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Edgar Morin (1921-2026). E o seu pensamento… complexo… no Futebol. Portanto, a Periodização Táctica.

“Não se deve subordinar ou reduzir um factor aos outros: o factor central encontra-se na organização destes factores, ao tornarem-se interdependentes. O problema de fundo é a organização dinâmica constituída, não por elementos mas por interacções, O núcleo de explicação está na organização das interacções que constituem o fenómeno total homo.”

Edgar Morin, citado por (Vítor Frade, 2002)

Há pensadores cuja obra parece poder ser separada da vida. Como se as ideias tivessem nascido num gabinete, protegidas do mundo, da história, da dor, da política, da amizade, da perda, do erro e da incerteza. Edgar Morin não pertence a essa família. Nele, vida e pensamento caminham juntos. Mais do que isso: parecem explicar-se mutuamente. A sua biografia não é apenas o contexto exterior da sua obra; é, em grande parte, a matéria viva a partir da qual a sua obra se foi formando.

Morin atravessou o século XX como quem atravessa uma tempestade sem deixar de a observar. Nasceu em 1921, perdeu cedo a mãe, conheceu a guerra, a ocupação nazi, a Resistência francesa, o comunismo, a ruptura com o dogmatismo, os totalitarismos, as esperanças políticas e as suas desilusões. Viveu suficientemente perto dos acontecimentos para não os transformar em abstracções, mas suficientemente desperto para não se deixar capturar por explicações fáceis. Talvez por isso a sua obra nunca tenha sido apenas sociologia, filosofia, epistemologia, antropologia ou política. Foi sempre uma tentativa de compreender o humano na sua inteireza.

O artigo do Público que assinala a sua morte capta bem essa dimensão ao apresentá-lo como “um mestre da resistência”. Resistência, aqui, não é apenas a resistência histórica ao nazismo. É também uma atitude perante o conhecimento. Morin resistiu à simplificação, à arrogância dos sistemas fechados, às verdades prontas, às ideologias que procuram encerrar o real numa fórmula definitiva. Resistiu à separação entre vida e pensamento, entre sujeito e objecto, entre ciência e humanidades, entre razão e emoção, entre indivíduo e sociedade. Toda a sua obra parece dizer-nos que o maior erro do pensamento moderno foi acreditar que compreender é separar.

“o nosso sistema de ensino, obriga-nos a isolar os objectos do seu envolvimento, a separar as disciplinas, a desmontar os problemas, mais do que a unir e integrar. Ordena-nos a reduzir o complexo ao simples, ou seja, a separar o que está unido, a descompor e não a recompor, a eliminar tudo aquilo que contenha desordens ou contradições ao nosso entendimento.”

Edgar Morin citado por (Oscar Moreno, 2009)

E é precisamente aqui que Morin começa a tocar profundamente o Futebol, sobretudo quando este deixa de ser pensado como uma sucessão de gestos, capacidades ou momentos isolados e passa a ser compreendido como um fenómeno humano, colectivo, relacional e imprevisível. O Futebol também sofreu, durante muito tempo, dessa tentação moderna de separar para compreender: separou o físico do técnico, o técnico do táctico, o táctico do psicológico, a preparação da competição, o jogador da equipa, o exercício do jogo, a decisão da execução, a emoção da razão e o treino da vida concreta do jogar. Como se a soma das partes pudesse, por si só, devolver o todo. Como se, depois de desmontado o jogo nos seus supostos “ingredientes”, bastasse voltar a juntá-los para que o jogar reaparecesse com sentido.

É nesse ponto que a sua vida dá força à sua obra. Morin não defendeu a complexidade por moda intelectual. Defendeu-a porque a viveu. A sua existência mostrou-lhe que o real raramente obedece a linhas rectas. A História não avança de forma limpa e linear, a política não é pura, a razão não é neutra, a ciência não é exterior ao humano, o sujeito que conhece nunca está completamente fora daquilo que procura conhecer. A vida ensinou-lhe aquilo que depois a obra procurou pensar: tudo o que existe está tecido em conjunto.

Esta expressão — tudo o que existe está tecido em conjunto — poderia servir também como porta de entrada para uma compreensão mais profunda do jogo. Porque no Futebol nada acontece verdadeiramente isolado. Uma recepção orientada não é apenas técnica; é técnica porque é táctica, porque nasce de uma leitura, de uma intenção, de uma relação com o companheiro em posse anterior, com o adversário que pressiona, com o companheiro que se move, com o espaço que se abre, com o tempo que se estreita e com a emoção que atravessa o jogador naquele instante. Um passe para trás pode ser conservação, convite, protecção, manipulação, preparação da progressão ou simples fuga ao problema. Uma corrida pode ser ruptura, compensação, cobertura, fixação, atracção ou equilíbrio. Uma perda da bola nunca é apenas uma perda: revela a qualidade da posse anterior, a estrutura que sustentava essa posse, a proximidade dos apoios, a relação entre jogadores, a preparação da Transição Defensiva e a possibilidade de recuperar imediatamente ou ter de recuar.

Por isso, quando Morin define a complexidade como complexus, isto é, “aquilo que é tecido conjuntamente”, não está apenas a oferecer uma definição conceptual. Está a propor uma forma de estar diante do mundo. Complexidade não significa complicação e confusão. Significa reconhecer que os fenómenos importantes não podem ser reduzidos a uma só causa, a uma só dimensão ou a uma só disciplina. O humano é biológico, psicológico, social, histórico, cultural, afectivo e espiritual. Separar estas dimensões pode ajudar a analisar, mas é muito provável que também mutile a compreensão.

No Futebol, porque este não é uma ilha da restante realidade, separar também pode ajudar a observar, mas pode igualmente mutilar o jogo. Podemos mapear e distinguir Organização Ofensiva, Transição Defensiva, Organização Defensiva e Transição Ofensiva; podemos distinguir Construção, Criação, Finalização, Defender a construção, Defender a criação, Defender a finalização, Reacção à perda da bola, Recuperação defensiva, Defesa do contra-ataque, Reacção ao ganho da bola, Contra-ataque e Valorização da posse de bola. Mas mapear e distinguir não é separar. Cada momento transporta vestígios do anterior e prepara possibilidades para o seguinte. A Organização Ofensiva contém já a Transição Defensiva que irá emergir na perda da bola. Sim, porque por mais que o procuremos evitar, a bola será mesmo perdida. A Organização Defensiva contém já a Transição Ofensiva que irá surgir quando a bola for recuperada. A Construção e a Criação servem para preparar a Finalização. Defender a construção pode preparar o Contra-ataque. A forma como uma equipa ocupa o campo com bola denuncia como se protegerá sem ela. A forma como recupera a bola denuncia como estava organizada antes de a ganhar.

A grandeza de Morin está em não ter recusado a clareza. Pelo contrário, procurou-a. Mas percebeu que há uma clareza falsa, obtida pela amputação do real, e uma clareza mais exigente, capaz de ligar sem confundir e distinguir sem separar. O pensamento complexo nasce precisamente dessa tensão. Não elimina a análise, mas impede que a análise destrua o conjunto. Não rejeita a razão, mas lembra que a razão se torna pobre quando esquece a incerteza, a contradição, o contexto e a vida. Na perspectiva oposta, estes foram os principais malefícios que o determinismo, o pensamento cartesiano e analítico nos trouxeram.

Esta distinção entre uma clareza falsa e uma clareza exigente é decisiva para o treino. A clareza falsa aparece quando o treinador acredita que simplificou o processo apenas porque o dividiu em partes: físico, técnico, “táctico”, mental; primeiro correr, depois passar, depois decidir; primeiro preparar o corpo, depois preparar o jogo. Parece claro, porque cada coisa fica no seu lugar. Mas essa ordem é muitas vezes uma ordem morta, porque o jogo nunca se manifesta assim. O jogo são conjuntos de comportamentos que contém, de forma inseparável, estes ingredientes. A clareza exigente, pelo contrário, obriga-nos a perceber que o treino deve ser organizado a partir das relações que dão sentido ao jogar. Não se trata de negar a existência do físico, do técnico, do mental ou do emocional. Trata-se de perceber que, no jogo, eles nunca aparecem puros. Aparecem sempre em interação, ligados, contaminados, co-implicados, arrastados pela intenção táctica e pela dinâmica colectiva.

É aqui que a ligação entre Edgar Morin e Vítor Frade se torna particularmente intíma. Morin oferece uma matriz de pensamento: complexidade, interdependência, incerteza, organização, inseparabilidade, relação, contexto, circularidade e responsabilidade perante o conhecimento. Frade transporta essa matriz para o coração do Futebol, não como aplicação exterior de uma filosofia ao treino, mas como construção de uma metodologia nascida da natureza própria do jogo. A Periodização Táctica não é apenas uma forma de organizar a semana. É uma forma de pensar o Futebol contra a mutilação do Futebol. É uma ruptura com o paradigma que absolutiza factores e acredita que o rendimento superior nasce da soma optimizada de partes isoladas. Em Frade, como em Morin, compreender não é fragmentar até perder o sentido; compreender é articular, hierarquizar, contextualizar e fazer emergir uma organização.

Nesse sentido, a sua obra é também profundamente ética. Pensar bem não é apenas organizar ideias; é assumir responsabilidade perante o mundo. A fragmentação do conhecimento produz cegueiras. A especialização, quando se fecha sobre si mesma, sabe cada vez mais sobre partes cada vez mais pequenas, mas pode perder a noção do todo em que essas partes ganham sentido. Regressando ao Futebol, olhemos como exemplo para os cada vez maiores e mais poderosos departamentos de Fisiologia, Análise de Jogo, Treino individual, etc.. Morin percebeu que muitos dos problemas contemporâneos — políticos, ecológicos, educativos, humanos — não resultam apenas de falta de conhecimento, mas de uma má organização do conhecimento.

Também muitos problemas do treino não resultam apenas de falta de informação, mas de uma má organização do conhecimento. Pode saber-se muito sobre fisiologia, biomecânica, técnica, psicologia, pedagogia, análise de jogo ou liderança e, ainda assim, organizar mal o processo se esses saberes não forem articulados em função do objectivo fulcral: jogar. O problema não é conhecer as partes. O problema é deixá-las governar o processo como se fossem autónomas. O problema não é falar de resistência, velocidade, força, técnica, decisão ou emoção. O problema é tratá-las como entidades independentes, quando no jogo se manifestam sempre numa relação concreta com uma intenção, uma situação, uma forma de jogar, uma cultura colectiva e um adversário.

É por isso que a Periodização Táctica, em Vítor Frade, coloca a táctica como supradimensão. Não porque a táctica elimine o físico, o técnico, o psicológico ou o estratégico, mas porque é ela que lhes dá sentido no interior do jogar. A táctica não é aqui uma disposição geométrica, nem um conjunto de movimentos prescritos, nem uma ocupação abstracta do espaço. É a organização intencional do jogar. É a forma como uma equipa quer resolver os problemas do jogo. É o modo como se relaciona com a bola, com o espaço, com o tempo, com o adversário, com os companheiros, com o resultado, com a incerteza e consigo própria. O táctico, neste entendimento, não é uma parte ao lado das outras; é o princípio organizador que faz com que as restantes dimensões se expressem com sentido.

É por isso que a inseparabilidade é tão importante no seu pensamento. Não se trata de dizer que tudo é igual ou que tudo se mistura. Trata-se de perceber que separar é sempre uma operação provisória. O indivíduo não existe fora da sociedade que o forma, mas a sociedade também não existe fora dos indivíduos que a produzem. O conhecimento não existe fora do sujeito que conhece, mas o sujeito também se transforma no próprio acto de conhecer. A acção nasce de uma intenção, mas, uma vez lançada no mundo, entra numa rede de interacções que a pode desviar, ampliar ou contrariar.

No Futebol, esta ideia é de uma fertilidade enorme. O jogador não existe fora da equipa que o forma, mas a equipa também não existe fora das acções, decisões, emoções e relações dos jogadores que a produzem. Daí a interacção e interdependência permanente entre qualidade colectiva e qualidade individual. O Modelo de Jogo não existe fora dos jogadores que o interpretam, mas os jogadores também se transformam ao viverem esse Modelo de Jogo. O exercício não existe fora da intenção metodológica que o organiza, mas essa intenção pode ser desviada, ampliada ou contrariada pelas interacções que emergem no próprio exercício. O treinador pode desejar uma determinada propensão, mas, quando a tarefa começa, ela entra na realidade viva do treino: jogadores diferentes, níveis de compreensão diferentes, estados emocionais diferentes, relações diferentes, cansaços diferentes, resistências diferentes, interpretações diferentes e possibilidades diferentes.

É aqui que se percebe melhor a profundidade da noção de Especificidade. Na Periodização Táctica, Especificidade não significa simplesmente “treinar com bola” ou “fazer exercícios parecidos com o jogo”. Significa que tudo o que se faz deve estar relacionado com o jogar que se pretende fazer emergir. A Especificidade não é uma aparência exterior da tarefa; é uma relação interna de sentido. Um exercício pode ter bola e estar longe da Especificidade, se não respeitar a lógica do jogar pretendido. E uma tarefa aparentemente parcelar pode ser específica, se estiver hierarquizada e articulada com a Intencionalidade Colectiva que orienta o processo. A questão não é se se trabalha o todo ou uma parte; a questão é se essa parte mantém o vínculo com o todo. A tal fractalidade. Portanto, a questão não é reduzir ou não reduzir; a questão é reduzir sem empobrecer.

A vida de Morin confirma esta ideia. O jovem resistente, o intelectual político, o crítico do totalitarismo, o investigador transdisciplinar, o pensador da educação, o homem atento à crise ecológica e civilizacional não são personagens separadas. São expressões diferentes de uma mesma procura: compreender melhor para viver melhor; viver mais lucidamente para compreender melhor. Também Vítor Frade, no campo – Futebol, representa essa mesma recusa de aceitar a realidade como fragmento. A sua obra nasce de uma inquietação epistemológica e metodológica: que exigências coloca o Futebol, enquanto fenómeno antropossocial-total, ao treino? Que tipo de pensamento precisamos para compreender um jogo que é, ao mesmo tempo, corpo, decisão, emoção, cultura, estratégia, inteligência, relação, história, acaso, ordem, desordem e organização? Que metodologia pode respeitar essa natureza sem a reduzir a um somatório de capacidades? A Periodização Táctica surge como resposta a essa inquietação. Não como receita, mas como exigência. Não como moda, mas como forma de pensar. Não como conjunto de exercícios, mas como uma lógica metodológica de operacionalização de uma ideia de jogo.

Talvez por isso Edgar Morin nos deixe uma lição tão simples e tão difícil: não podemos pensar a vida de fora da vida. Não podemos compreender o humano amputando-o das suas relações. Não podemos enfrentar a incerteza fingindo que ela não existe. E não podemos construir conhecimento verdadeiro se continuarmos a separar aquilo que, na realidade, nasce ligado. A incompreensão (ou a recusa) deste discurso é, em grande medida, um dos alicerces dos actuais problemas civilizacionais — muitos deles impensáveis há uma, duas décadas. Mas, como o próprio Morin insiste, o desenvolvimento e a progressão não são lineares: avançam, recuam, desviam-se, reconfiguram-se. É precisamente por isso que a lucidez exige ligação, contexto e responsabilidade — para não confundirmos evolução com destino, nem complexidade com confusão.

Transportada para o Futebol, esta lição obriga-nos a dizer: não podemos pensar o jogo de fora do jogo. Não podemos compreender o jogador amputando-o das suas relações. Não podemos enfrentar a incerteza competitiva fingindo que o treino a pode substituir por certezas mecânicas. E não podemos construir uma metodologia verdadeiramente específica se continuarmos a separar aquilo que, no jogar, nasce ligado.

A sua obra permanece porque não oferece uma receita, mas uma exigência. A exigência de pensar mais profundamente. De ligar o que foi separado. De aceitar que a verdade não é posse, mas procura. De compreender que viver é sempre navegar entre certezas frágeis e incertezas inevitáveis. No fundo, Edgar Morin ensinou-nos que pensar a complexidade é aprender a habitar melhor a vida.

E talvez seja também essa a grande lição que Vítor Frade transporta para o treino: treinar não é aplicar receitas fora da vida do jogo. Treinar é organizar uma realidade viva para que uma determinada forma de jogar possa nascer, crescer, estabilizar-se e transformar-se. É criar contextos onde os jogadores percebem, decidem, executam, sentem, comunicam, ajustam e aprendem em função de uma intenção colectiva. É construir hábitos sem matar a criatividade. É repetir sem mecanizar. É estabilizar sem cristalizar. É orientar sem aprisionar. É dar forma sem retirar liberdade. É fazer emergir regularidades num fenómeno que continuará sempre aberto à surpresa.

Um dos maiores méritos da Periodização Táctica é aproximar-se assim do pensamento complexo porque recusa a ilusão de que o jogo pode ser dominado por uma causalidade linear. No Futebol, o mesmo exercício não produz sempre a mesma aprendizagem, o mesmo princípio não se manifesta sempre da mesma forma, o mesmo comportamento não tem sempre o mesmo valor, a mesma estrutura pode gerar dinâmicas diferentes e a mesma decisão pode ser adequada num contexto e inadequada noutro. Isto não significa abandonar a ordem; significa compreender que a ordem do jogo é uma ordem viva. Uma ordem que dialoga com a desordem. Uma ordem que precisa da incerteza para continuar jogo. Uma ordem que não se impõe de fora para dentro como uma máquina, mas se constrói de dentro para fora como uma organização dinâmica.

Por isso, o Modelo de Jogo não pode ser entendido como um desenho morto, fechado num papel. É uma intenção prévia, sim, mas uma intenção que precisa de ganhar corpo na vivenciação, na repetição específica, na interacção, na emoção, na concentração táctica, na experiência acumulada e na inteligência colectiva que se vai formando. O Modelo de Jogo orienta o processo, mas também se revela e se transforma no processo. O treinador projecta, operacionaliza, observa, reflecte, ajusta. A equipa interpreta, resiste, assimila, transforma, devolve. O jogar emerge dessa relação circular entre intenção, treino, competição e reflexão.

Deste modo, Morin e Frade encontram-se de forma profunda. Morin ensina-nos que o conhecimento deve ser capaz de ligar o que foi separado, reconhecer a incerteza, pensar a relação entre todo e partes e evitar a cegueira do pensamento parcelar. Frade ensina-nos que, no Futebol, essa exigência tem consequências metodológicas concretas: o treino deve partir do jogar, regressar ao jogar e ser permanentemente orientado pelo jogar. O que se treina não deve ser uma colecção de conteúdos, mas uma organização de experiências com sentido. Não se trata de acumular exercícios; trata-se de construir uma cultura de jogo. Não se trata de preparar jogadores genericamente capazes; trata-se de formar jogadores cada vez mais competentes dentro de uma ideia para jogar em concreto, sem que isso os reduza, antes potenciando a sua autonomia, criatividade e inteligência.

Assim, a ponte entre Edgar Morin e Vítor Frade não é uma aproximação decorativa. É uma ligação de fundo entre duas formas de resistência ao pensamento simplificador. Morin resiste à fragmentação do humano. Frade resiste à fragmentação do Futebol. Morin mostra que a realidade não cabe nas gavetas disciplinares que inventámos para a estudar. Frade mostra que o jogar não cabe nas gavetas metodológicas que durante décadas separaram físico, técnico, táctico e psicológico. Morin lembra que o todo está nas partes e as partes estão no todo. Frade obriga-nos a perceber que cada tarefa, cada princípio, cada sub-princípio, cada relação, cada escala do jogo deve transportar a marca do jogar que se pretende construir.

No fundo, ambos nos convocam para uma mesma responsabilidade: pensar melhor para agir melhor. No caso de Morin, agir melhor perante a vida, a educação, a política, a ciência, a cultura e o destino humano. No caso de Frade, agir melhor perante o jogo, o treino, a formação, a competição e a construção de equipas. Um ajuda-nos a compreender a necessidade de uma razão aberta, humilde, relacional e consciente das suas cegueiras. O outro mostra-nos como essa razão, quando levada a sério no Futebol, exige uma metodologia capaz de respeitar a inteireza inquebrantável do jogar.

Talvez seja por isso que pensar Morin a partir do Futebol não diminui Morin, nem pensar Frade a partir de Morin diminui Frade. Pelo contrário. Mostra que o Futebol, quando verdadeiramente compreendido, não é um território menor do pensamento. É um lugar onde se manifestam, de forma intensíssima, muitos dos problemas que Morin perseguiu ao longo da vida: a relação entre ordem e desordem, a inseparabilidade entre sujeito e contexto, a articulação entre razão e emoção, a emergência do novo, a impossibilidade de reduzir o vivo ao mecânico, a necessidade de organizar conhecimento sem o mutilar.

E mostra também que a Periodização Táctica, quando verdadeiramente compreendida, não é apenas uma metodologia de treino. É uma forma de pensar o Futebol em complexidade. Uma forma de entender que o jogo não é a soma das suas partes, que a equipa não é a soma dos seus jogadores, que o treino não é a soma dos seus exercícios, que o rendimento não é a soma dos seus factores e que a aprendizagem não é a soma das repetições. É uma forma de reconhecer que o jogar emerge de relações, de interacções, de intenções, de hábitos, de emoções, de decisões, de contextos e de uma cultura que se constrói no tempo.

No fundo, Edgar Morin ensinou-nos que pensar a complexidade é aprender a habitar melhor a vida. Vítor Frade ensina-nos que treinar em complexidade é aprender a habitar melhor o jogo. E, talvez, quando estas duas exigências se encontram, percebemos que o Futebol, mais do que um conjunto de acções, é uma forma viva de conhecimento: um conhecimento que se pensa, se sente, se incorpora, se partilha, se disputa, se transforma e joga. Acima de tudo… o Futebol é viver.

“a hiperespecialização impede de ver o global (que ela fragmenta em parcelas), bem como o essencial (que ela dilui). Ora, os problemas essenciais nunca são parceláveis, e os problemas globais são cada vez mais essenciais. Além disso, todos os problemas particulares só podem ser posicionados e pensados correctamente em seus contextos; e o próprio contexto desses problemas deve ser posicionado, cada vez mais, no contexto do planetário. Ao mesmo tempo, o retalhamento das disciplinas torna impossível aprender “o que é tecido junto”, isto é, o complexo, segundo o sentido original do termo. Portanto, o desafio da globalidade é também um desafio da complexidade. Existe complexidade, de fato, quando os componentes que constituem um todo (como o económico, o político, o sociológico, o psicológico, o afectivo, o mitológico) são inseparáveis e existe um tecido interdependente, interactivo e inter-retroactivo entre as partes e o todo, o todo e as partes. Ora, os desenvolvimentos próprios de nosso século e de nossa era planetária nos confrontam, inevitavelmente e com mais e mais frequência, com os desafios da complexidade”. Edgar Morin conclui que “efectivamente, a inteligência que só sabe separar fragmenta o complexo do mundo em pedaços separados, fracciona os problemas, unidimensionaliza o multidimensional. Atrofia as possibilidades de compreensão e de reflexão, eliminando assim as oportunidades de um julgamento correctivo ou de uma visão a longo prazo. Sua insuficiência para tratar nossos problemas mais graves constitui um dos mais graves problemas que enfrentamos. De modo que, quanto mais os problemas se tornam multidimensionais, maior a incapacidade de pensar sua multidimensionalidade; quanto mais a crise progride, mais progride a incapacidade de pensar a crise; quanto mais planetários tornam-se os problemas, mais impensáveis, eles se tornam. Uma inteligência incapaz de perceber o contexto e o complexo planetário fica cega, inconsciente e irresponsável”.

(Edgar Morin, 2003)

“eu tenho que parir é o contexto, não os comportamentos”

“Este novo entendimento da estruturação do processo de treino debate-se, essencialmente, no nosso país, não havendo paralelo na identificação desta nova “teoria” na literatura internacional.”

“eu não conheço cultura de um gajo só”

O treinador português: um “produto” de qualidade II

https://www.facebook.com/SaberSobreOSaberTreinar/videos/1004035786604403/

 

“(…) tentámos reajustar mas o posicionamento deles era melhor, jogavam uns para os outros. O Benfica foi melhor em todos os setores e dói perceber isso. Individualmente temos tanta qualidade quanto o Benfica mas não como equipa”.
Jan Vertonghen, citado por (Bouças, 2014), sobre o Benfica de Jorge Jesus

http://www.sabersobreosabertreinar.pt/…/avaliacao-da-compe…/

Intensidade VII

“(…) você só consegue ter os gajos em intensidade máxima relativa, ou seja, a fazer frescos, se eles estiverem frescos!”
(Vítor Frade, 2013)

Corredor central

“As senhoras da limpeza também fazem o corredor todo e nem por isso jogam Futebol!”

Vítor Frade, citado por (Jorge D., 2012)

https://www.facebook.com/SaberSobreOSaberTreinar/videos/399194524170070/

Organização Ofensiva | Construção + Criação + Finalização | Construção pela primeira linha + Jogo entre-linhas + Passe vertical + Apoio frontal + Finalização à distância | Manchester City 2019

O treinador português: um “produto” de qualidade

“Há sempre que estudar mais. Não compreendo o treinador de futuro sem estudo.”

Manuel Sérgio, 2017

Numa reportagem de Janeiro de 2017, um canal de desporto brasileiro procurava explicar a “moda” em que se tornou o treinador português.

https://www.facebook.com/quezada.arthur/videos/1776565645938732/

Num artigo de Fevereiro do mesmo ano, tocávamos na questão.

“(… ) é evidente a enorme a evolução que o jogo, o treino e a liderança das equipas registaram, resultado da qualidade que muitos treinadores portugueses hoje apresentam, colocando-os no top mundial. Simultaneamente, em todos os níveis do jogo muitos outros crescem, nas ideias e na experiência e preparam-se para mais uma vaga, quem sabe ainda melhor. Facto, valorizado ainda, pela menor dimensão do país, no número de praticantes e de equipas, comparativamente com muitos outros. Também não é assunto novo neste espaço, pois ainda noutro artigo recente, trazíamos o professor Silveira Ramos elogiando o treinador português, pelo seu conhecimento do jogo e pensamento estratégico. Hoje, em vários pontos do mundo o treinador português é visto como sinónimo de qualidade. Constitui-se como mais um “produto” português de enorme sucesso.”

A reportagem foca o processo formativo. Conhecendo o mesmo, reconhecemos a sua evolução e incontestável contributo para este sucesso. Mas este é um processo que não se reduz aos cursos de treinadores. Passa também pelo trabalho desenvolvido das Universidades nas últimas décadas, por diversas obras publicadas por inúmeros autores e actualmente pelos inúmeros espaços na internet que desenvolvem ideias, debatem e contribuem de forma decisiva para a exponenciação do conhecimento. Como grande exemplo, reconhecido por muitos treinadores, alguns deles até focados na reportagem, está o incontornável www.lateralesquerdo.com, online há quase uma década e percursor de centenas de outros espaços, de ideias e até linguagem que hoje se tornou convencional.

Porém, esta é só uma parcela da explicação. Desde logo, (Manuel Sérgio, 2012) descreve que “em Portugal não é a mesma coisa ser treinador de Futebol ou treinador de Basquetebol… as pressões são outras”. O autor (Bouças, 2016) sustenta este pensamento com “os rótulos que os “carneiros” sempre colocam quando alguém que não entendem nem querem esforçar-se para entender foge da norma. Será sempre assim, até que a realidade lhes bata de frente. Por isso há quem vá à frente, afirme, defenda e prove. E há os que atrás se limitam a acenar concordando sempre com o que estará mais aceite e enraizado no pensamento global”. Sem dúvida que José Mourinho marcou uma nova era para o treinador português, indo com enorme coragem mais “à frente, afirmando-se, defendendo-se e provando”. Segundo o treinador (André David, 2017), “após Mourinho aparecer no nosso futebol, a imagem do treinador e da formação dos treinadores ganhou especial relevância e notoriedade, ao ponto de actualmente haver imensos jovens a quererem ser treinadores de futebol”.

Neste âmbito, é também fundamental sublinhar a base metodológica de José Mourinho. A Periodização Táctica idealizada por um homem que personifica todas as qualidades e genialidade do treinador Português. O ex-treinador e professor Vítor Frade. O treinador português (Jesus, 2010), defende que “Portugal tem uma metodologia de treinos que está dez anos avançada em relação ao resto do Mundo. (…) No futuro vão aparecer mais Mourinhos”. O próprio (José Mourinho, 2001), explica que os dados actuais, “indicam que a componente Táctico-técnica e cognitiva sejam as que direccionam todo o processo de treino e um projecto de jogo. Estão assim criados os pressupostos para que seja efectuada uma ruptura epistemológica na periodização e planeamento do processo de treino, e por conseguinte designarmos o novo processo de treino como Periodização Táctica”. De acordo com (Tamarit, 2007), “a “Periodização Táctica” é uma Metodologia de Treino que surge há mais de trinta anos na cabeça do Professor Vítor Frade quando, através de experiências que lhe ocorreram, começa a questionar as Metodologias de Treino existentes até o momento”. O autor acrescenta que Frade exerceu, durante trinta e três anos, como professor na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e foi treinador adjunto em várias equipas da primeira liga Portuguesa, nomeadamente no F. C. do Porto durante mais de vinte anos. Xavier Tamarit ressalva que, portanto, esta metodologia, “não surgiu de um dia para o outro, como por magia, nem é algo extraído de qualquer outra área e extrapolado para este fenómeno de massas chamado Futebol”. Finalmente Tamarit sublinha que “ele é o criador da metodologia de treino conhecida como Periodização Táctica, transgressora com a lógica que era aceite como verdade absoluta pelas teorias e metodologias de treino, assim como, possivelmente, pela totalidade dos desportos. Esta “nova” metodologia surgiu há aproximadamente trinta anos, porém começou a ser mais conhecida através dos êxitos conseguidos pelo treinador português, (…), José Mourinho, que junto da sua equipa técnica conseguiu levá-la à excelência ao nível prático”.

Por outro lado, Paulo Sousa, citado por (Ferreira, 2014), justifica a qualidade dos treinadores portugueses com múltiplas presenças nos níveis competitivos mais elevados. O técnico português sustenta que “é extraordinário e isso só confirma o que disse, que temos qualidade e estamos preparados. Claro que há factores que determinarão os resultados que cada um deles irá obter mas isso não porá em dúvida a competência de todos eles que, com o tempo, irá sendo cada vez maior”.

Assim, segundo Jorge Jesus, citado por (Braz, 2009) e abordando os melhores, “os treinadores portugueses são dos melhores do mundo, ao nível dos holandeses e dos italianos”. O treinador português (Jorge Jesus, 2013), reforça esta ideia, colocando os treinadores “à frente dos outros, mas que estão a frente é garantido. Todos querem aprender connosco”. Ainda (Jorge Jesus, 2015), vai mais longe e opina que “os treinadores portugueses, são actualmente os melhores treinadores do mundo, são os que têm mais conhecimento em todas as áreas que definem o crescimento de uma equipa de Futebol, e portanto se tiveres a possibilidade de trabalhar numa equipa que tem condições financeiras para teres isto tudo, eles têm muito mais facilidade de ganhar esses títulos que qualquer outro treinador do mundo. Tirando o Pep Guardiola porque também penso que é um pouco parecido com os treinadores portugueses”.

Para (Silveira Ramos, 2015), o treinador português encontra-se à frente de colegas de outros países, pois para o treinador e autor, há décadas que o treinador português perspectiva o treino de uma forma mais global, mais holística, contrariando o pensamento analítico e a divisão das dimensões do rendimento protagonizada pela maioria das outras culturas futebolísticas. Porém, para tal, o autor defende que foi preciso errar, foi preciso “trilhar o caminho”, foi necessário inovar, e também aí o treinador português foi corajoso e pioneiro. Qualidades conjugadas com a inteligência. Segundo o treinador português (Nuno Manta, 2017), “o treinador português é super inteligente. Sabe trabalhar o músculo principal, que é o cérebro, e põe o jogador a pensar, português ou não. Independentemente da nacionalidade, os jogadores vêm para cá e normalmente crescem aqui, antes de dar o salto para a Europa”.

Neste enquadramento, novamente (Silveira Ramos, 2017) descreve que “há algo que herdamos da chamada velha guarda dos treinadores portugueses: a estratégia. Portugal foi pioneiro nessa capacidade de aliar a vertente estratégica às metodologias de treino de vanguarda. Isso produziu alguns dos melhores treinadores do mundo. Não percamos isso, não nos agarremos a preconceitos. Identidade não é jogar sempre com os nossos argumentos expostos. Nenhum grande general faria isso… Estratégia é utilizar o que temos de melhor. Uma frase mais para a tal simbiose entre velha guarda e os tempos modernos. Os treinadores portugueses eram aqueles bons malandros, no bom sentido do termo. Eram atrevidos e essas características espero que nunca se percam porque é a nossa natureza e também a explicação para a afirmação de muitos deles no estrangeiro“.

O treinador português (Leonardo Jardim, 2017) acha “que o treinador português é um treinador muito bem visto em toda a Europa e todo o mundo pelo seu conhecimento e pela sua capacidade de adaptação. Nós portugueses temos esta capacidade. Nós temos famílias de emigrantes e temos capacidade de nos adaptar. Mesmo em cenários de alguma dificuldade nós conseguimo-nos adaptar e ultrapassar essas dificuldades e fazer aquilo que mais gostamos que é o nosso trabalho, e apresentar resultados. Ao contrário do que no passado podíamos pensar, a adaptação é uma mais valia.

O autor (Luís Freitas Lobo, 2010), parece subscrever esta ideia ao defender que “tacticamente, o treinador português é dos mais inteligentes do mundo. Domina o treino e a leitura de jogo. É multicultural, sem complexos de ouvir outras escolas mas, ao mesmo tempo, tem um orgulho pessoal que não o deixa converter-se, pelo que, no fim, impõe a sua filosofia”. Lobo, acrescenta que o treinador português, “prova, como diz Capello que “o melhor treinador é o maior dos ladrões”. Aprende em todos os sítios e com todos os outros técnicos, mas, no fim, aproveitando tudo, mete a suas ideias e cria uma filosofia própria global. O Futebol português, não duvidem, sempre esteve cheio de grandes “ladrões””. O autor (Pinheiro, 2013) destaca três pontos que fortes no treinador português:

  • Trabalho realizado em ambiente de adversidade. O autor refere que “treinador português está acostumado a trabalhar com poucos recursos, tanto ao nível humano quanto ao material. Vejamos o exemplo de algumas equipas fantásticas que se alicerçam em jogadores “aparentemente” normais, mas que com grande rigor e organização conseguem resultados fantásticos”;
  • Formação académica. Para Valter Pinheiro, “o advento de técnicos com formação em Educação Física trouxe ao futebol maior rigor e cientificidade”;
  • Capacidade de adaptação. Finalmente o autor sublinha “a capacidade “camaleónica” do treinador português, capaz de se adaptar a contextos difíceis e muitas vezes hostis. Já se tornou normal ver equipas com muitos meses de salários em atraso que em campo revelam uma motivação feroz. Em muitas destas situações o treinador assume-se como a pedra angular que congrega a união da equipa”.

Portanto, no fundo o que faz a diferença no treinador português é o conhecimento que este conquistou, fruto da sua ambição, coragem, inteligência, criatividade, experiências e ideias produzidas, num contexto tão competitivo e adverso como o Futebol Português.

“Sempre fui muito autocrítico e nunca me chega aquilo que faço. Quero sempre mais porque sei que consigo mais. É como o nosso cérebro: nós só exploramos uma parte muito pequena do nosso cérebro. E eu sinto que bem estimulado e motivado sou capaz de virar uma equipa de pernas para o ar.”

Vítor Pereira, 2017

“O atleta é um todo”

“(…) acontece uma variedade de reacções humanas ao mesmo tipo de factores e de situações porque não é reacção o que propriamente se dá, mas, antes, uma acção – e esta é iniciada intencionalmente por um todo que, de todo, jamais o é da mesma forma que o todo de outro: é o todo que enforma as partes e não estas que determinam aquele.”

(Neto, 2012), sobre o “todo” do Futebol – a Táctica

https://www.facebook.com/SaberSobreOSaberTreinar/videos/1892730540756204/

A opinião é dada por, Gabriel Mendes, Coordenador Técnico da Federação Portuguesa de Ciclismo. A visão sobre o rendimento e o treino sofreu uma clara ruptura epsistemológica. Deixou de se ver o jogador, ciclista, atleta, etc., como um somatório de capacidades para ser interpretado do ponto de vista das suas acções, enquadradas num todo complexo. Se o pensamento Cartesiano começa a abandonar as modalidade individuais, as quais, apresentam uma estrutura de rendimento menos complexa, então é urgente irradicá-lo por completo dos desportos colectivos.

Neste contexto, em 2003, o professor Silveira Ramos defendia que ““o Futebol pode ser decomposto nas suas partes constituintes – técnica, táctica, física, psíquica, social, das leis de jogo, etc.” ou “então pode ser decomposto em – acções individuais e colectivas – considerando que cada uma delas é constituída em termos técnicos, tácticos, físicos, psíquicos, sociais, etc.” E concluía… “ao procedermos à análise das capacidades dos jogadores e da equipa, com o sentido de conhecermos melhor cada uma delas, corremos, como já foi referido, o risco de “isolar” determinados aspectos, criando teoricamente capacidades isoladas, que nas acções do jogo têm um significado mais amplo e menos repartido. Qualquer capacidade que se considere isoladamente, manifesta-se sempre pelos comportamentos do jogador no desempenho das tarefas em jogo, sendo esses comportamentos expressos de forma global e não através de uma única capacidade, ou grupo de capacidades. Cada acção desenvolvida em jogo, é consequência de diversos factores, mesmo que algum, ou alguns sejam mais evidentes à nossa observação”.

“A motricidade

do jogar, no jogo

a de qualidade…

Implica o indivíduo todo!

(Frade, 2014)

Qualidade de jogo

É uma discussão permanente definir o que é qualidade de jogo no Futebol. Isto porque o conceito é muitas vezes associado à dimensão estética do jogo, e essa é naturalmente subjectiva e consequência das experiências, cultura, valores e sentimentos pessoais. Contudo se estamos perante uma actividade que exige rendimento, qualquer estética não sobrevive sozinha. Vítor Frade, 2013, descreve que “só se pode estar a Top estando sistematicamente preocupado com a objectividade, com a eficácia, com a eficiência. Agora tendo em conta o que é o futebol, eu tenho que estar permanentemente perturbado, estando preocupado com isso, e também estando permanen­temente preocupado com a estética do jogo. E a estética é a coisa mais nuanciável para que a objectividade seja objectividade. Se eu exagero na perda da estética vou perder aí, se eu exagero no aumento da estética vou perder ali, e isso é que não é para qualquer um. (…) sou um obcecado pela eficácia porque só se está no alto rendimento se se for eficaz, se se ganhar, mas eficácia é o resultado da eficiência, e a eficiência é o aparecimento regular de urna forma de fazer aparecer as coisas! E essa eficiência, e por isso eu disse, ser um angustiado e perturbado permanentemente pela estética. Portanto, a eficiência tem a ver com a estética, mas têm que se pesar as duas coisas!“

Vítor Frade descreve ainda que “depois já iríamos para o lado estético do Jogo, nas dimensões colectiva e individual! Portanto, isto tem a ver, o que estou a evidenciar, com a eficiência e eficácia mas depois… isto é importante e sem isso não vale a pena pensar as coisas, porque eu penso o treino e jogo para ganhar, e por isso digo que estou permanentemente preocupado com a eficácia e a eficiência, mas continuadamente preocupado também, e até perturbado com o problema estético! Eu revejo agora o Brasil de 80, de 82 e dos anos 70, e deleito-me a ver aquilo. Mas aquilo não é absolutamente transferível para os dias de hoje? Em termos de ataque é, agora eu tenho é que ter preocupações com os equilíbrios da equipa, que eles não tinham naquela altura, porque não era preciso, para continuar a ganhar.“

Na presente edição da Liga dos Campeões, três das equipas que reconhecidamente, actualmente apresentam melhor qualidade de jogo tendo em conta o trinómio Estética-Eficácia-Eficiência competiram no mesmo grupo. Assistimos, muito provavelmente ao futebol que aí vem. O tal que Vítor Frade aponta “para continuar a ganhar”. Um dos comandantes por trás deste sucesso é português, com naturalidade para nós dada a consciência que temos para o quanto os portugueses contribuíram nos últimos anos para a evolução do treino e do jogo. Contudo a coragem que sempre manifestou, não é para todos.

https://www.facebook.com/SaberSobreOSaberTreinar/videos/1882724075090184/

“Para fazermos uma equipa funcionar, para fazermos uma verdadeira equipa, nós temos que ter os onze jogadores com a coragem de ter iniciativa, terem a coragem de quererem a bola, a coragem de quererem assumir o jogo”.

Paulo Fonseca, no programa ReporTV, “O Jogo”, 2016

I Congresso Internacional da Periodização Táctica

“O treino e o jogo não são somas. Às vezes confunde-se complexidade com complicação”.

Vítor Frade, 2017

“”Football is not a linear process,” Frade said. “It is not a sum of things: If you do this, plus that, you will achieve this.” Instead, “the coach must consider every aspect, of the individual, of the team. Football is not two-dimensional. It is multidimensional.” It is an imperfect parallel, but the game, as Frade envisages it, is not unlike a Rubik’s Cube: Every thing a manager does, every single turn they make, has a consequence elsewhere. It does not work if they try to fix one side alone; the problem must be considered in its entirety.”

Rory Smith no The New York Times, 2017

Decorreu no passado mês de Junho, o I Congresso Internacional da Periodização Táctica no Porto. Mais do que uma forma de divulgação da corrente metodológica, uma justíssima homenagem a Vítor Frade pela genialidade e resistência na defesa de uma ideia que ultrapassa em muito as ténues fronteiras do futebol. Mas a questão parece teimar em persistir: qual é a essência da revolução de Frade?

Efectivamente, numa visão complexa da realidade, muito díspar da corrente de pensamento tradicional, que devemos dizer, foi poluindo o pensamento humano nos últimos quatro séculos. Isto porque quer queiramos, quer não, quer consigamo-lo compreender ou não, o universo que habitamos é complexo. Como Vítor Frade também referiu no congresso, “não existem as ciências da complexidade. Existe sim, a complexidade”. Não é o homem e a sua ciência que dita que a realidade é complexa. Ela é-o intransigentemente. Frade reforçou também, duas vezes ao longo da sua palestra, que “foram 400 anos de pensamento analítico ou cartesiano” e como consequência vivemos os mais diversos contextos das nossas vidas contaminados por esta forma redutora de pensar. Os números, as quantidades, as partes, as somas, foram castrando as relações, as qualidades, as interacções… no fundo o todo complexo. Vulgarizou-se nos últimos anos que o “todo, é mais que a soma das partes”, porém continua sem se perceber muito bem o que isso significa e como consequência, o homem continua a mutilar a realidade na sua intervenção nas mais diversas áreas.

É verdade que as ideias de Vítor Frade são baseadas no pensamento de ruptura de Ludwig von Bertalanffy, Norbert Wiener, Ross Ashby, Edgar Morín, Manuel Castells, entre tantos outros. É também verdade que outros autores também procuraram aproximar o desporto de uma perspectiva mais globalizante do rendimento, mas foi porém Frade, que surge, ainda na década de 70, com o mais disruptivo pensamento, sob a perspectiva da complexidade, consumado mais tarde na sua Periodização Táctica. Na sua tese de doutoramento – A interacção, invariante estrutural da estrutura de rendimento do Futebol, como objecto de conhecimento cientifico – uma proposta de explicação de causalidade, de 1990, declarou: “O Futebol, apesar de frequentemente encarado como “realidade-inferior”, disciplina de importância menor, desprezada, pouco vocacionada a despertar pessoas para uma carreira académica – como especialidade e investigação consequente, é no entanto, um objecto de estudo complexo, na medida em que uma multiplicidade de factos e de acontecimentos, se dão a ver ao mesmo tempo. Enquanto prática social, o futebol tem uma história, inclusivamente, uma geografia. Daí, que não se tome por único o que é plural, e por plural o que é único. O futebol pré-existe á ideia que dele se tem. O problema está em saber, se as ideias que dele se tem, se lhe ajustam”.

Uma das organizadoras do congresso e ex-aluna de Frade, Mara Vieira, numa entrevista ao jornal Expresso, que procurava antecipar o congresso, referia precisamente isto: “a primeira grande diferença para toda a gente é esta: o professor Vítor Frade faz-nos refletir. O que é um papel que a universidade no seu todo devia ter. “Que treinadores é que nós queremos formar para quando eles saírem da faculdade?” Nós temos de ter conhecimentos sobre futebol e sobre variadíssimas áreas. E o professor Vítor Frade, das primeiras coisas que faz, é explicar que nós para pensarmos o futebol temos de perceber que é algo complexo e temos de refletir muito sobre as coisas. Porque a malta normalmente está à espera de fórmulas: “O professor há-de dizer e nós apanhamos as coisas e vamos para o campo”. O que ele faz é relacionar várias áreas e mostrar como todas elas podem ser importantes para o futebol. Ele é especial porque nos faz a todo o momento querer saber mais e refletir sobre os assuntos, entendendo as coisas na sua dimensão complexa, porque as coisas não são A mais B”.

Recentemente, em entrevista a (Tamarit, 2013), Vítor Frade confessava que hoje lhe dava um certo gozo ler coisas que escreveu “nos anos 70 e princípios de 80, sendo na altura muito contestadas, e ler hoje qualquer coisa assim científica avançada e ver que não estava mal de todo, e até parece que estava bem! Mas pronto, era um paradigma diverso daquele que estava e está institucionalizado!” Na sua tese de 1990, Frade questionava ainda, “por exemplo, quantos não serão os “dados” existentes à cerca da pergunta seguinte: Quais são, os elementos estruturais de todo o jogo de futebol? A estrutura de acção não é mecânica, no entanto, o saber compartimentado do “nosso” futebol segregou já demasiadas previsões especializadas. Deve continuar o “futebol”, a deixar-se cegar pelo erudito reducionismo? Para nós, a formulação de MODELOS DE INTELIGIBILIDADE afastados da FRAGMENTARIDADE DOMINANTE, e ajustados à natureza complexa do objecto empírico, parece-nos de premente necessidade”.

Neste sentido, perante toda a evolução sentida no futebol, a difusão da Periodização Táctica e de muitas novas ideias relacionadas com o jogo e o treino, ao contrário do que poderia ser esperado, Vítor Frade declarou no congresso acreditar que o pensamento analítico e redutor estará mais presente no Futebol do que nunca. A propaganda à medicina, à fisiologia, à nutrição, ao ginásio, à estatística, etc., vai ganhando terreno no jogo. Na verdade, a frase de José Mourinho “quando ganhamos, ganhamos todos… e mais alguns” nunca fez tanto sentido. Perante o sucesso todas estas “partes” e “compartimentos” que foram surgindo no Futebol reclamam para si o mérito. No insucesso, cai sobre o treinador toda a responsabilidade. Recordamos, por exemplo, o recente caso de Claudio Ranieri no Leicester City. Mara Vieira também vai ao encontro desta ideia, defendendo que “as coisas têm de estar enquadradas, senão a certa altura o departamento médico faz o que quer, o nutricionista também, o psicólogo também e depois o processo é de quem? Assim não há um processo único, há bocadinhos”.

“Uma investigação cuidada sobre o fenómeno da “INTERACÇÃO” exige um estudo “desta-em-si” (ou seja, do processo) e não da acção dos jogadores sobre os conteúdos nem dos conteúdos sobre os jogadores.”

Vítor Frade, 1990

O legado de Vítor Frade é grandioso, contudo difícil de compreender. O próprio reconhece, em entrevista a Xavier Tamarit, 2013, que “devemos compreender que estamos colonizados por uma lógica comum, por uns reforçadores culturais que nos influenciam conscientemente e, o que é pior, subconscientemente”. Assim, arriscamos que, levará, no mínimo, mais algumas décadas a compreender a essência da Periodização Táctica. Carlos Carvalhal em entrevista a (Cabral, 2017) concorda, referindo que Vítor Frade “é uma pessoa que pensa diferente, que é muito avançada no tempo. Acho que o devido valor só lhe será dado daqui a 20 ou 30 anos, só aí é que as pessoas o vão entender”. O impacto que este congresso teve em muitas pessoas, reforça essa crença. Ferrán Sarsanedas, a propósito de Johan Cruyff terá dito que “Cruyff é um génio, não há quem saiba mais de futebol que ele. O problema é que já não tem com quem discutir o que criou. Está tão à frente que vive há demasiado tempo num mundo só dele, como os loucos”. Podemos afirmar que Vítor Frade, não só na dimensão metodológica, mas também no entendimento do jogo, terá também atingido um patamar semelhante.

“Em primeiro lugar temos que entender o fenómeno como complexo, e se o é, jamais poderá deixar de ser complexo o modo como intervimos, reflectimos e actuamos sobre ele. (…) Há que estar perante esta realidade, reconhecendo-a como não linear e assim todo o pensamento tem de ter esta base, não linear.”

Vítor Frade em entrevista a Xavier Tamarit, 2013

“A Periodização Táctica procura o “regresso” do homem à sua essência. À sua complexidade.”

 José Tavares, 2017 – I Congresso Internacional de Periodização Táctica

A ruptura epistemológica

Sub-tema de História do treino de Futebol, e na continuação da Periodização Física no Futebol, publicamos A ruptura epistemológica. Referimos que apesar da adição de algumas citações mais recentes, grande parte destes textos sobre a história do treino do futebol foram redigidos há alguns anos. No entanto, na nossa opinião, continuam actuais, e um tema que não está claro para muitas pessoas.

Estrutura actual de Saber Sobre o Saber Treinar.

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