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Monge da Silva e a impossibilidade de separar o que o jogo… e a vida… junta

O texto “Teoria do treino: Que qualidades físicas? Que classificação?”, publicado por David Monge da Silva em 1985 na revista Treino Desportivo, é um daqueles documentos que não deve ser lido apenas pelo que diz, mas sobretudo pelo lugar que ocupa na história da teoria do treino em Portugal.

Monge da Silva pertenceu a uma geração que viveu num espaço de transição: entre a prática de campo, a reflexão académica e a necessidade de construir uma linguagem mais rigorosa para o treino desportivo. Foi professor universitário, investigador, formador e preparador físico no Futebol, tendo estado ligado a diferentes modalidades, federações, diferentes contextos de rendimento e à reflexão metodológica sobre o treino.

Esse percurso ajuda a explicar a natureza do artigo. Não se trata de uma especulação afastada da prática. Trata-se de uma reflexão teórica feita por alguém que conhecia o treino, mas que percebia que o treino precisava de outro pensamento.

Logo no início, (Monge da Silva, 1985) identifica um problema central: a confusão terminológica no treino português. Muitos treinadores e técnicos tinham sido influenciados por formações oriundas de países diferentes e, por isso, transportavam linguagens diferentes, conceitos diferentes e classificações diferentes. O resultado era uma teoria fragmentada, muitas vezes incapaz de ajudar verdadeiramente a prática.

Mas o problema de Monge da Silva não era apenas terminológico. Era mais profundo. Não se tratava apenas de escolher melhores palavras. Tratava-se de perceber se as palavras usadas eram capazes de explicar a realidade.

A pergunta do artigo é simples e decisiva: quando falamos de força, velocidade e resistência, estamos a falar de realidades claramente separáveis ou estamos a criar divisões artificiais sobre uma realidade que, no movimento desportivo, é contínua?

É aqui que o texto ganha valor histórico.

Segundo (Monge da Silva, 1985), “quando observamos qualquer actividade desportiva não vemos força, velocidade ou resistência e muito menos as qualidades intermédias”. O que vemos são movimentos. Movimentos que acontecem no espaço e no tempo. E esses movimentos tornam-se possíveis, também, através da contracção muscular.

Esta ideia muda o ponto de partida. Em vez de partir das chamadas qualidades físicas tradicionais, Monge da Silva recua para algo fundamental que está por detrás do movimento: a contracção muscular.

A partir daí, propõe três parâmetros quantificáveis: duração, velocidade e grau de tensão.

A duração corresponde ao tempo durante o qual a contracção muscular se prolonga. A velocidade corresponde à rapidez com que essa contracção e descontração ocorrem. A tensão corresponde ao grau de força produzido para vencer uma resistência exterior.

Para (Monge da Silva, 1985), nenhuma contracção muscular pode ser correctamente caracterizada sem a articulação destes três parâmetros. É daqui que nasce o seu modelo tridimensional das qualidades físicas.

Até aí, o treino tradicional tendia a pensar de forma linear. A força era uma linha. A velocidade era outra. A resistência era outra. Depois, quando a realidade começou a mostrar-se mais complexa, surgiram qualidades intermédias: força rápida, resistência de força, resistência de velocidade. Mas, para Monge da Silva, esse caminho apenas prolongava o erro. Criavam-se mais nomes, mas não se compreendia melhor a realidade.

O modelo tridimensional propõe outra coisa. Em vez de pensar a força, a velocidade e a resistência como compartimentos autónomos, pensa-as como zonas de um mesmo volume. A tensão, a duração e a velocidade são três eixos que se combinam continuamente. Quando um parâmetro se aproxima do máximo, os outros tendem a baixar. Mas a maioria das acções desportivas não vive nos extremos. Vive nas combinações intermédias.

É por isso que (Monge da Silva, 1985) mostra que entre força e velocidade não existe uma fronteira clara. Entre força e resistência também não. Entre velocidade e resistência também não. Segundo o autor, “entre força e velocidade não existem soluções de continuidade que definam onde começa uma e acaba outra”.

A consequência é enorme: classificar pode ajudar a pensar, mas também pode deformar a realidade.vNo Futebol, isto torna-se decisivo.

Monge da Silva percebe que os jogos desportivos colectivos não pertencem aos vértices clássicos do modelo. O jogador de Futebol não é um halterofilista, embora precise de produzir tensões elevadas. Não é um velocista, embora precise de ser rápido. Não é um maratonista, embora precise de resistir. Por isso, a sua preparação não pode ser a soma de métodos importados da halterofilia, do atletismo ou da corrida de fundo.

Segundo (Monge da Silva, 1985), “os jogos desportivos colectivos exigem esforços intermitentes em que o atleta desenvolve grandes tensões musculares mas não é halterofilista, precisa de resistência mas não é maratonista e tem de ser rápido mas não é velocista”. Esta frase continua actual.

Ainda hoje, muitas propostas de treino caem no mesmo erro. Retiram o jogador do jogo para desenvolver capacidades que, depois, se espera que regressem ao jogo por transferência quase automática. Corre-se para ganhar resistência. Levanta-se peso para ganhar força. Fazem-se sprints para ganhar velocidade. Mas o Futebol não pede “força” em abstracto, nem “resistência” em abstracto, nem “velocidade” em abstracto.

O Futebol pede acções situadas. Pede tensão, duração e velocidade em contexto. Pede contracções musculares subordinadas a intenções, decisões, relações, espaços, adversários, companheiros, bola e baliza. É por isso que este artigo está tão próximo do terreno conceptual que mais tarde será aprofundado por Vítor Frade.

Convém sermos rigorosos: não se deve afirmar, sem prova documental directa, que o artigo de Monge da Silva foi um dos alicerces da Periodização Táctica. Essa afirmação seria excessiva e metodologicamente frágil. O que se pode afirmar, com maior segurança, é que o seu pensamento pertence ao mesmo clima intelectual que ajudou a tornar possível a ruptura metodológica protagonizada por Vítor Frade. Monge da Silva surge como uma referência próxima, respeitada e reconhecida pelo próprio Frade, não apenas no plano pessoal, mas também pela importância que teve na sistematização do Treino Desportivo em Portugal.

A sua crítica à separação artificial dos factores do rendimento, a recusa de uma preparação física desligada do jogo e a defesa de um treino mais enraizado nas situações reais aproximam-no das preocupações que viriam a ser radicalizadas pela Periodização Táctica. Ainda assim, há uma diferença decisiva: Monge da Silva ajuda a abrir caminho à crítica; Frade transforma essa sensibilidade num novo paradigma, fazendo da forma de jogar, da especificidade, da intencionalidade colectiva e da operacionalização do Modelo de Jogo o núcleo organizador de todo o processo.

Sintetizando, Monge da Silva é então um autor nuclear na evolução do treino desportivo. Primeiro, porque rompe com a divisão analítica do treino. Depois, porque defende uma leitura globalizante da preparação. Finalmente, porque coloca a contracção muscular e a dinâmica da carga numa lógica específica, e não abstracta.

E Vítor Frade desenvolveu a Periodização Táctica a partir de uma ideia ainda mais radical: no Futebol, o treino deve ser comandado pelo jogar que se pretende construir. A dimensão física não desaparece, mas deixa de existir isolada. Passa a estar subordinada à organização de jogo, aos princípios, aos subprincípios, aos comportamentos colectivos, às acções individuais e às regularidades que a equipa pretende estabilizar.

Portanto, neste sentido, a proximidade entre Monge da Silva e Frade é evidente.

Em (Monge da Silva, 1985), a crítica incide sobre a impossibilidade de separar força, velocidade e resistência como qualidades autónomas. Em (Vítor Frade, 1985), a crítica metodológica aponta para a necessidade de pensar o Futebol a partir da sua especificidade e não a partir de modelos importados de outras modalidades ou de outras lógicas de treino.

Monge da Silva fornece uma gramática. Frade reorganiza essa gramática em função do jogar.

É também aqui que aparecem os conceitos que se tornarão muito importantes na operacionalização da Periodização Táctica: tensão, duração e velocidade da contracção muscular. No morfociclo, estes conceitos deixam de ser apenas categorias fisiológicas ou mecânicas. Passam a ser formas de regular a alternância horizontal em especificidade.

Ou seja, não se trata de treinar “força” num dia, “resistência” noutro e “velocidade” noutro, como se fossem qualidades independentes. Trata-se de manipular, ao longo da semana, diferentes dominâncias da contracção muscular, sempre dentro do objectivo dominante da especificidade do jogar.

Num dia, o regime pode estar mais associada à tensão específica. Noutro, à duração específica. Noutro, à velocidade específica. Mas sublinhamos, tudo deve emergir de exercícios que pertencem ao jogo da equipa. A contracção muscular não é separada da decisão. A carga / estímulo não é separada do comportamento. O esforço não é separado da intenção.

É aqui que a influência conceptual de Monge da Silva ganha força.

Porque, ao substituir a linguagem clássica das qualidades físicas por tensão, duração e velocidade da contracção muscular, abre-se a possibilidade de pensar o esforço de forma mais específica, mais contínua e mais ajustada ao Futebol.

A diferença está no centro de gravidade. Em Monge da Silva, o ponto de partida ainda é a contracção muscular e a dinâmica da carga. Em Vítor Frade, o ponto de partida passa a ser o jogar. Mas a crítica de fundo é comum: o Futebol não pode ser compreendido pela soma das suas partes.

E é isto que é fundamental. Monge da Silva não está apenas a discutir fisiologia. Está a discutir a relação entre modelo de jogo e modelo de preparação. Segundo o autor, é necessário caracterizar o tipo de esforço que o jogador desenvolve em competição, porque é a partir desse modelo que se deve enquadrar o processo de treino.

Isto antecipa uma das grandes ideias do treino contemporâneo: o treino deve nascer da competição que se quer jogar. Não de uma competição genérica, mas do jogo concreto que a equipa pretende construir. No Futebol, isto obriga a uma mudança profunda.

Um exercício não é bom porque “trabalha força”. É bom se provoca o tipo de tensão que o jogador precisa de manifestar no jogo que a equipa quer jogar.

Um exercício não é bom porque “trabalha resistência”. É bom se faz emergir a duração específica de acções, decisões e interacções que a competição solicita.

Um exercício não é bom porque “trabalha velocidade”. É bom se a velocidade que promove tem sentido no jogo: acelerar para pressionar, travar para ajustar, desmarcar para receber, fechar por dentro, temporizar, saltar à pressão, atacar a profundidade, reagir à perda, sair da pressão.

Por isso, o artigo de Monge da Silva continua a ter impacto prático.

Ele obriga o treinador a olhar para o exercício como uma unidade complexa. O espaço, o tempo, o número de jogadores, a dimensão do campo, as regras, as balizas, as pausas, a densidade, a oposição, a direcção, a bola, a fadiga, a concentração e a intenção não são detalhes. São condições que alteram a contracção muscular, a tomada de decisão e a adaptação.

O próprio autor identifica factores da carga como massa muscular solicitada, condições objectivas e concretas de realização do movimento, intensidade, volume e complexidade. A complexidade, em particular, é entendida como dimensão neurológica da carga, relacionada com o grau de dificuldade do movimento e com a solicitação da estrutura perceptivo-cinética.

Este ponto aproxima ainda mais Monge da Silva do Futebol actual. Porque o Futebol não é apenas correr. É correr percebendo. Não é apenas contrair. É contrair decidindo. Não é apenas repetir. É repetir com sentido. Talvez esteja aqui a sua maior actualidade.

O texto de 1985 combate uma consequência nefasta do atomismo: a ilusão de que o conhecimento nasce da divisão infinita, de um atomismo nefasto, como se compreender melhor significasse apenas partir a realidade em unidades cada vez mais pequenas, isoladas e autónomas. É evidente que analisar é necessário. Mas, no Futebol, analisar sem regressar ao todo é perder o essencial.

Passados mais de 40 anos, o atomismo crescente nos clubes e nas equipas técnicas em “especialistas” de tudo — fisiologia, análise de jogo, “técnica e táctica individual”, “performance”, nutrição, psicologia, entre tantas outras áreas — recupera o mesmo problema central: a tendência para dividir o rendimento em partes e, depois, acreditar que a soma dessas partes devolve o jogador inteiro. Não devolve. O jogador não joga com a força, a velocidade, a resistência, a técnica, a táctica e a psicologia em gavetas separadas. Joga inteiro. Decide inteiro. Erra inteiro. Adapta-se inteiro.

Nesse sentido, David Monge da Silva não escreveu apenas sobre qualidades físicas. Escreveu contra a ingenuidade das classificações. Escreveu contra o treino que confunde nomes com conhecimento. E abriu caminho para uma compreensão mais específica, mais global e mais futebolística da preparação.

Quarenta anos depois, a sua pergunta continua viva: que qualidades físicas?

Talvez a resposta mais futebolística seja: nenhuma, se forem entendidas isoladamente.

O que existe é o jogar. E, dentro dele, tensões, durações, velocidades, decisões, intenções e relações que só ganham sentido quando pertencem a uma ideia de jogo.

Edgar Morin (1921-2026). E o seu pensamento… complexo… no Futebol. Portanto, a Periodização Táctica.

“Não se deve subordinar ou reduzir um factor aos outros: o factor central encontra-se na organização destes factores, ao tornarem-se interdependentes. O problema de fundo é a organização dinâmica constituída, não por elementos mas por interacções, O núcleo de explicação está na organização das interacções que constituem o fenómeno total homo.”

Edgar Morin, citado por (Vítor Frade, 2002)

Há pensadores cuja obra parece poder ser separada da vida. Como se as ideias tivessem nascido num gabinete, protegidas do mundo, da história, da dor, da política, da amizade, da perda, do erro e da incerteza. Edgar Morin não pertence a essa família. Nele, vida e pensamento caminham juntos. Mais do que isso: parecem explicar-se mutuamente. A sua biografia não é apenas o contexto exterior da sua obra; é, em grande parte, a matéria viva a partir da qual a sua obra se foi formando.

Morin atravessou o século XX como quem atravessa uma tempestade sem deixar de a observar. Nasceu em 1921, perdeu cedo a mãe, conheceu a guerra, a ocupação nazi, a Resistência francesa, o comunismo, a ruptura com o dogmatismo, os totalitarismos, as esperanças políticas e as suas desilusões. Viveu suficientemente perto dos acontecimentos para não os transformar em abstracções, mas suficientemente desperto para não se deixar capturar por explicações fáceis. Talvez por isso a sua obra nunca tenha sido apenas sociologia, filosofia, epistemologia, antropologia ou política. Foi sempre uma tentativa de compreender o humano na sua inteireza.

O artigo do Público que assinala a sua morte capta bem essa dimensão ao apresentá-lo como “um mestre da resistência”. Resistência, aqui, não é apenas a resistência histórica ao nazismo. É também uma atitude perante o conhecimento. Morin resistiu à simplificação, à arrogância dos sistemas fechados, às verdades prontas, às ideologias que procuram encerrar o real numa fórmula definitiva. Resistiu à separação entre vida e pensamento, entre sujeito e objecto, entre ciência e humanidades, entre razão e emoção, entre indivíduo e sociedade. Toda a sua obra parece dizer-nos que o maior erro do pensamento moderno foi acreditar que compreender é separar.

“o nosso sistema de ensino, obriga-nos a isolar os objectos do seu envolvimento, a separar as disciplinas, a desmontar os problemas, mais do que a unir e integrar. Ordena-nos a reduzir o complexo ao simples, ou seja, a separar o que está unido, a descompor e não a recompor, a eliminar tudo aquilo que contenha desordens ou contradições ao nosso entendimento.”

Edgar Morin citado por (Oscar Moreno, 2009)

E é precisamente aqui que Morin começa a tocar profundamente o Futebol, sobretudo quando este deixa de ser pensado como uma sucessão de gestos, capacidades ou momentos isolados e passa a ser compreendido como um fenómeno humano, colectivo, relacional e imprevisível. O Futebol também sofreu, durante muito tempo, dessa tentação moderna de separar para compreender: separou o físico do técnico, o técnico do táctico, o táctico do psicológico, a preparação da competição, o jogador da equipa, o exercício do jogo, a decisão da execução, a emoção da razão e o treino da vida concreta do jogar. Como se a soma das partes pudesse, por si só, devolver o todo. Como se, depois de desmontado o jogo nos seus supostos “ingredientes”, bastasse voltar a juntá-los para que o jogar reaparecesse com sentido.

É nesse ponto que a sua vida dá força à sua obra. Morin não defendeu a complexidade por moda intelectual. Defendeu-a porque a viveu. A sua existência mostrou-lhe que o real raramente obedece a linhas rectas. A História não avança de forma limpa e linear, a política não é pura, a razão não é neutra, a ciência não é exterior ao humano, o sujeito que conhece nunca está completamente fora daquilo que procura conhecer. A vida ensinou-lhe aquilo que depois a obra procurou pensar: tudo o que existe está tecido em conjunto.

Esta expressão — tudo o que existe está tecido em conjunto — poderia servir também como porta de entrada para uma compreensão mais profunda do jogo. Porque no Futebol nada acontece verdadeiramente isolado. Uma recepção orientada não é apenas técnica; é técnica porque é táctica, porque nasce de uma leitura, de uma intenção, de uma relação com o companheiro em posse anterior, com o adversário que pressiona, com o companheiro que se move, com o espaço que se abre, com o tempo que se estreita e com a emoção que atravessa o jogador naquele instante. Um passe para trás pode ser conservação, convite, protecção, manipulação, preparação da progressão ou simples fuga ao problema. Uma corrida pode ser ruptura, compensação, cobertura, fixação, atracção ou equilíbrio. Uma perda da bola nunca é apenas uma perda: revela a qualidade da posse anterior, a estrutura que sustentava essa posse, a proximidade dos apoios, a relação entre jogadores, a preparação da Transição Defensiva e a possibilidade de recuperar imediatamente ou ter de recuar.

Por isso, quando Morin define a complexidade como complexus, isto é, “aquilo que é tecido conjuntamente”, não está apenas a oferecer uma definição conceptual. Está a propor uma forma de estar diante do mundo. Complexidade não significa complicação e confusão. Significa reconhecer que os fenómenos importantes não podem ser reduzidos a uma só causa, a uma só dimensão ou a uma só disciplina. O humano é biológico, psicológico, social, histórico, cultural, afectivo e espiritual. Separar estas dimensões pode ajudar a analisar, mas é muito provável que também mutile a compreensão.

No Futebol, porque este não é uma ilha da restante realidade, separar também pode ajudar a observar, mas pode igualmente mutilar o jogo. Podemos mapear e distinguir Organização Ofensiva, Transição Defensiva, Organização Defensiva e Transição Ofensiva; podemos distinguir Construção, Criação, Finalização, Defender a construção, Defender a criação, Defender a finalização, Reacção à perda da bola, Recuperação defensiva, Defesa do contra-ataque, Reacção ao ganho da bola, Contra-ataque e Valorização da posse de bola. Mas mapear e distinguir não é separar. Cada momento transporta vestígios do anterior e prepara possibilidades para o seguinte. A Organização Ofensiva contém já a Transição Defensiva que irá emergir na perda da bola. Sim, porque por mais que o procuremos evitar, a bola será mesmo perdida. A Organização Defensiva contém já a Transição Ofensiva que irá surgir quando a bola for recuperada. A Construção e a Criação servem para preparar a Finalização. Defender a construção pode preparar o Contra-ataque. A forma como uma equipa ocupa o campo com bola denuncia como se protegerá sem ela. A forma como recupera a bola denuncia como estava organizada antes de a ganhar.

A grandeza de Morin está em não ter recusado a clareza. Pelo contrário, procurou-a. Mas percebeu que há uma clareza falsa, obtida pela amputação do real, e uma clareza mais exigente, capaz de ligar sem confundir e distinguir sem separar. O pensamento complexo nasce precisamente dessa tensão. Não elimina a análise, mas impede que a análise destrua o conjunto. Não rejeita a razão, mas lembra que a razão se torna pobre quando esquece a incerteza, a contradição, o contexto e a vida. Na perspectiva oposta, estes foram os principais malefícios que o determinismo, o pensamento cartesiano e analítico nos trouxeram.

Esta distinção entre uma clareza falsa e uma clareza exigente é decisiva para o treino. A clareza falsa aparece quando o treinador acredita que simplificou o processo apenas porque o dividiu em partes: físico, técnico, “táctico”, mental; primeiro correr, depois passar, depois decidir; primeiro preparar o corpo, depois preparar o jogo. Parece claro, porque cada coisa fica no seu lugar. Mas essa ordem é muitas vezes uma ordem morta, porque o jogo nunca se manifesta assim. O jogo são conjuntos de comportamentos que contém, de forma inseparável, estes ingredientes. A clareza exigente, pelo contrário, obriga-nos a perceber que o treino deve ser organizado a partir das relações que dão sentido ao jogar. Não se trata de negar a existência do físico, do técnico, do mental ou do emocional. Trata-se de perceber que, no jogo, eles nunca aparecem puros. Aparecem sempre em interação, ligados, contaminados, co-implicados, arrastados pela intenção táctica e pela dinâmica colectiva.

É aqui que a ligação entre Edgar Morin e Vítor Frade se torna particularmente intíma. Morin oferece uma matriz de pensamento: complexidade, interdependência, incerteza, organização, inseparabilidade, relação, contexto, circularidade e responsabilidade perante o conhecimento. Frade transporta essa matriz para o coração do Futebol, não como aplicação exterior de uma filosofia ao treino, mas como construção de uma metodologia nascida da natureza própria do jogo. A Periodização Táctica não é apenas uma forma de organizar a semana. É uma forma de pensar o Futebol contra a mutilação do Futebol. É uma ruptura com o paradigma que absolutiza factores e acredita que o rendimento superior nasce da soma optimizada de partes isoladas. Em Frade, como em Morin, compreender não é fragmentar até perder o sentido; compreender é articular, hierarquizar, contextualizar e fazer emergir uma organização.

Nesse sentido, a sua obra é também profundamente ética. Pensar bem não é apenas organizar ideias; é assumir responsabilidade perante o mundo. A fragmentação do conhecimento produz cegueiras. A especialização, quando se fecha sobre si mesma, sabe cada vez mais sobre partes cada vez mais pequenas, mas pode perder a noção do todo em que essas partes ganham sentido. Regressando ao Futebol, olhemos como exemplo para os cada vez maiores e mais poderosos departamentos de Fisiologia, Análise de Jogo, Treino individual, etc.. Morin percebeu que muitos dos problemas contemporâneos — políticos, ecológicos, educativos, humanos — não resultam apenas de falta de conhecimento, mas de uma má organização do conhecimento.

Também muitos problemas do treino não resultam apenas de falta de informação, mas de uma má organização do conhecimento. Pode saber-se muito sobre fisiologia, biomecânica, técnica, psicologia, pedagogia, análise de jogo ou liderança e, ainda assim, organizar mal o processo se esses saberes não forem articulados em função do objectivo fulcral: jogar. O problema não é conhecer as partes. O problema é deixá-las governar o processo como se fossem autónomas. O problema não é falar de resistência, velocidade, força, técnica, decisão ou emoção. O problema é tratá-las como entidades independentes, quando no jogo se manifestam sempre numa relação concreta com uma intenção, uma situação, uma forma de jogar, uma cultura colectiva e um adversário.

É por isso que a Periodização Táctica, em Vítor Frade, coloca a táctica como supradimensão. Não porque a táctica elimine o físico, o técnico, o psicológico ou o estratégico, mas porque é ela que lhes dá sentido no interior do jogar. A táctica não é aqui uma disposição geométrica, nem um conjunto de movimentos prescritos, nem uma ocupação abstracta do espaço. É a organização intencional do jogar. É a forma como uma equipa quer resolver os problemas do jogo. É o modo como se relaciona com a bola, com o espaço, com o tempo, com o adversário, com os companheiros, com o resultado, com a incerteza e consigo própria. O táctico, neste entendimento, não é uma parte ao lado das outras; é o princípio organizador que faz com que as restantes dimensões se expressem com sentido.

É por isso que a inseparabilidade é tão importante no seu pensamento. Não se trata de dizer que tudo é igual ou que tudo se mistura. Trata-se de perceber que separar é sempre uma operação provisória. O indivíduo não existe fora da sociedade que o forma, mas a sociedade também não existe fora dos indivíduos que a produzem. O conhecimento não existe fora do sujeito que conhece, mas o sujeito também se transforma no próprio acto de conhecer. A acção nasce de uma intenção, mas, uma vez lançada no mundo, entra numa rede de interacções que a pode desviar, ampliar ou contrariar.

No Futebol, esta ideia é de uma fertilidade enorme. O jogador não existe fora da equipa que o forma, mas a equipa também não existe fora das acções, decisões, emoções e relações dos jogadores que a produzem. Daí a interacção e interdependência permanente entre qualidade colectiva e qualidade individual. O Modelo de Jogo não existe fora dos jogadores que o interpretam, mas os jogadores também se transformam ao viverem esse Modelo de Jogo. O exercício não existe fora da intenção metodológica que o organiza, mas essa intenção pode ser desviada, ampliada ou contrariada pelas interacções que emergem no próprio exercício. O treinador pode desejar uma determinada propensão, mas, quando a tarefa começa, ela entra na realidade viva do treino: jogadores diferentes, níveis de compreensão diferentes, estados emocionais diferentes, relações diferentes, cansaços diferentes, resistências diferentes, interpretações diferentes e possibilidades diferentes.

É aqui que se percebe melhor a profundidade da noção de Especificidade. Na Periodização Táctica, Especificidade não significa simplesmente “treinar com bola” ou “fazer exercícios parecidos com o jogo”. Significa que tudo o que se faz deve estar relacionado com o jogar que se pretende fazer emergir. A Especificidade não é uma aparência exterior da tarefa; é uma relação interna de sentido. Um exercício pode ter bola e estar longe da Especificidade, se não respeitar a lógica do jogar pretendido. E uma tarefa aparentemente parcelar pode ser específica, se estiver hierarquizada e articulada com a Intencionalidade Colectiva que orienta o processo. A questão não é se se trabalha o todo ou uma parte; a questão é se essa parte mantém o vínculo com o todo. A tal fractalidade. Portanto, a questão não é reduzir ou não reduzir; a questão é reduzir sem empobrecer.

A vida de Morin confirma esta ideia. O jovem resistente, o intelectual político, o crítico do totalitarismo, o investigador transdisciplinar, o pensador da educação, o homem atento à crise ecológica e civilizacional não são personagens separadas. São expressões diferentes de uma mesma procura: compreender melhor para viver melhor; viver mais lucidamente para compreender melhor. Também Vítor Frade, no campo – Futebol, representa essa mesma recusa de aceitar a realidade como fragmento. A sua obra nasce de uma inquietação epistemológica e metodológica: que exigências coloca o Futebol, enquanto fenómeno antropossocial-total, ao treino? Que tipo de pensamento precisamos para compreender um jogo que é, ao mesmo tempo, corpo, decisão, emoção, cultura, estratégia, inteligência, relação, história, acaso, ordem, desordem e organização? Que metodologia pode respeitar essa natureza sem a reduzir a um somatório de capacidades? A Periodização Táctica surge como resposta a essa inquietação. Não como receita, mas como exigência. Não como moda, mas como forma de pensar. Não como conjunto de exercícios, mas como uma lógica metodológica de operacionalização de uma ideia de jogo.

Talvez por isso Edgar Morin nos deixe uma lição tão simples e tão difícil: não podemos pensar a vida de fora da vida. Não podemos compreender o humano amputando-o das suas relações. Não podemos enfrentar a incerteza fingindo que ela não existe. E não podemos construir conhecimento verdadeiro se continuarmos a separar aquilo que, na realidade, nasce ligado. A incompreensão (ou a recusa) deste discurso é, em grande medida, um dos alicerces dos actuais problemas civilizacionais — muitos deles impensáveis há uma, duas décadas. Mas, como o próprio Morin insiste, o desenvolvimento e a progressão não são lineares: avançam, recuam, desviam-se, reconfiguram-se. É precisamente por isso que a lucidez exige ligação, contexto e responsabilidade — para não confundirmos evolução com destino, nem complexidade com confusão.

Transportada para o Futebol, esta lição obriga-nos a dizer: não podemos pensar o jogo de fora do jogo. Não podemos compreender o jogador amputando-o das suas relações. Não podemos enfrentar a incerteza competitiva fingindo que o treino a pode substituir por certezas mecânicas. E não podemos construir uma metodologia verdadeiramente específica se continuarmos a separar aquilo que, no jogar, nasce ligado.

A sua obra permanece porque não oferece uma receita, mas uma exigência. A exigência de pensar mais profundamente. De ligar o que foi separado. De aceitar que a verdade não é posse, mas procura. De compreender que viver é sempre navegar entre certezas frágeis e incertezas inevitáveis. No fundo, Edgar Morin ensinou-nos que pensar a complexidade é aprender a habitar melhor a vida.

E talvez seja também essa a grande lição que Vítor Frade transporta para o treino: treinar não é aplicar receitas fora da vida do jogo. Treinar é organizar uma realidade viva para que uma determinada forma de jogar possa nascer, crescer, estabilizar-se e transformar-se. É criar contextos onde os jogadores percebem, decidem, executam, sentem, comunicam, ajustam e aprendem em função de uma intenção colectiva. É construir hábitos sem matar a criatividade. É repetir sem mecanizar. É estabilizar sem cristalizar. É orientar sem aprisionar. É dar forma sem retirar liberdade. É fazer emergir regularidades num fenómeno que continuará sempre aberto à surpresa.

Um dos maiores méritos da Periodização Táctica é aproximar-se assim do pensamento complexo porque recusa a ilusão de que o jogo pode ser dominado por uma causalidade linear. No Futebol, o mesmo exercício não produz sempre a mesma aprendizagem, o mesmo princípio não se manifesta sempre da mesma forma, o mesmo comportamento não tem sempre o mesmo valor, a mesma estrutura pode gerar dinâmicas diferentes e a mesma decisão pode ser adequada num contexto e inadequada noutro. Isto não significa abandonar a ordem; significa compreender que a ordem do jogo é uma ordem viva. Uma ordem que dialoga com a desordem. Uma ordem que precisa da incerteza para continuar jogo. Uma ordem que não se impõe de fora para dentro como uma máquina, mas se constrói de dentro para fora como uma organização dinâmica.

Por isso, o Modelo de Jogo não pode ser entendido como um desenho morto, fechado num papel. É uma intenção prévia, sim, mas uma intenção que precisa de ganhar corpo na vivenciação, na repetição específica, na interacção, na emoção, na concentração táctica, na experiência acumulada e na inteligência colectiva que se vai formando. O Modelo de Jogo orienta o processo, mas também se revela e se transforma no processo. O treinador projecta, operacionaliza, observa, reflecte, ajusta. A equipa interpreta, resiste, assimila, transforma, devolve. O jogar emerge dessa relação circular entre intenção, treino, competição e reflexão.

Deste modo, Morin e Frade encontram-se de forma profunda. Morin ensina-nos que o conhecimento deve ser capaz de ligar o que foi separado, reconhecer a incerteza, pensar a relação entre todo e partes e evitar a cegueira do pensamento parcelar. Frade ensina-nos que, no Futebol, essa exigência tem consequências metodológicas concretas: o treino deve partir do jogar, regressar ao jogar e ser permanentemente orientado pelo jogar. O que se treina não deve ser uma colecção de conteúdos, mas uma organização de experiências com sentido. Não se trata de acumular exercícios; trata-se de construir uma cultura de jogo. Não se trata de preparar jogadores genericamente capazes; trata-se de formar jogadores cada vez mais competentes dentro de uma ideia para jogar em concreto, sem que isso os reduza, antes potenciando a sua autonomia, criatividade e inteligência.

Assim, a ponte entre Edgar Morin e Vítor Frade não é uma aproximação decorativa. É uma ligação de fundo entre duas formas de resistência ao pensamento simplificador. Morin resiste à fragmentação do humano. Frade resiste à fragmentação do Futebol. Morin mostra que a realidade não cabe nas gavetas disciplinares que inventámos para a estudar. Frade mostra que o jogar não cabe nas gavetas metodológicas que durante décadas separaram físico, técnico, táctico e psicológico. Morin lembra que o todo está nas partes e as partes estão no todo. Frade obriga-nos a perceber que cada tarefa, cada princípio, cada sub-princípio, cada relação, cada escala do jogo deve transportar a marca do jogar que se pretende construir.

No fundo, ambos nos convocam para uma mesma responsabilidade: pensar melhor para agir melhor. No caso de Morin, agir melhor perante a vida, a educação, a política, a ciência, a cultura e o destino humano. No caso de Frade, agir melhor perante o jogo, o treino, a formação, a competição e a construção de equipas. Um ajuda-nos a compreender a necessidade de uma razão aberta, humilde, relacional e consciente das suas cegueiras. O outro mostra-nos como essa razão, quando levada a sério no Futebol, exige uma metodologia capaz de respeitar a inteireza inquebrantável do jogar.

Talvez seja por isso que pensar Morin a partir do Futebol não diminui Morin, nem pensar Frade a partir de Morin diminui Frade. Pelo contrário. Mostra que o Futebol, quando verdadeiramente compreendido, não é um território menor do pensamento. É um lugar onde se manifestam, de forma intensíssima, muitos dos problemas que Morin perseguiu ao longo da vida: a relação entre ordem e desordem, a inseparabilidade entre sujeito e contexto, a articulação entre razão e emoção, a emergência do novo, a impossibilidade de reduzir o vivo ao mecânico, a necessidade de organizar conhecimento sem o mutilar.

E mostra também que a Periodização Táctica, quando verdadeiramente compreendida, não é apenas uma metodologia de treino. É uma forma de pensar o Futebol em complexidade. Uma forma de entender que o jogo não é a soma das suas partes, que a equipa não é a soma dos seus jogadores, que o treino não é a soma dos seus exercícios, que o rendimento não é a soma dos seus factores e que a aprendizagem não é a soma das repetições. É uma forma de reconhecer que o jogar emerge de relações, de interacções, de intenções, de hábitos, de emoções, de decisões, de contextos e de uma cultura que se constrói no tempo.

No fundo, Edgar Morin ensinou-nos que pensar a complexidade é aprender a habitar melhor a vida. Vítor Frade ensina-nos que treinar em complexidade é aprender a habitar melhor o jogo. E, talvez, quando estas duas exigências se encontram, percebemos que o Futebol, mais do que um conjunto de acções, é uma forma viva de conhecimento: um conhecimento que se pensa, se sente, se incorpora, se partilha, se disputa, se transforma e joga. Acima de tudo… o Futebol é viver.

“a hiperespecialização impede de ver o global (que ela fragmenta em parcelas), bem como o essencial (que ela dilui). Ora, os problemas essenciais nunca são parceláveis, e os problemas globais são cada vez mais essenciais. Além disso, todos os problemas particulares só podem ser posicionados e pensados correctamente em seus contextos; e o próprio contexto desses problemas deve ser posicionado, cada vez mais, no contexto do planetário. Ao mesmo tempo, o retalhamento das disciplinas torna impossível aprender “o que é tecido junto”, isto é, o complexo, segundo o sentido original do termo. Portanto, o desafio da globalidade é também um desafio da complexidade. Existe complexidade, de fato, quando os componentes que constituem um todo (como o económico, o político, o sociológico, o psicológico, o afectivo, o mitológico) são inseparáveis e existe um tecido interdependente, interactivo e inter-retroactivo entre as partes e o todo, o todo e as partes. Ora, os desenvolvimentos próprios de nosso século e de nossa era planetária nos confrontam, inevitavelmente e com mais e mais frequência, com os desafios da complexidade”. Edgar Morin conclui que “efectivamente, a inteligência que só sabe separar fragmenta o complexo do mundo em pedaços separados, fracciona os problemas, unidimensionaliza o multidimensional. Atrofia as possibilidades de compreensão e de reflexão, eliminando assim as oportunidades de um julgamento correctivo ou de uma visão a longo prazo. Sua insuficiência para tratar nossos problemas mais graves constitui um dos mais graves problemas que enfrentamos. De modo que, quanto mais os problemas se tornam multidimensionais, maior a incapacidade de pensar sua multidimensionalidade; quanto mais a crise progride, mais progride a incapacidade de pensar a crise; quanto mais planetários tornam-se os problemas, mais impensáveis, eles se tornam. Uma inteligência incapaz de perceber o contexto e o complexo planetário fica cega, inconsciente e irresponsável”.

(Edgar Morin, 2003)

“Às vezes temos a tendência de não valorizar a parte em relação ao todo, mas a parte faz parte do todo e é fundamental para que tudo flua da melhor forma”

“É útil olhar para o experimento da maçã podre sob esta perspectiva. Nick conseguiu perturbar a química dos grupos apenas enviando alguns sinais de não pertença. O seu comportamento foi um sinal poderoso para o grupo — não estamos seguros — o que imediatamente fez com que o desempenho do grupo desmoronasse. Jonathan, por outro lado, forneceu um fluxo constante de comportamentos subtis que sinalizavam segurança. Ele conectou-se individualmente, escutou atentamente e sinalizou a importância da relação. Ele foi uma fonte inesgotável de sinais de pertença, e o grupo respondeu de acordo.”

(Daniel Coyle, 2018)

Nos últimos séculos, a sociedade foi dominada por um pensamento analítico, caracterizado pela divisão e dissecação do conhecimento em partes menores para melhor compreensão e controlo. Essa abordagem trouxe grandes avanços científicos e tecnológicos, mas também levou a uma visão fragmentada da realidade. Hoje surge uma tendência oposta: a sobrevalorização do pensamento holístico na demanda de integrar diferentes partes e reconhecer a complexidade do todo. No entanto, esta nova tendência surge eventualmente como compensatória ao tremendo domínio que o pensamento analítico exerceu e vai além do patamar de equilíbrio da análise com a síntese. Deste modo, em diversas áreas observa-se, pensa-se e actua-se excessivamente sobre o todo e esquece-se a importância das partes. O futebol, ainda que repleto de diferentes exemplos, também vai manifestando este problema.

Muitas vezes observa-se o jogo, seja quantitativa ou qualitativamente pela sua totalidade, quer pela estatística e quantidades de acontecimentos recolhidos, quer através da análise qualitativa de comportamentos colectivos, intersectoriais, sectoriais  e grupais. Esquecem-se as acções individuais e a execução técnica. O pensamento contagiou muitos treinadores que descuram a dimensão individual do jogo, quer no crescimento dos jogadores a este nível quer no combate às suas lacunas. Esquece-se então o jogador, a sua unicidade e individualidade e o quanto isso pode fazer a diferença no seio de uma equipa e no jogo. Como esclarece Vítor Frade, em entrevista a (Xavier Tamarit, 2013), “o que dirige o Processo é uma matriz, é uma ideia de jogo e de operacionalização, porque a Especificidade só é garantida… não é garantida pelo macro, é garantida pela intervenção que você consegue ter em todas as particularidades, de forma que elas contribuam para o todo, porque senão, não é Especificidade. Caso contrário, você não vai identificar que Joaquim é diferente de Manuel, e isto é diferente daquilo. Portanto, a Especificidade também está aí… e as partes melhorando, melhoram o todo”.

Uma equipa técnica é outro bom exemplo. A competência da mesma é certamente gerada pelo todo que se gera na interação das partes, ou seja, cada técnico. Mas a individualidade, aérea de especialidade, experiência e competência individual, são também fundamentais para que esse todo seja melhor.

Um destes técnicos, Vítor Matos, no passado formando equipa com Pepijn Lijnders no Liverpool de Jürgen Klopp e que agora acompanhou o neerlandês num novo desafio no Red Bull Salzburg, aborda a questão pela dimensão sócio-afectiva e dinâmica do grupo. O treinador português defende a importância da individualidade e das escolhas do treinador na construção da equipa. Certamente, nada de novo. Os bons e mais experientes treinadores terão há muito (para não dizer desde que o futebol é futebol), uma intuição e sensibilidade para tal. Racionalizar isto, na perspectiva de alguém que, pelo trajecto que teve no futebol acreditará na mudança de paradigma vivida nas últimas décadas nomeadamente ao nível do pensamento holístico, complexo e sistémico, é que é  se torna raro na hoje em dia. Porque tal como na restante sociedade, vivemos uma tendência para a polarização de crenças e atitudes.

“É um desafio pelas relações que se vão criando. Por isso é tão importante a ideia de jogo e este compromisso coletivo. É normal, quando tens dois ou três jogadores de uma nacionalidade e dois ou três de outra e por aí fora, que eles se relacionem mais entre eles, por grupos. O desafio é que nos consigamos conhecer melhor, de forma a que, no jogo, tudo flua naturalmente. Às vezes, é o próprio jogo que leva a essa naturalidade. Por essas razões, ao olharmos para o mercado, fomos buscar alguém com mais experiência, o Janis Blaswich, um jogador com maturidade, um capitão, que ajudasse a que existisse uma maior maturidade também nestas questões. É importante ter sensibilidade para este tipo de questões. Mas, mais do que aquilo a que nós [treinadores] possamos apelar, os jogadores também têm de, eles próprios, criar o seu próprio espírito de equipa. Acreditamos muito que os jogadores têm ownership, que sejam capazes de construir e criar uma cultura partilhada. Às vezes temos a tendência de não valorizar a parte em relação ao todo, mas a parte faz parte do todo e é fundamental para que tudo flua da melhor forma”.

(Vítor Matos, 2024)

A decisão de Endrick. Pensá-la de forma linear ou de forma complexa.

“Não é fácil, e sobretudo temos de ter perfeita noção que não há receitas, apela fundamentalmente ao Sentido da Divina Proporção, daí que não faça sentido estabelecer momentos para a utilização tanto do feedback ou do feedfoward. E esse é o lado engraçado e desafiador do processo, não há receitas, tem de haver arte na gestão de tudo isto. Eu penso inclusive que muita da robotização manifesta por muitos jogares resulta da renúncia da parte dos treinadores ao lado intuitivo da gestão dos processos de treino. Parece que parte da pergunta feita, “em que momentos utiliza-os” espelha uma tendência generalizada nos treinadores, e que quanto a mim radica na não capacidade de lidarem com a complexidade e com o que esta implica, nomeadamente a necessidade de estarmos perante uma realidade que não é à partida totalmente conhecida.”

(Jorge Maciel, 2011)

Durante muito tempo acreditámos que existiam melhores decisões para resolver um determinado problema que o jogo coloque. Referimo-nos principalmente a situações que vão emergindo como padrão. Por exemplo, como decidir do ponto de vista atacante um contra-ataque em 3×2+GR, tendo inclusive em conta os diferentes comportamentos que os defensores e o Guarda-Redes poderão adoptar. Ainda acreditamos que existem melhores decisões do que outras. A principal passa por o Futebol ser um jogo com determinadas regras e especificidade, no qual não vale tudo, nem tudo tem a mesma validade qualitativa para o jogar ou se ser bem sucedido. Ou no limite, diferentes comportamentos, mesmo que no mais ínfimo detalhe, diferentes consequências na eficiência e eficácia no jogo. Resumindo, melhores decisões farão então crescer a eficiência e a eficácia no jogo.

Porém, a experiência e conhecimento levam-nos a reflectir, se hoje os treinadores em geral, não estão a condicionar as decisões de forma excessiva. É um debate recorrente, tendo em conta o argumento já clássico que recorre à forma como jogávamos na rua, e como, sem a presença do treinador, o jogo nos ensinava pela tentativa, erro e feedback sócio-emocional a regular a e modelar o nosso jogar do ponto de vista do trinómio Estética-Eficácia-Eficiência. E influenciando directamente tudo isso, obviamente que todos tínhamos velocidades e interesses diferentes sobre este desenvolvimento, o que se tornava decisivo no processo. Como maior exemplo, se quase todos sonhávamos em vir a ser jogadores de futebol profissionais, apenas alguns acreditavam mesmo nisso com a suficiente ambição, determinação e resiliência para efectivamente lá chegar.

Emerge então essa questão fundamental. Se os treinadores e a sua eventual excessiva intervenção, mecanização, e castração da criatividade, autonomia e individualidade, não estão então a condicionar e formatar os jogadores para perfis idênticos e de limitado poder autónomo, cognitivo, criativo e de pensamento divergente. A resposta parece-nos clara no Futebol de Formação. Mas quando a discussão se alarga ao Futebol de Rendimento, tendo em conta as necessidades do contexto em maximizar a eficácia e o pouquíssimo tempo que existe para treinar, a questão torna-se mais complexa.

O golo marcado por Endrick no Real Madrid x Estugarda para a Liga dos Campeões levantou uma importante discussão num grupo de treinadores de Futebol. A situação foi a referido atrás: o clássico contra-ataque 3×2+GR com mais 2 atacantes a chegar. Na nossa mente, são vários os sub-princípios ofensivos que podem ajudar a tornar mais eficiente a resolução da situação e portanto, mais fácil a finalização. Por outro lado, a finalização pelo jogador em condução pelo corredor central é uma dessas soluções e que acontece muito frequentemente no Futsal quando os dois defensores permitem aproximação à sua baliza e abrem espaço entre si, para que o remate seja efectuado com sucesso. E tão próximo da baliza, a capacidade de reação do Guarda-Redes torna-se mais curta. Mas não foi o caso. O jovem brasileiro finalizou de uma posição ainda distante da baliza.

Neste enquadramento, apesar da eficácia da decisão que tomou, tendo em conta a eventual dificuldade da mesma, terá decidido mal. Clarificando, decido mal numa perspectiva a prazo. Ou seja, repetindo a decisão mais 10 vezes, poderia não ter sucesso em mais nenhuma. Isto porque num pensamento lógico e linear, tomando uma decisão mais difícil muitas vezes, logo, de probabilidade de sucesso menor, irá perder essa oportunidade várias vezes. Diminuindo a eficiência, teremos então consequências na eficácia.

Mas perante uma potencial evolução de pensamento, este raciocínio, sublinhamos, torna-se simplificado e linear. Isto porque só estamos a pensar em tempo, espaço, número e na ”média“ da dificuldade das acções individuais para os jogadores em geral. Não estamos a pensar de forma complexa. Não estamos a pensar em que a acção humana não é linear, que existem jogadores que resolvem determinados problemas e acções muito melhor que outros. E neste caso concreto, a questão será… se Endrick voltar a tomar a mesma decisão… se voltará a marcar golo. É provável que não. Mas não sabemos sequer se volta a tomar a mesma decisão, até porque as circunstâncias são irrepetíveis. Cada ser humano é único. Como cada uma das suas decisões.

Fruto da nossa educação e cultura, somos levados a pensar de forma. Como tal tendemos a ignorar dimensões influentes no processo. Não ”vemos” intuição, qualidade da criatividade e do pensamento divergente. Temos dificuldade em sentir o que, naquele momento, a confiança de cada um pode aportar à situação. E isto são só alguns dos fenómenos que não vemos ou sentimos. Haverá muito mais certamente. Desejamos fechar o espectro de análise para conseguir catalogar, colocar em caixas, moldar e guiar, mesmo que na nossa mente isto não seja num sentido fechado. Mas no final torna-se sempre. O problema é se as “regras” traçadas pelo treinador ao jogo que quer que os jogadores joguem, limitam qualidades que o jogador tem ou está a ter, e o treinador não as vê ou sente.

Não existem jogadores iguais, com qualidades iguais, em momentos qualitativos iguais. Tal como as circunstâncias, por muito que se aproximem de forma semelhante. E é de facto o papel do treinador no treino, aproximá-las do jogo, tendo no entanto a consciência que nunca se irão verdadeiramente repetir. Assim, deve então propiciar contextos que se posicionem num limiar onde existirá transfere do treino para o jogo, conseguindo dessa forma potenciar e não castrar ou prejudicar.

Este caminho passa pela criação de princípios a diferentes escalas do jogo. Que são isso mesmo… princípios. Porque o seu desenvolvimento e final irá caber sempre aos jogadores e ao ”aqui e agora” do jogo. Dando o mesmo exemplo, dificilmente criamos a real condição da acção de Endrick, em ter acontecido nos derradeiros segundos dos descontos… e como o resultado se encontrava naquele momento. E consequentemente, o contexto emocional vivenciado. E “só” isto tem potencial para mudar a decisão de um jogador.

Por outro lado estamos sempre, no registo do certo ou errado. Da boa e má decisão. Estamos formatados para isso. Para a dualidade, para o binário. O que a ciência começa-nos a provar, é que a realidade não é assim. O “gato está vivo e morto até abrirmos a caixa”… 

Não estamos a defender o oposto da mecanização. Estamos a argumentar que devemos ter sensibilidade para o contexto de cada acção. E como Vítor Frade defende, devemos dar espaço à “divina proporção”. E como também diz… em ajudar a construir “mecanismos não mecânicos”. E isto passa pela intuição e decisão do treinador em criticar, valorizar, ou às vezes não intervir e deixar fluir. Como pensamos que deve ser este caso. Se no futuro começar a originar um padrão negativo… aí sim… condicionar ou mesmo reprimir a decisão. Até porque, na decisão tomada pelo jogador brasileiro, e sublinhado a ideia passada anteriormente, nas tais características lineares (tempo, espaço, número), não estamos a considerar a intuição, o pensamento divergente e a confiança. Que não só são fundamentais para muitas vezes desbloquear situações de jogo, como a nível macro, para o jogo evoluir. O Guarda-Redes do Estugarda, muito provavelmente, tal como nós, não previu aquela decisão do Endrick e por isso não a defendeu melhor…

Todos os que jogámos, e principalmente na rua, sentimos em determinados momentos uma intuição e uma confiança inabalável numa decisão ou execução mais difícil. Mesmo perante outras alternativas de decisão e execução bem mais fáceis. Mas decidimos fazê-lo porque sentimos que íamos ter sucesso. E tivemos. E como, do ponto de vista externo, medir ou avaliar isto? Não sentindo, torna-se de facto muito difícil. Por outro lado, avaliar uma acção pelo seu sucesso, torna-se o caminho mais simples, apesar dos riscos em si inerentes. E no fundo, é informação superficial. Tonar-se claro o grande desfio evolutivo que temos pela frente.

Concluindo, e lançando um tema futuro, é curto avaliar uma acção de jogo apenas através de tempo-espaço-número. Se há algum tempo para trás referíamos a importância de acrescentar a qualidade, hoje sentimos que a mesma também não pode ser considerada de fechada, mas sim muito influenciada por diferentes estados emocionais e diferentes contextos. Portanto, continuamos a acreditar que existem melhores decisões para resolver um determinado problema. No entanto, compreender as mesmas carece de uma visão mais complexa, do homem, do jogador, e está também mais dependente do contexto e do aqui e agora do jogo.

“nós normalmente quando acentuamos muito o que é táctico, temos tendência a robotizar, temos tendência a querer um futebol quase sem erros, um futebol mecânico. Eu já tive essa tendência, por exemplo, direccionar muito o feedback do exercício, sistematicamente parar para corrigir e não deixando que o jogo flua, é importante deixar fluir o jogo. Ás vezes estou no treino a ver uma solução, que para mim é a melhor solução, porque vem no sentido daquilo que é a minha ideia de jogo, por exemplo, quando a bola entra no corredor quero que haja a tentativa de forçar esse corredor em situações de dois contra um, através do envolvimento do lateral ou através do envolvimento do médio centro. Mas eu tenho um extremo direito que é muito melhor jogador daquilo que eu fui, mas muito melhor jogador, e muitas vezes aquilo que eu fui como jogador limita-me em termos de leitura daquilo que está acontecer, isso acontece montes de vezes, estou à espera de um movimento qualquer e o movimento sai correcto, o movimento sai correcto e a bola não entra, tenho a tentação de dizer é neste momento, tau, mas esse meu extremo direito inventa futebol, mas inventa futebol com uma qualidade acima da minha, do meu entendimento. Ele consegue descobrir soluções que eu no meu entendimento não consigo perceber, no momento não consigo perceber o que ele quer mas ele descobre, ele descobre porque ele tem muito mais qualidade do que eu algum dia tive e apesar de eu estar de fora ele é capaz de descobrir soluções… Aqui há uns anos se ele não jogava no movimento que eu pretendia, ficava chateado, porque achava que ele não estava a corresponder à dinâmica do colectivo. Agora deixo fluir, porque percebo que ele me consegue dar, a maior parte das vezes, soluções muito mais ricas do que aquelas que eu estava à espera. Eu não limito a criatividade, eu deixo criar mas tem que ser… agora, se ele me cria uma vez e perde a bola, se me cria duas vezes e perde a bola, sistematicamente colocando em causa o que é o colectivo, ai isso para mim não é criatividade. Para mim ele está a recrear, não está a criar para a equipa. O problema é nós deixarmos que eles do ponto de vista individual consigam emprestar o mais possível ao colectivo.”

(Vítor Pereira, 2009)

O jogo é qualitativo. Um exemplo da dificuldade em criar “caixas” para o catalogar. E o enorme impacto da nova regra de reposição da bola na dinâmica do jogo.

O superpoder de Viktor Gyökeres

O magnífico golo de Jovan Sljivic. Pela execução e escondendo a decisão. A não linearidade da percepção-leitura-execução.

“(…) é possível considerar uma simultaneidade de decisão e de acção, visto que é necessário responder constantemente aos constrangimentos colocados pelo jogo.”

(Joaquim Pedro Azevedo, 2011)

A situação passou-se no jogo da Youth League entre Estrela Vermelha e Manchester City de 13 de Dezembro passado. O jogador que a protagonizou é um talentoso médio sérvio, Jovan Sljivic.

Imediatamente fez-nos recordar o fantástico e disruptivo trabalho de Friedrich Mahlo de, imagine-se… 1970. Apesar da colonização do pensamento linear e mecânico durante o século passado, o autor já imaginava o comportamento táctico de forma complexa.

“o processo de percepção e de análise da situação, assim como a solução mental do problema, fazem-se em movimento (em corrida, durante um passe, uma finta ou um pontapé). Pode-se falar aqui duma modificação contínua da actividade motora como consequência de processos intelectuais. A actividade motora é modificada na sua qualidade, na sua quantidade e na sua orientação espacial.”

(Friedrich Mahlo, 1970)

Se virmos com atenção as repetições em câmara lenta da situação, Sljivic lê a situação, especialmente a baliza adversária, 2 segundos antes de rematar, o que é muito tempo tendo em conta o contexto e processo de leitura, decisão e execução no jogo de futebol. Apesar disso, adapta-se no tempo-espaço para ajustar o remate (solução motora do problema de acordo com Mahlo), realizando-o de forma perfeita. Isto invalida o pensamento linear porque a decisão e os ajustamento da mesma em função da nova posição no espaço, têm de suceder continuamente até de facto a execução suceder.

Salientamos também um dos benefícios do jogador não estar permanentemente a ler a baliza ou a solução que procura: esconder a decisão e consequentemente provocar a dúvida e atrasar a resposta adversária. Perante a acção de Sljivic em sub-momento de Criação ou Finalização, até ao derradeiro momento da execução instalou a dúvida sobre a opção pelo remate, combinação ou último passe / cruzamento.

“Enquanto se resolvem mentalmente as situações, devem subsistir relações mútuas entre as três fases de acção (percepção e a análise da situação, solução mental do problema e solução motora do problema), graças às percepções marginais da situação exterior e da sua, própria motricidade. Pode-se, assim, ter em conta, a todo o momento, a dinâmica da situação. Esta percepção marginal pode conduzir a uma percepção central nova, uma modificação, ou um aperfeiçoamento da situação mental e da acção motora. Graças a ela, a continuidade da percepção encontra-se assegurada durante toda a acção e, logo, durante a actividade em jogo.”

(Friedrich Mahlo, 1970)

Complicado, difícil e complexo. O exemplo das progressões do exercício B-3OD2A-1.

“a riqueza do Futebol é essa, na mesma proporção da complexidade que o constitui. Por isso é que ouvimos quem diga que o Futebol é simples, outros acham que é complicado mas os melhores dizem que é um fenómeno complexo. Porque reconhecem os problemas, sabem de MILHARES de formas para os resolver (de forma abstracta) mas também sabem que resolvê-los da forma ideal exige conhecimento, dedicação, precisão e inteligência”.

(Marisa Gomes, 2011)

Trata-se de uma confusão recorrente. Algo mais complexo não se torna obrigatoriamente mais complicado e difícil. Até porque algo “determinado” como complicado e / ou difícil, assim o é relativo ao conhecimento e interpretação do(s) observador(es). Por outro lado, apesar de também ser possível classificar complexidade à luz do conhecimento de cada indivíduo, esta também poderá ser entendida tendo em conta a forma como o universo está organizado, obviamente, algo que vai muito além do domínio e conhecimento do ser humano. Apesar de importante para a compreensão do todo, não é no significado lato de complexidade que se foca esta reflexão. O objectivo é algo muito mais específico, porém, também altamente complexo. O treino do Futebol.

“Quando os cientistas falam em sistemas complexos tal não significa que os sistemas são complicados na sua maneira formal. O termo “sistema complexo” foi adotado como um termo técnico específico, para definir os sistemas que têm tipicamente um grande número de peças ou componentes pequenos que interagem com as peças e os componentes próximos e similares. Estas interações locais conduzem frequentemente ao sistema que se organiza sem nenhum controlo hierárquico ou agente externo. Tais sistemas são entendidos como auto-organizantes, dinâmicos em constante mudança, não se afirmam como sistemas estáveis e equilibrados.”

(Vera Bighetti, 2008)

De forma a distinguirmos estes conceitos trazemos o exemplo do exercício B-3OD2A-1 do Programa de Treino. Não abordando a fundo a sua organização geral e reguladores de complexidade (tempo, espaço, número, regras, organização táctica), temos então o exercício na sua forma primária. Importa, no entanto, explicar que o próprio contém, durante a sua execução, uma regra progressiva automática ao nível do número de adversários em oposição à medida que a equipa atacante pontua. Esta regra estará presente nas 4 progressões gerais que o exercício propõe e são essas que vamos analisar. Mas trata-se de uma regra e não de uma progressão do exercício.

Na sua forma primária (também podemos chamar primeira progressão), o exercício estipula que para uma equipa pontuar, tem de realizar 10 passes no seu meio-campo. Nesse momento, apenas esse objectivo regulamentar permite às equipas obterem vantagem e estarem a vencer no exercício. Na segunda progressão já acrescenta uma regra. As equipas têm na mesma que realizar 10 passes, porém, pelo menos um deles tem de ser realizado no meio-campo adversário. 

Ora aqui começa o tema que pretendemos abordar. Mais uma regra, torna obrigatoriamente o exercício mais complexo. Mais varáveis, potencialmente mais acontecimentos a poderem suceder, mais coisas a analisar e assim maior complexidade na percepção, análise e decisão. E nesse momento, o exercício também se torna mais complicado na forma de pontuar para quem ataca, pois implica grande critério sobre o momento do passe no meio-campo adversário, possivelmente obrigando a equipa a atrair o adversário a determinada zona para depois explorar outra. Mas sendo um exercício de objectivo de Organização Defensiva, a nova regra torna também mais complicada a missão de quem defende. Esta obriga a equipa a ser mais criteriosa em quando e como pressionar de forma a não partir o seu bloco e permitir espaços atrás da primeira e segunda linha de pressão que têm que ser explorados pelo adversário.

A partir da terceira progressão, dada a introdução de novas regras, a complexidade continua a crescer, porém o mesmo não sucede de forma linear, para quem ataca e quem defende, com a dificuldade. Na terceira progressão, a equipa que defende e procura recuperar a bola tem uma segunda opção para pontuar, e que até acaba por ser mais valorizada: marcar golo na baliza adversária, o que potencia a articulação da Organização Defensiva com a Transição Ofensiva, nomeadamente ao nível da decisão sobre o Contra-ataque ou Valorização da posse de bola. Desde modo, como o exercício apresenta mais decisões a tomar e situações a resolver, cresce então em complexidade. Contudo, aumentam as formas de pontuar e obter vantagem passa a ser potencialmente mais fácil, o que também estimula ainda mais o objectivo do exercício: a Organização Defensiva e a recuperação da bola. Por outro lado, a equipa que se encontra em posse de bola no seu meio-campo passa a ter outras preocupações com a perda da bola, pois a Transição Ofensiva adversária passa a ser mais difícil de contrariar.

A quarta progressão traz uma terceira opção para pontuar, de ainda maior valorização pontual: a equipa em Organização Ofensiva em posse de bola no seu meio-campo, pode agora invadir o meio-campo adversário e finalizar nessa baliza. Uma vez mais… maior complexidade de escolhas, de variáveis, de acontecimentos que podem ocorrer. Mais hipóteses de pontuar e de maior valorização, situação potencialmente mais fácil para quem ataca. Porém, para o grande objectivo do exercício, torna-se cada vez mais difícil defender o que potenciará critério, inteligência, entrosamento, coesão, timing, entre outras qualidades fundamentais para equipa que procura recuperar a bola.

Portanto, ao fazer crescer a complexidade pretende-se a aproximação ao todo complexo que é o jogo de futebol, o que no fundo se torna o objectivo do treino do… jogo de futebol. 

“(a Periodização Táctica) aparece para permitir tratar fenómenos apercebidos complexos (jogo), ou seja, fenómenos que “a priori” se considera não poderem conhecer-se por decomposição analítica (Le Moigne, 1994). Esta desenvolveu-se precisamente para permitir uma passagem reflectida do complicado ao complexo, da previsibilidade certa à força de muito cálculo à imprevisibilidade essencial e todavia inteligível. É necessário uma modelização (periodização) que revele suficientemente a inteligibilidade dos fenómenos para que possa permitir a deliberação raciocinada, a invenção e a avaliação dos seus projectos de acção (Le Moigne, 1994)”.

(Carlos Carvalhal, 2002)

“Tudo influencia. Não há uma parte que joga Futebol”

“Em primeiro lugar temos que entender o fenómeno como complexo, e se o é, jamais poderá deixar de ser complexo o modo como intervimos, reflectimos e actuamos sobre ele. (…) Há que estar perante esta realidade, reconhecendo-a como não linear e assim todo o pensamento tem de ter esta base, não linear.”
(Vítor Frade, 2013)

O erro de Descartes e de… Ricardo Araújo Pereira. O entrosamento, a forma, o flow e a necessidade do pensamento complexo. O caso do Benfica 22/23 de Roger Schmidt.

“(…) é na complexidade humana que se encontra o radical fundamento do futebol, para além da técnica, da táctica e da condição física.”

Manuel Sérgio em (José Neto, 2014)

Ricardo Araújo Pereira atinge a genialidade na sua área, mas também em diversos outros temas. No entanto, naturalmente influenciado culturalmente pelo paradigma de pensamento vigente, e à imagem da maioria de nós onde também se incluem outras figuras que atingiram um elevado nível de conhecimento e cultura geral, o humorista português aparenta ter dificuldades em observar os fenómenos de uma perspectiva complexa. Eventualmente ajudará, tendo em conta a própria sátira que faz de si mesmo, que nos momentos em que fala de Futebol e mais especificamente do Benfica, tornar-se, segundo o próprio, aborrecidamente sério perdendo por vezes até a racionalidade. De qualquer das formas, durante a apresentação do livro Schmidtologia de Luís Mateus, apontou que a direcção do clube devia ter antecipado o que sucedeu no PSV Eindhoven e agido. Que alguém deveria ter aconselhado Roger Schmidt a não dar folgas tão prolongadas. E que todos sabem, porque “está cientificamente comprovado” que tal período de paragem é nefasto para as equipas.

Ora bem… isto coloca-nos logo uma questão prévia. Um treinador de futebol não é o responsável técnico pelo processo da sua equipa? Não é contratado como especialista para o planear e operacionalizar? Para tomar as decisões que achará adequadas em benefício do rendimento da equipa? Não será o mais capaz no clube, pela sua formação, experiência, pela sua proximidade e conhecimento da equipa para o fazer? E se alguém participar nesse processo, ou se tomar as decisões pelo treinador, também será despedido se as mesmas resultarem em insucesso?

Através da forma como a equipa joga ligada nos quatro momentos do jogo, Schmidt mostra, no mínimo, uma sensibilidade para o todo complexo que é o ser humano e consequentemente, o jogo de Futebol. Nessa linha de pensamento, o técnico alemão, como os treinadores que subsistem nos mais altos patamares de rendimento (Ruben Amorim e Sérgio Conceição são outros exemplos por cá), dada a sua relação conhecimento / experiência / sucesso, terão necessariamente, nesta fase de desenvolvimento do jogo e do treino que perspectivar o rendimento de forma complexa. Seja de forma consciente ou inconsciente. O que é que isso significa? Que não separam o “físico” do “mental”, que acreditarão que esse rendimento, tal como a fadiga / desgaste serão alcançados por um todo, que na realidade não pode ser desconstruído em partes, apesar de algumas pistas e indicadores que se poderão obter no processo de forma a possibilitar uma intervenção mais precisa.

Portanto, nada disto, nomeadamente o referido – a tal semana de folga, está realmente “comprovado cientificamente” de que será algo prejudicará a equipa. Porque essa “cientificidade” com que o fenómeno é analisado é mutiladora, e como tal, desfasada da realidade. Deste modo, procurando isolar “partes” e as suas relações de um fenómeno complexo, tem tudo para estar errada. O ser humano não é só físico… Aliás, como já dissemos tantas vezes, o físico é só uma forma simplista e redutora de observar o comportamento humano.

“ (…) de acordo com Gaiteiro (2006) podemos afirmar que aquilo a que chamamos “parte” é apenas um padrão numa teia inseparável de relações, não existindo portanto, partes em absoluto.”

(Joaquim Pedro Azevedo, 2011)

Deste modo, a experiência e sensibilidade de Schmidt face ao contexto, leva-o a decidir, naturalmente pesando os prós e contras, que essa tal folga beneficiará mais do que prejudicará a equipa. Tantas pessoas nas mais diversas profissões, mais ou menos desgastantes, não dizem precisar, ou não fazem mesmo um período de férias a meio do ano para se “desligarem” da rotina e stress acumulado? Claro que que todas as actividades são diferentes. Claro que muitas delas não têm a exigência físico-energética que o Futebol contempla. Claro que a decisão tem riscos. Claro que se realizarmos o exercício teórico de isolarmos esses efeitos físico-enérgicos sobre a adaptação até aí alcançada haverá alguma perda. Mas todas as decisões perante um fenómeno complexo têm riscos. A função do treinador é gerir tudo isso, equacionar as oportunidades e ameaças e procurar a optimização do todo. Focando-se, obrigatoriamente no processo. E não no do PSV Eindhoven. No do Benfica. No “aqui e agora” porque os contextos são todos diferentes.

Não há qualquer linearidade ou receita para se obter sucesso desportivo. No máximo haverão ideias e experiências que levaram a tal, mas sublinhamos… sempre em contextos diferentes. Nem sequer, a paixão, o compromisso e o empenho, unanimemente defendidos, são suficientes por si sós para o alcançar.

Falou-se em “bizarria” perante as decisões de Schmidt. Perguntamos se na altura também não foi bizarro quando os treinadores deixaram de ir correr para o pinhal e para a praia e começaram a trabalhar sempre no campo através do jogo ou de fatias do mesmo? Também não foi bizarro quando Pitágoras anunciou a esfericidade da Terra, ou Copérnico que afinal o Sol não girava à volta do nosso planeta? Por outro lado, autores como Peter Tschiene ainda na década de 80, muitos outros depois disso, e por cá, os professores Monge da Silva, Francisco Silveira Ramos, Jorge Castelo entre outros, defendiam de facto esses períodos, a que chamavam “profilácticos”, nas pausas das competições, ao invés do reforço da “carga” que pressupunha o então paradigma instalado, encabeçado por Lev Matveyev.

“(…) o autor (Peter Tschiene, 1985) defende a manutenção de um alto nível de intensidade durante todo o processo de treino, utilizando fundamentalmente os exercícios especiais de competição, realizando um grande número de competições, tendo como objectivo o aumento da intensidade específica do treino. (…) por outra, a introdução de intervalos específicos “intervalos profilácticos” antes do período de treino, para que o atleta se encontre plenamente descansado para o início de um novo período competitivo.”

(Rui Afonso, et al., 2011)

O próprio (Roger Schmidt, 2023) explicou a decisão pelas mesmas razões, ao defender “que é crucial dar dias de folga aos jogadores neste tipo de calendário competitivo, com mais jogos, mais intensos, com intervalos mais curtos. Se conseguirmos dar algumas folgas aos jogadores, isso é essencial”. Também o treinador, professor e metodólogo (Jorge Castelo, 2022) a propósito do mesmo assunto também apresentou concordância com o treinador alemão. Castelo, formador de treinadores, com vasta experiência e obra no treino de Futebol defendeu ser “absolutamente oportuno, porque começaram a época mais cedo. Naturalmente que é uma situação compreensível, pode ser equacionado o tempo de cinco dias, mas é um tempo que parece ajustado, principalmente para os jogadores mais utilizados. Devem ser monitorizados no sentido do cuidado com o que comem e bebem. São profissionais, há sempre um bichinho de treino que poderão fazer algo durante os dias”.

Por outro lado, Peter Tschiene entre outros autores, também abordam o conceito intensidade, porém, não na perspectiva tradicional ilustrada pelas declarações de Ricardo Araújo Pereira. Elevar a intensidade através de exercícios específicos significa preservar nos mesmos a complexidade do jogo. Como o professor Vítor Frade refere… “reduzir sem empobrecer”. Portanto, estamos no âmbito de uma dimensão que não se circunscreve apenas ao físico-energético. Então… se o jogo é complexo, o treino também tem de o ser. E a tal “forma”? Também não o será? Obviamente que sim. A mesma não passa apenas por “estar bem fisicamente”. Recuperemos ideias de José Mourinho nos “longínquos” anos de 2001 e 2005:

“(…) no “flash interview” ouvi falar de quebras físicas e logo dei por mim a pensar que a minha cruzada vai ser mesmo difícil. É que não consigo mesmo que se perceba que isso não existe. A forma não é física. A forma é muito mais que isso. O físico é o menos importante na abrangência da forma desportiva. Sem organização e talento na exploração de um modelo de jogo, as deficiências são explícitas, mas pouco têm a ver com a forma física.”

(José Mourinho, 2005)

“(…) a forma desportiva é “o jogador estar fisicamente bem, inserido num modelo de jogo que ele domina na perfeição. Quanto ao aspecto psicológico, que é fundamental para poder jogar ao mais alto nível, o jogador em forma sente-se confiante e é solidário e cooperante com os seus companheiros e acredita neles. Ora tudo isto junto significa estar em forma e traduz-se em jogar bem.”

(José Mourinho, 2001)

Assim, nesta perspectiva complexa de forma desportiva, será que fará sentido chegar à conclusão que as quebras de rendimento do Benfica de Roger Schmidt sucederam por um eventual ligeiro declínio de rendimento físico-enérgico, ignorando por outro lado os efeitos positivos que as folgas terão trazido a todos? Sim, a todos. Porque equipa técnica e staff também necessitam de estar “frescos” e mentalmente bem para tomarem decisões e actuar. A equipa e o seu rendimento, também são… o todo. Ou seja… todos os que no processo influem.

E neste domínio, não terá, a saída de Enzo Fernandez também contribuído significativamente para a quebra de desempenho? Até à pausa competitiva para o Campeonato do Mundo, o argentino assumia-se como um jogador que claramente acrescentava outro desempenho à equipa. Tanto que, também por isso, acabou por sair por um valor incrível para o Chelsea. E já que estamos a falar do Mundial, na folga de 10 dias dada em Dezembro (a maior de todas), os jogadores com mais tempo de jogo ao momento até estavam ao serviço das suas selecções, portanto, nem sequer usufruíram desse prolongado período de folga. Tal como na folga de 5 dias no final de Setembro e na de uma semana em Março.

São portando diversas as hipóteses e é por isso que estamos perante um fenómeno complexo. Certezas nunca teremos em relação a nenhuma formulação. Nada na verdadeira especificidade do jogo pode estar “cientificamente comprovado” porque não há uma linearidade no processo. Pelo menos através do actual conhecimento científico. E na situação em causa, que decidindo uma semana de folga, irá, com certeza, implicar uma quebra de rendimento. Diferentes contextos, seres humanos diferentes, equipas diferentes, lideranças diferentes, trabalho diferente, formas de jogar diferentes, etc., etc.,… resultados diferentes.

Posto isto, chegamos à principal motivação deste artigo. Sublinhamos que certezas sobre causas para determinados resultados, quer antes quer à posteriori, num processo / sistema complexo como é o caso do treino e rendimento de um equipa de Futebol, não existirão. Contudo, poderemos procurar explicações mais prováveis. Neste sentido, naturalmente acrescentando o mérito adversário (porque as equipas nunca jogam sozinhas e os jogos que protagonizaram a perda de rendimento do Benfica eram de dificuldade elevada para o Benfica), e também a saída de Enzo Fernández, no fundo até suspeitamos que terão sido de facto as pausas competitivas para as selecções que terão estado por trás dos três momentos de menor rendimento do Benfica. Porém… por razões diferentes.

Assim, tendo em conta o que José Mourinho sustentava, se o entendimento de forma no contexto do Futebol, nos planos colectivo e individual é estar a jogar bem no âmbito de determinado Modelo de Jogo, com os jogadores manifestando grande confiança em si e nos companheiros, recordamos os momentos em que o Benfica, nomeadamente até Dezembro, transparecia essa confiança, cooperação, solidariedade, criatividade, proximidade com o sucesso e até, felicidade. No fundo… o nosso entendimento de qualidade de jogo. Uma qualidade que parecia transparecer “invencibilidade” e que nem grandes clubes europeus, repletos de qualidade individual, conseguiram contrariar.

O autor (Pedro Bouças, 2011) descreve que “(…) não há diversão igual aquela que se retira quando se consegue jogar de olhos fechados. Aquela que sentimos quando as coisas saem com um entrosamento tal que deixamos o adversário só a cheirar a bola (…)”. Também (Antonio Gagliardi, 2023), num artigo recente em que aborda uma eventual nova tendência evolutiva do jogo, chamada de “relacionismo”, vai ao encontro deste pensamento explicando que tais ideias de jogo, que como o próprio nome indica têm por base os jogadores e as suas relações, portanto, o seu entrosamento, realçam “as qualidades, características e emoções dos jogadores, especialmente os mais técnicos, também porque ao ligar os jogadores entre si, torna todos um pouco mais felizes”.

Neste enquadramento, a forma, será, do ponto de vista colectivo a equipa, e individualmente cada um dos jogadores, manifestar qualidade ou entrosamento, conduzindo a desempenho e rendimento, tendo sempre em conta o contexto competitivo / adversários que defrontam. Passa por um entendimento ou “linguagem” comum, que simultaneamente os jogadores apresentam em relação ao jogo, antecipando até o comportamento de colegas e adversários. E não conseguimos deixar de relacionar este fenómeno, a uma escala incrivelmente mais diminuta, com o entrelaçamento quântico, o qual, segundo a (Wikipédia, 2023), “permite que dois ou mais objectos estejam de alguma forma tão ligados que um objecto não possa ser corretamente descrito sem que a sua contra-parte seja mencionada – mesmo que os objetos possam estar espacialmente separados por milhões de anos-luz”.

“É sobre esta representação que os Jogadores retiram do contexto que fundamenta o quesito comunicação, dado que é desenvolvido e elevado posteriormente a um carácter de Linguagem quando aplicado sobre condições mais complexas e inteligíveis (Capra, 1996). Esta linguagem se tornará na Linguagem da Equipa [Específica] que é um tanto mais «fluente» quando os Jogadores se apresentam entrosados. Tendo em conta as diferentes línguas da linguagem específica do Jogo de Futebol, esta Linguagem Específica da Equipa se torna um dialecto, específico a esta microsociedade (Teodorescu, 2003), fortalecendo que um aumento exponencial [quando em condições cada vez mais complexas] de códigos, e por sua vez informações deste «dialecto» a ponto de se tornar incompreensível para outras Equipas da mesma linguagem específica. A pegar nos exemplos do Brasil e Espanha ambos países com uma diversidade cultural muito grande, esta compreensão do dialecto colectivo Específico é a mesma maneira que a permanência e valoração que os Cearenses ou Gaúchos [respectivamente dos Estados do Ceará e Rio Grande do Sul] atribuem ao seu dialecto Específico e os Bascos sua língua basca, sendo ambas atribuídas à língua portuguesa e espanhola mas, um tanto Específica que os próprios brasileiros e espanhóis em momentos não a compreendem tão bem quando falado.”

(Rodrigo Almeida, 2009)

Como (José Neto, 2014) descreve, estar em forma é então “despertar para uma inteligência colectiva, subjacente a uma exigente adaptação às múltiplas situações, tão rigorosas quão simples, que a prática deste belo jogo impõe”. No entanto, se visamos o máximo rendimento, este articulação relacional não poderá inibir as qualidades individuais dos jogadores, mas sim  ponteciá-las, como também não deverá levar, colectivamente, a equipa a se tornar pouco criativa, mecânica e incapaz de se adaptar a novos problemas. Deste modo, o autor (Rodrigo Almeida, 2009), acrescenta que o entrosamento implica que a equipa consiga jogar em “condições Longe-do-Equilibrio e em níveis de complexidade cada vez maiores” e que a leve “a transcender o seu jogar por um grande nível de acções complexas disponíveis, numa forte relação entre os elementos”.

No fundo, a forma e o entrosamento, significam atingir uma fluidez ou estado de flow em que do caos natural do jogo, entre outras qualidades, emergem ordem, organização, cooperação, solidariedade, ambição, inteligência, criatividade, imprevisibilidade, naturalidade, sucesso e felicidade. Como (Óscar Cano, 2022) sustenta, “os jogadores começam a admirar-se entre eles, começam a ver a correspondência que há entre as capacidades de uns e as de outros. Começam a ver quão necessários são os outros para que eu possa fazer o que sei fazer”. Perante esta perspectiva emocional / sentimental, podemos então estar perante a possível justificação para a tal relação… “quântica”.

O treinador e autor (Jorge Maciel, 2012) refere que “quando tais desempenhos se verificam o que se observa é uma fusão intencional e funcional entre os vários Eus (especificidades) que compõem a equipa e que se concretiza pela fluidez e harmonia com que o todo (Especificidade), o jogar da equipa, se expressa”, concluindo que se trata de um processo “no qual partes e todo se harmonizam engrandecendo-se mutuamente”. É então nesse momento que o todo se torna maior que a soma das partes. E uma equipa entrosada, manifesta as partes (jogadores) no todo (equipa), e o todo (equipa / valores e inteligência colectiva) nas suas partes (jogadores / valores / inteligências individuais).

 

“O entrosamento

É ao acontecer

o acontecimento,

o fazer…

Cada um dos entrosados

faz-se útil no instante,

e mais do que é aqui chegados…

Se o colectivo é dominante.”

(Vítor Frade, 2014)

Nesta linha de pensamento a aquisição de entrosamento implica tempo e trabalho, para além de qualidade individual, se bem que mesmo dispondo de pouca, a equipa que atinge tal qualidade colectiva, irá esconder alguma das suas eventuais debilidades individuais.

Voltando ao exemplo do Benfica de Schmidt, a qualidade e fluidez que a equipa foi manifestando não foi excepção. Necessitou de trabalho de qualidade, quer no período preparatório, quer no competitivo e tempo de consolidação. Importa clarificar que este trabalho não é algo que se realiza apenas no campo de treino. Naturalmente que o sucesso e as vitórias catalisaram o processo, mas estas também surgiram pelo trabalho realizado. A relação é naturalmente recíproca.

Perante tudo isto… perguntamos: o que sucede objectivamente nas paragens para os jogos das selecções? A integração, normalmente dos jogadores mais utilizados noutros contextos e processos colectivos diferentes, com outras ideias de jogo, com outros líderes, com outros companheiros, com outros objectivos competitivos, noutro contexto de treino, operacional e organizativo. Já para não referirmos as viagens, estágios e desgaste daí decorrente, que são de facto extremamente influentes em todo o processo.

E se essa integração, numa selecção que treine com qualidade, que apresente sucesso e na qual o contexto individual seja favorável ao jogador logicamente já implicará influências e mudanças individuais relativas ao seu contexto no clube, ou seja, uma perda do entrosamento que os jogadores apresentavam antes desse momento no seu clube, imagine-se então nos casos em que o contexto é desfavorável ou de insucesso.

“A minha resposta foi que os jogadores, às vezes, vão para a seleção e alguns não jogam, estão 10 ou 12 dias no hotel, praticamente não treinam e por isso perdem alguma forma e intensidade. O problema não é só nosso, é de todos os treinadores, e mesmo assim ganham jogos. Não uso isso como desculpa.”

(Roger Schmidt, 2023)

Portanto, Roger Schmidt até partilha a mesma opinião. Como seria expectável de um treinador deste patamar competitivo. Os que atingem este contexto, como referido atrás, possuirão uma sensibilidade tal para o processo que compreendem-no enquanto sistema complexo, no qual qualquer micro mudança poderá resultar num macro impacto. E neste caso nem estamos perante pequenas mudanças. As diferenças entre o que os jogadores fazem nos clubes e nas selecções são na maior parte das vezes, enormes. Deste modo, a perda de entrosamento tem que ser previsível. No caso do Benfica, perante a qualidade de jogo manifestada até às paragens, ainda mais.

Estar em forma, o emergir de entrosamento, ou o flow é como uma relação de duas pessoas apaixonadas. Os problemas tornam-se desafios, os envolvidos conhecem-se de “olhos fechados” e antecipam os comportamentos um do outro. Emanam cumplicidade, fluidez e o bem mais precioso que o ser humano pode alcançar… felicidade. E nesse contexto, se as partes e todo “não se harmonizarem engrandecendo-se mutuamente” não haverá “rendimento”, ou seja… não haverá amor e felicidade. E é principalmente por isso, ao reproduzir no seu contexto específico o comportamento humano em geral, que este jogo é tão especial.

“Devemos redefinir o que é ordem e organização. O intercâmbio de posições que vimos outro dia no Real Madrid-Sevilha é de jogadores que não olham para o banco, que não olham para o treinador, estão a fluir, a jogar. Tenho um filho de 17 anos e já sabes que têm um vocabulário distinto do nosso, mas há uma palavra que me fascina: flow. Aí está o futebol, no flow. Quando vês uma equipa a fluir, que não se detém, que ninguém pensa onde tem de estar, que ninguém está a pensar, mas sim a sentir, estão a jogar… isso é imparável. Isso é ordem. O caos, ou o aparente caos, é uma forma sublime de ordem. O que acontece é que se reduziu a ordem ao que podemos controlar, e isso é distinto: isso não é ordem, é controlo. Uma coisa é a organização de um conjunto de jogadores, que é uma organização em si; a ordem está sempre, sempre marcada por algo que não se pode medir, que não se pode atestar, que se intui, que se sente. É algo que a ciência não pode definir, é o flow. Quando estou a treinar, a minha grande preocupação é misturar os jogadores até encontrar esse flow que me permite ser menos treinador, não dar tantas instruções, não ser tão invasivo no dia a dia. Afinal, o treinador converteu-se, infelizmente, numa pessoa que oferece e emite informação. E o treino não é isso, não é isso o futebol. Estamos a comunicar: eu através da palavra, porque não posso jogar, e eles através da conduta e comportamento.”

(Óscar Cano, 2022)

Dawn of the Dead

“A única forma de construir uma equipa é reunir jogadores que falem a mesma língua e que saibam jogar em equipa. Não se consegue atingir nada sozinho e, se o fizer, isso não dura muito tempo. Costumo citar o que Michelangelo disse: ‘O espírito guia a mão’.”

(Arrigo Sacchi)

Tal como o filme Dawn of the Dead de 1978 foi alvo de um remake por Zack Snyder em 2004, hoje assistimos no Futebol a um remake do método defensivo individual. E tal como nos filmes, estamos perante um fenómeno “morto-vivo” e os momentos de “terror” vão-se acumulando dentro do campo.

“Quem marca ao homem corre por onde o adversário quer. Essa caçada tem por fim capturar o inimigo, mas o meio usado converte o caçador em prisioneiro.”

(Jorge Valdano, 2002)

Vários treinadores e analistas defendem o regresso da defesa individual com argumentos que favorecem uma maior agressividade e capacidade pressionante das equipas e de pressão sobre jogadores considerados fundamentais na Construção e Criação adversária. Este último também ele um argumento clássico, como a responsabilização individual de quem defende, entre outros mais. Ora, jogadores e equipas que individual e colectivamente tenham essa predisposição e maior agressividade no momento defensivo podem esconder em alguns jogos ou momentos as razões para a falência da ideia. Tal como sucedeu no passado. Na actualidade, a recuperação do método também apresenta sucesso, a espaços, por ser algo diferente e inovador do que se tornou norma. Consequentemente muitas equipas não se apresentam preparadas para defrontar adversários que defendam dessa forma.

Seja na preparação de uma equipa de Rendimento, mas também em debilidades identificadas do processo formativo dos jogadores, que julgando a Defesa Individual totalmente ineficaz e mesmo, morta, determinadas decisões técnicas não confrontam os jogadores com esse género de problemas. Mas evidentemente, de forma mais basilar, este fenómeno também revela lacunas ofensivas no processo formativo não só nos princípios específicos da Mobilidade e Espaço, mas também na própria Progressão / Penetração. Por outro lado há que reconhecer que tudo o que é novidade e pensamento divergente (neste caso apenas aparentemente), trará problemas e desafios. Mesmo algo que se considerava menos eficiente e mesmo em vias de extinção.

Hoje, determinados Modelos, assentes numa Ideia de jogo posicional muito rígida e cristalizada, gerando pouca mobilidade e permutas entre jogadores apresentam natural dificuldade contra equipas que defendam individualmente adversários directos, cortando assim todas as soluções de passe, ou pelo menos as mais próximas e seguras. Naturalmente nos casos onde, individualmente, a qualidade dos jogadores é similar. Nos outros casos, potenciar duelos de 1×1, será natural que o jogador de maior qualidade impere. Um dos melhores jogadores de todos os tempos, Diego Armando Maradona citado por (Tobar, 2010), vai ao encontro desta ideia e explica que “com os anos, compreendi que eu gostava mais que me marcassem homem a homem porque me livrava facilmente deles e ficava livre. Ao contrário da marcação a zona que era muito mais complicado”. É muito provável que estivesse aí a incluir o AC Milan de Arrigo Sacchi, equipa que defrontou em Itália. Noutro exemplo, porém colectivo, a Holanda de 74, de Rinus Michels, fez verdadeiramente diferente da norma naquele momento da evolução do jogo, e entre outras qualidades, e uma das razões para o seu reconhecido sucesso, perante a enorme mobilidade com que os seus jogadores actuavam, acabou por criar grandes problemas e mesmo colocar em causa o método individual.

Segundo o autor (Jorge D., 2011) e reforçado pelas situações retratadas do AC Milan actual, quem defende com referências individuais, “em vez de se preocupar em cortar espaço ao portador da bola, condicionando assim a sua decisão e roubar a profundidade da desmarcação, decide acompanhar as desmarcações que se aproximam da baliza, pelas quais foram arrastados, originando assim o alargamento do espaço entre linhas assim como dos indivíduos da própria linha (Defesas-Centrais e Defesas-Laterais)”. Também de acordo com (Pedro Bouças, 2010), “equipa que marca homem a homem, torna-se na presa, quando o adversário abusa do princípio da mobilidade. Move-se por onde o adversário quer”.

Porém, apesar de casos de pontual sucesso, isso não quer dizer, numa visão macro do fenómeno, que métodos individuais tragam igual ou mais rendimento que métodos colectivos. Existe por vezes a tendência de afirmar que não há coisas melhores nem piores no Futebol. Tal como na vida. Mas se a realidade é complexa e não linear, e tudo tem pelo menos um limiar mínimo de diferença, então, coisas, acontecimentos, fenómenos, decisões, etc… diferentes, irão produzir resultados… diferentes. Por vezes até, e trazendo o clássico exemplo da borboleta da Teoria do Caos, produzindo resultados muito díspares perante acontecimentos aparentemente apenas ligeiramente diferentes. Se reconhecidamente estamos no âmbito de um sistema complexo e dinâmico, então estamos perante extrema sensibilidade às condições iniciais. Portanto, nos Desportos… Colectivos, tal qual vemos a sociedade em geral, um método de jogo, seja defensivo ou ofensivo, Individual e não… Colectivo, irá trazer problemas, ineficiência e ineficácia, dado o desfasamento das necessidades da realidade em causa. Tal como na sociedade. Até podemos ter sucesso pontual individual, mas não iremos subsistir a prazo enquanto espécie. Deixamos também a questão no âmbito da Ciência Militar. Será que algum General alguma vez definiu uma estratégia para um confronto assente no individualismo? Mesmo ao nível mais elementar dos exércitos, do ponto de vista estratégico ou táctico, se possível, o pensamento é no mínimo, grupal…

Nesta linha de pensamento, recuperando ideias ainda actuais, na opinião de (Pedro Bouças, 2011), “DEFENDER O QUÊ? deve ser a primeira pergunta que se deve colocar, quando se pretende definir o método defensivo. Se não há certo ou errado, garantidamente que há melhor e pior”. O autor sustenta que “a melhor resposta é seguramente, a que afirmar que se deve defender a baliza. Não o adversário. A baliza. O posicionamento defensivo que se centra no tapar o caminho para a sua baliza, é francamente melhor que aquele que pretende defender os adversários”. Johan Cruyff reconhecido pelas suas ideias ofensivas, torna expressa a interdependência dos momentos ofensivos e defensivos, ao defender que a qualidade defensiva é directamente influenciada pela quantidade de espaço que um jogador tem que defender. Deste modo, o lendário jogador e treinador holandês descreve que se um jogador tem de defender o campo todo, será potencialmente um terrível defensor, porém se defender um espaço reduzido poderá ser um bom defensor, sustando assim ser “tudo uma questão de espaço!” Também o treinador português (Carlos Carvalhal, 2010) reforça a ideia através da sua experiência como jogador: “fui defesa central e percebo muito bem esta posição! Mais importante que perseguir adversários e fazer carrinhos nas laterais do campo, é absolutamente necessário saber guardar o seu espaço e não permitir que qualquer adversário (não só os avançados) possa entrar nesse espaço para fazer golo”.

“No segundo ano de iniciado no Braga, começámos a experimentar esta nova solução porque, tanto eu como o meu novo colega de equipa (Boticas), não éramos o protótipo do libero e possuíamos características idênticas. As vantagens eram muitas porque dividíamos o espaço: se o avançado viesse para a esquerda, eu marcava e ele fazia cobertura; se fosse para a direita, ele marcava e eu fazia cobertura. Sentíamo-nos confortáveis a jogar assim, corríamos menos e tínhamos a convicção de que era mais complicado para o avançado contrário, porque tinha os espaços bloqueados. No fundo, a grande diferença era que não andávamos atrás do avançado, ele vinha ter connosco. Começámos também a entender que, embora exigisse mais concentração no fechar dos espaços, criava muitas dificuldades às equipas que pretendiam que outros jogadores fizessem desmarcações de rutura em função da mobilidade do avançado. Era o início do entendimento do que era “Jogar à zona”. Nessa altura, comecei a perceber a importância de “fechar espaço” para quem está a defender e “criar espaço” para quem está a atacar. A relação com os laterais era também importante para fechar os espaços. Pelo facto de sofrermos alguns golos, porque o defesa do lado contrário marcava em cima o adversário e existia um grande espaço entre o defesa central e este, fui tentando ajudar a organizar as minhas defesas. (A preocupação dos treinadores com a defesa não era uma prioridade, na altura! Se cada um marcasse o seu, a defesa estava organizada — não estava ainda desenvolvido o conceito de zona). Assim, ia sugerindo aos defesas laterais que fechassem o espaço interior, quando a bola estava do lado contrário, e tentava explicar as vantagens de fechar esse espaço. Umas vezes, era entendido. Mas, muitas vezes, o receio de deixar o extremo sozinho sem marcação era tal que esta tarefa era impossível. Até porque, na altura, existia muita responsabilização individual por falta de marcação ao adversário direto. Recordo-me, uma vez, de insistir com o defesa esquerdo para fechar o espaço entre mim e ele, quando a bola estava no lado contrário. Ele ia-me dizendo, “Carlos eu fecho e, depois, o extremo fica sozinho! Se ele marca golo ou cruza, o treinador vai-me dar cabo da cabeça!” Eu lá lhe ia explicando que era mais importante fechar os espaços interiores, porque tinha sempre tempo para pressionar o seu adversário direto enquanto a bola viajava de um lado para o outro.”

(Carlos Carvalhal, 2014)

O relato de Carlos Carvalhal torna-se precioso, mas não novidade. Se nos recordarmos do Futebol que jogávamos na “rua”, sem treinadores, em regime de auto-descoberta, na interacção que estabelecíamos com os nossos companheiros e adversários, o próprio jogo ensináva-nos que o melhor caminho para defender era de forma… colectiva. E dificilmente nos ensinava outro. Havia sempre alguém que tinha assistido, ao vivo ou na televisão, a um grande desempenho de um jogador em marcação individual, ou ouvido adultos a comentar algo desse género, e como bom imitador de ídolos tal qual todos éramos, informava… “hoje marco o João que é o melhor jogador deles!”. Perante a falta de liberdade, desgaste, e condicionamento que a missão lhe proporcionava nos seus momentos ofensivos, ao fim de 5 minutos de jogo, desistia do “João” e empenhava-se em realmente… jogar. O jogo ensinava-nos então, aquando da bola na posse do adversário, que as prioridades deviam ser a nossa baliza, a bola, os espaços, as linhas de passe mais próximas, a posição dos nossos companheiros e finalmente a dos nossos adversários. Jogando sem fora-de-jogo como usualmente sucedia na “rua” e no Futsal, a única excepção seria o adversário esperto que se colocava entre o nosso último defensor e o nosso Guarda-Redes. Nesse caso esse precisava de maior vigilância.

Analisando o Futebol de uma perspectiva macro, e mesmo a evolução científica e filosófica em geral, somos levados a acreditar, que na sociedade dos adultos, impregnada pelo pensamento cartesiano, analítico, mecânico, e pelo reducionismo e atomismo clássicos, tal qual muitas outras ideias como também se torna exemplo a evolução dos métodos de treino, a defesa individual foi algo que o treinador trouxe para o jogo, numa tentativa de simplificar o complexo, de dividir o indivisível, de controlar o incontrolável, de reduzir empobrecendo… Neste enquadramento, ao contrário do que o próprio jogo nos ensinava, o treinador passou a última prioridade: os adversários, para o topo da lista. Indo mais longe, influenciado também pela clássica visão egocêntrica da realidade, na qual o homem tem que estar sempre no centro de tudo.

Mas na verdadeira realidade, a… complexa, temos como consequência a também não linearidade da evolução. Deste modo, também num contexto de esquecimento de uma história assim não tão antiga, mas fundamentalmente como vimos atrás, pela renovidade que a ideia traz ao jogo e sucesso pontual que promove, também não é de espantar estarmos, na nossa opinião, a dar um passo atrás. Esperando sempre que, à boa imagem do que tem sido até agora a história evolutiva da nossa espécie, seja para posteriormente darmos dois à frente.

O autor (Nuno Amieiro, 2004), na sua tese e livro sobre a Defesa Zona, expunha que “no seu livro, Jorge Valdano falava apaixonadamente sobre a «zona», parafraseava Menotti (“A zona é liberdade”), Maturana (“A zona faz da defesa a arte de atacar”) e deliciava-me com as descrições da «zona» inteligente, agressiva e harmoniosa do Milan de Sacchi. A «zona» de que Valdano falava aproxima-se da «zona» com que tive, pela primeira vez, contacto, aquela a que, superficial e esporadicamente, o professor Vitor Frade fazia referência nas aulas”. Neste sentido, trazemos outra ideia. A Defesa Zona, induz muitas vezes as pessoas em erro, pela interpretação literal que dela fazem. Defender Zona não implica defender só zonas ou espaços, como vimos atrás. Implica uma preocupação até maior com outras referências do jogo como a nossa baliza e a bola, e ainda outras como as linhas de passe mais próximas, companheiros e adversários. Mas acima de tudo uma preocupação pelo sistema dinâmico que o jogo representa, e dessa forma pela implicitude da interacção. Como Vítor Frade sustentou no seu projecto de Doutoramento em 1990: A interacção, invariante estrutural da estrutura do rendimento do Futebol. A Defesa Zona implica então um pensamento… colectivo. Logo, também em contra-ponto à Defesa Individual, não será mais apropriado lhe chamarmos… Defesa Colectiva?

Novamente (Nuno Amieiro, 2004), parece concordar e apresentar argumentos reforçando essa ideia ao descrever que “são três pressupostos tácticos fundamentais desta forma de organização defensiva. São estas referências defensivas colectivas que, quando correctamente perspectivadas, nos permitem obter superioridade posicional, temporal e numérica na defesa. No fundo, ao manifestar-se, a «zona» expressa:

  • Um «padrão defensivo colectivo»;
  • Complexo, é verdade;
  • Mas também dinâmico e adaptativo;
  • Compacto, homogéneo e solidário.

Serão estas «propriedades», emergentes da coordenação colectiva, a dar verdadeira coesão defensiva à equipa. Esta forma de organização defensiva revela-se, como tal, não só a mais eficaz defensivamente, mas também a que, de longe, melhor responde à «inteireza inquebrantável do jogo». Revela-se, assim, uma necessidade face à «inteireza inquebrantável» que o «jogar» deve manifestar. Não é de estranhar, portanto, que este seja o «padrão defensivo» das equipas de top”.

Arrigo Sacchi, a propósito do seu AC Milan, relata que conseguiu “convencer Gullit e Van Basten dizendo-lhes que cinco jogadores organizados seriam capaz de vencer dez jogadores desorganizados. E eu também consegui provar isto. Peguei em cinco jogadores, Galli na baliza e depois Tassoti, Maldini, Costacurta e Baresi. Do outro lado, coloquei 10, Gullit, Van Basten, Rijkaard, Virdis, Evani, Ancelotti, Colombo, Donadoni, Lantignotti e Massaro. O grupo composto por 10 elementos tinha 15 minutos para marcar contra os meus organizados. Só havia uma única regra, se nós recuperamos a bola, a outra equipa tinha de começar desde trás novamente, 10 metros antes do meio campo. Continuei a fazer. A equipa com 10 elementos nunca conseguiu marcar, nem uma vez”. Não queremos imaginar Sacchi, e mesmo Capello, a assistirem à “organização defensiva” do actual AC Milan…

“Apesar de estarmos na II Divisão, fomos o primeiro clube alemão a jogar em 4x4x2 sem libero. Vimos um vídeo muito chato, mais de 500 vezes, com o Sacchi a treinar a defesa, sem bola, com o Maldini, Baresi e Albertini. Pensávamos que se os outros fossem melhores tínhamos de perder. Depois aprendemos que tudo é possível, podemos bater os melhores usando táticas.”

(Jürgen Klopp, 2013) sobre a influência de Wolfgang Frank, que treinou Klopp no Mainz e era um admirador dos métodos de Arrigo Sacchi no AC Milan

O quinto momento do jogo? Quantidade não significa qualidade. E ainda… o exemplo do Futsal.

“(…) não será o instante após os lances de bola parada o momento de maior desorganização e instabilidade táctica nos jogos?”

(Filipe de Sá, 2012)

Diferentes visões e formas de pensar levam a diferentes interpretações da realidade, e consequentemente… do jogo de Futebol. Nada de novo. Perfeitamente normal e saudável porque potencialmente são colocadas questões e o debate surge. No “final do dia”, uma das melhores formas de promover evolução.

Deste modo, diferentes formas de entender o jogo conceberam diferentes modelos e sistematizações do mesmo. Uma das questões emergentes surge sobre o enquadramento das situações de bola parada. Nos respectivos quatro Momentos do Jogo? Ou serão elas, por si só, um quinto momento?

Em 2017 publicámos uma proposta que as integravam nos quatro Momentos do Jogo. Não por mero gosto pessoal, mas por coerência com determinada linha de pensamento. Um livre ofensivo, por exemplo, pode ser marcado rapidamente ainda em Transição Ofensiva quando o adversário ainda não recuperou a sua Organização Defensiva possibilitando a equipa que dele beneficia, contra-atacar. Mas pode também ser executado em Organização Ofensiva, caso a equipa defensora tenha recuperado a sua Organização Defensiva. Aprofundando este caso, o mesmo pode ainda estar enquadrado num sub-momento de Construção caso a situação não permita um último passe ou cruzamento para outro atacante (com interessante potencial de sucesso), num sub-momento de Criação caso exista essa possibilidade, ou de Finalização quando a situação permita o remate à baliza. No entanto, este enquadramento parece não ser justificação suficiente para integrar as situações de bola parada nos quatro Momentos do Jogo. Pode-se argumentar , por exemplo, que um quinto momento também possa ser subdividido dessa forma. Torna a perspectiva mais confusa e complicada (não confundir com complexa), mas pode.

A grande justificação para as situações de bola parada fazerem parte dos quatro Momentos do Jogo está na realidade, essa sim… complexa, do jogo. Ora, se um dos princípios basilares do pensamento complexo passa por uma visão holística do objecto de estudo, e que ao invés, a sua separação em partes fá-lo perder propriedades, então, se as situações de bola parada são na mesma… jogo, separá-las do restante jogo levará a disfunções, desarticulações e potenciais erros por desenquadramento do jogar da equipa nas necessidades reais desses momentos. Maior quantidade de Momentos do Jogo não significa maior qualidade da ideia que dele se tem.

“À medida que você tem o domínio da “totalidade” das coisas, passam todas essas coisas a ser preocupação para si!”

Vítor Frade citado por (Xavier Tamarit, 2013)

Por diversas vezes trouxemos o Princípio da Articulação de Sentido que se manifesta de múltiplas perspectivas no jogo e no seu treino. Neste caso referimo-nos à articulação de sentido entre os diferentes Momentos do Jogo. Hoje é praticamente unânime entre treinadores a fundamental importância da articulação entre os momentos ofensivos e defensivos, ou seja, a importância de se preparar a perda da bola quando se está a atacar e preparar o ganho da mesma enquanto se defende. Então será que as situações de bola parada também não devem contemplar esse provável futuro imediato? Certamente que sim e hoje, praticamente todos os treinadores, têm essa preocupação.

Sendo assim, deverão fazer parte de um dos quatro Momentos do Jogo, porque por exemplo, no caso de perda ou ganho da bola, a equipa tem seguidamente outro momento diferente do jogo para resolver. Desse modo, pode e deve, começar a resolvê-lo durante a bola parada. Por exemplo, através de determinados posicionamentos de alguns jogadores. A visão do quinto momento, é no fundo outra visão segmentada, analítica e artificial do jogo que se distancia da natureza do todo que o mesmo contempla.

“E estes equilíbrios passam por quando nós estamos a atacar num lance de bola parada, deixamos um ou dois jogadores fora da área para tentar criar superioridade numérica em função dos jogadores que estão na frente, isto significa que a equipa quer estar equilibrada, não só dos jogadores que estão dentro mas também nos espaços a preencher, porque nós quando temos a bola e quando vamos marcar um canto, podem acontecer algumas coisas… Pode acontecer golo evidentemente, mas também podemos perder a posse de bola, e nós temos que estar preparados para essa perda da bola. E esses equilíbrios, neste caso no processo ofensivo e no equilíbrio de transição defensiva são fundamentais.”

Carlos Carvalhal citado por (Pedro Bessa, 2009)

O segundo golo da República da Coreia contra Portugal começa precisamente na falta de consciência para esta articulação entre um momento de Organização Ofensiva, especificamente um canto ofensivo, com o momento seguinte de Transição Defensiva. Não temos acesso à Ideia nem ao Plano de Jogo, especialmente às bolas paradas, portanto não podemos nem é nosso objectivo apurar responsabilidades, muito menos individuais. Mas sim reforçar a fundamental importância de uma visão macro e pensamento complexo sobre o jogo, neste caso, quer ao nível da articulação de princípios / comportamentos, mas por outro lado, também ao nível do seu detalhe.

Num momento inicial, havia na nossa opinião, um equilíbrio defensivo razoável para defender uma eventual perda ou segunda bola proveniente do cruzamento. Cancelo mais perto da bola, William ao meio e Dalot mais atrás junto ao grande círculo, podendo-se questionar o seu afastamento dos companheiros por não haver na sua zona nenhum coreano e por assim perder a relação de cobertura aos companheiros mais próximos da bola. E havia ainda Bernardo, do lado contrário também fora da grande-área. Todos para apenas dois coreanos, muito baixos até. Son perto da bola e Hwang Hee-chan, que viria a marcar o golo, perto da marca de grande penalidade. Mas como não nos cansamos de repetir, a quantidade não significa qualidade. Neste situação, qualidade comportamental, mais especificamente, posicional.

Equilíbrio defensivo no canto para Portugal.

O problema é que Cancelo deslocou-se para junto da bola para possibilitar a marcação de um canto curto e os companheiros não ajustaram o seu posicionamento para rectificarem o equilíbrio defensivo e garantirem não só cobertura ofensiva / defensiva à zona da bola, como ocupar o espaço fora da grande área onde uma segunda bola proveniente de uma intercepção dos defensores teria mais probabilidade de surgir dada a orientação corporal dos mesmos na defesa do pontapé de canto. William ter-se deslocado para a zona onde anteriormente se encontrava Cancelo seria a solução mais lógica, com Bernardo a aproximar-se mais do eixo central do campo. Arriscando mais, outra alternativa seria aproximar Dalot, ocupando o espaço deixado livre por Cancelo.

Nenhuma das soluções, ou outra, sucedeu para garantir o equilíbrio defensivo. Surgiu a tal segunda bola naquele espaço e Son teve a possibilidade de receber enquadrado e conduzir o contra-ataque. Ou seja, por erros posicionais, não tivemos comportamentos fundamentais do primeiro sub-momento da transição defensiva, como pressionar imediatamente a bola, garantir contenção ao adversário com bola e cobertura defensiva à eventual contenção.

Depois, e evitando ir ao plano do detalhe, após a Recuperação Defensiva, podemos analisar um terceiro momento da Transição Defensiva. A Defesa do Contra-Ataque adversário. Ainda na Recuperação Defensiva, com Son em condução numa situação de 1×1 contra Dalot, o português, bem, recuou em contenção e temporizou, possibilitando a recuperação defensiva de mais companheiros. E desta forma permitiria também assegurar a cobertura defensiva do seu Guarda-Redes. No geral, neste Sub-Momento, o objectivo passa por conquistar uma relação numérica mais confortável para posteriormente resolver a situação. E tal objectivo foi conseguido. O problema, novamente, é que a quantidade não significa qualidade. E se o entrosamento e as relações comportamentais no campo não estiverem bem claras, mais jogadores em determinada situação, podem mesmo significar menos qualidade dada a relação / interferência que as partes fazem entre si, nesse todo circunstancial. O todo não é sempre mais que a soma das partes. O todo, é sim, diferente da soma das partes.

No Sub-Momento da Defesa do Contra-Ataque, em que os defensores devem travar e obrigar o atacante com bola a uma decisão, gerou-se confusão. Dalot, Palhinha (que podia ter decidido falta táctica antes) e William procuram garantir a contenção e eventual desarme. Tal gerou indefinição entre os três permitindo espaço e consequente, tempo, para Son, no timing certo, realizar o último passe para Hwang, que, perseguido por Bernardo, entretanto se juntou ao contra-ataque garantindo uma solução de ruptura para beneficiar do espaço entre os defensores e o Guarda-Redes português. O qual, perante a condição de Son, a sua linguagem corporal e a eminência de desmarcação de ruptura de Hwang, parece-nos muito distante dos companheiros.

Situação de 2×4+GR bem resolvida pelos coreanos, mas evidentemente mal pelos portugueses. Dada a natureza de oposição / cooperação do jogo será sempre assim em todas as situações? Provavelmente. Porém, sempre em doses diferentes de responsabilidade entre atacantes e defensores, tendo em conta o conhecimento do jogo que detêm e o entrosamento que manifestam.

Em situações similares, aumentar a probabilidade de êxito defensivo seria manter o mesmo jogador em contenção para não permitir o tal espaço e tempo ao atacante com bola. E os restantes defensores que consigam recuperar defensivamente garantirem uma linha de cobertura ao companheiro. Neste caso, com a bola mais próxima do corredor lateral, Palhinha, William e posteriormente Bernardo deviam estar em linha de cobertura por dentro. Caso o adversário com bola se situasse mais perto do eixo central do campo, a linha de cobertura deveria garantir cobertura a ambos os lados do defensor em contenção. Outros comportamentos adicionais a assegurar passariam pela linha de cobertura / última linha travar na linha limite da grande-área com a contenção à sua frente para forçar a decisão do atacante com bola, e não no melhor timing para si. Por outro lado, o Guarda-Redes assegurando uma maior agressividade sobre o espaço à sua frente, garantiria assim uma segunda cobertura defensiva, neste caso à última linha, de forma a antecipar o potencial último passe adversário. E mesmo que não conseguisse a intercepção, reduziria em muito o espaço e tempo de decisão e finalização ao atacante em ruptura. No plano do detalhe poderíamos falar em apoios, distâncias, indicadores de pressão para desarme, etc., mas ficamo-nos pelo plano dos grandes princípios.

Naturalmente, este conhecimento e entrosamento é alcançado mais rapidamente com treino. Treino, que escasseia num contexto de Selecção Nacional. Mas perguntamos, generalizando… mesmo no contexto dos clubes treina-se o suficiente ou sequer se treinam estas situações? No Futsal são comportamentos que se treinam ao detalhe e até à “exaustão”. É factual que nesse jogo são situações que sucedem em muito maior volume do que no Futebol, porém, os resultados são também mais dilatados. É possível que no Futebol, uma equipa seja apenas submetida uma única vez ao Sub-Momento de Defesa do Contra-Ataque ao longo de um jogo inteiro, e sem qualquer previsão da relação numérica aí encontrada. Porém, se a conseguir resolver com sucesso, poderá fazer toda a diferença no resultado final como sucedeu no República da Coreia x Portugal. Uma vez mais… quantidade não significa qualidade.

“Defender com poucos é uma arte, implica treino, coordenação e princípios, mas fundamentalmente todos perceberem o que deve ser feito, de forma a que quem chega mais rápido, seja ou não “defesa”, saiba o que está a fazer e o posicionamento correto a ocupar, consoante a bola, o colega e o adversário!”

(Ricardo Galeiras, 2018)

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