Edgar Morin (1921-2026). E o seu pensamento… complexo… no Futebol. Portanto, a Periodização Táctica.
“Não se deve subordinar ou reduzir um factor aos outros: o factor central encontra-se na organização destes factores, ao tornarem-se interdependentes. O problema de fundo é a organização dinâmica constituída, não por elementos mas por interacções, O núcleo de explicação está na organização das interacções que constituem o fenómeno total homo.”
Edgar Morin, citado por (Vítor Frade, 2002)
Há pensadores cuja obra parece poder ser separada da vida. Como se as ideias tivessem nascido num gabinete, protegidas do mundo, da história, da dor, da política, da amizade, da perda, do erro e da incerteza. Edgar Morin não pertence a essa família. Nele, vida e pensamento caminham juntos. Mais do que isso: parecem explicar-se mutuamente. A sua biografia não é apenas o contexto exterior da sua obra; é, em grande parte, a matéria viva a partir da qual a sua obra se foi formando.
Morin atravessou o século XX como quem atravessa uma tempestade sem deixar de a observar. Nasceu em 1921, perdeu cedo a mãe, conheceu a guerra, a ocupação nazi, a Resistência francesa, o comunismo, a ruptura com o dogmatismo, os totalitarismos, as esperanças políticas e as suas desilusões. Viveu suficientemente perto dos acontecimentos para não os transformar em abstracções, mas suficientemente desperto para não se deixar capturar por explicações fáceis. Talvez por isso a sua obra nunca tenha sido apenas sociologia, filosofia, epistemologia, antropologia ou política. Foi sempre uma tentativa de compreender o humano na sua inteireza.
O artigo do Público que assinala a sua morte capta bem essa dimensão ao apresentá-lo como “um mestre da resistência”. Resistência, aqui, não é apenas a resistência histórica ao nazismo. É também uma atitude perante o conhecimento. Morin resistiu à simplificação, à arrogância dos sistemas fechados, às verdades prontas, às ideologias que procuram encerrar o real numa fórmula definitiva. Resistiu à separação entre vida e pensamento, entre sujeito e objecto, entre ciência e humanidades, entre razão e emoção, entre indivíduo e sociedade. Toda a sua obra parece dizer-nos que o maior erro do pensamento moderno foi acreditar que compreender é separar.
“o nosso sistema de ensino, obriga-nos a isolar os objectos do seu envolvimento, a separar as disciplinas, a desmontar os problemas, mais do que a unir e integrar. Ordena-nos a reduzir o complexo ao simples, ou seja, a separar o que está unido, a descompor e não a recompor, a eliminar tudo aquilo que contenha desordens ou contradições ao nosso entendimento.”
Edgar Morin citado por (Oscar Moreno, 2009)
E é precisamente aqui que Morin começa a tocar profundamente o Futebol, sobretudo quando este deixa de ser pensado como uma sucessão de gestos, capacidades ou momentos isolados e passa a ser compreendido como um fenómeno humano, colectivo, relacional e imprevisível. O Futebol também sofreu, durante muito tempo, dessa tentação moderna de separar para compreender: separou o físico do técnico, o técnico do táctico, o táctico do psicológico, a preparação da competição, o jogador da equipa, o exercício do jogo, a decisão da execução, a emoção da razão e o treino da vida concreta do jogar. Como se a soma das partes pudesse, por si só, devolver o todo. Como se, depois de desmontado o jogo nos seus supostos “ingredientes”, bastasse voltar a juntá-los para que o jogar reaparecesse com sentido.
É nesse ponto que a sua vida dá força à sua obra. Morin não defendeu a complexidade por moda intelectual. Defendeu-a porque a viveu. A sua existência mostrou-lhe que o real raramente obedece a linhas rectas. A História não avança de forma limpa e linear, a política não é pura, a razão não é neutra, a ciência não é exterior ao humano, o sujeito que conhece nunca está completamente fora daquilo que procura conhecer. A vida ensinou-lhe aquilo que depois a obra procurou pensar: tudo o que existe está tecido em conjunto.
Esta expressão — tudo o que existe está tecido em conjunto — poderia servir também como porta de entrada para uma compreensão mais profunda do jogo. Porque no Futebol nada acontece verdadeiramente isolado. Uma recepção orientada não é apenas técnica; é técnica porque é táctica, porque nasce de uma leitura, de uma intenção, de uma relação com o companheiro em posse anterior, com o adversário que pressiona, com o companheiro que se move, com o espaço que se abre, com o tempo que se estreita e com a emoção que atravessa o jogador naquele instante. Um passe para trás pode ser conservação, convite, protecção, manipulação, preparação da progressão ou simples fuga ao problema. Uma corrida pode ser ruptura, compensação, cobertura, fixação, atracção ou equilíbrio. Uma perda da bola nunca é apenas uma perda: revela a qualidade da posse anterior, a estrutura que sustentava essa posse, a proximidade dos apoios, a relação entre jogadores, a preparação da Transição Defensiva e a possibilidade de recuperar imediatamente ou ter de recuar.
Por isso, quando Morin define a complexidade como complexus, isto é, “aquilo que é tecido conjuntamente”, não está apenas a oferecer uma definição conceptual. Está a propor uma forma de estar diante do mundo. Complexidade não significa complicação e confusão. Significa reconhecer que os fenómenos importantes não podem ser reduzidos a uma só causa, a uma só dimensão ou a uma só disciplina. O humano é biológico, psicológico, social, histórico, cultural, afectivo e espiritual. Separar estas dimensões pode ajudar a analisar, mas é muito provável que também mutile a compreensão.
No Futebol, porque este não é uma ilha da restante realidade, separar também pode ajudar a observar, mas pode igualmente mutilar o jogo. Podemos mapear e distinguir Organização Ofensiva, Transição Defensiva, Organização Defensiva e Transição Ofensiva; podemos distinguir Construção, Criação, Finalização, Defender a construção, Defender a criação, Defender a finalização, Reacção à perda da bola, Recuperação defensiva, Defesa do contra-ataque, Reacção ao ganho da bola, Contra-ataque e Valorização da posse de bola. Mas mapear e distinguir não é separar. Cada momento transporta vestígios do anterior e prepara possibilidades para o seguinte. A Organização Ofensiva contém já a Transição Defensiva que irá emergir na perda da bola. Sim, porque por mais que o procuremos evitar, a bola será mesmo perdida. A Organização Defensiva contém já a Transição Ofensiva que irá surgir quando a bola for recuperada. A Construção e a Criação servem para preparar a Finalização. Defender a construção pode preparar o Contra-ataque. A forma como uma equipa ocupa o campo com bola denuncia como se protegerá sem ela. A forma como recupera a bola denuncia como estava organizada antes de a ganhar.
A grandeza de Morin está em não ter recusado a clareza. Pelo contrário, procurou-a. Mas percebeu que há uma clareza falsa, obtida pela amputação do real, e uma clareza mais exigente, capaz de ligar sem confundir e distinguir sem separar. O pensamento complexo nasce precisamente dessa tensão. Não elimina a análise, mas impede que a análise destrua o conjunto. Não rejeita a razão, mas lembra que a razão se torna pobre quando esquece a incerteza, a contradição, o contexto e a vida. Na perspectiva oposta, estes foram os principais malefícios que o determinismo, o pensamento cartesiano e analítico nos trouxeram.
Esta distinção entre uma clareza falsa e uma clareza exigente é decisiva para o treino. A clareza falsa aparece quando o treinador acredita que simplificou o processo apenas porque o dividiu em partes: físico, técnico, “táctico”, mental; primeiro correr, depois passar, depois decidir; primeiro preparar o corpo, depois preparar o jogo. Parece claro, porque cada coisa fica no seu lugar. Mas essa ordem é muitas vezes uma ordem morta, porque o jogo nunca se manifesta assim. O jogo são conjuntos de comportamentos que contém, de forma inseparável, estes ingredientes. A clareza exigente, pelo contrário, obriga-nos a perceber que o treino deve ser organizado a partir das relações que dão sentido ao jogar. Não se trata de negar a existência do físico, do técnico, do mental ou do emocional. Trata-se de perceber que, no jogo, eles nunca aparecem puros. Aparecem sempre em interação, ligados, contaminados, co-implicados, arrastados pela intenção táctica e pela dinâmica colectiva.
É aqui que a ligação entre Edgar Morin e Vítor Frade se torna particularmente intíma. Morin oferece uma matriz de pensamento: complexidade, interdependência, incerteza, organização, inseparabilidade, relação, contexto, circularidade e responsabilidade perante o conhecimento. Frade transporta essa matriz para o coração do Futebol, não como aplicação exterior de uma filosofia ao treino, mas como construção de uma metodologia nascida da natureza própria do jogo. A Periodização Táctica não é apenas uma forma de organizar a semana. É uma forma de pensar o Futebol contra a mutilação do Futebol. É uma ruptura com o paradigma que absolutiza factores e acredita que o rendimento superior nasce da soma optimizada de partes isoladas. Em Frade, como em Morin, compreender não é fragmentar até perder o sentido; compreender é articular, hierarquizar, contextualizar e fazer emergir uma organização.
Nesse sentido, a sua obra é também profundamente ética. Pensar bem não é apenas organizar ideias; é assumir responsabilidade perante o mundo. A fragmentação do conhecimento produz cegueiras. A especialização, quando se fecha sobre si mesma, sabe cada vez mais sobre partes cada vez mais pequenas, mas pode perder a noção do todo em que essas partes ganham sentido. Regressando ao Futebol, olhemos como exemplo para os cada vez maiores e mais poderosos departamentos de Fisiologia, Análise de Jogo, Treino individual, etc.. Morin percebeu que muitos dos problemas contemporâneos — políticos, ecológicos, educativos, humanos — não resultam apenas de falta de conhecimento, mas de uma má organização do conhecimento.
Também muitos problemas do treino não resultam apenas de falta de informação, mas de uma má organização do conhecimento. Pode saber-se muito sobre fisiologia, biomecânica, técnica, psicologia, pedagogia, análise de jogo ou liderança e, ainda assim, organizar mal o processo se esses saberes não forem articulados em função do objectivo fulcral: jogar. O problema não é conhecer as partes. O problema é deixá-las governar o processo como se fossem autónomas. O problema não é falar de resistência, velocidade, força, técnica, decisão ou emoção. O problema é tratá-las como entidades independentes, quando no jogo se manifestam sempre numa relação concreta com uma intenção, uma situação, uma forma de jogar, uma cultura colectiva e um adversário.
É por isso que a Periodização Táctica, em Vítor Frade, coloca a táctica como supradimensão. Não porque a táctica elimine o físico, o técnico, o psicológico ou o estratégico, mas porque é ela que lhes dá sentido no interior do jogar. A táctica não é aqui uma disposição geométrica, nem um conjunto de movimentos prescritos, nem uma ocupação abstracta do espaço. É a organização intencional do jogar. É a forma como uma equipa quer resolver os problemas do jogo. É o modo como se relaciona com a bola, com o espaço, com o tempo, com o adversário, com os companheiros, com o resultado, com a incerteza e consigo própria. O táctico, neste entendimento, não é uma parte ao lado das outras; é o princípio organizador que faz com que as restantes dimensões se expressem com sentido.
É por isso que a inseparabilidade é tão importante no seu pensamento. Não se trata de dizer que tudo é igual ou que tudo se mistura. Trata-se de perceber que separar é sempre uma operação provisória. O indivíduo não existe fora da sociedade que o forma, mas a sociedade também não existe fora dos indivíduos que a produzem. O conhecimento não existe fora do sujeito que conhece, mas o sujeito também se transforma no próprio acto de conhecer. A acção nasce de uma intenção, mas, uma vez lançada no mundo, entra numa rede de interacções que a pode desviar, ampliar ou contrariar.
No Futebol, esta ideia é de uma fertilidade enorme. O jogador não existe fora da equipa que o forma, mas a equipa também não existe fora das acções, decisões, emoções e relações dos jogadores que a produzem. Daí a interacção e interdependência permanente entre qualidade colectiva e qualidade individual. O Modelo de Jogo não existe fora dos jogadores que o interpretam, mas os jogadores também se transformam ao viverem esse Modelo de Jogo. O exercício não existe fora da intenção metodológica que o organiza, mas essa intenção pode ser desviada, ampliada ou contrariada pelas interacções que emergem no próprio exercício. O treinador pode desejar uma determinada propensão, mas, quando a tarefa começa, ela entra na realidade viva do treino: jogadores diferentes, níveis de compreensão diferentes, estados emocionais diferentes, relações diferentes, cansaços diferentes, resistências diferentes, interpretações diferentes e possibilidades diferentes.
É aqui que se percebe melhor a profundidade da noção de Especificidade. Na Periodização Táctica, Especificidade não significa simplesmente “treinar com bola” ou “fazer exercícios parecidos com o jogo”. Significa que tudo o que se faz deve estar relacionado com o jogar que se pretende fazer emergir. A Especificidade não é uma aparência exterior da tarefa; é uma relação interna de sentido. Um exercício pode ter bola e estar longe da Especificidade, se não respeitar a lógica do jogar pretendido. E uma tarefa aparentemente parcelar pode ser específica, se estiver hierarquizada e articulada com a Intencionalidade Colectiva que orienta o processo. A questão não é se se trabalha o todo ou uma parte; a questão é se essa parte mantém o vínculo com o todo. A tal fractalidade. Portanto, a questão não é reduzir ou não reduzir; a questão é reduzir sem empobrecer.
A vida de Morin confirma esta ideia. O jovem resistente, o intelectual político, o crítico do totalitarismo, o investigador transdisciplinar, o pensador da educação, o homem atento à crise ecológica e civilizacional não são personagens separadas. São expressões diferentes de uma mesma procura: compreender melhor para viver melhor; viver mais lucidamente para compreender melhor. Também Vítor Frade, no campo – Futebol, representa essa mesma recusa de aceitar a realidade como fragmento. A sua obra nasce de uma inquietação epistemológica e metodológica: que exigências coloca o Futebol, enquanto fenómeno antropossocial-total, ao treino? Que tipo de pensamento precisamos para compreender um jogo que é, ao mesmo tempo, corpo, decisão, emoção, cultura, estratégia, inteligência, relação, história, acaso, ordem, desordem e organização? Que metodologia pode respeitar essa natureza sem a reduzir a um somatório de capacidades? A Periodização Táctica surge como resposta a essa inquietação. Não como receita, mas como exigência. Não como moda, mas como forma de pensar. Não como conjunto de exercícios, mas como uma lógica metodológica de operacionalização de uma ideia de jogo.
Talvez por isso Edgar Morin nos deixe uma lição tão simples e tão difícil: não podemos pensar a vida de fora da vida. Não podemos compreender o humano amputando-o das suas relações. Não podemos enfrentar a incerteza fingindo que ela não existe. E não podemos construir conhecimento verdadeiro se continuarmos a separar aquilo que, na realidade, nasce ligado. A incompreensão (ou a recusa) deste discurso é, em grande medida, um dos alicerces dos actuais problemas civilizacionais — muitos deles impensáveis há uma, duas décadas. Mas, como o próprio Morin insiste, o desenvolvimento e a progressão não são lineares: avançam, recuam, desviam-se, reconfiguram-se. É precisamente por isso que a lucidez exige ligação, contexto e responsabilidade — para não confundirmos evolução com destino, nem complexidade com confusão.
Transportada para o Futebol, esta lição obriga-nos a dizer: não podemos pensar o jogo de fora do jogo. Não podemos compreender o jogador amputando-o das suas relações. Não podemos enfrentar a incerteza competitiva fingindo que o treino a pode substituir por certezas mecânicas. E não podemos construir uma metodologia verdadeiramente específica se continuarmos a separar aquilo que, no jogar, nasce ligado.
A sua obra permanece porque não oferece uma receita, mas uma exigência. A exigência de pensar mais profundamente. De ligar o que foi separado. De aceitar que a verdade não é posse, mas procura. De compreender que viver é sempre navegar entre certezas frágeis e incertezas inevitáveis. No fundo, Edgar Morin ensinou-nos que pensar a complexidade é aprender a habitar melhor a vida.
E talvez seja também essa a grande lição que Vítor Frade transporta para o treino: treinar não é aplicar receitas fora da vida do jogo. Treinar é organizar uma realidade viva para que uma determinada forma de jogar possa nascer, crescer, estabilizar-se e transformar-se. É criar contextos onde os jogadores percebem, decidem, executam, sentem, comunicam, ajustam e aprendem em função de uma intenção colectiva. É construir hábitos sem matar a criatividade. É repetir sem mecanizar. É estabilizar sem cristalizar. É orientar sem aprisionar. É dar forma sem retirar liberdade. É fazer emergir regularidades num fenómeno que continuará sempre aberto à surpresa.
Um dos maiores méritos da Periodização Táctica é aproximar-se assim do pensamento complexo porque recusa a ilusão de que o jogo pode ser dominado por uma causalidade linear. No Futebol, o mesmo exercício não produz sempre a mesma aprendizagem, o mesmo princípio não se manifesta sempre da mesma forma, o mesmo comportamento não tem sempre o mesmo valor, a mesma estrutura pode gerar dinâmicas diferentes e a mesma decisão pode ser adequada num contexto e inadequada noutro. Isto não significa abandonar a ordem; significa compreender que a ordem do jogo é uma ordem viva. Uma ordem que dialoga com a desordem. Uma ordem que precisa da incerteza para continuar jogo. Uma ordem que não se impõe de fora para dentro como uma máquina, mas se constrói de dentro para fora como uma organização dinâmica.
Por isso, o Modelo de Jogo não pode ser entendido como um desenho morto, fechado num papel. É uma intenção prévia, sim, mas uma intenção que precisa de ganhar corpo na vivenciação, na repetição específica, na interacção, na emoção, na concentração táctica, na experiência acumulada e na inteligência colectiva que se vai formando. O Modelo de Jogo orienta o processo, mas também se revela e se transforma no processo. O treinador projecta, operacionaliza, observa, reflecte, ajusta. A equipa interpreta, resiste, assimila, transforma, devolve. O jogar emerge dessa relação circular entre intenção, treino, competição e reflexão.
Deste modo, Morin e Frade encontram-se de forma profunda. Morin ensina-nos que o conhecimento deve ser capaz de ligar o que foi separado, reconhecer a incerteza, pensar a relação entre todo e partes e evitar a cegueira do pensamento parcelar. Frade ensina-nos que, no Futebol, essa exigência tem consequências metodológicas concretas: o treino deve partir do jogar, regressar ao jogar e ser permanentemente orientado pelo jogar. O que se treina não deve ser uma colecção de conteúdos, mas uma organização de experiências com sentido. Não se trata de acumular exercícios; trata-se de construir uma cultura de jogo. Não se trata de preparar jogadores genericamente capazes; trata-se de formar jogadores cada vez mais competentes dentro de uma ideia para jogar em concreto, sem que isso os reduza, antes potenciando a sua autonomia, criatividade e inteligência.
Assim, a ponte entre Edgar Morin e Vítor Frade não é uma aproximação decorativa. É uma ligação de fundo entre duas formas de resistência ao pensamento simplificador. Morin resiste à fragmentação do humano. Frade resiste à fragmentação do Futebol. Morin mostra que a realidade não cabe nas gavetas disciplinares que inventámos para a estudar. Frade mostra que o jogar não cabe nas gavetas metodológicas que durante décadas separaram físico, técnico, táctico e psicológico. Morin lembra que o todo está nas partes e as partes estão no todo. Frade obriga-nos a perceber que cada tarefa, cada princípio, cada sub-princípio, cada relação, cada escala do jogo deve transportar a marca do jogar que se pretende construir.
No fundo, ambos nos convocam para uma mesma responsabilidade: pensar melhor para agir melhor. No caso de Morin, agir melhor perante a vida, a educação, a política, a ciência, a cultura e o destino humano. No caso de Frade, agir melhor perante o jogo, o treino, a formação, a competição e a construção de equipas. Um ajuda-nos a compreender a necessidade de uma razão aberta, humilde, relacional e consciente das suas cegueiras. O outro mostra-nos como essa razão, quando levada a sério no Futebol, exige uma metodologia capaz de respeitar a inteireza inquebrantável do jogar.
Talvez seja por isso que pensar Morin a partir do Futebol não diminui Morin, nem pensar Frade a partir de Morin diminui Frade. Pelo contrário. Mostra que o Futebol, quando verdadeiramente compreendido, não é um território menor do pensamento. É um lugar onde se manifestam, de forma intensíssima, muitos dos problemas que Morin perseguiu ao longo da vida: a relação entre ordem e desordem, a inseparabilidade entre sujeito e contexto, a articulação entre razão e emoção, a emergência do novo, a impossibilidade de reduzir o vivo ao mecânico, a necessidade de organizar conhecimento sem o mutilar.
E mostra também que a Periodização Táctica, quando verdadeiramente compreendida, não é apenas uma metodologia de treino. É uma forma de pensar o Futebol em complexidade. Uma forma de entender que o jogo não é a soma das suas partes, que a equipa não é a soma dos seus jogadores, que o treino não é a soma dos seus exercícios, que o rendimento não é a soma dos seus factores e que a aprendizagem não é a soma das repetições. É uma forma de reconhecer que o jogar emerge de relações, de interacções, de intenções, de hábitos, de emoções, de decisões, de contextos e de uma cultura que se constrói no tempo.
No fundo, Edgar Morin ensinou-nos que pensar a complexidade é aprender a habitar melhor a vida. Vítor Frade ensina-nos que treinar em complexidade é aprender a habitar melhor o jogo. E, talvez, quando estas duas exigências se encontram, percebemos que o Futebol, mais do que um conjunto de acções, é uma forma viva de conhecimento: um conhecimento que se pensa, se sente, se incorpora, se partilha, se disputa, se transforma e joga. Acima de tudo… o Futebol é viver.
“a hiperespecialização impede de ver o global (que ela fragmenta em parcelas), bem como o essencial (que ela dilui). Ora, os problemas essenciais nunca são parceláveis, e os problemas globais são cada vez mais essenciais. Além disso, todos os problemas particulares só podem ser posicionados e pensados correctamente em seus contextos; e o próprio contexto desses problemas deve ser posicionado, cada vez mais, no contexto do planetário. Ao mesmo tempo, o retalhamento das disciplinas torna impossível aprender “o que é tecido junto”, isto é, o complexo, segundo o sentido original do termo. Portanto, o desafio da globalidade é também um desafio da complexidade. Existe complexidade, de fato, quando os componentes que constituem um todo (como o económico, o político, o sociológico, o psicológico, o afectivo, o mitológico) são inseparáveis e existe um tecido interdependente, interactivo e inter-retroactivo entre as partes e o todo, o todo e as partes. Ora, os desenvolvimentos próprios de nosso século e de nossa era planetária nos confrontam, inevitavelmente e com mais e mais frequência, com os desafios da complexidade”. Edgar Morin conclui que “efectivamente, a inteligência que só sabe separar fragmenta o complexo do mundo em pedaços separados, fracciona os problemas, unidimensionaliza o multidimensional. Atrofia as possibilidades de compreensão e de reflexão, eliminando assim as oportunidades de um julgamento correctivo ou de uma visão a longo prazo. Sua insuficiência para tratar nossos problemas mais graves constitui um dos mais graves problemas que enfrentamos. De modo que, quanto mais os problemas se tornam multidimensionais, maior a incapacidade de pensar sua multidimensionalidade; quanto mais a crise progride, mais progride a incapacidade de pensar a crise; quanto mais planetários tornam-se os problemas, mais impensáveis, eles se tornam. Uma inteligência incapaz de perceber o contexto e o complexo planetário fica cega, inconsciente e irresponsável”.
(Edgar Morin, 2003)


