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A importância da inclusão das bolas paradas nos quatro momentos do jogo

Como identificámos no artigo de 2017, no qual apresentávamos a nossa proposta de sistematização do jogo de Futebol, alguns autores e treinadores defendiam que as bolas paradas pertenceriam a um quinto momento do jogo. Naquele momento, a propósito do momento de Organização Ofensiva, escrevemos:

“Devemos referir que compreendemos as opiniões que distinguem as situações de bola parada como um quinto momento do jogo, porém a nossa interpretação é que, independentemente do jogo estar parado ou em movimento, se uma equipa está organizada para defender essas situações e a outra para atacar, então estarão dentro da sua Organização Defensiva e Organização Ofensiva, respectivamente.”

Assim, ao invés, se o adversário ainda não se encontra organizado para defender, a situação ainda pode ser explorada em Transição Ofensiva e deste modo, algumas situações de bola parada como lançamentos laterais, livres, cantos e até pontapés de baliza devem estar integrados neste momento do jogo. De forma a explorar tal possibilidade eficazmente, importa identificar se o adversário já recuperou uma organização defensiva que torne difícil a exploração do contra-a e nesse cenário será mais sensato que a equipa que ataca também recupere a sua organização ofensiva e que entre nesse momento do jogo.

Ainda que teórica, a exclusão destas situações dos quatro momentos do jogo, pode induzir a falsa ideia que as mesmas carecem de completa reorganização da equipa que delas beneficia. Dessa forma, podem-se perder oportunidades ofensivas de potencial vantagem. E naturalmente isto tem implicações no conhecimento do jogo dos jogadores e no treino que se aspira de… qualidade. Mas para tal, torna-se fundamental o supra-princípio da Especificidade. A exercitação de uma situação de bola parada, partindo sempre dos momentos de organização das duas equipas, não criará propensão e oportunidade para que os jogadores leiam, identifiquem e decidam quando, através da mesma, podem manter-se ou iniciar o sub-momento de contra-ataque. Assim, para atém de situações aquisitivas, quer no treino, quer por meios audio-visuais, importa também recriar a máxima especificidade possível no treino e isso implicará os momentos de reorganização das duas equipas.

Finalmente, também para a análise de jogo e estratégica torna-se fundamental a contemplação das situações de bola parada nos quatro momentos do jogo. Não será importante perceber se a equipa sofreu golos em pontapés de baliza, lançamentos laterais, livres e cantos quando ainda não estava organizada para as defender? E porquê? Como o inverso. Se está a aproveitar os momentos de desorganização do adversário nessas situações? Por outro lado, se o próximo adversário apresenta essa perspicácia no seu jogo, ou principalmente, se é rápido e eficaz, neste âmbito, a se reorganizar defensivamente?

Ilustramos o que defendemos com três situações de diferentes bolas paradas em momentos de transição. Uma delas, inclusivamente no decorrer de um pontapé de baliza.

Início de trabalho numa nova equipa

Publicamos um novo sub-tema na área Metodologia.No âmbito do planeamento abordamos o Início de trabalho numa nova equipa.

“não é a mesma coisa treinar uma equipa que ganhou tudo na ultima época e treinar outra que não ganhou nada, porque para um treinador que chega numa equipa que ganhou tudo jogando de determinada forma, porque é que os jogadores irão querer seguir por um caminho diferente com outro treinador? Porque é que o Del Neri se foi embora quando veio para o FC Porto?! Tinha estado cá o Mourinho, tinham ganho tudo, campeões europeus e não sei quê, e eram os mesmos jogadores e então eles próprios… cá está, o modelo de jogo é tudo… eles estavam contrariados e «rejeitavam» e por isso nem começou o campeonato. Eles até tiravam os paralelepípedos das rampas com a quantidade de repetições que faziam! E os jogadores entre eles diziam assim, “então, nós ganhamos tudo e não precisámos de andar a fazer isto, nunca fomos para ginásios, era só bola, que é aquilo que a gente gosta e éramos melhores que os outros e ganhámos, e agora vamos ter que fazer estas merdas?! É evidente que estava tudo com cara de azedo até que a coisa partiu e o presidente teve que mandar o homem embora. E ele não tem prestigio?! Não tem curriculum? Não tem feito coisas?! Agora se calhar, tendo em conta uma questão que você me colocou, chegou aqui e «qual é esta cultura, alto lá que eu aqui se calhar com estes gajos… então como é e se calhar até sou eu que estou enganado ou se calhar, não, vamos «conflituar»… Percebe?!”

Vítor Frade, em entrevista a (Xavier Tamarit 2013)

“A melhor coisa que aprendi contigo foi não pedir a jogadores coisas que não conseguem mas adaptar-me para tirar o melhor rendimento deles.”

“Como treinador, necessito encontrar e saber pressionar a “tecla” exata para que essa ordem tática sem a bola se transforme numa “desordem organizada” com a bola e o jogador tenha liberdade, capacidade de tomar decisões e improvisação, assuma riscos, invente e seja criativo para desenvolver assim todo o seu potencial. Se o sistema tático te tira criatividade, não serve.”

Ricardo Zielinski citado por (Gérman Castaños, 2018)

O superpoder de Viktor Gyökeres

O paradigma de Matveyev

Publicamos um novo tema na área Metodologia, sub-tema Metodologia geral do Treino, sub-sub-tema História do treino do futebol. Abordamos o capítulo O paradigma de Matveyev.

“Foram 400 anos de pensamento analítico ou cartesiano.”

(Vítor Frade, 2017)

“é um dia menos contínuo do que irá ser no dia seguinte, portanto, é um dia onde tu fraccionas e tens bastantes períodos de exercitação e de recuperação.”

Complicado, difícil e complexo. O exemplo das progressões do exercício B-3OD2A-1.

“a riqueza do Futebol é essa, na mesma proporção da complexidade que o constitui. Por isso é que ouvimos quem diga que o Futebol é simples, outros acham que é complicado mas os melhores dizem que é um fenómeno complexo. Porque reconhecem os problemas, sabem de MILHARES de formas para os resolver (de forma abstracta) mas também sabem que resolvê-los da forma ideal exige conhecimento, dedicação, precisão e inteligência”.

(Marisa Gomes, 2011)

Trata-se de uma confusão recorrente. Algo mais complexo não se torna obrigatoriamente mais complicado e difícil. Até porque algo “determinado” como complicado e / ou difícil, assim o é relativo ao conhecimento e interpretação do(s) observador(es). Por outro lado, apesar de também ser possível classificar complexidade à luz do conhecimento de cada indivíduo, esta também poderá ser entendida tendo em conta a forma como o universo está organizado, obviamente, algo que vai muito além do domínio e conhecimento do ser humano. Apesar de importante para a compreensão do todo, não é no significado lato de complexidade que se foca esta reflexão. O objectivo é algo muito mais específico, porém, também altamente complexo. O treino do Futebol.

“Quando os cientistas falam em sistemas complexos tal não significa que os sistemas são complicados na sua maneira formal. O termo “sistema complexo” foi adotado como um termo técnico específico, para definir os sistemas que têm tipicamente um grande número de peças ou componentes pequenos que interagem com as peças e os componentes próximos e similares. Estas interações locais conduzem frequentemente ao sistema que se organiza sem nenhum controlo hierárquico ou agente externo. Tais sistemas são entendidos como auto-organizantes, dinâmicos em constante mudança, não se afirmam como sistemas estáveis e equilibrados.”

(Vera Bighetti, 2008)

De forma a distinguirmos estes conceitos trazemos o exemplo do exercício B-3OD2A-1 do Programa de Treino. Não abordando a fundo a sua organização geral e reguladores de complexidade (tempo, espaço, número, regras, organização táctica), temos então o exercício na sua forma primária. Importa, no entanto, explicar que o próprio contém, durante a sua execução, uma regra progressiva automática ao nível do número de adversários em oposição à medida que a equipa atacante pontua. Esta regra estará presente nas 4 progressões gerais que o exercício propõe e são essas que vamos analisar. Mas trata-se de uma regra e não de uma progressão do exercício.

Na sua forma primária (também podemos chamar primeira progressão), o exercício estipula que para uma equipa pontuar, tem de realizar 10 passes no seu meio-campo. Nesse momento, apenas esse objectivo regulamentar permite às equipas obterem vantagem e estarem a vencer no exercício. Na segunda progressão já acrescenta uma regra. As equipas têm na mesma que realizar 10 passes, porém, pelo menos um deles tem de ser realizado no meio-campo adversário. 

Ora aqui começa o tema que pretendemos abordar. Mais uma regra, torna obrigatoriamente o exercício mais complexo. Mais varáveis, potencialmente mais acontecimentos a poderem suceder, mais coisas a analisar e assim maior complexidade na percepção, análise e decisão. E nesse momento, o exercício também se torna mais complicado na forma de pontuar para quem ataca, pois implica grande critério sobre o momento do passe no meio-campo adversário, possivelmente obrigando a equipa a atrair o adversário a determinada zona para depois explorar outra. Mas sendo um exercício de objectivo de Organização Defensiva, a nova regra torna também mais complicada a missão de quem defende. Esta obriga a equipa a ser mais criteriosa em quando e como pressionar de forma a não partir o seu bloco e permitir espaços atrás da primeira e segunda linha de pressão que têm que ser explorados pelo adversário.

A partir da terceira progressão, dada a introdução de novas regras, a complexidade continua a crescer, porém o mesmo não sucede de forma linear, para quem ataca e quem defende, com a dificuldade. Na terceira progressão, a equipa que defende e procura recuperar a bola tem uma segunda opção para pontuar, e que até acaba por ser mais valorizada: marcar golo na baliza adversária, o que potencia a articulação da Organização Defensiva com a Transição Ofensiva, nomeadamente ao nível da decisão sobre o Contra-ataque ou Valorização da posse de bola. Desde modo, como o exercício apresenta mais decisões a tomar e situações a resolver, cresce então em complexidade. Contudo, aumentam as formas de pontuar e obter vantagem passa a ser potencialmente mais fácil, o que também estimula ainda mais o objectivo do exercício: a Organização Defensiva e a recuperação da bola. Por outro lado, a equipa que se encontra em posse de bola no seu meio-campo passa a ter outras preocupações com a perda da bola, pois a Transição Ofensiva adversária passa a ser mais difícil de contrariar.

A quarta progressão traz uma terceira opção para pontuar, de ainda maior valorização pontual: a equipa em Organização Ofensiva em posse de bola no seu meio-campo, pode agora invadir o meio-campo adversário e finalizar nessa baliza. Uma vez mais… maior complexidade de escolhas, de variáveis, de acontecimentos que podem ocorrer. Mais hipóteses de pontuar e de maior valorização, situação potencialmente mais fácil para quem ataca. Porém, para o grande objectivo do exercício, torna-se cada vez mais difícil defender o que potenciará critério, inteligência, entrosamento, coesão, timing, entre outras qualidades fundamentais para equipa que procura recuperar a bola.

Portanto, ao fazer crescer a complexidade pretende-se a aproximação ao todo complexo que é o jogo de futebol, o que no fundo se torna o objectivo do treino do… jogo de futebol. 

“(a Periodização Táctica) aparece para permitir tratar fenómenos apercebidos complexos (jogo), ou seja, fenómenos que “a priori” se considera não poderem conhecer-se por decomposição analítica (Le Moigne, 1994). Esta desenvolveu-se precisamente para permitir uma passagem reflectida do complicado ao complexo, da previsibilidade certa à força de muito cálculo à imprevisibilidade essencial e todavia inteligível. É necessário uma modelização (periodização) que revele suficientemente a inteligibilidade dos fenómenos para que possa permitir a deliberação raciocinada, a invenção e a avaliação dos seus projectos de acção (Le Moigne, 1994)”.

(Carlos Carvalhal, 2002)

Exercício e contra-exercício

“escolher o jogo reduzido é um acto complexo, desafiador, onde o escolher e não escolher, tem igual peso na resultante da resposta do futebolista e onde os efeitos podem ser claramente diferentes para os distintos futebolistas envoltos no jogo.”

(Filipe Clemente, 2022)

O exercício, tal como o seu propósito, o próprio jogo, emanam uma incrível complexidade. Essa é provavelmente uma das razões do imenso fascínio e desafio que provoca a quem o planeia e operacionaliza.

Um dos reflexos que essa complexidade gera está na outra “face” do exercício. O contra-exercício. Esta é a denominação com que nos referimos, num exercício competitivo, ao(s) jogador(es) que estão na oposição ao(s) outro(s) que estão dentro do objectivo proposto. Dando um exemplo simples, propomos um jogo reduzido de GR+2×2+GR, de objectivos ofensivos de Organização Ofensiva + Transição Defensiva, mais especificamente de progressão, penetração, cobertura ofensiva e mobilidade. Articulando isso com a Reacção à perda da bola da Transição Defensiva como segundo objectivo. Então, para lhes garantir propensão e estímulo a estes objectivos, propomos que sempre que a equipa marque golo, reinicie a situação com bola. Neste contexto, a equipa que está na oposição à que está a jogar nos objectivos do exercício, referimos que está no contra-exercício. Neste exemplo, essa equipa estará, por exemplo, na Organização Defensiva e Transição Ofensiva, especificamente na contenção, cobertura defensiva, Reação ao ganho da bola e decisões posteriores de transição.

Parece algo simples porque também trazemos um exemplo mais simples. Simples do ponto de vista da percepção sobre o exercício e objectivos, mas complexo do ponto de vista comportamental. Contudo, em exercícios de maior número de jogadores, eventualmente maior espaço e principalmente, com mais regras, nem sempre se torna fácil a sua análise, planeamento e operacionalização. Até porque a manipulação do jogo em função de objectivos para determinado exercício promove a perda ou deterioração de outros comportamentos. Manipular o jogo tem este efeito, por isso torna-se fundamental perceber e antecipar o que se promove e o que se prejudica. 

Noutro exemplo, temos uma situação similar à anterior. Mas agora de GR+2(+1)x2+Gr, ou seja, adicionamos um apoio interior que joga sempre pela equipa que ataca. Nesta função específica colocamos um médio-centro para que tenha propensão em comportamentos de apoio, cobertura ofensiva, mobilidade e passe, pródigos para um jogador nesta função. Porém, sendo apoio de quem ataca, fica portanto castrado dos comportamentos de Transição e Organização Defensiva, algo igualmente fundamental nessa função. Terá que ser o treinador a definir e priorizar o que será mais importante naquele momento, mas não pode ignorar que estará a degradar esses comportamentos àquele jogador. Desse modo, torna-se fundamental que os promova noutros momentos.

Por outro lado, esta complexidade também traz outra riqueza ao exercício. Se teremos uma equipa dentro dos objectivos propostos, a oposição estará eventualmente em objectivos antagónicos. Assim, identifá-los e dar-lhes relevância durante o exercício, enriquecerá o mesmo do ponto de vista aquisitivo. Uma solução para tal passa por definir um dos treinadores para acompanhar essa equipa que estará em oposição à que estará mais tempo nos objectivos do exercício, ou seja, a que está no contra-exercício. Deste modo, garantindo-lhe apoio, feedback e relevância. Em exercícios nos quais, dadas as regras dos mesmos, as equipas repartem a propensão em exercício e contra-exercício, caberá ao treinador definir se nos papéis dos treinadores responsáveis por cada equipa se torna importante o feedback a objectivos secundários.

A especificidade e a Especificidade do Programa de Treino

Flexibilidade e adaptabilidade do Programa de Treino

“Os exercícios apenas são potencialmente específicos”

Guilherme Oliveira, citado por (Esteves, 2010)

Continuamos a explorar o Programa de Treino que temos vindo a desenvolver, aprofundando a flexibilidade do mesmo.

Sublinhamos que o Programa não é dirigido a nenhuma Ideia de Jogo Específica. Porém, será ele exequível para todas as Ideias? Essa foi uma das nossas preocupações e intenções, mas lançamos um verdadeiro desafio à criatividade. Será possível criar uma Ideia de Jogo que não seja operacionalizável desta forma? Caso afirmativo, por outro lado, será um óptimo tónico à evolução do trabalho realizado.

À imagem de um Microciclo ou Morfociclo padrão, no qual a preocupação seja transmitir uma Ideia de Jogo à equipa, enquadrando uma série pressupostos para que a “óptima” aquisição deva acontecer, por sua vez o Programa enquadra um ciclo mais alargado (quatro semanas), nas quais são abordadas todas as dimensões da Ideia de Jogo da equipa.

Se a Ideia de Jogo (o projecto do treinador) é o ponto de partida e o Modelo de Jogo (o jogar propriamente dito da equipa) o ponto de chegada, o Programa será um dos veículos, através dos quais podemos fazer esse trajecto. Cremos nós, e esse foi o principal objectivo na sua elaboração, com grande eficiência e eficácia.

No passado texto escrevemos o seguinte sobre o tema:

“Também procurámos que o Programa fosse, por um lado, suficientemente fechado para se conseguir um razoável controlo do processo de aquisição e repetição num plano macro, por outro, que também fosse suficientemente aberto para poder ser implementado com diferentes Ideias de Jogo, diferentes níveis competitivos e ainda diferentes escalões etários.”

Para tal, usámos a Sistematização do Jogo que desenvolvemos no passado, para definir diferentes escalas de actuação. Os momentos, os sub-momentos, os princípios, os sub-princípios e as acções individuais.

Relativamente aos momentos, temos uma sessão por semana direccionada para cada um deles. Quanto aos sub-momentos, procurámos dar maior volume aos que surgem mais vezes no jogo. Por exemplo, em relação à Transição Defensiva é facilmente perceptível que as equipas passam mais tempo na Reação à perda e menos na Defesa do contra-ataque, logo, será lógico dar maior propensão a um sub-momento que pode até evitar que a equipa não tenha que defender um contra-ataque adversário.

Em relação aos princípios, tratam-se de ideias comuns a todas as equipas. No mesmo enquadramento, Transição Defensiva, sub-momento de Reação à perda, damos o exemplo da “Pressão imediata na bola”. É algo que todas as equipas procuram. Se é para procurar recuperar imediatamente a bola ou apenas para conter, não permitindo o contra-ataque adversário e procurar garantir a reorganização defensiva da equipa, isso será território específico da Ideia de Jogo de cada treinador. Como exemplo de sub-princípio, “Referências de pressão”, ou seja, em que circunstâncias a equipa passa da contenção à pressão para recuperar a bola, ou se simplesmente não o faz nunca. Importa referir que os sub-princípios são comuns a diferentes princípios. O exemplo que acabámos de dar confere isso, pois “Referências de pressão” estará também presente noutros sub-momentos do jogo, nomeadamente nos de Organização Defensiva.

O mesmo sucede com as Acções Individuais. Neste caso, defensivas, e damos o exemplo da “Posição de base”, através da qual o defensor procura orientar-se, posicionar-se, adoptar determinada postura corporal, etc., para, da forma mais eficiente possível, passar da contenção à eventual pressão com objectivo de recuperar a bola.

Ora bem, nesta lógica, o Programa define o quando (momentos e sub-momentos do jogo) e o quê (princípios, sub-princípios e acções individuais). Contudo, não define o como e porquê, ficando esse domínio contemplado na Ideia de Jogo Específica de cada treinador.

Deste modo, o Programa também se torna ajustável a cada nível de jogo. Se, por exemplo, o nível é o da Etapa de Iniciação do Futebol de Formação, a Ideia (extremamente simples, reduzida, necessariamente aberta e ampla) e a intervenção do treinador deverão ter determinado carácter. O que não implica que não hajam conteúdos programados, tal como sucede nos programas nacionais do ensino básico. De uma forma geral, abordados de forma mais elementar e muitas vezes apenas usando um exercício / jogo simples como estímulo ao conteúdo desejado, e sem grande intervenção do treinador. Noutro exemplo, se o Programa é aplicado no Futebol de Rendimento Profissional, o detalhe, a exigência, o plano estratégico, etc., deverão estar contemplados através da Ideia de Jogo, conteúdos e da actuação do treinador em cada exercício. Mesmo que não haja intervenção do treinador no exercício. Isso deve ser deliberado e fruto de um pensamento estratégico e operativo naquele contexto específico. Não porque o nível de intervenção pressupõe isso.

Haverá sempre uma questão pertinente no nível de Rendimento. Se o Programa engloba quatro semanas, dado que uma não será suficiente para se atingir todas as dimensões do jogo da equipa na propensão desejada, então, atendendo à eventual necessidade de investimento na dimensão estratégica em função do próximo jogo, essa semana do Programa poderá não atingir em volume de forma satisfatória determinado sub-momento do jogo e / ou da forma desejada (espaço do campo onde determinados princípios se desejam trabalhar). Neste caso, a manipulação do exercício, nomeadamente na sua operacionalização, torna-se decisiva.

Não modificando conteúdos, ao longo da semana o treinador vai encontrar momentos e sub-momentos contrários aos objectivos estratégicos que persegue. Nesses momentos, pode usar o contra-exercício, ou seja, os objectivos inversos aos do Programa em determinado exercício para intervir e tornar-se o protagonista maior no foco e, possivelmente feedback, que pretende. Por exemplo, na semana C do Programa, no exercício C-3OO2B:

Os objectivos, sub-momentos da Organização Ofensiva, são a Criação e Finalização, e ainda com ligação à Reacção à perda na Transição Defensiva. O exercício é passado no meio-campo adversário.

Se, em função do próximo adversário, o treinador tem a preocupação de preparar determinado(s) princípio(s) da Organização Defensiva, sub-momento, Impedir a Criação em bloco médio ou baixo, poderá escolher este e eventualmente outro(s) exercício(s) para garantir essa intervenção. Nesta semana do programa, para além deste, surgem mais 5 exercícios em que pode atingir, ou no objectivo principal, ou no contra-exercício, este propósito. Assim, no enquadramento da equipa técnica e definição de tarefas no treino, poderá trocar o seu papel, inicialmente no objectivo principal, com outro treinador responsável pela equipa / grupo de jogadores que se encontram no objectivo inverso. Ou seja, trocar a sua intervenção para a equipa que, com maior propensão no exercício em causa, defende e transita ofensivamente no exercício. Deste modo, o programa não perde os objectivos iniciais e a estimulação sistemática de determinadas ideias. Simultaneamente o treinador encontra o espaço e o momento para dar mais ênfase a determinada preocupação e objectivo estratégico.

Estamos, e não nos cansamos de repetir, perante um processo altamente complexo. O Programa de Treino, torna-se para nós um caminho muito interessante para o treinador ter um satisfatório controlo sobre o jogo da sua equipa. No caso particular do Futebol de Rendimento, controlo sobre a dimensão da sua Ideia de Jogo e também sobre a dimensão estratégica.

“Treinar deve implicar

que a percepção cumpra sua função

não é a de memorizar, mas de percepcionar

a complexidade do jogo na complexificação.

Resultante…

De cada instante

duma e outra equipa na acção.”

(Vítor Frade, 2014)

Jorge Jesus

“Um treinador não é bom porque ganha. Ganha porque é bom.”
Pedro Bouças

https://www.facebook.com/SaberSobreOSaberTreinar/videos/2559447837618059/

“As pessoas riram-se muito quando Jesus disse que tinha inventado uma ciência, fartaram-se de rir disso, e é uma estupidez porque uma ciência é um corpo organizado de conhecimentos, e portanto o que o Jorge Jesus fez foi isso de facto. Ele tem, provavelmente até tomou apontamentos e armazenou, um conjunto sistematizado de conhecimentos sobre uma determinada matéria e que põe em prática com óptimos resultados, coisa que boa parte dos cientistas não se pode gabar.”

Ricardo Araújo Pereira

Se a vitória, também for, a consequência do trabalho de um treinador, então a vitória também pode ser a celebração da qualidade do mesmo. Recuperamos alguns textos e frases sobre Jorge Jesus:

“Reforçamos que este espaço não procura avaliar competências, sejam elas individuais ou colectivas, mas consolidar e construir conhecimento. Inevitavelmente que para isso procuramos compreender como os melhores jogam ou trabalham. Ser melhor será para muitos, relativo, pois dependerá do conhecimento e perspectiva com que se analisa. No entanto, quando se trabalha melhor, está-se sempre mais próximo do rendimento. Sendo o Futebol um jogo, o rendimento, portanto, vencer, será sempre o destino. Aqui, uma vez mais, procuramos o(s) caminho(s) para atingir esse destino.

Jorge Jesus é um bom exemplo para nós, principalmente pelas suas ideias e consequente desempenho das suas equipas, mas também porque já passou por diferentes clubes. No passado, trabalhando noutro clube, trouxemos uma sua palestra na Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa sobre as suas ideias e trabalho. Pareceu-nos pertinente, pelas ideias, mas também pela contínua qualidade do seu trabalho, agora noutro clube, trazer algumas declarações em entrevistas recentes.”

Jornalista: Tem noção também que tudo isto é um pouco contingente até aquele minuto 92. Se calhar o desfecho da história era diferente. Ou seja todo um trabalho bem feito poderia ter ido por água abaixo?

Vítor Pereira: Mas o trabalho estava lá. O que é que isso mudaria? Mudaria o titulo, mas o trabalho estava lá.”

(Vítor Pereira, 2014)

“Não há um bom treinador sem bons jogadores e não há uma boa equipa sem um bom treinador.”

(Jorge Jesus, 2015)

“Os treinadores portugueses, são actualmente os melhores treinadores do mundo, são os que têm mais conhecimento em todas as áreas que definem o crescimento de uma equipa de Futebol, e portanto se tiveres a possibilidade de trabalhar numa equipa que tem condições financeiras para teres isto tudo, eles têm muito mais facilidade de ganhar esses títulos que qualquer outro treinador do mundo. Tirando o Pep Guardiola porque também penso que é um pouco parecido com os treinadores portugueses”.

(Jorge Jesus, 2015)

“Óbvio que ganhar títulos é importante, mas não é tudo. O que me interessa é que, a certa altura, os meus jogadores me digam: “Treinador, você ajudou-nos e tornou-nos melhores jogadores. Aprendemos muito consigo””

(Guardiola, 2013)

Deixamos de novo a palestra de Jorge Jesus na Faculdade de Motricidade Humana, em 2013.

“Mais vale dizer coisas certas com as palavras erradas do que que dizer coisas erradas com as palavras certas”.

(Manuel Sérgio, 2013)

Metodologia geral do treino [Subscrição Anual]

Publicamos o tema Metodologia geral do treino.

O tema “Metodologia geral do treino” encontra-se enquadrado em:

Por outro lado este tema será constituído pelos seguintes capítulos:

  1. A ciência do Treino
  2. Metodologia
  3. Treino
  4. O principal meio de desenvolvimento da equipa

Deixamos alguns excertos do tema “Metodologia geral do treino“:

“(…) e como as pessoas passam pela Teoria e Metodologia do Treino, que é um cadeirão do caraças, mas decoram aquela merda e não sabem nada, depois como cada vez mais vão tendo menos tempo para a cadeira de opção, é só o «Modelo de Jogo para aqui, exercícios para acolá… Bioquímica e o caraças». 0 que é isso? Talvez seja merda… e só alguns é que se interessam pelo fundamental, os outros nunca sequer vêem…”

Vítor Frade em entrevista a (Tamarit, 2013)

(…)

O autor (Cândido, 2012), aponta que “Verjoshanski (2001) elucida que a enorme experiência prática acumulada na preparação dos atletas de alto nível, os progressos científicos da fisiologia e da bioquímica da atividade muscular, da medicina desportiva, da biomecânica dos movimentos desportivos e de alguns estudos fundamentais sobre a metodologia de treino desportivo têm criado pressupostos objetivos para a formação de uma moderna teoria e metodologia do treino desportiva e das suas principais bases científicas“. De acordo com (Cunha, 2016), “ainda que treino e competição se possam conceber como âmbitos distintos, as grandes questões da teoria e metodologia do treino desportivo procuram tratar os seus efeitos recíprocos”. Paralelamente, (Almeida, 2009) acrescenta que naturalmente, nas modalidades como os JDC, o tipo de periodização não é idêntico ao comumente observado nos desportos individuais. A teoria e a metodologia do treino têm evoluído no sentido de dar resposta às necessidades, cada vez mais específicas e exigentes, do desporto de alto rendimento, designadamente no caso das modalidades colectivas“.

(…)

Vítor Frade, em entrevista a (Tamarit, 2013), dada a sua experiência como professor e treinador e perante as questões com as quais se via confrontado, relata que “enquanto é geral… porque Teoria e Metodologia do Treino era geral, era para tudo, mas quando começo a estar no terreno, eu começo a dizer, «não, isto não pode ser», não pode ser pelo menos para o futebol“. Neste sentido o autor (Cândido, 2012) sustenta que “dentro desta linha de evolução da metodologia do treino, Garganta e Cunha (2000) entendem que o problema essencial diz respeito às configurações tácticas que induzem determinados comportamentos, ou seja, a complexidade, “um princípio transacional que faz com que não nos possamos deter apenas num dos níveis do sistema, sem ter em conta as articulações que ligam os diversos níveis””. Os autores (Casarin & Esteves, 2010) fundamentam o pensamento, explicando que “a especificidade-tática, distingue-se da especificidade que a metodologia do treino convencional desenvolveu”. Novamente (Cândido, 2012), descreve que “tenta-se verificar, através da seleção de conteúdos que identificam o jogo que se pretende, em que medida aquilo que queremos que apareça como representativo da forma de jogar surja de facto em termos de regularidade. A teoria de Frade suscitou um interesse tal que fez surgir um bom número de autores (Oliveira, 1991; Vieira, 1993; Faria, 1999; Carvalhal, 2002; Rocha, 2000, Resende, 2002; Martins, 2003; Oliveira, 2004; Gaiteiro, 2006; Oliveira, et al., 2006; Campos, 2008; Silva, M., 2008; Maciel, 2008), com trabalhos nos quais se constata uma certa aproximação a algumas das suas premissas e fundamentos, desenvolvendo e cimentando a sua importância dentro da comunidade científica da metodologia do treino do futebol e dos jogos desportivos, em geral”.

(…)

No Futebol, tal como noutras actividades, enraizou-se o pensamento que a mestria no jogo está apenas ao alcance dos predestinados, ou seja daqueles que nasceram com um dom para decidir e executar o jogo melhor que os outros. O autor (Pinheiro, 2013) refere que “Araújo (2004) refere que o conceito de talento tem servido para justificar tudo o que não se sabe explicar e está relacionado com o desempenho dos atletas”. Ainda, (Pinheiro, 2013) descreve que “a corroborar este pensamento, estão as palavras de Fonseca e Garganta (2006), ao afirmarem que “a existência, ou não, de um talento inato é uma questão controversa”. De facto, existem os defensores da ideia de que os grandes jogadores de futebol nascem já com um “Dom especial” que os predispõe para a prática desportiva, enquanto que do outro lado da “barricada”, estão os que defendem que o talento inato, só assume especial relevância, quando consubstanciado numa prática regular que inculque novos comportamentos e atitudes nos jovens”. Sem refutar o talento inerente às características genéticas do indivíduo em função das características do jogo de Futebol, até porque todos os seres humanos são diferentes entre si, para nós, uma criança não nasce com um saber jogar Futebol. O Futebol não é transmitido geneticamente. O Futebol é uma construção cultural humana e como tal não é anterior à própria existência do homem. Desta forma, não estará escrito no nosso código genético. Na realidade, a manifestação das nossas diferenças resulta do facto de possuirmos uma genética única, que se concretiza em diferenças morfológicas, energéticas e do sistema nervoso, que se consubstanciam em aptidões, que poderão ser rentabilizadas em utilizações culturais muito diferentes. Ou seja, o contacto cultural com determinada actividade, neste caso o jogo de Futebol é que irá levar ao desenvolvimento de uma qualidade de prática nessa mesma actividade. Antes desse momento, cada indivíduo apenas apresenta aptidão. Assim, as aptidões, são estruturas latentes que predispõem os indivíduos para determinadas actividades, que poderão ter aproveitamento ou não em diferentes contextos culturais. Deste modo, só a influência do meio, portanto, o contacto cultural e repetição dessa prática – treino, quer seja um processo consciente e planeado ou não consciente e espontâneo, é que irão transformar as aptidões em talento e qualidades. Esta ideia é reforçada por (Sérgio, 2016) que cita o livro A Biologia da Crença de Bruce H. Lipton, professor de biologia celular em várias universidades norte-americanas ao explicar que “a ciência da epigenética, que significa literalmente “controle sobre os genes”, altera profundamente o nosso entendimento de como a vida é controlada (…). Na última década, a investigação nesta área estabeleceu que os diagramas de ADN, passados através dos genes, não eram definidos em concreto à nascença. Os genes não são o destino! As influências ambientais, incluindo a nutrição, o stress, e as emoções podem modificar esses genes, sem alterar o seu diagrama básico””. Manuel Sérgio conclui que em todo o atleta, como em todo o ser humano, há o inato e o adquirido. Segundo a epigenética, o adquirido pode transformar, e muito, o inato”.

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Segundo (Gomes, 2011), “a palavra Treinador contém implícito o conceito de treinar e por razões lógicas, de treinar para competir. Assim, vemos vários treinadores com metodologias diferentes, em virtude dos caminhos que seguem. Deste modo, conseguimos distinguir a capacidade do treinador na sua forma de estar no jogo, nas conferências, no treinar, na interpretação do que acontece e na antevisão do que poderá acontecer. Traçamos um perfil ao qual associamos uma forma de gerir o processo. No entanto, temos que reconhecer que ser treinador IMPLICA SABER TREINAR! E treinar é modelar uma realidade na qual se encontra, procurando SOBREdeterminar os acontecimentos da competição”. Para a autora, “o treinador é uma figura que MODELA a realidade. O que tem levado a que muitos treinadores procurem conhecimentos para poderem ter INSTRUMENTOS para DIRECCIONAR a evolução da realidade para o que pretendem. A ferramenta FUNDAMENTAL do treinador é o processo porque pode interferir no seu desenvolvimento. Os mais competentes (como os referidos) conseguem fazer com que determinados acontecimentos culminem noutros. A arte para conseguir fazer acontecer é apenas para os melhores porque são MILHARES os treinadores que SABEM como querem fazer, como os jogadores devem jogar, como a equipa se deve comportar mas…ISSO NÃO ACONTECE! A capacidade reside em FAZER ACONTECER!! Por isso é que o PROCESSO é o instrumento decisivo!

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