detalhe remetemos para uma análise altamente específica de determinado(s) comportamento(s) de um jogador ou equipa. Por outro lado, para além da enorme utilidade à equipa técnica, este modelo também poderá ser adoptado pelos departamentos de Scouting, caso desejem dotar de um maior rigor e exactidão às análises individuais realizadas e eventuais jogadores alvos de contratação pelo clube. Os potenciais interessados nesta processo poderão contactar ricardo.ferreira.1978@gmail.com.

“É, portanto, nas tomadas de decisão e na interação com companheiros e adversários que se deve avaliar o desempenho individual e coletivo. A estatística ajuda a explicar alguma coisa, mas repito, não traduz o essencial. Hoje, é nisto que eu acredito. Amanhã, ficará o futebol nas mãos da inteligência artificial? Será o treinador, no futuro, substituído por um avatar? Um Cyber treinador, inteiramente cientifico-tecnológico? Tem a palavra a ciência e a tecnologia. E o homem. Recordando Thomas Huxley (biólogo, filósofo e um dos principais cientistas britânicos do século XIX), segundo o qual «a ciência é apenas senso comum treinado e organizado», talvez haja alguma esperança para os treinadores se prepararem para o avanço das máquinas!”

(Miguel Quaresma, 2021)

O quinto momento do jogo? Quantidade não significa qualidade. E ainda… o exemplo do Futsal.

“(…) não será o instante após os lances de bola parada o momento de maior desorganização e instabilidade táctica nos jogos?”

(Filipe de Sá, 2012)

Diferentes visões e formas de pensar levam a diferentes interpretações da realidade, e consequentemente… do jogo de Futebol. Nada de novo. Perfeitamente normal e saudável porque potencialmente são colocadas questões e o debate surge. No “final do dia”, uma das melhores formas de promover evolução.

Deste modo, diferentes formas de entender o jogo conceberam diferentes modelos e sistematizações do mesmo. Uma das questões emergentes surge sobre o enquadramento das situações de bola parada. Nos respectivos quatro Momentos do Jogo? Ou serão elas, por si só, um quinto momento?

Em 2017 publicámos uma proposta que as integravam nos quatro Momentos do Jogo. Não por mero gosto pessoal, mas por coerência com determinada linha de pensamento. Um livre ofensivo, por exemplo, pode ser marcado rapidamente ainda em Transição Ofensiva quando o adversário ainda não recuperou a sua Organização Defensiva possibilitando a equipa que dele beneficia, contra-atacar. Mas pode também ser executado em Organização Ofensiva, caso a equipa defensora tenha recuperado a sua Organização Defensiva. Aprofundando este caso, o mesmo pode ainda estar enquadrado num sub-momento de Construção caso a situação não permita um último passe ou cruzamento para outro atacante (com interessante potencial de sucesso), num sub-momento de Criação caso exista essa possibilidade, ou de Finalização quando a situação permita o remate à baliza. No entanto, este enquadramento parece não ser justificação suficiente para integrar as situações de bola parada nos quatro Momentos do Jogo. Pode-se argumentar , por exemplo, que um quinto momento também possa ser subdividido dessa forma. Torna a perspectiva mais confusa e complicada (não confundir com complexa), mas pode.

A grande justificação para as situações de bola parada fazerem parte dos quatro Momentos do Jogo está na realidade, essa sim… complexa, do jogo. Ora, se um dos princípios basilares do pensamento complexo passa por uma visão holística do objecto de estudo, e que ao invés, a sua separação em partes fá-lo perder propriedades, então, se as situações de bola parada são na mesma… jogo, separá-las do restante jogo levará a disfunções, desarticulações e potenciais erros por desenquadramento do jogar da equipa nas necessidades reais desses momentos. Maior quantidade de Momentos do Jogo não significa maior qualidade da ideia que dele se tem.

“À medida que você tem o domínio da “totalidade” das coisas, passam todas essas coisas a ser preocupação para si!”

Vítor Frade citado por (Xavier Tamarit, 2013)

Por diversas vezes trouxemos o Princípio da Articulação de Sentido que se manifesta de múltiplas perspectivas no jogo e no seu treino. Neste caso referimo-nos à articulação de sentido entre os diferentes Momentos do Jogo. Hoje é praticamente unânime entre treinadores a fundamental importância da articulação entre os momentos ofensivos e defensivos, ou seja, a importância de se preparar a perda da bola quando se está a atacar e preparar o ganho da mesma enquanto se defende. Então será que as situações de bola parada também não devem contemplar esse provável futuro imediato? Certamente que sim e hoje, praticamente todos os treinadores, têm essa preocupação.

Sendo assim, deverão fazer parte de um dos quatro Momentos do Jogo, porque por exemplo, no caso de perda ou ganho da bola, a equipa tem seguidamente outro momento diferente do jogo para resolver. Desse modo, pode e deve, começar a resolvê-lo durante a bola parada. Por exemplo, através de determinados posicionamentos de alguns jogadores. A visão do quinto momento, é no fundo outra visão segmentada, analítica e artificial do jogo que se distancia da natureza do todo que o mesmo contempla.

“E estes equilíbrios passam por quando nós estamos a atacar num lance de bola parada, deixamos um ou dois jogadores fora da área para tentar criar superioridade numérica em função dos jogadores que estão na frente, isto significa que a equipa quer estar equilibrada, não só dos jogadores que estão dentro mas também nos espaços a preencher, porque nós quando temos a bola e quando vamos marcar um canto, podem acontecer algumas coisas… Pode acontecer golo evidentemente, mas também podemos perder a posse de bola, e nós temos que estar preparados para essa perda da bola. E esses equilíbrios, neste caso no processo ofensivo e no equilíbrio de transição defensiva são fundamentais.”

Carlos Carvalhal citado por (Pedro Bessa, 2009)

O segundo golo da República da Coreia contra Portugal começa precisamente na falta de consciência para esta articulação entre um momento de Organização Ofensiva, especificamente um canto ofensivo, com o momento seguinte de Transição Defensiva. Não temos acesso à Ideia nem ao Plano de Jogo, especialmente às bolas paradas, portanto não podemos nem é nosso objectivo apurar responsabilidades, muito menos individuais. Mas sim reforçar a fundamental importância de uma visão macro e pensamento complexo sobre o jogo, neste caso, quer ao nível da articulação de princípios / comportamentos, mas por outro lado, também ao nível do seu detalhe.

Num momento inicial, havia na nossa opinião, um equilíbrio defensivo razoável para defender uma eventual perda ou segunda bola proveniente do cruzamento. Cancelo mais perto da bola, William ao meio e Dalot mais atrás junto ao grande círculo, podendo-se questionar o seu afastamento dos companheiros por não haver na sua zona nenhum coreano e por assim perder a relação de cobertura aos companheiros mais próximos da bola. E havia ainda Bernardo, do lado contrário também fora da grande-área. Todos para apenas dois coreanos, muito baixos até. Son perto da bola e Hwang Hee-chan, que viria a marcar o golo, perto da marca de grande penalidade. Mas como não nos cansamos de repetir, a quantidade não significa qualidade. Neste situação, qualidade comportamental, mais especificamente, posicional.

Equilíbrio defensivo no canto para Portugal.

O problema é que Cancelo deslocou-se para junto da bola para possibilitar a marcação de um canto curto e os companheiros não ajustaram o seu posicionamento para rectificarem o equilíbrio defensivo e garantirem não só cobertura ofensiva / defensiva à zona da bola, como ocupar o espaço fora da grande área onde uma segunda bola proveniente de uma intercepção dos defensores teria mais probabilidade de surgir dada a orientação corporal dos mesmos na defesa do pontapé de canto. William ter-se deslocado para a zona onde anteriormente se encontrava Cancelo seria a solução mais lógica, com Bernardo a aproximar-se mais do eixo central do campo. Arriscando mais, outra alternativa seria aproximar Dalot, ocupando o espaço deixado livre por Cancelo.

Nenhuma das soluções, ou outra, sucedeu para garantir o equilíbrio defensivo. Surgiu a tal segunda bola naquele espaço e Son teve a possibilidade de receber enquadrado e conduzir o contra-ataque. Ou seja, por erros posicionais, não tivemos comportamentos fundamentais do primeiro sub-momento da transição defensiva, como pressionar imediatamente a bola, garantir contenção ao adversário com bola e cobertura defensiva à eventual contenção.

Depois, e evitando ir ao plano do detalhe, após a Recuperação Defensiva, podemos analisar um terceiro momento da Transição Defensiva. A Defesa do Contra-Ataque adversário. Ainda na Recuperação Defensiva, com Son em condução numa situação de 1×1 contra Dalot, o português, bem, recuou em contenção e temporizou, possibilitando a recuperação defensiva de mais companheiros. E desta forma permitiria também assegurar a cobertura defensiva do seu Guarda-Redes. No geral, neste Sub-Momento, o objectivo passa por conquistar uma relação numérica mais confortável para posteriormente resolver a situação. E tal objectivo foi conseguido. O problema, novamente, é que a quantidade não significa qualidade. E se o entrosamento e as relações comportamentais no campo não estiverem bem claras, mais jogadores em determinada situação, podem mesmo significar menos qualidade dada a relação / interferência que as partes fazem entre si, nesse todo circunstancial. O todo não é sempre mais que a soma das partes. O todo, é sim, diferente da soma das partes.

No Sub-Momento da Defesa do Contra-Ataque, em que os defensores devem travar e obrigar o atacante com bola a uma decisão, gerou-se confusão. Dalot, Palhinha (que podia ter decidido falta táctica antes) e William procuram garantir a contenção e eventual desarme. Tal gerou indefinição entre os três permitindo espaço e consequente, tempo, para Son, no timing certo, realizar o último passe para Hwang, que, perseguido por Bernardo, entretanto se juntou ao contra-ataque garantindo uma solução de ruptura para beneficiar do espaço entre os defensores e o Guarda-Redes português. O qual, perante a condição de Son, a sua linguagem corporal e a eminência de desmarcação de ruptura de Hwang, parece-nos muito distante dos companheiros.

Situação de 2×4+GR bem resolvida pelos coreanos, mas evidentemente mal pelos portugueses. Dada a natureza de oposição / cooperação do jogo será sempre assim em todas as situações? Provavelmente. Porém, sempre em doses diferentes de responsabilidade entre atacantes e defensores, tendo em conta o conhecimento do jogo que detêm e o entrosamento que manifestam.

Em situações similares, aumentar a probabilidade de êxito defensivo seria manter o mesmo jogador em contenção para não permitir o tal espaço e tempo ao atacante com bola. E os restantes defensores que consigam recuperar defensivamente garantirem uma linha de cobertura ao companheiro. Neste caso, com a bola mais próxima do corredor lateral, Palhinha, William e posteriormente Bernardo deviam estar em linha de cobertura por dentro. Caso o adversário com bola se situasse mais perto do eixo central do campo, a linha de cobertura deveria garantir cobertura a ambos os lados do defensor em contenção. Outros comportamentos adicionais a assegurar passariam pela linha de cobertura / última linha travar na linha limite da grande-área com a contenção à sua frente para forçar a decisão do atacante com bola, e não no melhor timing para si. Por outro lado, o Guarda-Redes assegurando uma maior agressividade sobre o espaço à sua frente, garantiria assim uma segunda cobertura defensiva, neste caso à última linha, de forma a antecipar o potencial último passe adversário. E mesmo que não conseguisse a intercepção, reduziria em muito o espaço e tempo de decisão e finalização ao atacante em ruptura. No plano do detalhe poderíamos falar em apoios, distâncias, indicadores de pressão para desarme, etc., mas ficamo-nos pelo plano dos grandes princípios.

Naturalmente, este conhecimento e entrosamento é alcançado mais rapidamente com treino. Treino, que escasseia num contexto de Selecção Nacional. Mas perguntamos, generalizando… mesmo no contexto dos clubes treina-se o suficiente ou sequer se treinam estas situações? No Futsal são comportamentos que se treinam ao detalhe e até à “exaustão”. É factual que nesse jogo são situações que sucedem em muito maior volume do que no Futebol, porém, os resultados são também mais dilatados. É possível que no Futebol, uma equipa seja apenas submetida uma única vez ao Sub-Momento de Defesa do Contra-Ataque ao longo de um jogo inteiro, e sem qualquer previsão da relação numérica aí encontrada. Porém, se a conseguir resolver com sucesso, poderá fazer toda a diferença no resultado final como sucedeu no República da Coreia x Portugal. Uma vez mais… quantidade não significa qualidade.

“Defender com poucos é uma arte, implica treino, coordenação e princípios, mas fundamentalmente todos perceberem o que deve ser feito, de forma a que quem chega mais rápido, seja ou não “defesa”, saiba o que está a fazer e o posicionamento correto a ocupar, consoante a bola, o colega e o adversário!”

(Ricardo Galeiras, 2018)

“Faltam 30 metros ao futebol português”. De organização e confiança.

“O povo português por vezes se reduz… Reduz a capacidade que realmente tem. Nós dentro da área do futebol, temos muita capacidade. Temos capacidade de improvisar, temos conhecimento, somos competitivos e temos capacidade para liderar. Portugal tem muita qualidade e, muitas vezes, somos nós portugueses quem faz de nós próprios mais pequenos. Nós, treinadores portugueses, jogadores e não só, somos muito melhores do que, em geral, pensamos.“

(Paulo Sousa)

O tema não é novo. Importa declarar que o pensamento não se inscreve em mais uma cruzada em nome de um nacionalismo bacoco. Não aceitar que os seres humanos, independentemente da sua localização geográfica, credos, morfologia, etc., etc., têm mais em comum do que diferenças, representa um passo atrás na nossa evolução. Porém, tal como nas outras espécies, existirão sempre diferenças culturais dentro das mesmas, que promovem qualidades e problemas a um determinado grupo de indivíduos.

O Futebol não é excepção. O autor (José Neto, 2012) declara precisamente isso ao defender que “cada estilo de jogo é produto das idiossincrasias em que se envolveu. A preservação dos traços identitários de cada local são fundamentais para que o Futebol mantenha as suas características genuínas, e, definidoras dos seus “futebóis”. (…) Podemos, por isso, caracterizar por exemplo, as diferentes formas de jogar como decorrentes de um determinado contexto social, cultural, dum tipo de sociedade que lhe dá suporte. (…) a dinâmica imprimida pelas formas de jogar não podem ser separadas do viver das sociedades que lhe estão associadas”. Também José Mourinho sustenta que “Futebol é Futebol. Mas as diferenças culturais são importantes. Não há dois futebóis iguais. O talento na América do Sul nasce todos os dias, mas a organização Táctica e a intensidade do jogo são muito mais altas na Europa. Pelo clima, pela personalidade, pela cultura, pelos árbitros. Há tantos factores que condicionam e fazem o Futebol diferente em todo o mundo”. Falamos então da importantíssima diversidade. Voltando ao plano geral, uma qualidade indiscutível para a sobrevivência das espécies.

Por outro lado, se vamos dando destaque ao tema de forma contínua é porque sentimos que o mesmo é realmente importante, e que consequentemente se torna fundamental convencer aqueles que ainda não o estão. Nomeadamente quem decide e investe. Até porque como diz Paulo Sousa, um dos traços culturais do povo português é a fragilidade da nossa auto-confiança, a facilidade com que nos reduzimos e a forma como facilmente nos deslumbramos com caminhos para o sucesso aparentemente mais fáceis. Aparentemente.

Constituição das equipas em jogos com Benfica, FC Porto, Sporting e Braga hà cerca de 10, 15 anos atrás.

Noutra modalidade, o Rugby, mas trazendo-nos à memória  episódios da Selecção Nacional de Futebol durante o século passado, Sérgio Figueiredo citado por (Carlos Filipe Mendonça, 2006), defende que “(…) os portugueses não sabem ganhar. Não sabem ganhar, porque não acreditam e cedo viram as costas à luta. Ou seja, antes de Tomaz Morais tomar conta da equipa nacional, o nosso rugby perdia quase sempre por uma questão de temperamento. É verdade que os portugueses são uns derrotistas natos. Uns pessimistas compulsivos; e convocam esse pessimismo tanto para as questões mais essenciais, como para as circunstâncias mais simples do dia-a-dia”. O próprio Tomaz Morais, citado pelo mesmo autor declara que Portugal “não cresce por culpa do individualismo, da inveja e do pensamento negativo de quem nos lidera”. Isabel Vaz, em (Luís Lourenço, 2010) reforça, descrevendo que “não gostamos de vencedores, fomos educados a venerar a mediania e a nivelar por baixo como sinal de democracia”.

Apesar de alguns feitos pontuais, no Futebol, o resultado desta forma de pensar e liderar levou-nos, ao nível das selecções e dos clubes, ao insucesso colectivo durante décadas. Mas do ponto de vista individual, fomos sempre produzindo talento, quer por “geração espontânea” quer por fruto de investimento e ocasionais trabalhos de qualidade. O que reforça a ideia de que o talento… esteve sempre presente. Deste modo, talvez estejamos mesmo perante o tema mais importante do nosso futebol e porque não, da nossa sociedade em geral. A nossa incrível capacidade de gerar talento e a forma como acreditamos nele, o potenciamos e rentabilizamos.

Mas o que fundamenta esse talento? A resposta irá sempre ser discutível, relativa e até subjectiva. Porém, é interessante a ideia de Agostinho da Silva, de que “a principal matéria-prima do povo português torna-se aquilo que tem entre as orelhas”. Tal sustentará não só o reconhecimento actual do jogador português como um “produto” de qualidade, como também do próprio treinador português e numa perspetiva mais lata, dos muitos portugueses que proliferam no topo das mais diversas áreas, quer em Portugal, quer no estrangeiro.

Assim, o talento como algo construído pela interacção da cultura com as vivências, “armazenado” na relação corpo-mente, é uma ideia sustentada pelo estudo e trabalho de diversos autores como Daniel Coyle, Matthew Syed, Geoffrey Colvin, Anders Ericsson, Robert Pool, entre tantos outros. Durante muitos anos defendeu-se uma “apetência genética” para o Futebol. Contudo, o jogo de qualidade, ao qual hoje é-lhe inclusive reconhecida a fundamental importância do cérebro, não pré-existe ao homem. O jogo é uma construção cultural humana, assim, nem na mais transgressora ideia epigenética o Futebol estará inscrito nos nossos genes. O próprio (Leon Teodorescu, 1984), referência fundamental no desenvolvimento do pensamento sobre os Jogos Desportivos Colectivos, defendeu que “o desporto é um fenómeno social. O desporto é uma criação do homem, que apareceu e se desenvolveu simultaneamente com a civilização. O conhecimento e a prática do desporto constituem actos de cultura”. Noutro exemplo, os 580 milhões de norte-americanos têm produzido pouco talento no Futebol em comparação com outras regiões e países mais pequenos. Será que têm falta de genética para o Futebol? Geneticamente, divergiram assim tanto, em tão poucos séculos dos europeus que colonizaram a região? Ao invés, na América do Sul, desenvolveu-se uma carga genética incrivelmente superior? Ou simplesmente… não será tudo resultado de predisposição cultural?

Por outro lado, à luz do tradicional dualismo corpo-mente, o qual temos vindo a rebater ao longo do tempo, isolando então a inteligência como factor decisivo na produção de talento, o psicólogo (Eduardo Sá, 2016) explica que “não há crianças “burras”! Eu sei que há termos ásperos, como este, para todos nós. Mas é importante que sejamos claros: tirando raríssimas exceções, de crianças com quadros genéticos ou neurológicos muito graves (e que são, realmente, raríssimas!) não há crianças que nasçam “burras” como, desde sempre, se foi imaginando ou formulando. Recordo que algumas das crianças consideradas assim, que viveram a escola de forma penosa, com resultados catastróficos e com experiências humanas humilhantes, se transformaram em grandes empreendedores, grandes empresários e pessoas cuja singularidade trouxe, realmente, mais-valias ao mundo”.

 

 

Assim, de acordo com o espanhol (Laureano Ruiz, 2014) “o jogador de futebol “faz-se”. Levei essa ideia para o Barça e que confusão que se gerou. Eles acreditavam que o jogador de futebol nasce. Quase todas as pessoas do futebol ainda hoje pensam o mesmo. Olha, eu já perguntei aos jogadores de futebol: quantas horas na sua infância, por dia, você se dedicou ao futebol? As respostas dos antigos variavam de 6 a 8 e os atuais nunca menos de 4. E Maradona e Messi me deram a mesma resposta: “Quantas horas? Tudo!!””.

Segundo (Reuters, 2020), “o caso de amor de Maradona com o futebol ficou claro desde o início. Presenteado com a primeira bola de futebol quando criança, ele dormiu com ela debaixo do braço”. O testemunho do próprio Diego confirma o relato. O argentino, citado por (Leandro Stein, 2020), descreve que “tudo o que eu fazia, cada passo que dava, tinha a ver com isso, com a bola. Se Tota me mandava buscar algo, eu levava qualquer coisa que se parecesse com uma bola para ir jogando com o pé: podia ser uma laranja, bolinhas de papel ou trapos. Assim subia as escadas da ponte, pulando em uma perna e chutando o que fosse com a canhota. Assim ia até ao colégio. As pessoas cruzavam comigo e me olhavam, não entendiam nada. Os que me conheciam já não se surpreendiam”. Também Lionel Messi, de acordo com (Wikipédia, 2022), “desde criança demonstrava grande apego à bola, a ponto de negar-se a ir às compras com a família quando não lhe deixavam levar alguma bola. (…) Quando completou sete anos, ingressou então nas divisões menores do clube do coração, o Newell’s Old Boys. Ainda assim, não se contentava em jogar na Lepra, jogando regularmente futebol na rua da casa ao lado dos irmãos mais velhos Matías e Rodrigo Messi e dos primos maternos Emanuel e Maxi Biancucchi Lionel àquela altura conseguia jogar contra adversários de dezoito anos”.

“Jogávamos sempre à volta da minha casa, em “Las Siete Canchitas”. Era um descampado enorme com vários campos. Uns tinham balizas e outros não. “Las Siete Canchitas” era como um desses centros desportivos com relva sintética e tudo! Não tinha relva nem sintéticos, mas era para nós uma maravilha. Era de terra, de terra bem pura. Quando começávamos a correr, levantava-se tanto pó que parecia que estávamos a jogar em Wembley e com neblina.”

(Diego Maradona, 2001) citado por (Hélder Fonseca & Júlio Garganta, 2006)

Mais tarde, após ter-se apaixonado pela bola, de milhares de horas de relação com ela e de jogos com outras crianças nas “Siete Canchitas”, Maradona foi prestar provas ao Argentinos Juniors. O técnico responsável pela sua avaliação, Francis Cornejo citado por (Leandro Stein, 2020), recorda o momento explicando que “dizem que pelo menos uma vez na vida todos os homens assistem a um milagre, mas a maioria não se dá conta disso. Eu, sim. O meu aconteceu numa tarde de um sábado de março de 1969 sobre a grama molhada do Parque Saavedra quando um garoto baixinho, que me disse que tinha oito anos — e eu não botei fé — fez maravilhas com a bola. Coisas que eu nunca vi ninguém fazer. Tem uma que nunca vou esquecer porque fecho os olhos e continuo vendo como se fosse ontem. Ontem, eu disse? Não, ontem, não. É como se estivesse vendo agora mesmo. Quando a bola chega a um jogador vindo alta no ar, o que ele faz é baixá-la com o pé e depois a deixa cair no chão, então ele chuta ou passa. Isso é o que todos fazem. Mas aquele menino, não, aquele menino fez outra coisa; dominou-a com a canhota no ar e, sem a deixar tocar no chão e com o pé ainda no ar, voltou a pegá-la para dar um chapeuzinho num adversário e disparar rumo à baliza contrária”.

Diego Maradona e companheiros nos primeiros passos no Argentinos Juniors.

Novamente Laureano Ruiz, reforça que “acreditar que o futebolista nasce ensinado é um grande erro, não acontece nem com os grandes craques. Cruyff é um bom exemplo; quem o viu jogar com aquela facilidade assombrosa de facilitar as coisas mais difíceis, achava que ele nasceu jogador. Não acredite, Johan teve a sorte de nascer ao lado do campo do Ajax e a sua mãe era funcionária do clube”.

“A psicologia da aprendizagem ensina que o conhecimento, ou movimento, uma vez aprendido fica armazenado no neocórtex sob forma de engrama (impressão deixada nos centros nervosos pelos acontecimentos vivenciados, activa ou passivamente, pelo indivíduo), que consiste num determinado padrão de ligação entre os neurónios. O engrama, que é sempre utilizado, fica cada vez mais “nítido” e “forte”, ao passo que aquele que não é utilizado, enfraquece e pode até extinguir-se. Se um gesto desportivo for repetido com constância, o seu engrama ficará tão forte ao ponto de permitir a execução do gesto de forma reflexa, através de uma rápida comparação entre as reacções neuromusculares e o engrama. Este aspecto está ligado a mielinização das fibras nervosas e à velocidade de condução dos impulsos, e à caracterização dos tipos de movimentos.”

(Alcino Rodrigues, 2017)

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Deste modo, o talento para determinada área não pré-existe, no máximo existirá uma predisposição na qual se torna extremamente difícil distinguir a genética da influência cultural. Portanto, o talento é também uma construção. No fundo, podemos-nos aproximar de uma ideia de que resulta de muitas horas de prática deliberada de qualidade (pode e deve ser muitas vezes em regime de autonomia e auto-descoberta como o contexto que as brincadeiras individuais de relação com bola e os jogos e futebol de “rua” proporcionam), em cima de uma decisiva motivação intrínseca à qual se podem juntar outras, extrínsecas. Esse talento torna-se então uma apetência, digamos, em bruto, para determinada actividade. A partir daí pode ser esculpida e transformada em qualidade individual e principalmente coletiva no caso dos desportos colectivos, o que necessitará depois de treino “organizado” de qualidade e da figura do treinador, assim, de um conhecimento e experiência mais aprofundadas na área.

 

 

Então o que nos diferencia culturalmente do resto do mundo? O que possibilita que um país com muito menos população que a maioria, com baixos índices de prática desportiva, subsistentes problemas no sistema desportivo, pouco investimento, um sistema educativo caducado e problemas sociais, tenha subido ao patamar dos melhores? Um pensamento divergente, criatividade, capacidade de improvisação e momentos de coragem invulgares, alicerçados por um passado cultural de conquistas, aventuras, “descobertas”, muitas vezes através de meios e estratégias que inventámos porque não dispúnhamos do que outros possuíam. No Futebol em particular: uma enorme paixão pelo jogo e consequentemente muitas horas de prática, de estudo, de discussão, etc., etc.. Como disse Kobe Bryant, paixão tal, que se transforma muitas vezes em obsessão, com os consequentes potenciais perigos acoplados.

 

“É difícil de acreditar! Eusébio, Luís Figo, Cristiano Ronaldo e eu conquistámos prémios de topo e talvez Fernando Santos seja o próximo. Benfica e FC Porto venceram títulos europeus e Portugal conquistou o Europeu. Um pequeno País com vista para o Atlântico, é incrível! Talvez o segredo seja a nossa paixão.”

(José Mourinho, 2017)

Juntando revoluções metodológicas e de liderança idealizadas e postas em prática por cá, passados cerca de 10 a 15 anos do início do impacto das Academias de Benfica, FC Porto e mais recentemente do Braga, que se juntaram ao trabalho anterior desenvolvido pelo Sporting em Alcochete, a solidificação do papel importantíssimo das equipas B, a criação das equipas de Sub23 e o exemplo e desafio que Benfica, Sporting, Porto e Braga também trouxeram aos demais clubes, catapultou a produção de talento em Portugal a um nível nunca visto antes. No entanto, ainda subsistem problemas e desafios. Talvez o principal seja convencer muitos dirigentes que, mesmo assim, ainda não acreditam no talento do jogador português, ou, não têm paciência para esperar por algo que leva o seu tempo. Como disse Leonardo Da Vinci, existem “três tipos de pessoas: as que vêem, as que vêem quando lhes é mostrado, e as que não vêem”. Restará perceber se não vêem porque não conseguem mesmo, ou porque não querem…

Segundo (Wellington Moreira,2012) “o talento é mais facilmente identificado nas empresas que estão em franco crescimento. Aquelas que se encontram estagnadas ou que avançam a passos lentos não fornecem condições de desenvolvimento nem exigem padrões superiores de desempenho para seus colaboradores com elevado potencial. Resultado: além de nivelarem todos os membros da equipa para baixo, não conseguem atrair os melhores”. Assim, o autor conclui que “pesquisas apontam que grande parte dos talentosos brilha quando sua competência encontra o contexto adequado, isto é, suas conquistas são decorrentes de uma cultura organizacional apaixonante, que confere autonomia, estimula a criatividade das pessoas e ainda patrocina um bom clima de trabalho”. Hoje crescemos, principalmente no plano técnico, em organização, qualidade metodológica, qualidade relacional e pensamento colectivo. Isso trouxe sucessos colectivos e individuais, e esse sucesso trouxe exemplos inspiradores, “desbravou caminho” e fez com que as gerações seguintes acreditassem ser possível atingir esse nível, portanto, fez crescer a auto-confiança. E a partir daqui, em cima do que já produzíamos no passado, vamos tendo ciclos de retroalimentação, cada vez de maior sucesso.

Tanto que hoje vivemos sucessos regulares ao nível de todas as selecções, temos ainda uma incrível dificuldade de escolha dada a incrível abundância de jogadores para as mesmas, “vendemos” jogadores para o estrangeiro a valores tremendos (haverá alguma indústria em Portugal em patamar semelhante?) e somos reconhecidos e admirados pela nossa qualidade no jogo e no Futebol de Formação pelos melhores treinadores do mundo. Curiosamente, desenvolveu-se um sucesso paralelo no Futsal e Futebol de Praia…

 

 

Dando também como exemplo a Liga Inglesa pela sua reconhecida competitividade, qualidade e exigência na contratação de estrangeiros, no virar do século, época 2000/2001, José Domingues e Abel Xavier eram os únicos Portugueses a jogar na Premier League, posicionando-se no 40º desse ranking. É factual que esse número oscilou para mais nos anos antes e depois, mas sempre muito longe dos 23 jogadores actuais, que representam o 5º lugar do ranking, apenas atrás de Inglaterra, Brasil, França e Espanha, países de muito maior dimensão, prática desportiva e consequente capacidade de recrutamento.

 

Constituição das equipas no jogo Wolverhampton x Manchester City em Setembro de 2022.

Se há cerca de 10, 15 anos atrás tínhamos jogos entre Benfica, Sporting, Porto e Braga com 5 portugueses nos dois onzes iniciais das equipas, hoje temos um jogo da Premier League com o dobro dos portugueses.

 

“(Um futebol que tem Ronaldo, Figo, Ricardo Carvalho ou Rui Costa) é milagre, mas também fruto de alguma coisa. É o milagre da criatividade dos portugueses, da cultura dos portugueses. Hoje sei que há pouca rua, mas são os frutos do nosso futebol de rua, da aprendizagem espontânea, da aprendizagem sem o adulto a estragar. Sem essa cultura teremos muitos jogadores como a Noruega ou a Dinamarca, aqueles futebolistas de laboratório, com processos muitos lineares. Mas sem o futebol que nos apaixona, da imprevisibilidade. De fazer as coisas que os outros não são capazes de fazer.”

(Silveira Ramos, 2017)

Criatividade II

“A criatividade não tem a ver com a dificuldade da acção técnica, e sim com a solução que o jogador descortina para que de um modo cumpridor (aumentando a probabilidade de sucesso pela organização e resposta a um ou mais princípios) consiga obter o resultado esperado.”

(Jorge D., 2011)

Fórum da ANTF 2019

“Nós, portugueses, temos a capacidade de ligar as pessoas. Pelo jogo, pelo nosso trabalho.”

(Carlos Carvalhal, 2019)

Sendo este projecto, prioritariamente direccionado para treinadores de Futebol, e sendo ele também Português, faz-nos todo o sentido abordar o Fórum da Associação Nacional de Treinadores de Futebol. Para mais, numa edição em que marcaram presença vários dos, reconhecidamente, melhores treinadores Portugueses.

Estes eventos, como é referido muitas vezes pelos seus participantes, mais do que um reforço ao conhecimento, surgem com uma excelente oportunidade para trocar experiências e promover ligações. A frase de Carlos Carvalhal, é assim, nos mais diversos contextos, extremamente feliz.

Na edição de 2019, foram abordados vários temas extremamente pertinentes, sem contudo sentirmos estar a viver um período de ruptura ou grande evolução no conhecimento do treinador. Mas, como no treino, nem sempre o percurso é feito de aquisição. Têm, obrigatoriamente de existir momentos de consolidação.

Sentimos, ao nível metodológico, estar perante um deles. Se há cerca de 10 anos atrás ainda se discutia sobre o que devia ser o núcleo das preocupações do treinador na construção do seu treino, hoje sentimos haver uma crença generalizada, de que o “jogar” da equipa deverá assumir esse papel. Deste modo, a Periodização Táctica, nos seus alicerces fundamentais, passou para muitos, de adversária a companheira de viagem. Na sua especificidade, nomeadamente ao nível dos seus princípios metodológicos, ainda subsiste um longo caminho a percorrer, muito devido à enorme complexidade que protagoniza. Porém, como vimos a referir há anos, a ruptura epistemológica mais importante ao nível metodológico, parece-nos ter vindo para ficar. Hoje, o treinador, e não nos referimos a alguns técnicos que gravitam à sua volta, acredita que treina-se para jogar, fundamentalmente… jogando.

O conhecimento do jogo, e o contexto cultural que o treinador encontra foi um dos temas mais abordados. Dadas as diferentes experiências culturais dos intervenientes no Fórum, a importância que o treinador deve dar ao contexto onde se insere, é hoje tida como decisiva. É fundamental o treinador ter ideias para o jogo da sua equipa, ter a sua metodologia, ter consciência e ideias para a sua liderança. Mas é também fundamental, que considere e tenha em conta o contexto cultural onde trabalha nas suas decisões. Só neste domínio, o seu papel exige que pense de forma bidimensional, interagindo entre as suas ideias e convicções, e as dos que lidera e suas características. Um treinador que é autista em relação a qualquer uma delas, coloca-se perante uma grande probabilidade de fracasso.

“Um treinador que chega ao Futebol Chinês ou Árabe, tem de estar preparado para ensinar o jogo e o treino, tem de estar preparado para ensinar coisas básicas.”

(Vítor Pereira, 2019)

Como também o será se igualmente ignorar a relação do Modelo de Jogo com a Dimensão Estratégica. É outra discussão que se encontra em cima da mesa: o peso da dimensão estratégica nas decisões do treinador. José Mourinho referiu que acredita que uma tendência evolutiva nas equipas será “as equipas terem vários sistemas tácticos dentro do mesmo Modelo, nomeadamente na Organização Ofensiva. As equipas já defendem tão bem e estão tão bem organizadas que para fazer face a isso, quem ataca tem de conseguir dar resposta com várias soluções”. Também o seleccionador português de Futsal, Jorge Braz, apresentou-se na mesma linha de pensamento, ao explicar que no seu trabalho pensa “a estratégia, procurando perceber quem tenho do outro lado, e procurando ter várias soluções e um pensamento aberto”. Se este tem sido um dos nossos pensamentos, de há muito para cá, parece-nos que a ideia de que uma Ideia de Jogo é muito mais do que um sistema, se está a generalizar entre os treinadores. A ideia, é tanto mais rica quando mais soluções conseguir garantir a problemas que os diferentes adversários e contextos poderão trazer ao jogo. Deste modo, sem cair numa amálgama de ideias com pouca coerência entre si, a necessidade que a realidade competitiva traz às equipas, potencia o crescimento de Modelos ricos e adaptáveis ao envolvimento. Para nós, objectivamente, as fronteiras dessa coerência, por motivos tácticos e consequentemente… humanos, estarão entre “jogares” que sustentem ideias colectivas e ideias individuais. Deste modo, não nos parece coerente conjugar métodos Defensivos e Ofensivos Colectivos, com métodos Individuais. São formas muito distintas de ver a realidade, de estar… e consequentemente… de jogar.

Mas esta evolução… tem obrigatoriamente… como constantemente defende o professor Manuel Sérgio, de surgir de uma relação entre a prática e a teoria. Se durante muito tempo se criticaram os dogmas dos que fundamentavam o conhecimento, exclusivamente pela prática, hoje parece assistir-se à inversão dessa lógica. Foi outra questão, pertinente, colocada no Fórum.

“Na nossa geração, tínhamos que vencer e depois fazíamos doutrina, hoje faz-se doutrina antes de se vencer.”

(José Mourinho, 2019)

Mas vejamos… estes debates que hoje estão em cima da mesa, relacionam-se com o jogo. Com a forma de jogar das equipas e sua relação com o envolvimento. Isto é para nós uma enorme prova da evolução do nosso conhecimento. Até porque em muitas culturas ainda se acredita que o físico-energético deve ser a grande preocupação do treinador no treino…

Paralelamente, actualmente, parece-nos que é ao nível da Liderança que o treinador está também perante grandes desafios. Os vários intervenientes no Forúm, relatando variadíssimas experiências, sublinham que são inúmeros os potenciais problemas com que o treinador se confronta diariamente nos mais diferentes contextos de jogo e realidades culturais. Na gestão da equipa e também do seu envolvimento. Hoje torna-se também fundamental ao treinador conhecer o homem que lidera. Na sua generalidade e na sua especificidade. Actualmente, apenas dirigir, deixou de funcionar. É fundamental interagir. As redes sociais, como abordado, são um bom exemplo das tremendas mudanças que a sociedade enfrenta, e consequentemente, o papel do Treinador. Como referimos atrás noutro contexto, ser autista também em relação a este domínio… é condenar-se ao fracasso. Por arrasto, por exemplo, como Vítor Pereira referiu, no Futebol Profissional acabaram-se os contratos de uma página. São agora às dezenas, contemplando os mais ínfimos pormenores. O que traz ao treinador, a necessidade de reforçar a sua equipa técnica com especialistas de mais áreas. Contudo… partindo e reduzindo… “sem empobrecer”… e sem perder o sentido e o controlo do “todo”.

Mas há um ponto em que, nós portugueses, somos unânimes. A qualidade das ideias do treinador português, a sua criatividade como não se cansa de referir Jorge Jesus, mas também o sublinhou Rui Quinta, e fundamentalmente, o impacto do seu trabalho. Mesmo, como abordámos há pouco tempo noutro artigo, em condições de trabalho na maioria dos casos, paupérrimas. Rui Quinta, ilustrou precisamente isso no seu trabalho no Sporting Clube de Espinho, no terceiro escalão do Futebol Português. Partilhou que operacionaliza várias sessões de treino por semana num campo secundário, que mais parece um terreno baldio, com piores condições que muitos espaços onde as crianças jogam na Rua. Mas em vez de encarar o cenário como um problema, encara-o como um desafio e uma oportunidade para estimular outras coisas, muitas que eram vividas pelo próprio Futebol de Rua.

Isto levantará sempre uma questão: será que é por essas dificuldades que o treinador português é uma referência a nível mundial? Naturalmente, que inventar soluções para os mais diversos problemas, a precariedade na sua profissão, juntando a uma enorme concorrência e competitividade para o desempenho da mesma, ajudam. Mas, dados os sentimentos que a maioria expressa, o mais importante acreditamos ser a sua paixão pelo jogo, pelo treino e pela missão. Por outro lado, os enormes benefícios que poucos alcançam serão “apenas” um bónus e não será por isso que é movida, a maioria. Se a premissa fosse simplesmente a falta de condições de trabalho, os melhores treinadores do mundo surgiriam de muitos países Africanos, Asiáticos e até da América do Sul. A realidade não é essa.

Para os que são principais responsáveis pela precariedade da função e das condições de trabalho, não adianta apontar que… perante algumas realidades… será bom não ter as melhores condições. É definitivamente um pensamento errado. Para o treinador e para a sua equipa, é sempre melhor ter o máximo de condições. Onde se inclui o campo pelado cheios de buracos. Para que algumas vezes, o treinador possa optar (e não ter que obrigatoriamente recorrer a ele), em detrimento do campo do relvado perfeito. Porque… estímulos diferentes, adaptações diferentes. Porque… é pelo conhecimento, pelo sentir, planear, operacionalizar e liderar, que a gestão do treinador desses recursos se deve realizar. E então aí, eventualmente surgirá também a sua genialidade.

E vamos ainda mais longe… imaginamos o cenário onde a maioria dos treinadores não tem a mente ocupada por preocupações mais básicas, como contas para pagar no final do mês ou o seu futuro. Um cenário, onde simplesmente tem a possibilidade de ser… profissional… numa área em que lidera a nível mundial e eleva Portugal a um reconhecimento e a mais valias económicas… incríveis.

Infelizmente, perdeu-se mais uma oportunidade para abordar este problema basilar. Com quem realmente interessa, porque muitos dos presentes, apesar de terem atingido o topo ao nível profissional, também passaram pelas dificuldades da maioria. Mas como é habitual, a representação política no Fórum, foi extremamente elogiosa ao treinador português, porém parece apenas preocupar-se com a minoria dos treinadores. Sendo assim, voltamos a lembrar: são estes “responsáveis” que estão no topo da hierarquia. Portanto, mais do que são com estes com quem os treinadores trabalham… são contra estes que o treinador trabalha.

“Se não fores feliz, não podes ser treinador.”

(Fernando Santos, 2019)

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