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Gianluca Prestianni. Potencial e Rendimento.

“Como reconhecer o potencial naquilo que parece comum? No fundo, trata-se de um problema de previsão: que aspecto tem o potencial que ainda não encontrou expressão?”

(Rasmus Ankersen, 2012)

O potencial projecta-se. O rendimento manifesta-se. Um vive no futuro possível; o outro joga-se no presente concreto.

Dizer que um jovem «tem potencial» não é apenas descrevê-lo. É fazer uma previsão. Os autores (Stratton, Reilly, Williams e Richardson, 2004) estabelecem uma distinção fundamental: o potencial existe enquanto possibilidade, ao passo que apenas o rendimento actual pode ser observado, medido e validado. Contudo, num jogo colectivo, até esse rendimento é complexo por ser inseparável da equipa, do adversário e do contexto que o permite — ou condiciona. Portanto, quantidades, números ou outras métricas puramente analíticas são extremamente curtas para o avaliar. Melhor, para os avaliar. Rendimento e potencial.

Rendimento é jogar bem… agora. Portanto não se reduz a marcar golos, fazer assistências ou «grandes defesas». É perceber, decidir e executar no tempo que o jogo concede; relacionar-se com os companheiros, com uma ideia colectiva e com os problemas colocados pelo adversário; transformar recursos individuais em utilidade para a equipa.

É, no fundo, aproximar-se do trinómio Estética-Eficácia-Eficiência de Vítor Frade. Não uma estética ornamental, desligada de ganhar, mas a «beleza» de um jogar eficiente que sustenta a eficácia.

Um jogador pode marcar e ter jogado mal. Pode não marcar e ter sido determinante. Uma vez mais, os números não definem o rendimento, embora deixem marcas daquilo que foi produzido.

Já o potencial é diferente. O autor (Rasmus Ankersen, 2012) alerta para aquilo a que chama «cegueira do rendimento»: a tendência para assumir que um rendimento elevado no presente significa necessariamente elevado potencial e que um rendimento apenas mediano denuncia possibilidades limitadas. Por vezes, o potencial ainda não encontrou forma de se expressar.

As qualidades que o indiciam tendem a ser mais raras e menos adquiríveis no imediato. Por exemplo, uma relação invulgar com a bola, qualidade no um contra um e no drible, coordenação, velocidade, dissimulação das intenções, criatividade, capacidade para enganar o adversário, pensamento divergente ou determinadas características mentais e motoras.

Portanto, aquilo que se observa são qualidades. Aquilo que se projecta é potencial. Não é, porém, um depósito fixo, escondido no interior do jogador. O autor (David Shenk, 2010) apresenta o talento como um processo de desenvolvimento resultante da interacção contínua entre características individuais, experiências e envolvimento. Paralelamente, (David Epstein, 2013) reforça que natureza e educação não constituem explicações concorrentes, mas estão permanentemente entrelaçadas na produção do desempenho. Já (Anders Ericsson e Robert Pool, 2015) vão ainda mais longe, referindo que aprender não significa apenas alcançar um potencial previamente estabelecido. Significa também desenvolvê-lo, construindo qualidades que antes não existiam.

Nesta linha de pensamento, o potencial não é apenas aquilo que o jogador poderá revelar. É também aquilo que poderá construir.

O pedagogo britânico (Ken Robinson, 2011) define a criatividade como o processo de desenvolver ideias originais que tenham valor. Também no Futebol não basta fazer diferente. É necessário que o diferente produza algo a seu favor no jogo. Os autores (Wormhoudt, Savelsbergh, Teunissen e Davids, 2018) distinguem a capacidade divergente de encontrar várias soluções da capacidade convergente de escolher a mais adequada. Há aqui um paradoxo aparente, pois quanto mais possibilidades um jogador consegue imaginar, mais rapidamente terá de excluir quase todas… para executar apenas uma.

O potencial permite ver aquilo que outros não vêem. O rendimento exige escolher, no instante certo, aquilo que serve o jogo.

O argentino Gianluca Prestianni constitui um exemplo particularmente interessante neste domínio. Estreou-se na equipa principal do Vélez Sarsfield a 24 de Maio de 2022, com apenas 16 anos e menos de quatro meses, tornando-se o jogador mais jovem da história profissional do clube. Antes de chegar ao Benfica, já figurava entre os jovens mais promissores da sua geração.

A velocidade de execução, o drible, a agilidade, a criatividade e a capacidade para provocar desequilíbrios no um contra um eram evidentes. E já apresentava rendimento jogando no futebol sénior argentino quando muitos jogadores da sua idade ainda competiam exclusivamente na formação.

Mas potencial e incompletude podem coexistir. Quando chegou ao Benfica, precisamente no dia em que completou 18 anos, mudou o país, o campeonato, o contexto competitivo, a equipa, os companheiros, a ideia de jogo, a pressão e os problemas que precisava de resolver. A bola era a mesma. O jogador também. Mas o jogo já não era.

Passou pela equipa B do Benfica e, nas primeiras aparições na equipa principal, as qualidades surgiam sobretudo em lampejos. Apareciam decisões inadequadas, perdas de bola, pouca criação e reduzida influência na finalização. Chegou-se a noticiar a sua cedência.

Contudo, o potencial não tinha desaparecido. Ele não desaparece. Caso contrário estamos perante um erro de avaliação. O potencial, por diversas razões, pode é nunca vir a ser concretizado.

Prestianni, como tantos outros jogadores de elevado potencial, ainda não se expressava com regularidade e funcionalidade no seu novo contexto.

O professor Júlio Garganta concorda com a ideia ao defender que o talento é contextual, actualizável e transitório. Por outro lado, (Bruno Pereira, 2018) acrescenta que o jogador necessita de confirmar as suas qualidades no contexto profissional e que o processo de formação não termina quando chega ao futebol sénior. A subida de nível obriga-o a adaptar-se, a reconstruir relações e a continuar a aprender. Porque o rendimento não está apenas dentro do jogador. Emerge da relação entre jogador e contexto. Curiosamente à imagem da Ideia e do Modelo de Jogo. Neste sentido, o potencial não deixa de ser uma Ideia que se tem de um jogador.

Ná época 2025/26, Prestianni apresentou maior continuidade e influência no jogo. No início de 2026/27, o crescimento transformou-se numa explosão do seu rendimento: à data de 13 de Setembro, somava oito golos em dez jogos oficiais. Na Liga Europa marcou três vezes em quatro jogos e voltou a marcar na sexta jornada da Liga Portuguesa.

Os números não explicam tudo. Mas ajudam a perceber que aquilo que antes surgia episodicamente passou a produzir consequências com maior frequência. Não nasceu outro jogador. O mesmo jogador começou a organizar melhor as suas possibilidades, a decidir melhor e isso trouxe-lhe uma melhor condição emocional.

Analisando de fora, não podemos distribuir com exactidão a responsabilidade entre treino, experiência competitiva, conhecimento do jogo, confiança, maturação, entrosamento com os companheiros ou clarificação da sua função. Podemos observar o resultado: as qualidades tornaram-se mais úteis para a equipa.

Ericsson e Pool relacionam ainda a evolução dos “experts” com a construção de representações mentais progressivamente mais ricas e eficientes. No Futebol, significa reconhecer melhor os problemas, antecipar possibilidades, distinguir informação relevante e encontrar soluções adequadas sob crescente pressão espacial, temporal e emocional.

O autor (Mário Fagundo, 2008), num estudo realizado com jovens futebolistas, encontrou uma associação entre maior tempo de prática deliberada e maior eficácia ofensiva e defensiva. Porém, não se trata simplesmente de acumular horas. Importa a representatividade das tarefas, o grau de desafio, a qualidade do feedback e a possibilidade de experimentar, reconhecer e corrigir.

Também o famoso autor de obras sobre o talento, (Daniel Coyle, 2009), destaca precisamente o valor dos «erros produtivos». São erros que não funcionam como sentenças sobre a capacidade do praticante, mas como informação para reorganizar o acto táctico. Já (Carol Dweck, 2017) mostra como uma mentalidade de crescimento permite interpretar a dificuldade e o insucesso transitório enquanto partes do processo e oportunidades, em vez de provas definitivas de falta de talento.

Optimizar um jogador não é retirar-lhe aquilo que o torna especial para o tornar seguro. É ajudá-lo a reconhecer o quê, quando, onde, como, porquê e com quem deve usar essa diferença. Um drible pode ser apenas um drible. Ou pode eliminar um adversário, atrair outro, libertar um companheiro, criar um espaço ou uma linha de passe e aproximar a equipa do golo.

A mesma qualidade pode gerar vantagem ou perda. O que muda é o conhecimento que a orienta.

É também aqui que surge a velocidade-força-resistência, outrora vistas como puras qualidades físicas, hoje porém, enquanto qualidades complexas. Complexas no jogo de futebol, deste modo, qualidades tácticas, ao serviço de uma projecção de potencial. Velocidade não só para executar, mas para perceber e decidir. Força não só para exercer supremacia físico-motora, mas para assumir, arriscar e competir. Resistência para durar do ponto de vista energético, mas também conservar concentração, agressividade, ambição e confiança perante o erro, a fadiga e a adversidade. Deste modo, para além das mais evidentes competências técnicas, criativas e motoras, há que ir mais longe na identificação de talento e potencial e procurar perceber a parte submersa do “iceberg” que é o homem que joga futebol.

No Futebol de Formação, a distinção entre potencial e rendimento torna-se ainda mais delicada. Um mais rápido desenvolvimento maturacional físico-morfológico ou mental-emocional pode garantir rendimento imediato. O jovem mais forte, mais rápido, mais confiante ou mais agressivo resolve problemas que os restantes ainda não conseguem resolver.

E por vezes, essa superioridade camufla a ausência de outras qualidades. Por exemplo porque, consegue ultrapassar, e não precisa de enganar. Porque consegue impor-se fisicamente, e não precisa de antecipar. Porque ganha facilmente, não é suficientemente perturbado para descobrir novas soluções. Rasmus Ankersen recorda que, durante a adolescência, jovens da mesma idade cronológica podem apresentar vários anos de diferença maturacional. Se avaliarmos apenas o que produzem naquele momento, corremos o risco de seleccionar vantagens maturacionais transitórias como se fossem demonstrações de elevado potencial. E muitas vezes não são. São antes demonstrações de elevado rendimento… pontual.

E a selecção produz novas diferenças. Como explica Júlio Garganta, os jogadores precocemente identificados recebem frequentemente melhores treinadores, companheiros, condições de treino e oportunidades competitivas. Uma vantagem maturacional inicial converte-se, assim, numa vantagem acumulada. Entretanto, os jogadores mais tardios podem ser excluídos antes de disporem de tempo e contexto para revelar as suas possibilidades.

Do mesmo modo, a variedade de experiências não deve ser confundida com atraso. O autor (David Epstein, 2019) mostra que muitos praticantes que posteriormente alcançam a excelência passaram, durante a infância, por períodos de exploração de diferentes actividades e formas de jogo. O português (Bruno Pires, 2009) encontra nos Jogos e Futebol de Rua precisamente essa diversidade: liberdade, criatividade, espontaneidade, diferentes espaços, pisos, bolas, adversários e problemas.

Portanto, o potencial também se constrói nessa variabilidade. O problema não está no jogador maturado render. Muitos deles até exibem outras qualidades para além das que a maturação lhes garantem. O problema está em confundirmos uma determinada vantagem momentânea com uma sentença sobre o futuro.

Também não devemos transformar o potencial numa explicação vaga, obscura e imune à realidade. Dizer que um jogador tem potencial exige identificar qualidades concretas, compreender como produz o rendimento, observar a sua capacidade de aprender e projectar até onde essas possibilidades poderão evoluir em contextos mais exigentes. O potencial sem rendimento permanece uma hipótese. O rendimento sem desenvolvimento pode ser apenas circunstancial.

Prestianni não deixou de ter potencial quando jogou (se posicionava, decidia e executava) menos bem no Benfica. Nem o adquiriu subitamente quando começou a produzir bons desempenhos e a marcar. O que mudou foi a frequência com que as suas qualidades passaram a produzir jogo de qualidade para a equipa. Portanto… desenvolveu-se.

Potencial é poder vir a jogar com qualidade. Individualmente e colectivamente. Rendimento é jogar bem… agora.

E formar é não destruir o primeiro pela pressa do segundo — e criar as condições para que, um dia, ambos estejam ao mesmo nível. Preferencialmente na equipa principal, ou seja, no futebol de rendimento.

“O talento potencial pode existir antes do treino, mas o jogador só existe depois disso.”

(Júlio Garganta, 2014)

O último teste de carácter. O jogo do 3º lugar do campeonato do mundo.

Há quem olhe para o jogo de atribuição do 3.º e 4.º lugar como um incómodo colocado entre a desilusão das meias-finais e a expectativa da final. Um encontro menor, disputado por duas equipas que já perderam aquilo que verdadeiramente procuravam. Para alguns, um jogo sem importância. Para outros, uma tradição que o Campeonato do Mundo deveria abandonar.

Talvez seja exactamente por isso que este jogo seja tão importante.

Porque quando a possibilidade de ser campeão desaparece, desaparecem também muitas das motivações exteriores que empurram uma equipa. Já não existe a Taça à espera. Já não existe a promessa da eternidade reservada aos vencedores. Resta a capacidade de encontrar, dentro do próprio grupo, razões para continuar a competir. Resta a camisola, o emblema, os companheiros e o país representado. Resta a resiliência.

É nesse momento que a mentalidade deixa de ser uma palavra repetida e se transforma num comportamento observável.

Qualquer equipa pretende jogar uma final. Qualquer jogador encontra energia quando está a noventa minutos de ser campeão do mundo. Muito mais difícil é voltar a levantar-se poucos dias depois de perder uma meia-final, reorganizar as emoções, recuperar fisicamente e apresentar-se novamente preparado para competir. Não pelo maior dos prémios, mas pelo compromisso anteriormente assumido.

O jogo do 3.º lugar mede, por isso, algo que o resultado da meia-final não consegue medir: a forma como uma equipa responde quando o sonho maior já desapareceu.

Em 2022, depois de Marrocos ter perdido a oportunidade histórica de alcançar a final, Walid Regragui reconheceu que o encontro seria difícil do ponto de vista mental. Ainda assim, garantiu que a equipa voltaria a lutar. Do outro lado, a Croácia entrou para vencer. Depois da conquista do terceiro lugar, Zlatko Dalić descreveu a medalha como um “bronze com brilho dourado”. Não era uma final. Mas também não era indiferente.

Uma equipa não pode afirmar que representa um país ou um clube apenas quando existe a possibilidade de levantar uma Taça. Representa-o em todos os momentos. Na vitória, na derrota, na celebração, na frustração e, sobretudo, na forma como reage depois de cair. A representação não é selectiva. O compromisso não pode depender da dimensão mediática do jogo ou do prémio que se encontra no final.

É também por isso que o sentido colectivo se torna tão visível neste encontro. Depois de uma meia-final perdida, alguns jogadores carregam frustração e cansaço físico-emocional, outros a percepção de que talvez não voltem a estar tão perto. Compete à liderança reconstruir o significado daquele último jogo, reorganizar emocionalmente o grupo e transformar uma desilusão numa última responsabilidade colectiva.

Como explica o antigo treinador de basquetebol Phil Jackson, a construção de uma equipa exige que o jogador deixe de olhar apenas para a sua experiência pessoal e se reconheça como parte de algo maior. O colectivo não se prova apenas nos momentos de entusiasmo. Prova-se quando cada um aceita voltar a colocar-se ao serviço dos outros, apesar da dor, da fadiga ou da ausência da recompensa inicialmente desejada.

A História também demonstra que o jogo está longe de ser irrelevante. O terceiro lugar conquistado por Portugal em 1966 continua a ser a melhor classificação da Selecção Portuguesa num Campeonato do Mundo. António Simões afirmou que aquela equipa colocou Portugal no mapa. Para várias gerações, não se tratou de uma simples consolação. Tratou-se de uma das páginas mais importantes da história do Futebol português.

A Bélgica alcançou em 2018 a melhor classificação mundial da sua história através deste jogo. Just Fontaine marcou quatro golos no encontro de 1958 e terminou essa edição com treze, um recorde que permanece. A Croácia transformou os terceiros lugares de 1998 e 2022 em símbolos da capacidade competitiva de um pequeno país. Aquilo que parece secundário no calendário pode tornar-se central na memória de uma nação.

É verdade que os jogadores estão cansados. É verdade que existe uma enorme desilusão emocional. É também verdade que o encontro pode parecer cruel para quem, poucos dias antes, acreditava que seria campeão. Porém, a dificuldade não retira importância ao jogo. Pelo contrário, dá-lhe sentido.

A liderança não se revela apenas quando tudo corre de acordo com o esperado. Revela-se na capacidade de devolver direcção a um grupo ferido. A cultura não se manifesta apenas quando a vitória parece possível. Manifesta-se quando a equipa continua a respeitar os seus princípios, os seus companheiros e o país ou clube que representa, mesmo depois de perder aquilo que mais desejava.

Acabar com este jogo significaria retirar ao Campeonato do Mundo um dos seus testes mais humanos. O teste de quem consegue voltar a levantar-se. De quem encontra compromisso para além da recompensa. De quem percebe que vestir a camisola de uma selecção não confere apenas direitos ou glória, mas também responsabilidades.

O ouro consagra o campeão. O bronze não apaga a derrota da meia-final. Mas pode revelar a qualidade humana e colectiva de uma equipa.

Acabar com este jogo significaria retirar ao Campeonato do Mundo um dos seus testes mais humanos: a capacidade de transformar uma derrota profunda numa última afirmação colectiva.

Monge da Silva e a impossibilidade de separar o que o jogo… e a vida… junta

O texto “Teoria do treino: Que qualidades físicas? Que classificação?”, publicado por David Monge da Silva em 1985 na revista Treino Desportivo, é um daqueles documentos que não deve ser lido apenas pelo que diz, mas sobretudo pelo lugar que ocupa na história da teoria do treino em Portugal.

Monge da Silva pertenceu a uma geração que viveu num espaço de transição: entre a prática de campo, a reflexão académica e a necessidade de construir uma linguagem mais rigorosa para o treino desportivo. Foi professor universitário, investigador, formador e preparador físico no Futebol, tendo estado ligado a diferentes modalidades, federações, diferentes contextos de rendimento e à reflexão metodológica sobre o treino.

Esse percurso ajuda a explicar a natureza do artigo. Não se trata de uma especulação afastada da prática. Trata-se de uma reflexão teórica feita por alguém que conhecia o treino, mas que percebia que o treino precisava de outro pensamento.

Logo no início, (Monge da Silva, 1985) identifica um problema central: a confusão terminológica no treino português. Muitos treinadores e técnicos tinham sido influenciados por formações oriundas de países diferentes e, por isso, transportavam linguagens diferentes, conceitos diferentes e classificações diferentes. O resultado era uma teoria fragmentada, muitas vezes incapaz de ajudar verdadeiramente a prática.

Mas o problema de Monge da Silva não era apenas terminológico. Era mais profundo. Não se tratava apenas de escolher melhores palavras. Tratava-se de perceber se as palavras usadas eram capazes de explicar a realidade.

A pergunta do artigo é simples e decisiva: quando falamos de força, velocidade e resistência, estamos a falar de realidades claramente separáveis ou estamos a criar divisões artificiais sobre uma realidade que, no movimento desportivo, é contínua?

É aqui que o texto ganha valor histórico.

Segundo (Monge da Silva, 1985), “quando observamos qualquer actividade desportiva não vemos força, velocidade ou resistência e muito menos as qualidades intermédias”. O que vemos são movimentos. Movimentos que acontecem no espaço e no tempo. E esses movimentos tornam-se possíveis, também, através da contracção muscular.

Esta ideia muda o ponto de partida. Em vez de partir das chamadas qualidades físicas tradicionais, Monge da Silva recua para algo fundamental que está por detrás do movimento: a contracção muscular.

A partir daí, propõe três parâmetros quantificáveis: duração, velocidade e grau de tensão.

A duração corresponde ao tempo durante o qual a contracção muscular se prolonga. A velocidade corresponde à rapidez com que essa contracção e descontração ocorrem. A tensão corresponde ao grau de força produzido para vencer uma resistência exterior.

Para (Monge da Silva, 1985), nenhuma contracção muscular pode ser correctamente caracterizada sem a articulação destes três parâmetros. É daqui que nasce o seu modelo tridimensional das qualidades físicas.

Até aí, o treino tradicional tendia a pensar de forma linear. A força era uma linha. A velocidade era outra. A resistência era outra. Depois, quando a realidade começou a mostrar-se mais complexa, surgiram qualidades intermédias: força rápida, resistência de força, resistência de velocidade. Mas, para Monge da Silva, esse caminho apenas prolongava o erro. Criavam-se mais nomes, mas não se compreendia melhor a realidade.

O modelo tridimensional propõe outra coisa. Em vez de pensar a força, a velocidade e a resistência como compartimentos autónomos, pensa-as como zonas de um mesmo volume. A tensão, a duração e a velocidade são três eixos que se combinam continuamente. Quando um parâmetro se aproxima do máximo, os outros tendem a baixar. Mas a maioria das acções desportivas não vive nos extremos. Vive nas combinações intermédias.

É por isso que (Monge da Silva, 1985) mostra que entre força e velocidade não existe uma fronteira clara. Entre força e resistência também não. Entre velocidade e resistência também não. Segundo o autor, “entre força e velocidade não existem soluções de continuidade que definam onde começa uma e acaba outra”.

A consequência é enorme: classificar pode ajudar a pensar, mas também pode deformar a realidade.vNo Futebol, isto torna-se decisivo.

Monge da Silva percebe que os jogos desportivos colectivos não pertencem aos vértices clássicos do modelo. O jogador de Futebol não é um halterofilista, embora precise de produzir tensões elevadas. Não é um velocista, embora precise de ser rápido. Não é um maratonista, embora precise de resistir. Por isso, a sua preparação não pode ser a soma de métodos importados da halterofilia, do atletismo ou da corrida de fundo.

Segundo (Monge da Silva, 1985), “os jogos desportivos colectivos exigem esforços intermitentes em que o atleta desenvolve grandes tensões musculares mas não é halterofilista, precisa de resistência mas não é maratonista e tem de ser rápido mas não é velocista”. Esta frase continua actual.

Ainda hoje, muitas propostas de treino caem no mesmo erro. Retiram o jogador do jogo para desenvolver capacidades que, depois, se espera que regressem ao jogo por transferência quase automática. Corre-se para ganhar resistência. Levanta-se peso para ganhar força. Fazem-se sprints para ganhar velocidade. Mas o Futebol não pede “força” em abstracto, nem “resistência” em abstracto, nem “velocidade” em abstracto.

O Futebol pede acções situadas. Pede tensão, duração e velocidade em contexto. Pede contracções musculares subordinadas a intenções, decisões, relações, espaços, adversários, companheiros, bola e baliza. É por isso que este artigo está tão próximo do terreno conceptual que mais tarde será aprofundado por Vítor Frade.

Convém sermos rigorosos: não se deve afirmar, sem prova documental directa, que o artigo de Monge da Silva foi um dos alicerces da Periodização Táctica. Essa afirmação seria excessiva e metodologicamente frágil. O que se pode afirmar, com maior segurança, é que o seu pensamento pertence ao mesmo clima intelectual que ajudou a tornar possível a ruptura metodológica protagonizada por Vítor Frade. Monge da Silva surge como uma referência próxima, respeitada e reconhecida pelo próprio Frade, não apenas no plano pessoal, mas também pela importância que teve na sistematização do Treino Desportivo em Portugal.

A sua crítica à separação artificial dos factores do rendimento, a recusa de uma preparação física desligada do jogo e a defesa de um treino mais enraizado nas situações reais aproximam-no das preocupações que viriam a ser radicalizadas pela Periodização Táctica. Ainda assim, há uma diferença decisiva: Monge da Silva ajuda a abrir caminho à crítica; Frade transforma essa sensibilidade num novo paradigma, fazendo da forma de jogar, da especificidade, da intencionalidade colectiva e da operacionalização do Modelo de Jogo o núcleo organizador de todo o processo.

Sintetizando, Monge da Silva é então um autor nuclear na evolução do treino desportivo. Primeiro, porque rompe com a divisão analítica do treino. Depois, porque defende uma leitura globalizante da preparação. Finalmente, porque coloca a contracção muscular e a dinâmica da carga numa lógica específica, e não abstracta.

E Vítor Frade desenvolveu a Periodização Táctica a partir de uma ideia ainda mais radical: no Futebol, o treino deve ser comandado pelo jogar que se pretende construir. A dimensão física não desaparece, mas deixa de existir isolada. Passa a estar subordinada à organização de jogo, aos princípios, aos subprincípios, aos comportamentos colectivos, às acções individuais e às regularidades que a equipa pretende estabilizar.

Portanto, neste sentido, a proximidade entre Monge da Silva e Frade é evidente.

Em (Monge da Silva, 1985), a crítica incide sobre a impossibilidade de separar força, velocidade e resistência como qualidades autónomas. Em (Vítor Frade, 1985), a crítica metodológica aponta para a necessidade de pensar o Futebol a partir da sua especificidade e não a partir de modelos importados de outras modalidades ou de outras lógicas de treino.

Monge da Silva fornece uma gramática. Frade reorganiza essa gramática em função do jogar.

É também aqui que aparecem os conceitos que se tornarão muito importantes na operacionalização da Periodização Táctica: tensão, duração e velocidade da contracção muscular. No morfociclo, estes conceitos deixam de ser apenas categorias fisiológicas ou mecânicas. Passam a ser formas de regular a alternância horizontal em especificidade.

Ou seja, não se trata de treinar “força” num dia, “resistência” noutro e “velocidade” noutro, como se fossem qualidades independentes. Trata-se de manipular, ao longo da semana, diferentes dominâncias da contracção muscular, sempre dentro do objectivo dominante da especificidade do jogar.

Num dia, o regime pode estar mais associada à tensão específica. Noutro, à duração específica. Noutro, à velocidade específica. Mas sublinhamos, tudo deve emergir de exercícios que pertencem ao jogo da equipa. A contracção muscular não é separada da decisão. A carga / estímulo não é separada do comportamento. O esforço não é separado da intenção.

É aqui que a influência conceptual de Monge da Silva ganha força.

Porque, ao substituir a linguagem clássica das qualidades físicas por tensão, duração e velocidade da contracção muscular, abre-se a possibilidade de pensar o esforço de forma mais específica, mais contínua e mais ajustada ao Futebol.

A diferença está no centro de gravidade. Em Monge da Silva, o ponto de partida ainda é a contracção muscular e a dinâmica da carga. Em Vítor Frade, o ponto de partida passa a ser o jogar. Mas a crítica de fundo é comum: o Futebol não pode ser compreendido pela soma das suas partes.

E é isto que é fundamental. Monge da Silva não está apenas a discutir fisiologia. Está a discutir a relação entre modelo de jogo e modelo de preparação. Segundo o autor, é necessário caracterizar o tipo de esforço que o jogador desenvolve em competição, porque é a partir desse modelo que se deve enquadrar o processo de treino.

Isto antecipa uma das grandes ideias do treino contemporâneo: o treino deve nascer da competição que se quer jogar. Não de uma competição genérica, mas do jogo concreto que a equipa pretende construir. No Futebol, isto obriga a uma mudança profunda.

Um exercício não é bom porque “trabalha força”. É bom se provoca o tipo de tensão que o jogador precisa de manifestar no jogo que a equipa quer jogar.

Um exercício não é bom porque “trabalha resistência”. É bom se faz emergir a duração específica de acções, decisões e interacções que a competição solicita.

Um exercício não é bom porque “trabalha velocidade”. É bom se a velocidade que promove tem sentido no jogo: acelerar para pressionar, travar para ajustar, desmarcar para receber, fechar por dentro, temporizar, saltar à pressão, atacar a profundidade, reagir à perda, sair da pressão.

Por isso, o artigo de Monge da Silva continua a ter impacto prático.

Ele obriga o treinador a olhar para o exercício como uma unidade complexa. O espaço, o tempo, o número de jogadores, a dimensão do campo, as regras, as balizas, as pausas, a densidade, a oposição, a direcção, a bola, a fadiga, a concentração e a intenção não são detalhes. São condições que alteram a contracção muscular, a tomada de decisão e a adaptação.

O próprio autor identifica factores da carga como massa muscular solicitada, condições objectivas e concretas de realização do movimento, intensidade, volume e complexidade. A complexidade, em particular, é entendida como dimensão neurológica da carga, relacionada com o grau de dificuldade do movimento e com a solicitação da estrutura perceptivo-cinética.

Este ponto aproxima ainda mais Monge da Silva do Futebol actual. Porque o Futebol não é apenas correr. É correr percebendo. Não é apenas contrair. É contrair decidindo. Não é apenas repetir. É repetir com sentido. Talvez esteja aqui a sua maior actualidade.

O texto de 1985 combate uma consequência nefasta do atomismo: a ilusão de que o conhecimento nasce da divisão infinita, de um atomismo nefasto, como se compreender melhor significasse apenas partir a realidade em unidades cada vez mais pequenas, isoladas e autónomas. É evidente que analisar é necessário. Mas, no Futebol, analisar sem regressar ao todo é perder o essencial.

Passados mais de 40 anos, o atomismo crescente nos clubes e nas equipas técnicas em “especialistas” de tudo — fisiologia, análise de jogo, “técnica e táctica individual”, “performance”, nutrição, psicologia, entre tantas outras áreas — recupera o mesmo problema central: a tendência para dividir o rendimento em partes e, depois, acreditar que a soma dessas partes devolve o jogador inteiro. Não devolve. O jogador não joga com a força, a velocidade, a resistência, a técnica, a táctica e a psicologia em gavetas separadas. Joga inteiro. Decide inteiro. Erra inteiro. Adapta-se inteiro.

Nesse sentido, David Monge da Silva não escreveu apenas sobre qualidades físicas. Escreveu contra a ingenuidade das classificações. Escreveu contra o treino que confunde nomes com conhecimento. E abriu caminho para uma compreensão mais específica, mais global e mais futebolística da preparação.

Quarenta anos depois, a sua pergunta continua viva: que qualidades físicas?

Talvez a resposta mais futebolística seja: nenhuma, se forem entendidas isoladamente.

O que existe é o jogar. E, dentro dele, tensões, durações, velocidades, decisões, intenções e relações que só ganham sentido quando pertencem a uma ideia de jogo.

Edgar Morin (1921-2026). E o seu pensamento… complexo… no Futebol. Portanto, a Periodização Táctica.

“Não se deve subordinar ou reduzir um factor aos outros: o factor central encontra-se na organização destes factores, ao tornarem-se interdependentes. O problema de fundo é a organização dinâmica constituída, não por elementos mas por interacções, O núcleo de explicação está na organização das interacções que constituem o fenómeno total homo.”

Edgar Morin, citado por (Vítor Frade, 2002)

Há pensadores cuja obra parece poder ser separada da vida. Como se as ideias tivessem nascido num gabinete, protegidas do mundo, da história, da dor, da política, da amizade, da perda, do erro e da incerteza. Edgar Morin não pertence a essa família. Nele, vida e pensamento caminham juntos. Mais do que isso: parecem explicar-se mutuamente. A sua biografia não é apenas o contexto exterior da sua obra; é, em grande parte, a matéria viva a partir da qual a sua obra se foi formando.

Morin atravessou o século XX como quem atravessa uma tempestade sem deixar de a observar. Nasceu em 1921, perdeu cedo a mãe, conheceu a guerra, a ocupação nazi, a Resistência francesa, o comunismo, a ruptura com o dogmatismo, os totalitarismos, as esperanças políticas e as suas desilusões. Viveu suficientemente perto dos acontecimentos para não os transformar em abstracções, mas suficientemente desperto para não se deixar capturar por explicações fáceis. Talvez por isso a sua obra nunca tenha sido apenas sociologia, filosofia, epistemologia, antropologia ou política. Foi sempre uma tentativa de compreender o humano na sua inteireza.

O artigo do Público que assinala a sua morte capta bem essa dimensão ao apresentá-lo como “um mestre da resistência”. Resistência, aqui, não é apenas a resistência histórica ao nazismo. É também uma atitude perante o conhecimento. Morin resistiu à simplificação, à arrogância dos sistemas fechados, às verdades prontas, às ideologias que procuram encerrar o real numa fórmula definitiva. Resistiu à separação entre vida e pensamento, entre sujeito e objecto, entre ciência e humanidades, entre razão e emoção, entre indivíduo e sociedade. Toda a sua obra parece dizer-nos que o maior erro do pensamento moderno foi acreditar que compreender é separar.

“o nosso sistema de ensino, obriga-nos a isolar os objectos do seu envolvimento, a separar as disciplinas, a desmontar os problemas, mais do que a unir e integrar. Ordena-nos a reduzir o complexo ao simples, ou seja, a separar o que está unido, a descompor e não a recompor, a eliminar tudo aquilo que contenha desordens ou contradições ao nosso entendimento.”

Edgar Morin citado por (Oscar Moreno, 2009)

E é precisamente aqui que Morin começa a tocar profundamente o Futebol, sobretudo quando este deixa de ser pensado como uma sucessão de gestos, capacidades ou momentos isolados e passa a ser compreendido como um fenómeno humano, colectivo, relacional e imprevisível. O Futebol também sofreu, durante muito tempo, dessa tentação moderna de separar para compreender: separou o físico do técnico, o técnico do táctico, o táctico do psicológico, a preparação da competição, o jogador da equipa, o exercício do jogo, a decisão da execução, a emoção da razão e o treino da vida concreta do jogar. Como se a soma das partes pudesse, por si só, devolver o todo. Como se, depois de desmontado o jogo nos seus supostos “ingredientes”, bastasse voltar a juntá-los para que o jogar reaparecesse com sentido.

É nesse ponto que a sua vida dá força à sua obra. Morin não defendeu a complexidade por moda intelectual. Defendeu-a porque a viveu. A sua existência mostrou-lhe que o real raramente obedece a linhas rectas. A História não avança de forma limpa e linear, a política não é pura, a razão não é neutra, a ciência não é exterior ao humano, o sujeito que conhece nunca está completamente fora daquilo que procura conhecer. A vida ensinou-lhe aquilo que depois a obra procurou pensar: tudo o que existe está tecido em conjunto.

Esta expressão — tudo o que existe está tecido em conjunto — poderia servir também como porta de entrada para uma compreensão mais profunda do jogo. Porque no Futebol nada acontece verdadeiramente isolado. Uma recepção orientada não é apenas técnica; é técnica porque é táctica, porque nasce de uma leitura, de uma intenção, de uma relação com o companheiro em posse anterior, com o adversário que pressiona, com o companheiro que se move, com o espaço que se abre, com o tempo que se estreita e com a emoção que atravessa o jogador naquele instante. Um passe para trás pode ser conservação, convite, protecção, manipulação, preparação da progressão ou simples fuga ao problema. Uma corrida pode ser ruptura, compensação, cobertura, fixação, atracção ou equilíbrio. Uma perda da bola nunca é apenas uma perda: revela a qualidade da posse anterior, a estrutura que sustentava essa posse, a proximidade dos apoios, a relação entre jogadores, a preparação da Transição Defensiva e a possibilidade de recuperar imediatamente ou ter de recuar.

Por isso, quando Morin define a complexidade como complexus, isto é, “aquilo que é tecido conjuntamente”, não está apenas a oferecer uma definição conceptual. Está a propor uma forma de estar diante do mundo. Complexidade não significa complicação e confusão. Significa reconhecer que os fenómenos importantes não podem ser reduzidos a uma só causa, a uma só dimensão ou a uma só disciplina. O humano é biológico, psicológico, social, histórico, cultural, afectivo e espiritual. Separar estas dimensões pode ajudar a analisar, mas é muito provável que também mutile a compreensão.

No Futebol, porque este não é uma ilha da restante realidade, separar também pode ajudar a observar, mas pode igualmente mutilar o jogo. Podemos mapear e distinguir Organização Ofensiva, Transição Defensiva, Organização Defensiva e Transição Ofensiva; podemos distinguir Construção, Criação, Finalização, Defender a construção, Defender a criação, Defender a finalização, Reacção à perda da bola, Recuperação defensiva, Defesa do contra-ataque, Reacção ao ganho da bola, Contra-ataque e Valorização da posse de bola. Mas mapear e distinguir não é separar. Cada momento transporta vestígios do anterior e prepara possibilidades para o seguinte. A Organização Ofensiva contém já a Transição Defensiva que irá emergir na perda da bola. Sim, porque por mais que o procuremos evitar, a bola será mesmo perdida. A Organização Defensiva contém já a Transição Ofensiva que irá surgir quando a bola for recuperada. A Construção e a Criação servem para preparar a Finalização. Defender a construção pode preparar o Contra-ataque. A forma como uma equipa ocupa o campo com bola denuncia como se protegerá sem ela. A forma como recupera a bola denuncia como estava organizada antes de a ganhar.

A grandeza de Morin está em não ter recusado a clareza. Pelo contrário, procurou-a. Mas percebeu que há uma clareza falsa, obtida pela amputação do real, e uma clareza mais exigente, capaz de ligar sem confundir e distinguir sem separar. O pensamento complexo nasce precisamente dessa tensão. Não elimina a análise, mas impede que a análise destrua o conjunto. Não rejeita a razão, mas lembra que a razão se torna pobre quando esquece a incerteza, a contradição, o contexto e a vida. Na perspectiva oposta, estes foram os principais malefícios que o determinismo, o pensamento cartesiano e analítico nos trouxeram.

Esta distinção entre uma clareza falsa e uma clareza exigente é decisiva para o treino. A clareza falsa aparece quando o treinador acredita que simplificou o processo apenas porque o dividiu em partes: físico, técnico, “táctico”, mental; primeiro correr, depois passar, depois decidir; primeiro preparar o corpo, depois preparar o jogo. Parece claro, porque cada coisa fica no seu lugar. Mas essa ordem é muitas vezes uma ordem morta, porque o jogo nunca se manifesta assim. O jogo são conjuntos de comportamentos que contém, de forma inseparável, estes ingredientes. A clareza exigente, pelo contrário, obriga-nos a perceber que o treino deve ser organizado a partir das relações que dão sentido ao jogar. Não se trata de negar a existência do físico, do técnico, do mental ou do emocional. Trata-se de perceber que, no jogo, eles nunca aparecem puros. Aparecem sempre em interação, ligados, contaminados, co-implicados, arrastados pela intenção táctica e pela dinâmica colectiva.

É aqui que a ligação entre Edgar Morin e Vítor Frade se torna particularmente intíma. Morin oferece uma matriz de pensamento: complexidade, interdependência, incerteza, organização, inseparabilidade, relação, contexto, circularidade e responsabilidade perante o conhecimento. Frade transporta essa matriz para o coração do Futebol, não como aplicação exterior de uma filosofia ao treino, mas como construção de uma metodologia nascida da natureza própria do jogo. A Periodização Táctica não é apenas uma forma de organizar a semana. É uma forma de pensar o Futebol contra a mutilação do Futebol. É uma ruptura com o paradigma que absolutiza factores e acredita que o rendimento superior nasce da soma optimizada de partes isoladas. Em Frade, como em Morin, compreender não é fragmentar até perder o sentido; compreender é articular, hierarquizar, contextualizar e fazer emergir uma organização.

Nesse sentido, a sua obra é também profundamente ética. Pensar bem não é apenas organizar ideias; é assumir responsabilidade perante o mundo. A fragmentação do conhecimento produz cegueiras. A especialização, quando se fecha sobre si mesma, sabe cada vez mais sobre partes cada vez mais pequenas, mas pode perder a noção do todo em que essas partes ganham sentido. Regressando ao Futebol, olhemos como exemplo para os cada vez maiores e mais poderosos departamentos de Fisiologia, Análise de Jogo, Treino individual, etc.. Morin percebeu que muitos dos problemas contemporâneos — políticos, ecológicos, educativos, humanos — não resultam apenas de falta de conhecimento, mas de uma má organização do conhecimento.

Também muitos problemas do treino não resultam apenas de falta de informação, mas de uma má organização do conhecimento. Pode saber-se muito sobre fisiologia, biomecânica, técnica, psicologia, pedagogia, análise de jogo ou liderança e, ainda assim, organizar mal o processo se esses saberes não forem articulados em função do objectivo fulcral: jogar. O problema não é conhecer as partes. O problema é deixá-las governar o processo como se fossem autónomas. O problema não é falar de resistência, velocidade, força, técnica, decisão ou emoção. O problema é tratá-las como entidades independentes, quando no jogo se manifestam sempre numa relação concreta com uma intenção, uma situação, uma forma de jogar, uma cultura colectiva e um adversário.

É por isso que a Periodização Táctica, em Vítor Frade, coloca a táctica como supradimensão. Não porque a táctica elimine o físico, o técnico, o psicológico ou o estratégico, mas porque é ela que lhes dá sentido no interior do jogar. A táctica não é aqui uma disposição geométrica, nem um conjunto de movimentos prescritos, nem uma ocupação abstracta do espaço. É a organização intencional do jogar. É a forma como uma equipa quer resolver os problemas do jogo. É o modo como se relaciona com a bola, com o espaço, com o tempo, com o adversário, com os companheiros, com o resultado, com a incerteza e consigo própria. O táctico, neste entendimento, não é uma parte ao lado das outras; é o princípio organizador que faz com que as restantes dimensões se expressem com sentido.

É por isso que a inseparabilidade é tão importante no seu pensamento. Não se trata de dizer que tudo é igual ou que tudo se mistura. Trata-se de perceber que separar é sempre uma operação provisória. O indivíduo não existe fora da sociedade que o forma, mas a sociedade também não existe fora dos indivíduos que a produzem. O conhecimento não existe fora do sujeito que conhece, mas o sujeito também se transforma no próprio acto de conhecer. A acção nasce de uma intenção, mas, uma vez lançada no mundo, entra numa rede de interacções que a pode desviar, ampliar ou contrariar.

No Futebol, esta ideia é de uma fertilidade enorme. O jogador não existe fora da equipa que o forma, mas a equipa também não existe fora das acções, decisões, emoções e relações dos jogadores que a produzem. Daí a interacção e interdependência permanente entre qualidade colectiva e qualidade individual. O Modelo de Jogo não existe fora dos jogadores que o interpretam, mas os jogadores também se transformam ao viverem esse Modelo de Jogo. O exercício não existe fora da intenção metodológica que o organiza, mas essa intenção pode ser desviada, ampliada ou contrariada pelas interacções que emergem no próprio exercício. O treinador pode desejar uma determinada propensão, mas, quando a tarefa começa, ela entra na realidade viva do treino: jogadores diferentes, níveis de compreensão diferentes, estados emocionais diferentes, relações diferentes, cansaços diferentes, resistências diferentes, interpretações diferentes e possibilidades diferentes.

É aqui que se percebe melhor a profundidade da noção de Especificidade. Na Periodização Táctica, Especificidade não significa simplesmente “treinar com bola” ou “fazer exercícios parecidos com o jogo”. Significa que tudo o que se faz deve estar relacionado com o jogar que se pretende fazer emergir. A Especificidade não é uma aparência exterior da tarefa; é uma relação interna de sentido. Um exercício pode ter bola e estar longe da Especificidade, se não respeitar a lógica do jogar pretendido. E uma tarefa aparentemente parcelar pode ser específica, se estiver hierarquizada e articulada com a Intencionalidade Colectiva que orienta o processo. A questão não é se se trabalha o todo ou uma parte; a questão é se essa parte mantém o vínculo com o todo. A tal fractalidade. Portanto, a questão não é reduzir ou não reduzir; a questão é reduzir sem empobrecer.

A vida de Morin confirma esta ideia. O jovem resistente, o intelectual político, o crítico do totalitarismo, o investigador transdisciplinar, o pensador da educação, o homem atento à crise ecológica e civilizacional não são personagens separadas. São expressões diferentes de uma mesma procura: compreender melhor para viver melhor; viver mais lucidamente para compreender melhor. Também Vítor Frade, no campo – Futebol, representa essa mesma recusa de aceitar a realidade como fragmento. A sua obra nasce de uma inquietação epistemológica e metodológica: que exigências coloca o Futebol, enquanto fenómeno antropossocial-total, ao treino? Que tipo de pensamento precisamos para compreender um jogo que é, ao mesmo tempo, corpo, decisão, emoção, cultura, estratégia, inteligência, relação, história, acaso, ordem, desordem e organização? Que metodologia pode respeitar essa natureza sem a reduzir a um somatório de capacidades? A Periodização Táctica surge como resposta a essa inquietação. Não como receita, mas como exigência. Não como moda, mas como forma de pensar. Não como conjunto de exercícios, mas como uma lógica metodológica de operacionalização de uma ideia de jogo.

Talvez por isso Edgar Morin nos deixe uma lição tão simples e tão difícil: não podemos pensar a vida de fora da vida. Não podemos compreender o humano amputando-o das suas relações. Não podemos enfrentar a incerteza fingindo que ela não existe. E não podemos construir conhecimento verdadeiro se continuarmos a separar aquilo que, na realidade, nasce ligado. A incompreensão (ou a recusa) deste discurso é, em grande medida, um dos alicerces dos actuais problemas civilizacionais — muitos deles impensáveis há uma, duas décadas. Mas, como o próprio Morin insiste, o desenvolvimento e a progressão não são lineares: avançam, recuam, desviam-se, reconfiguram-se. É precisamente por isso que a lucidez exige ligação, contexto e responsabilidade — para não confundirmos evolução com destino, nem complexidade com confusão.

Transportada para o Futebol, esta lição obriga-nos a dizer: não podemos pensar o jogo de fora do jogo. Não podemos compreender o jogador amputando-o das suas relações. Não podemos enfrentar a incerteza competitiva fingindo que o treino a pode substituir por certezas mecânicas. E não podemos construir uma metodologia verdadeiramente específica se continuarmos a separar aquilo que, no jogar, nasce ligado.

A sua obra permanece porque não oferece uma receita, mas uma exigência. A exigência de pensar mais profundamente. De ligar o que foi separado. De aceitar que a verdade não é posse, mas procura. De compreender que viver é sempre navegar entre certezas frágeis e incertezas inevitáveis. No fundo, Edgar Morin ensinou-nos que pensar a complexidade é aprender a habitar melhor a vida.

E talvez seja também essa a grande lição que Vítor Frade transporta para o treino: treinar não é aplicar receitas fora da vida do jogo. Treinar é organizar uma realidade viva para que uma determinada forma de jogar possa nascer, crescer, estabilizar-se e transformar-se. É criar contextos onde os jogadores percebem, decidem, executam, sentem, comunicam, ajustam e aprendem em função de uma intenção colectiva. É construir hábitos sem matar a criatividade. É repetir sem mecanizar. É estabilizar sem cristalizar. É orientar sem aprisionar. É dar forma sem retirar liberdade. É fazer emergir regularidades num fenómeno que continuará sempre aberto à surpresa.

Um dos maiores méritos da Periodização Táctica é aproximar-se assim do pensamento complexo porque recusa a ilusão de que o jogo pode ser dominado por uma causalidade linear. No Futebol, o mesmo exercício não produz sempre a mesma aprendizagem, o mesmo princípio não se manifesta sempre da mesma forma, o mesmo comportamento não tem sempre o mesmo valor, a mesma estrutura pode gerar dinâmicas diferentes e a mesma decisão pode ser adequada num contexto e inadequada noutro. Isto não significa abandonar a ordem; significa compreender que a ordem do jogo é uma ordem viva. Uma ordem que dialoga com a desordem. Uma ordem que precisa da incerteza para continuar jogo. Uma ordem que não se impõe de fora para dentro como uma máquina, mas se constrói de dentro para fora como uma organização dinâmica.

Por isso, o Modelo de Jogo não pode ser entendido como um desenho morto, fechado num papel. É uma intenção prévia, sim, mas uma intenção que precisa de ganhar corpo na vivenciação, na repetição específica, na interacção, na emoção, na concentração táctica, na experiência acumulada e na inteligência colectiva que se vai formando. O Modelo de Jogo orienta o processo, mas também se revela e se transforma no processo. O treinador projecta, operacionaliza, observa, reflecte, ajusta. A equipa interpreta, resiste, assimila, transforma, devolve. O jogar emerge dessa relação circular entre intenção, treino, competição e reflexão.

Deste modo, Morin e Frade encontram-se de forma profunda. Morin ensina-nos que o conhecimento deve ser capaz de ligar o que foi separado, reconhecer a incerteza, pensar a relação entre todo e partes e evitar a cegueira do pensamento parcelar. Frade ensina-nos que, no Futebol, essa exigência tem consequências metodológicas concretas: o treino deve partir do jogar, regressar ao jogar e ser permanentemente orientado pelo jogar. O que se treina não deve ser uma colecção de conteúdos, mas uma organização de experiências com sentido. Não se trata de acumular exercícios; trata-se de construir uma cultura de jogo. Não se trata de preparar jogadores genericamente capazes; trata-se de formar jogadores cada vez mais competentes dentro de uma ideia para jogar em concreto, sem que isso os reduza, antes potenciando a sua autonomia, criatividade e inteligência.

Assim, a ponte entre Edgar Morin e Vítor Frade não é uma aproximação decorativa. É uma ligação de fundo entre duas formas de resistência ao pensamento simplificador. Morin resiste à fragmentação do humano. Frade resiste à fragmentação do Futebol. Morin mostra que a realidade não cabe nas gavetas disciplinares que inventámos para a estudar. Frade mostra que o jogar não cabe nas gavetas metodológicas que durante décadas separaram físico, técnico, táctico e psicológico. Morin lembra que o todo está nas partes e as partes estão no todo. Frade obriga-nos a perceber que cada tarefa, cada princípio, cada sub-princípio, cada relação, cada escala do jogo deve transportar a marca do jogar que se pretende construir.

No fundo, ambos nos convocam para uma mesma responsabilidade: pensar melhor para agir melhor. No caso de Morin, agir melhor perante a vida, a educação, a política, a ciência, a cultura e o destino humano. No caso de Frade, agir melhor perante o jogo, o treino, a formação, a competição e a construção de equipas. Um ajuda-nos a compreender a necessidade de uma razão aberta, humilde, relacional e consciente das suas cegueiras. O outro mostra-nos como essa razão, quando levada a sério no Futebol, exige uma metodologia capaz de respeitar a inteireza inquebrantável do jogar.

Talvez seja por isso que pensar Morin a partir do Futebol não diminui Morin, nem pensar Frade a partir de Morin diminui Frade. Pelo contrário. Mostra que o Futebol, quando verdadeiramente compreendido, não é um território menor do pensamento. É um lugar onde se manifestam, de forma intensíssima, muitos dos problemas que Morin perseguiu ao longo da vida: a relação entre ordem e desordem, a inseparabilidade entre sujeito e contexto, a articulação entre razão e emoção, a emergência do novo, a impossibilidade de reduzir o vivo ao mecânico, a necessidade de organizar conhecimento sem o mutilar.

E mostra também que a Periodização Táctica, quando verdadeiramente compreendida, não é apenas uma metodologia de treino. É uma forma de pensar o Futebol em complexidade. Uma forma de entender que o jogo não é a soma das suas partes, que a equipa não é a soma dos seus jogadores, que o treino não é a soma dos seus exercícios, que o rendimento não é a soma dos seus factores e que a aprendizagem não é a soma das repetições. É uma forma de reconhecer que o jogar emerge de relações, de interacções, de intenções, de hábitos, de emoções, de decisões, de contextos e de uma cultura que se constrói no tempo.

No fundo, Edgar Morin ensinou-nos que pensar a complexidade é aprender a habitar melhor a vida. Vítor Frade ensina-nos que treinar em complexidade é aprender a habitar melhor o jogo. E, talvez, quando estas duas exigências se encontram, percebemos que o Futebol, mais do que um conjunto de acções, é uma forma viva de conhecimento: um conhecimento que se pensa, se sente, se incorpora, se partilha, se disputa, se transforma e joga. Acima de tudo… o Futebol é viver.

“a hiperespecialização impede de ver o global (que ela fragmenta em parcelas), bem como o essencial (que ela dilui). Ora, os problemas essenciais nunca são parceláveis, e os problemas globais são cada vez mais essenciais. Além disso, todos os problemas particulares só podem ser posicionados e pensados correctamente em seus contextos; e o próprio contexto desses problemas deve ser posicionado, cada vez mais, no contexto do planetário. Ao mesmo tempo, o retalhamento das disciplinas torna impossível aprender “o que é tecido junto”, isto é, o complexo, segundo o sentido original do termo. Portanto, o desafio da globalidade é também um desafio da complexidade. Existe complexidade, de fato, quando os componentes que constituem um todo (como o económico, o político, o sociológico, o psicológico, o afectivo, o mitológico) são inseparáveis e existe um tecido interdependente, interactivo e inter-retroactivo entre as partes e o todo, o todo e as partes. Ora, os desenvolvimentos próprios de nosso século e de nossa era planetária nos confrontam, inevitavelmente e com mais e mais frequência, com os desafios da complexidade”. Edgar Morin conclui que “efectivamente, a inteligência que só sabe separar fragmenta o complexo do mundo em pedaços separados, fracciona os problemas, unidimensionaliza o multidimensional. Atrofia as possibilidades de compreensão e de reflexão, eliminando assim as oportunidades de um julgamento correctivo ou de uma visão a longo prazo. Sua insuficiência para tratar nossos problemas mais graves constitui um dos mais graves problemas que enfrentamos. De modo que, quanto mais os problemas se tornam multidimensionais, maior a incapacidade de pensar sua multidimensionalidade; quanto mais a crise progride, mais progride a incapacidade de pensar a crise; quanto mais planetários tornam-se os problemas, mais impensáveis, eles se tornam. Uma inteligência incapaz de perceber o contexto e o complexo planetário fica cega, inconsciente e irresponsável”.

(Edgar Morin, 2003)

Play Fútbol – Entrevista a Ricardo Ferreira

No episódio em que participei no Play Fútbol, falámos do talento do jogador português — não como um “milagre” individual, mas como um fenómeno construído: qualidade de decisão e execução, criatividade e, sobretudo, uma mentalidade competitiva muito forte que se foi formando ao longo das últimas gerações.

Explorámos o que está por trás dessa identidade (rua, cultura competitiva, treino, autonomia e exigência) e porque é que, quando o ambiente certo existe, o talento não só aparece… repete-se e consolida-se. Geração após geração.

Falámos do Al-Ula SC e da minha passagem pelo SL Benfica, mas a ideia é simples: estes exemplos podem ser reproduzidos noutros locais. O talento está por todo o lado onde o futebol é cultura predominante — “basta” investir em organização, ideias, método, contextos de propensão que favoreçam o seu desenvolvimento e, claro… crença e confiança nesse processo.

“Portugal tem muita qualidade e que, muitas vezes, somos nós portugueses quem faz de nós próprios mais pequenos. Nós, treinadores portugueses, jogadores e não só, somos muito melhores do que, em geral, pensamos.”
Paulo Sousa

Uma das muitas razões para não se jogar… com 11 médios

Durante algum tempo procurou-se fazer passar a ideia de que jogar com muitos Médios seria sinónimo de superioridade e eficiência e, por arrasto, aproximaria a equipa do sucesso e da eficácia. Isto parte de uma premissa incompleta — melhor, redutora. Com frontalidade: é confundir causa e efeito; tomar a estética (que deveria ser consequência da eficiência-eficácia) como ponto de partida e, a partir dessa utopia, tentar chegar às primeiras. Uma estética desligada da realidade do jogo.

Clarificando: a utopia é crer que “onze” Médios trarão automaticamente maior qualidade aos momentos ofensivos, garantirão mais critério e, no limite, a totalidade da posse de bola. Isso nunca aconteceu num jogo de futebol — e podemos arriscar que não acontecerá. 100% de posse não existe; haverá sempre momentos em que a equipa terá de defender: por vezes mais alto, por vezes mais baixo. Quando mais baixo, é provável que tenha de defender cruzamentos. E nesses momentos torna-se crucial ter jogadores competentes nessa acção. “Competentes”, aqui, é também consequência de muito volume de acções, logo muita experiência específica.

Sem ignorar a importância da estatura nesses lances — recorde-se que o 1.º golo sofrido pela Selecção contra a Hungria expôs uma desvantagem na estatura no duelo envolvendo Vitinha — a verdade é que sempre existiram Defesas-Centrais de baixa estatura e excelentes no jogo aéreo: Cannavaro, Puyol, Passarella, Baresi, Ayala, Gamarra, Córdoba e Otamendi, entre outros. O volume de exposições a esse tipo de acção, a experiência acumulada, o conhecimento do jogo próprio da função e a inteligência e antecipação tendem a tornar a estatura um critério secundário.

Já no segundo golo sofrido, a falta de experiência específica e a consequente não-antecipação da desmarcação de ataque ao cruzamento do jogador húngaro foram evidentes. Natural em Rúben Neves, cuja maior expertise é a de Médio e não de Defesa-Central — as tais 10.000 horas foram, compreensivelmente, passadas poucas vezes a defender cruzamentos.

Se é utópico garantir a totalidade da posse, também não é realista imaginar que se consegue anular sempre os momentos defensivos do adversário logo no primeiro sub-momento da Transição Defensiva, a Reacção à perda, apenas por se alinhar com “mais Médios”. Em quase todos os jogos, mesmo em equipas de grande qualidade com bola, haverá momentos defensivos e cruzamentos aéreos — nem que sejam de situações de bola parada.

Tal como na sobrevivência e evolução das espécies, uma das chaves não é a paridade, é a diversidade. A melhor equipa, para lá da linguagem comum e do entrosamento, é também a que dispõe de mais soluções para responder aos problemas do jogo. Porque o jogo é diverso — ou melhor… complexo — e, por isso, não traz sempre os mesmos problemas.

“Estética duma eficiência que,

ao almofadar a eficácia,

dá à inteligência, na perspicácia,

o fermento p’rà transcendência.”

(Vítor Frade, 2016)

Quando menos é mais

No bom espírito quantitativo, falando-se em amplitude, quanto maior… melhor. Mas não. Quando os jogadores se afastam em demasia, a equipa fica como um universo em expansão: perde densidade, energia e “calor” colectivo; as interacções arrefecem e a qualidade do jogo dissipa-se.

Largura máxima relativa é, por isso, dar a largura e a profundidade máximas úteis para abrir espaços no bloco adversário sem perder ligações. É “relativa” porque depende da posição da bola, da organização do adversário e das nossas ligações: não é viver colado à linha por princípio. Os autores (Paulo Correia, et al., 2014) defendem que “quando em posse de bola, a equipa deverá fazer ‘campo grande’ (…) para uma circulação de bola rápida, segura e eficaz (…) A distância dos jogadores sem bola ao seu colega com bola depende sempre de imensos factores” — daí “amplitude máxima relativa”.  

No primeiro golo do FC Porto em Alvalade, em sub-momento de Construção, este princípio foi decisivo. No início da construção, a primeira linha do FC Porto não abriu. Aproximou-se para criar superioridade numérica local e encadear ligações curtas com o jogador adiantado na segunda linha. Menos amplitude (por instantes) → mais densidade → melhores ângulos de passe → saída limpa. Logo a seguir, a equipa voltou a alargar onde fazia sentido. Isto é largura máxima relativa em acção: fechar para ligar e atrair, abrir imediatamente para progredir. 

“Às vezes temos a tendência de não valorizar a parte em relação ao todo, mas a parte faz parte do todo e é fundamental para que tudo flua da melhor forma”

“É útil olhar para o experimento da maçã podre sob esta perspectiva. Nick conseguiu perturbar a química dos grupos apenas enviando alguns sinais de não pertença. O seu comportamento foi um sinal poderoso para o grupo — não estamos seguros — o que imediatamente fez com que o desempenho do grupo desmoronasse. Jonathan, por outro lado, forneceu um fluxo constante de comportamentos subtis que sinalizavam segurança. Ele conectou-se individualmente, escutou atentamente e sinalizou a importância da relação. Ele foi uma fonte inesgotável de sinais de pertença, e o grupo respondeu de acordo.”

(Daniel Coyle, 2018)

Nos últimos séculos, a sociedade foi dominada por um pensamento analítico, caracterizado pela divisão e dissecação do conhecimento em partes menores para melhor compreensão e controlo. Essa abordagem trouxe grandes avanços científicos e tecnológicos, mas também levou a uma visão fragmentada da realidade. Hoje surge uma tendência oposta: a sobrevalorização do pensamento holístico na demanda de integrar diferentes partes e reconhecer a complexidade do todo. No entanto, esta nova tendência surge eventualmente como compensatória ao tremendo domínio que o pensamento analítico exerceu e vai além do patamar de equilíbrio da análise com a síntese. Deste modo, em diversas áreas observa-se, pensa-se e actua-se excessivamente sobre o todo e esquece-se a importância das partes. O futebol, ainda que repleto de diferentes exemplos, também vai manifestando este problema.

Muitas vezes observa-se o jogo, seja quantitativa ou qualitativamente pela sua totalidade, quer pela estatística e quantidades de acontecimentos recolhidos, quer através da análise qualitativa de comportamentos colectivos, intersectoriais, sectoriais  e grupais. Esquecem-se as acções individuais e a execução técnica. O pensamento contagiou muitos treinadores que descuram a dimensão individual do jogo, quer no crescimento dos jogadores a este nível quer no combate às suas lacunas. Esquece-se então o jogador, a sua unicidade e individualidade e o quanto isso pode fazer a diferença no seio de uma equipa e no jogo. Como esclarece Vítor Frade, em entrevista a (Xavier Tamarit, 2013), “o que dirige o Processo é uma matriz, é uma ideia de jogo e de operacionalização, porque a Especificidade só é garantida… não é garantida pelo macro, é garantida pela intervenção que você consegue ter em todas as particularidades, de forma que elas contribuam para o todo, porque senão, não é Especificidade. Caso contrário, você não vai identificar que Joaquim é diferente de Manuel, e isto é diferente daquilo. Portanto, a Especificidade também está aí… e as partes melhorando, melhoram o todo”.

Uma equipa técnica é outro bom exemplo. A competência da mesma é certamente gerada pelo todo que se gera na interação das partes, ou seja, cada técnico. Mas a individualidade, aérea de especialidade, experiência e competência individual, são também fundamentais para que esse todo seja melhor.

Um destes técnicos, Vítor Matos, no passado formando equipa com Pepijn Lijnders no Liverpool de Jürgen Klopp e que agora acompanhou o neerlandês num novo desafio no Red Bull Salzburg, aborda a questão pela dimensão sócio-afectiva e dinâmica do grupo. O treinador português defende a importância da individualidade e das escolhas do treinador na construção da equipa. Certamente, nada de novo. Os bons e mais experientes treinadores terão há muito (para não dizer desde que o futebol é futebol), uma intuição e sensibilidade para tal. Racionalizar isto, na perspectiva de alguém que, pelo trajecto que teve no futebol acreditará na mudança de paradigma vivida nas últimas décadas nomeadamente ao nível do pensamento holístico, complexo e sistémico, é que é  se torna raro na hoje em dia. Porque tal como na restante sociedade, vivemos uma tendência para a polarização de crenças e atitudes.

“É um desafio pelas relações que se vão criando. Por isso é tão importante a ideia de jogo e este compromisso coletivo. É normal, quando tens dois ou três jogadores de uma nacionalidade e dois ou três de outra e por aí fora, que eles se relacionem mais entre eles, por grupos. O desafio é que nos consigamos conhecer melhor, de forma a que, no jogo, tudo flua naturalmente. Às vezes, é o próprio jogo que leva a essa naturalidade. Por essas razões, ao olharmos para o mercado, fomos buscar alguém com mais experiência, o Janis Blaswich, um jogador com maturidade, um capitão, que ajudasse a que existisse uma maior maturidade também nestas questões. É importante ter sensibilidade para este tipo de questões. Mas, mais do que aquilo a que nós [treinadores] possamos apelar, os jogadores também têm de, eles próprios, criar o seu próprio espírito de equipa. Acreditamos muito que os jogadores têm ownership, que sejam capazes de construir e criar uma cultura partilhada. Às vezes temos a tendência de não valorizar a parte em relação ao todo, mas a parte faz parte do todo e é fundamental para que tudo flua da melhor forma”.

(Vítor Matos, 2024)

Quando apenas se domina a grainha da uva e depois se quer andar na vinha e na adega a produzir vinho

“Nós hoje temos um sentimento de exaustão que é desligado do corpo, o corpo está em local incerto, está esquecido. Houve uma valorização excessiva de uma sociedade baseada no produto, na competição, na produtividade a qualquer preço e não no sentido da existência. Mais, numa sociedade neoliberal, criou-se quase uma auto-exaustão, uma auto-repressão e isso esgota as pessoas.”

(Carlos Neto, 2021)

Em primeiro lugar, não se trata de uma opinião de um cidadão qualquer. O autor da mesma é administrador de uma empresa parceiro oficial de saúde da Liga Portugal e de várias associações de futebol, portanto alguém da área da medicina desportiva e com aparente responsabilidade no nosso futebol. Assim sendo, seria então importante perceber a especificidade do mesmo e não recorrer a lugares comuns e a uma linearidade de pensamento preocupante na explicação de fenómenos que são complexos.

Naturalmente foram ditas várias coisas com as quais concordamos. Mas pelo menos uma mereceu um desacordo tal que nos levou a apontá-la. E a razão para isso passa pela contínua invasão do futebol de formação por adultos com pouquíssimo conhecimento do fenómeno, pela contaminação do jogo com áreas que se distanciam da especificidade do mesmo e pelo afastamento que o mesmo vai protagonizado das práticas que no passado produziam talento de forma brutal. Somando a isto, a condição físico-mental e até a saúda das crianças… deteriora-se. Em cima da mesa não está só a justificação dos “riscos sociedade actual” para o desaparecimento dos jogos na rua, da autonomia e respeito pela individualidade de cada criança. Há muitos adultos sedentos para se intrometerem e lucrarem com o potencial de negócio que o futebol de formação hoje emana. 

Com isto não nos referimos directamente ao entrevistado. Ele será só o último da cadeia. Referimo-nos a treinadores e dirigentes que se apresentam distantes, para não dizer outra coisa, do que o Futebol de Formação requisita. Depois temos auto-intitulados especialistas em “treino individual”, que muitas vezes não dão treinos… individuais… de futebol. Dão treinos de mecanização e robotização de gestos técnicos, de fitness, musculação e atletismo. Perante tudo isto a falta de qualidade no treino é gritante. O próprio jogo é relegado para segundo plano e a intervenção do adulto é catastrófica. Dentro e fora do campo.

No final da linha surgem outros especialistas de outras áreas, mas não de futebol de formação, a explicar que o problema está na quantidade e no volume de treinos e competições. Referem-se a treinos, de cerca de 60 a 90 minutos. Quatro, três e até duas vezes por semana, e na maior parte dos casos um jogo por semana. Um contexto de treino, e até jogo, cheio de descontinuidade, de mais tempo de adultos a instruirem e a dirigirem do que a se jogar ou praticar, e jogos de 60 a 70 minutos, os quais que com eventuais substituições, em média, potencialmente uma criança pode não jogar mais de 30 minutos. Se é que jogar…

Isto num tempo em que se lamenta o sedentarismo e a falta de actividade física nas crianças, e principalmente, como diria o brilhante Professor Carlos Neto, a ausência do jogo, esse veículo fundamental no desenvolvimento da criança.

Miguel Gouveia Brito, não sei se se recorda, quando éramos crianças, muitos de nós jogávamos futebol quase todos os dias. Muitas vezes mais do que 2 horas por dia. Em pisos muitas vezes diferentes e de rigidez e tração diferente. Em contextos de competitividade incrível. Apesar de tudo isto o género de lesões a que se refere eram raríssimas.

Miguel… o principal problema não está na quantidade do treino. Está na qualidade.

“Agora até os miúdos os fazem, sobretudo, correr, quando a sua preparação deveria ser com bola fundamentalmente. Têm apenas uma hora… Dá-lhes uma bola!”

(Ángel Cappa, 2008)

A construção do talento

“As habilidades são apenas circuitos no teu cérebro.”

Daniel Coyle

 

Um tema desta importância e magnitude merecerá uma abordagem mais profunda no futuro e uma página exclusiva no projecto Saber Sobre o Saber Treinar. Inclusivamente, o talento já foi contextualizado num artigo recente sobre a nossa visão do desenvolvimento do jogador de Futebol. Mas tal não nos impede de irmos acrescentando ideias e conhecimento sobre o assunto.

Torna-se fundamental compreender em definitivo que o talento, ao contrário do que durante muito tempo era defendido, trata-se de uma construção. Nenhum ser humano nasce a saber e dominar determinado assunto, área ou actividade. Isso acontece quando várias condições… e tempo… se reunem. O professor Júlio Garganta justifica que se parte “do princípio de que o talento, que um jogador de futebol já nasce, um grande treinador já nasce, um grande músico já nasce. Isso causa-se algumas dúvidas importantes, porque não só porque há vários estudos que comprovam que isso não é verdade, não há em nosso genoma de entre 25.000 a 27.000 genes, nenhum que tenha sido identificado como traduzindo o que é um arquiteto, um jogador de futebol, não digo já se é guarda-redes, avançado, médio, um pivô, um médico ou músico, algo assim, não foi encontrado até agora. Quando olhamos para as histórias de vida dos grandes executantes, em várias atividades humanas, vemos que o que devemos fazer é perceber a história onde começaram, como se desenvolveram, as oportunidades que foram criadas, as que não foram criadas, as que foram conquistadas. E vemos que o talento se treina, se aprende, é muito construído. Muitas pessoas têm, e é por isso que digo que o potencial talento pode existir antes, mas o jogador só existe depois do treino dos jogos”.

É referido no vídeo que “a cultura em que vivemos faz uma grande diferença”. Facilmente se compreende porque é que, entre outros exemplos, um país como os Estados Unidos da América, perante o seu volume populacional, programas desportivos escolares e condições disponibilizadas para a prática desportiva, não gere a quantidade de talento que por exemplo emerge no Brasil. Já para não darmos exemplo de países mais pequenos como Portugal. Entre várias diferentes condições destaca-se o diferente valor social dado ao Futebol o que influencia mais ou menos jovens à sua prática deliberada intensiva. O professor (Silveira Ramos, 2003) sustenta que “tendo o futebol um grande impacto socio-cultural e desportivo, isso provoca uma enorme atração para a sua prática, e normalmente é na rua que, por hábito, começa a paixão e o gosto pela prática do futebol, sendo “iniciada por muitos praticantes de forma absolutamente espontânea, sem qualquer base teórica nem orientações para a sua aprendizagem”.

Ora, essa prática “espontânea” ou deliberada, requisitará uma necessária adaptação do conhecimento da criança ao fenómeno complexo que é o jogo de Futebol. Como é dito no vídeo, o cérebro humano, e ainda mais enquanto criança e jovem, detém uma enorme neuroplasticidade e capacidade de aprendizagem possibilitando a aquisição de qualquer conhecimento ou habilidade… o que no fundo… também é conhecimento como referia Daniel Coyle. Até a reconhecidamente complexa física quântica. Não acredita? A autora (Zeeya Merali, 2023) relata uma experiência educacional que envolveu 54 estudantes, com idades entre os 15 e os 17 anos. Os mesmos “foram seleccionados aleatoriamente de entre cerca de 1.000 candidatos, de 36 escolas do Reino Unido – maioritariamente escolas públicas. Os adolescentes passaram duas horas por semana em aulas online e, após oito semanas, realizaram um teste utilizando questões de um exame de física quântica de pós-graduação de Oxford. Mais de 80% dos alunos foram aprovados e cerca de metade obteve distinção”.

Para não alongarmos muito esta abordagem ao tema, deixamos a visão de dois “cientistas do talento”. Os autores (Anders Ericsson & Robert Pool, 2016), através dos seus estudos, explicam que “se conversares com estas pessoas extraordinárias, perceberás que todas elas entendem isto a um nível ou outro. Podem não estar familiarizadas com o conceito de adaptabilidade cognitiva, mas raramente aceitam a ideia de que atingiram o pico nos seus campos por serem os sortudos vencedores de alguma lotaria genética. Elas sabem o que é necessário para desenvolver as habilidades extraordinárias que possuem porque experienciaram isso em primeira mão“.

“Tive sorte porque na minha geração, onde vivia, havia muitos rapazes da minha idade. Fora da escola, o tempo todo era: “Vamos jogar futebol.” Eu sempre tinha cerca de cinco ou seis rapazes a jogar futebol comigo. É a forma clássica de futebol de rua, não é? Mas o meu irmão Marcel não teve isso porque só havia raparigas da idade dele. Por isso, para ele era completamente diferente. Ele não tinha ninguém da idade dele para jogar. Então ele tinha que jogar ou comigo e com os meus amigos ou com o Ronald, que é mais velho. Por isso, quando as pessoas me perguntam: “Como é que te tornaste num jogador de futebol profissional?” talvez seja uma das razões.”

Dennis Bergkamp em (David Winner, 2013)

Defesas-Laterais dentro e Médios-Laterais fora. O Vitória de Guimarães como exemplo.

A decisão de Endrick. Pensá-la de forma linear ou de forma complexa.

“Não é fácil, e sobretudo temos de ter perfeita noção que não há receitas, apela fundamentalmente ao Sentido da Divina Proporção, daí que não faça sentido estabelecer momentos para a utilização tanto do feedback ou do feedfoward. E esse é o lado engraçado e desafiador do processo, não há receitas, tem de haver arte na gestão de tudo isto. Eu penso inclusive que muita da robotização manifesta por muitos jogares resulta da renúncia da parte dos treinadores ao lado intuitivo da gestão dos processos de treino. Parece que parte da pergunta feita, “em que momentos utiliza-os” espelha uma tendência generalizada nos treinadores, e que quanto a mim radica na não capacidade de lidarem com a complexidade e com o que esta implica, nomeadamente a necessidade de estarmos perante uma realidade que não é à partida totalmente conhecida.”

(Jorge Maciel, 2011)

Durante muito tempo acreditámos que existiam melhores decisões para resolver um determinado problema que o jogo coloque. Referimo-nos principalmente a situações que vão emergindo como padrão. Por exemplo, como decidir do ponto de vista atacante um contra-ataque em 3×2+GR, tendo inclusive em conta os diferentes comportamentos que os defensores e o Guarda-Redes poderão adoptar. Ainda acreditamos que existem melhores decisões do que outras. A principal passa por o Futebol ser um jogo com determinadas regras e especificidade, no qual não vale tudo, nem tudo tem a mesma validade qualitativa para o jogar ou se ser bem sucedido. Ou no limite, diferentes comportamentos, mesmo que no mais ínfimo detalhe, diferentes consequências na eficiência e eficácia no jogo. Resumindo, melhores decisões farão então crescer a eficiência e a eficácia no jogo.

Porém, a experiência e conhecimento levam-nos a reflectir, se hoje os treinadores em geral, não estão a condicionar as decisões de forma excessiva. É um debate recorrente, tendo em conta o argumento já clássico que recorre à forma como jogávamos na rua, e como, sem a presença do treinador, o jogo nos ensinava pela tentativa, erro e feedback sócio-emocional a regular a e modelar o nosso jogar do ponto de vista do trinómio Estética-Eficácia-Eficiência. E influenciando directamente tudo isso, obviamente que todos tínhamos velocidades e interesses diferentes sobre este desenvolvimento, o que se tornava decisivo no processo. Como maior exemplo, se quase todos sonhávamos em vir a ser jogadores de futebol profissionais, apenas alguns acreditavam mesmo nisso com a suficiente ambição, determinação e resiliência para efectivamente lá chegar.

Emerge então essa questão fundamental. Se os treinadores e a sua eventual excessiva intervenção, mecanização, e castração da criatividade, autonomia e individualidade, não estão então a condicionar e formatar os jogadores para perfis idênticos e de limitado poder autónomo, cognitivo, criativo e de pensamento divergente. A resposta parece-nos clara no Futebol de Formação. Mas quando a discussão se alarga ao Futebol de Rendimento, tendo em conta as necessidades do contexto em maximizar a eficácia e o pouquíssimo tempo que existe para treinar, a questão torna-se mais complexa.

O golo marcado por Endrick no Real Madrid x Estugarda para a Liga dos Campeões levantou uma importante discussão num grupo de treinadores de Futebol. A situação foi a referido atrás: o clássico contra-ataque 3×2+GR com mais 2 atacantes a chegar. Na nossa mente, são vários os sub-princípios ofensivos que podem ajudar a tornar mais eficiente a resolução da situação e portanto, mais fácil a finalização. Por outro lado, a finalização pelo jogador em condução pelo corredor central é uma dessas soluções e que acontece muito frequentemente no Futsal quando os dois defensores permitem aproximação à sua baliza e abrem espaço entre si, para que o remate seja efectuado com sucesso. E tão próximo da baliza, a capacidade de reação do Guarda-Redes torna-se mais curta. Mas não foi o caso. O jovem brasileiro finalizou de uma posição ainda distante da baliza.

Neste enquadramento, apesar da eficácia da decisão que tomou, tendo em conta a eventual dificuldade da mesma, terá decidido mal. Clarificando, decido mal numa perspectiva a prazo. Ou seja, repetindo a decisão mais 10 vezes, poderia não ter sucesso em mais nenhuma. Isto porque num pensamento lógico e linear, tomando uma decisão mais difícil muitas vezes, logo, de probabilidade de sucesso menor, irá perder essa oportunidade várias vezes. Diminuindo a eficiência, teremos então consequências na eficácia.

Mas perante uma potencial evolução de pensamento, este raciocínio, sublinhamos, torna-se simplificado e linear. Isto porque só estamos a pensar em tempo, espaço, número e na ”média“ da dificuldade das acções individuais para os jogadores em geral. Não estamos a pensar de forma complexa. Não estamos a pensar em que a acção humana não é linear, que existem jogadores que resolvem determinados problemas e acções muito melhor que outros. E neste caso concreto, a questão será… se Endrick voltar a tomar a mesma decisão… se voltará a marcar golo. É provável que não. Mas não sabemos sequer se volta a tomar a mesma decisão, até porque as circunstâncias são irrepetíveis. Cada ser humano é único. Como cada uma das suas decisões.

Fruto da nossa educação e cultura, somos levados a pensar de forma. Como tal tendemos a ignorar dimensões influentes no processo. Não ”vemos” intuição, qualidade da criatividade e do pensamento divergente. Temos dificuldade em sentir o que, naquele momento, a confiança de cada um pode aportar à situação. E isto são só alguns dos fenómenos que não vemos ou sentimos. Haverá muito mais certamente. Desejamos fechar o espectro de análise para conseguir catalogar, colocar em caixas, moldar e guiar, mesmo que na nossa mente isto não seja num sentido fechado. Mas no final torna-se sempre. O problema é se as “regras” traçadas pelo treinador ao jogo que quer que os jogadores joguem, limitam qualidades que o jogador tem ou está a ter, e o treinador não as vê ou sente.

Não existem jogadores iguais, com qualidades iguais, em momentos qualitativos iguais. Tal como as circunstâncias, por muito que se aproximem de forma semelhante. E é de facto o papel do treinador no treino, aproximá-las do jogo, tendo no entanto a consciência que nunca se irão verdadeiramente repetir. Assim, deve então propiciar contextos que se posicionem num limiar onde existirá transfere do treino para o jogo, conseguindo dessa forma potenciar e não castrar ou prejudicar.

Este caminho passa pela criação de princípios a diferentes escalas do jogo. Que são isso mesmo… princípios. Porque o seu desenvolvimento e final irá caber sempre aos jogadores e ao ”aqui e agora” do jogo. Dando o mesmo exemplo, dificilmente criamos a real condição da acção de Endrick, em ter acontecido nos derradeiros segundos dos descontos… e como o resultado se encontrava naquele momento. E consequentemente, o contexto emocional vivenciado. E “só” isto tem potencial para mudar a decisão de um jogador.

Por outro lado estamos sempre, no registo do certo ou errado. Da boa e má decisão. Estamos formatados para isso. Para a dualidade, para o binário. O que a ciência começa-nos a provar, é que a realidade não é assim. O “gato está vivo e morto até abrirmos a caixa”… 

Não estamos a defender o oposto da mecanização. Estamos a argumentar que devemos ter sensibilidade para o contexto de cada acção. E como Vítor Frade defende, devemos dar espaço à “divina proporção”. E como também diz… em ajudar a construir “mecanismos não mecânicos”. E isto passa pela intuição e decisão do treinador em criticar, valorizar, ou às vezes não intervir e deixar fluir. Como pensamos que deve ser este caso. Se no futuro começar a originar um padrão negativo… aí sim… condicionar ou mesmo reprimir a decisão. Até porque, na decisão tomada pelo jogador brasileiro, e sublinhado a ideia passada anteriormente, nas tais características lineares (tempo, espaço, número), não estamos a considerar a intuição, o pensamento divergente e a confiança. Que não só são fundamentais para muitas vezes desbloquear situações de jogo, como a nível macro, para o jogo evoluir. O Guarda-Redes do Estugarda, muito provavelmente, tal como nós, não previu aquela decisão do Endrick e por isso não a defendeu melhor…

Todos os que jogámos, e principalmente na rua, sentimos em determinados momentos uma intuição e uma confiança inabalável numa decisão ou execução mais difícil. Mesmo perante outras alternativas de decisão e execução bem mais fáceis. Mas decidimos fazê-lo porque sentimos que íamos ter sucesso. E tivemos. E como, do ponto de vista externo, medir ou avaliar isto? Não sentindo, torna-se de facto muito difícil. Por outro lado, avaliar uma acção pelo seu sucesso, torna-se o caminho mais simples, apesar dos riscos em si inerentes. E no fundo, é informação superficial. Tonar-se claro o grande desfio evolutivo que temos pela frente.

Concluindo, e lançando um tema futuro, é curto avaliar uma acção de jogo apenas através de tempo-espaço-número. Se há algum tempo para trás referíamos a importância de acrescentar a qualidade, hoje sentimos que a mesma também não pode ser considerada de fechada, mas sim muito influenciada por diferentes estados emocionais e diferentes contextos. Portanto, continuamos a acreditar que existem melhores decisões para resolver um determinado problema. No entanto, compreender as mesmas carece de uma visão mais complexa, do homem, do jogador, e está também mais dependente do contexto e do aqui e agora do jogo.

“nós normalmente quando acentuamos muito o que é táctico, temos tendência a robotizar, temos tendência a querer um futebol quase sem erros, um futebol mecânico. Eu já tive essa tendência, por exemplo, direccionar muito o feedback do exercício, sistematicamente parar para corrigir e não deixando que o jogo flua, é importante deixar fluir o jogo. Ás vezes estou no treino a ver uma solução, que para mim é a melhor solução, porque vem no sentido daquilo que é a minha ideia de jogo, por exemplo, quando a bola entra no corredor quero que haja a tentativa de forçar esse corredor em situações de dois contra um, através do envolvimento do lateral ou através do envolvimento do médio centro. Mas eu tenho um extremo direito que é muito melhor jogador daquilo que eu fui, mas muito melhor jogador, e muitas vezes aquilo que eu fui como jogador limita-me em termos de leitura daquilo que está acontecer, isso acontece montes de vezes, estou à espera de um movimento qualquer e o movimento sai correcto, o movimento sai correcto e a bola não entra, tenho a tentação de dizer é neste momento, tau, mas esse meu extremo direito inventa futebol, mas inventa futebol com uma qualidade acima da minha, do meu entendimento. Ele consegue descobrir soluções que eu no meu entendimento não consigo perceber, no momento não consigo perceber o que ele quer mas ele descobre, ele descobre porque ele tem muito mais qualidade do que eu algum dia tive e apesar de eu estar de fora ele é capaz de descobrir soluções… Aqui há uns anos se ele não jogava no movimento que eu pretendia, ficava chateado, porque achava que ele não estava a corresponder à dinâmica do colectivo. Agora deixo fluir, porque percebo que ele me consegue dar, a maior parte das vezes, soluções muito mais ricas do que aquelas que eu estava à espera. Eu não limito a criatividade, eu deixo criar mas tem que ser… agora, se ele me cria uma vez e perde a bola, se me cria duas vezes e perde a bola, sistematicamente colocando em causa o que é o colectivo, ai isso para mim não é criatividade. Para mim ele está a recrear, não está a criar para a equipa. O problema é nós deixarmos que eles do ponto de vista individual consigam emprestar o mais possível ao colectivo.”

(Vítor Pereira, 2009)

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