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Exercício 139 [Subscrição Anual]

“(…) existe na mente de muitos treinadores a presunção, que qualquer exercício de treino independentemente do seu nível de especialização (que reproduza de forma mais ou menos aproximada a natureza – lógica do Jogo de Futebol) transfere sempre algo de positivo para a capacidade objectiva do jogador ou da equipa. Todavia, é preciso ter presente que a transferibilidade, isto é, a influência de um exercício sobre outro que é realizado num ambiente contextualmente diferente ou na aquisição de uma outra competência não é um fenómeno positivo por natureza.”

(Jorge Castelo, 2003)

Publicamos o exercício 139, denominado como Saída do GR após atraso em metade lateral. Este exercício encontra-se no nosso arquivo e estará disponível para subscritores.

Podendo ser um exercício realizado por vagas, possibilitando a integração de mais jogadores e assim apresentar tempos de pausa maiores e um desgaste menor, pode então, ser realizado numa fase introdutória do treino, logo após uma breve mobilização inicial. Mas não será apenas pelo desgaste que promoverá, o seu carácter introdutório. Na dimensão táctica, a menor complexidade que proporciona na acção de Saída do Jogo do Guarda-Redes em espaço e número, leva-o também a um género de experienciação da situação. Nos casos em que apenas estará disponível meio-campo para o treino nessa fase do treino, por utilização da metade contrária por outra equipa ou pelo treino específico de Guarda-Redes, se o exercício for realizado na estrita metade do campo, ele pode ainda ser realizado em duplicado na metade contrária, multiplicando-se assim o número de repetições e de experiências realizadas.

Contudo, como todos os exercícios, apresenta contras, ou desvios do jogo que poderão ser perigosos. Como referimos no passado, será sempre assim a partir do momento em que a realidade do jogo é manipulada e tudo residirá na sensibilidade do treinador para avaliar a evolução das aquisições. Neste caso, algo que nos parece logo muito importante, é a impossibilidade da equipa poder jogar nos três corredores de jogo, promovendo assim um jogo um pouco mais vertical. No entanto parece-nos interessante para compreender contextos mais micro e algumas acções individuais. A forma como é iniciado, também prevê um contexto particular, porém esse também pode ser recriado numa situação de complexidade maior.

Como abordámos num recente artigo, o exercício não obriga o Guarda-Redes a decidir pela saída curta. Obriga sim, neste caso, a equipa a uma saída aberta. Depois, tendo em conta o posicionamento e as decisões adversárias, o Guarda-Redes pode optar por realizar um primeiro passe curto, ou pela realização de um mais longo,  ou melhor, de média distância, que no caso, estará simbolizado pelo passe nas mini-balizas.

Tendo também em conta o seu carácter e organização, o exercício pode em simultâneo promover a experienciação de todas as funções envolvidas, por todos os jogadores da equipa, desenvolvendo assim a sensibilidade para o posicionamento, decisão e execução do companheiro, o que poderá levar ao desenvolvimento de comportamentos micro, mas que poderão ser decisivos na eficiência e eficácia global da acção. Isto poderá ser importante num contexto de Rendimento, mas será fundamental num de Formação. E esta é uma forma de manifestação da multilateralidade do Futebol. Ou seja, num contexto específico como o Futebol, existirá sempre, nesse universo de se potenciar a sua multilateralidade. Para muitos conhecida, ainda que de forma parcial, pela “polivalência”. Por outro lado, regressando ao contexto do Futebol de Rendimento, as restrições de tempo de treino e desgaste, levarão a que a aposta nas especialização das funções envolvidas no exercício seja uma decisão mais lógica.

Desta forma, isto leva-nos a pensar que um exercício não é destinado ao Futebol de Formação ou ao de Sénior tendo apenas em conta a sua complexidade. Essa deverá ser definida tendo em conta o nível de jogo, e para isso a idade é um indicador, mas não é decisiva. Existem equipas de Infantis a jogar um jogo mais complexo e qualitativo do que muitas equipas de séniores. O escalão para o qual um exercício se destina, deve sim, por exemplo, equacionar a sua multilateralidade ou especialização como exemplificámos com o presente exercício, no parágrafo anterior.

Exercício 139 | Saída do GR após atraso em metade lateral

Avaliação da competência do treinador

“(…) fui mudando de canal e encontrei dois ou três iluminados pumba, pumba, a bater no Jesus. Mas a falar de pormenores e de treino e a dizer que tinha de fazer assim e assado. E eu penso: mas quem é que eles treinaram? Nunca treinaram ninguém na vida. Nunca lideraram ninguém. Mesmo os ex-jogadores. Quem é que eles treinaram? Foram jogadores e alguns deles nem foram exemplo para ninguém. Quando é que eles tiveram de tomar decisões sobre pressão? Onde é que eles foram avaliados e criticados ao mesmo tempo por tanta gente? Não foram. Mas chegam ali e o Jesus isto e isto e isto. Mas o Jesus ao pé deles dá-lhes dez a zero. Ou vinte a zero. E isso custa-me. Tal como eu não tenho hipótese nenhuma de estar aqui a falar de política, porque eu não estudo política e não sei o suficiente. Por exemplo, gosto muito de música, mas é só de ouvir, gosto disto ou daquilo. Não começo a discutir a música como se soubesse alguma coisa daquilo, porque não sei. Tudo bem, as pessoas podem discutir futebol e dar a sua opinião, mas não podem fazê-lo sem respeito.”
(Vítor Pereira, 2017)

Guarda-Redes

“(…) Mourinho elevou os graus de exigência, até para os Guarda-Redes. Aquilo que se espera do Guarda-Redes já não é o mesmo que se esperava. Exige-se mais e melhor, com e sobretudo, sem bola. Por causa de Mourinho e Ca., o jogo dos Guarda-Redes tem mais cérebro, mais sumo que nunca e, prova disso, é o salto estratosférico que a preparação e o jogar dos Guarda-Redes, assim como o rendimento dos mesmos nas equipas de Mourinho deu, nos últimos 20 anos. A José Mourinho e sobretudo, a Silvino Louro, tenho de agradecer. Porque me fizeram perceber desde cedo que, treinar Guarda-Redes não é só rentabilizar o tempo que tenho com eles a “chutar bolas”. É mais, é ter de entender o Jogo, fazer entender o Jogo. Ser um “Catalisador de Vivências”, ser mais Futebol.”
(Pedro Espinha, 2018)

Contra-ataque

“(…) o contra-ataque organizado permite-nos, depois de termos recuperado a bola, usar a nosso favor o que deveria ser um momento de pressão por parte dos adversários. Esta estratégia consiste em atacar (velozmente) o espaço que há nas costas dos adversários com um passe direto a um companheiro que se oferece em profundidade. É uma solução tática que permite usar de maneira óptima a superioridade numérica que se cria e, para a empregar o melhor possível, é necessário compreender que a mesma só será realmente eficaz com certos movimentos coletivos correctos.”
(Carlo Ancelotti, 2013)

Organização Ofensiva

Recuperando novamente o pensamento do Rui Jorge:

“(…) mas o importante é o que se faz para que isso aconteça. Não o resultado em si, mas tudo o que fazemos para lá chegar.”
(Rui Jorge, 2017)

Saber sobre o saber treinar III

“Um bom treinador é, em primeiro lugar, um gestor de conhecimento. Tem de se dizer isto, porque nós vivemos na sociedade do conhecimento. Uma pessoa que saiba organizar e organizar-se. Se sabe que vai treinar pessoas e não objetos, deve organizar-se mais para dirigir do que para comandar. Quem dirige põe os outros a pensar com ele, quem comanda normalmente não ouve os outros e quem ouve os outros aprende muito com eles. O treinador é especialista em humanidade.”
(Manuel Sérgio, 2017)

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“Para ter sucesso, é preciso ter ideias definidas para que os jogadores as possam assimilar. O dinheiro não compra isso. Alguns clubes gastam mil milhões (libras) e isso não lhes garante nada. Vamos ao mercado para contratar jogadores de topo mas isso não é tudo. O dinheiro é bom e vamos ser competitivos no mercado mas o que é importante é ter uma visão da forma como queremos ver o clube crescer. Trata-se de treinar, gerir homens, lidar com pessoas, ter um bom staff, encontrar uma causa para que os jogadores possam lutar por ela. É isso que temos feito”.
(Brendan Rodgers, 2014)

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“Os números só chamam a atenção, mas ofuscam a mensagem principal. Como te disse, se calhar por ter começado com 9 anos a jogar no FC Porto, fui habituado a querer ganhar sistematicamente, porque estava em equipas em que isso era possível, mostrar que éramos sempre os melhores em jogos e treinos. Isso é algo que vem desde a base, mas o importante é o que se faz para que isso aconteça. Não o resultado em si, mas tudo o que fazemos para lá chegar.”
(Rui Jorge, 2017)

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“Muitas vezes aquilo que eu fui como jogador limita-me em termos de leitura daquilo que está acontecer… Ele consegue descobrir soluções que eu no meu entendimento não consigo perceber, no momento não consigo perceber o que ele quer mas ele descobre porque ele tem muito mais qualidade do que eu algum dia tive e apesar de eu estar de fora ele é capaz de descobrir soluções… Aqui há uns anos se ele não jogava no movimento que eu queria, ficava chateado, porque achava que ele não estava a corresponder à dinâmica do colectivo. Agora deixo fluir, porque percebo que ele me consegue dar, a maior parte das vezes, soluções muito mais ricas do que aquelas que eu estava à espera.”
(Vítor Pereira, 2009)

Saber sobre o saber jogar II

“Ser um atleta excepcional, ou até genial, é sem dúvida distinguir-se, pelos primores técnicos, pela inteligência táctica e pelo alto rendimento, em relação aos demais colegas de equipa, mas é também estar essencialmente em relação com todos eles. Fora desta dialéctica de distinção e integração, o atleta excepcional não se compreende. A autonomia do singular não constitui um dado absoluto, dado que assim se lançaria ao esquecimento a plurideterminação do real”.

(Manuel Sérgio, 1991) citado por (Neto, 2012)

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“(…) esta transformação só é possível graças à nossa neuroplasticidade, que é a capacidade que temos de reorganizar estruturas nervosas e mentais em resposta a estímulos e necessidades. É um fenómeno fisiológico que tem uma relação muito forte com a aprendizagem. Um exemplo clássico de neuroplasticidade está nos cegos: eles compensam a falta de visão desenvolvendo a audição, o olfato e o tato para níveis acima da média. (…) Ericsson explica que, para desenvolver expertise sobre algo, é preciso um investimento de tempo e prática para que nossos corpos e mentes desenvolvam processos cognitivos eficientes e rápidos, com base em redes de neurónios, músculos e esquemas mentais fortalecidos e aprimorados depois de um longo processo de trabalho. É preciso se submeter a uma determinada atividade por muito tempo, de forma regular e sistemática, para garantir que as estruturas fisiológicas e mentais que facilitam a prática nao se desfaçam. (…) 10 mil horas é uma eternidade. Significa que qualquer progresso visível só vai surgir depois de muito tempo de treino. É como se sentir eternamente na estaca zero depois de praticar uma escala de dó maior no piano por horas. A impressão que fica é que a primeira coisa a se treinar é a determinação e a motivação para não desistir durante uma prática tão longa”.

(Monteiro, 2012)

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“Toda a diferença está na concepção de quem enaltece o supérfluo e não o essencial: o esforço só faz sentido quando se joga verdadeiramente; o músculo só conta se o cérebro estiver a funcionar; a velocidade só tem importância se quem a utiliza souber travar, tal como a coragem só serve de arma enquanto houver gente com medo.”

(Dias, 2002)

Criatividade II

“A criatividade não tem a ver com a dificuldade da acção técnica, e sim com a solução que o jogador descortina para que de um modo cumpridor (aumentando a probabilidade de sucesso pela organização e resposta a um ou mais princípios) consiga obter o resultado esperado.”

(Jorge D., 2011)

Fórum da ANTF 2019

“Nós, portugueses, temos a capacidade de ligar as pessoas. Pelo jogo, pelo nosso trabalho.”

(Carlos Carvalhal, 2019)

Sendo este projecto, prioritariamente direccionado para treinadores de Futebol, e sendo ele também Português, faz-nos todo o sentido abordar o Fórum da Associação Nacional de Treinadores de Futebol. Para mais, numa edição em que marcaram presença vários dos, reconhecidamente, melhores treinadores Portugueses.

Estes eventos, como é referido muitas vezes pelos seus participantes, mais do que um reforço ao conhecimento, surgem com uma excelente oportunidade para trocar experiências e promover ligações. A frase de Carlos Carvalhal, é assim, nos mais diversos contextos, extremamente feliz.

Na edição de 2019, foram abordados vários temas extremamente pertinentes, sem contudo sentirmos estar a viver um período de ruptura ou grande evolução no conhecimento do treinador. Mas, como no treino, nem sempre o percurso é feito de aquisição. Têm, obrigatoriamente de existir momentos de consolidação.

Sentimos, ao nível metodológico, estar perante um deles. Se há cerca de 10 anos atrás ainda se discutia sobre o que devia ser o núcleo das preocupações do treinador na construção do seu treino, hoje sentimos haver uma crença generalizada, de que o “jogar” da equipa deverá assumir esse papel. Deste modo, a Periodização Táctica, nos seus alicerces fundamentais, passou para muitos, de adversária a companheira de viagem. Na sua especificidade, nomeadamente ao nível dos seus princípios metodológicos, ainda subsiste um longo caminho a percorrer, muito devido à enorme complexidade que protagoniza. Porém, como vimos a referir há anos, a ruptura epistemológica mais importante ao nível metodológico, parece-nos ter vindo para ficar. Hoje, o treinador, e não nos referimos a alguns técnicos que gravitam à sua volta, acredita que treina-se para jogar, fundamentalmente… jogando.

O conhecimento do jogo, e o contexto cultural que o treinador encontra foi um dos temas mais abordados. Dadas as diferentes experiências culturais dos intervenientes no Fórum, a importância que o treinador deve dar ao contexto onde se insere, é hoje tida como decisiva. É fundamental o treinador ter ideias para o jogo da sua equipa, ter a sua metodologia, ter consciência e ideias para a sua liderança. Mas é também fundamental, que considere e tenha em conta o contexto cultural onde trabalha nas suas decisões. Só neste domínio, o seu papel exige que pense de forma bidimensional, interagindo entre as suas ideias e convicções, e as dos que lidera e suas características. Um treinador que é autista em relação a qualquer uma delas, coloca-se perante uma grande probabilidade de fracasso.

“Um treinador que chega ao Futebol Chinês ou Árabe, tem de estar preparado para ensinar o jogo e o treino, tem de estar preparado para ensinar coisas básicas.”

(Vítor Pereira, 2019)

Como também o será se igualmente ignorar a relação do Modelo de Jogo com a Dimensão Estratégica. É outra discussão que se encontra em cima da mesa: o peso da dimensão estratégica nas decisões do treinador. José Mourinho referiu que acredita que uma tendência evolutiva nas equipas será “as equipas terem vários sistemas tácticos dentro do mesmo Modelo, nomeadamente na Organização Ofensiva. As equipas já defendem tão bem e estão tão bem organizadas que para fazer face a isso, quem ataca tem de conseguir dar resposta com várias soluções”. Também o seleccionador português de Futsal, Jorge Braz, apresentou-se na mesma linha de pensamento, ao explicar que no seu trabalho pensa “a estratégia, procurando perceber quem tenho do outro lado, e procurando ter várias soluções e um pensamento aberto”. Se este tem sido um dos nossos pensamentos, de há muito para cá, parece-nos que a ideia de que uma Ideia de Jogo é muito mais do que um sistema, se está a generalizar entre os treinadores. A ideia, é tanto mais rica quando mais soluções conseguir garantir a problemas que os diferentes adversários e contextos poderão trazer ao jogo. Deste modo, sem cair numa amálgama de ideias com pouca coerência entre si, a necessidade que a realidade competitiva traz às equipas, potencia o crescimento de Modelos ricos e adaptáveis ao envolvimento. Para nós, objectivamente, as fronteiras dessa coerência, por motivos tácticos e consequentemente… humanos, estarão entre “jogares” que sustentem ideias colectivas e ideias individuais. Deste modo, não nos parece coerente conjugar métodos Defensivos e Ofensivos Colectivos, com métodos Individuais. São formas muito distintas de ver a realidade, de estar… e consequentemente… de jogar.

Mas esta evolução… tem obrigatoriamente… como constantemente defende o professor Manuel Sérgio, de surgir de uma relação entre a prática e a teoria. Se durante muito tempo se criticaram os dogmas dos que fundamentavam o conhecimento, exclusivamente pela prática, hoje parece assistir-se à inversão dessa lógica. Foi outra questão, pertinente, colocada no Fórum.

“Na nossa geração, tínhamos que vencer e depois fazíamos doutrina, hoje faz-se doutrina antes de se vencer.”

(José Mourinho, 2019)

Mas vejamos… estes debates que hoje estão em cima da mesa, relacionam-se com o jogo. Com a forma de jogar das equipas e sua relação com o envolvimento. Isto é para nós uma enorme prova da evolução do nosso conhecimento. Até porque em muitas culturas ainda se acredita que o físico-energético deve ser a grande preocupação do treinador no treino…

Paralelamente, actualmente, parece-nos que é ao nível da Liderança que o treinador está também perante grandes desafios. Os vários intervenientes no Forúm, relatando variadíssimas experiências, sublinham que são inúmeros os potenciais problemas com que o treinador se confronta diariamente nos mais diferentes contextos de jogo e realidades culturais. Na gestão da equipa e também do seu envolvimento. Hoje torna-se também fundamental ao treinador conhecer o homem que lidera. Na sua generalidade e na sua especificidade. Actualmente, apenas dirigir, deixou de funcionar. É fundamental interagir. As redes sociais, como abordado, são um bom exemplo das tremendas mudanças que a sociedade enfrenta, e consequentemente, o papel do Treinador. Como referimos atrás noutro contexto, ser autista também em relação a este domínio… é condenar-se ao fracasso. Por arrasto, por exemplo, como Vítor Pereira referiu, no Futebol Profissional acabaram-se os contratos de uma página. São agora às dezenas, contemplando os mais ínfimos pormenores. O que traz ao treinador, a necessidade de reforçar a sua equipa técnica com especialistas de mais áreas. Contudo… partindo e reduzindo… “sem empobrecer”… e sem perder o sentido e o controlo do “todo”.

Mas há um ponto em que, nós portugueses, somos unânimes. A qualidade das ideias do treinador português, a sua criatividade como não se cansa de referir Jorge Jesus, mas também o sublinhou Rui Quinta, e fundamentalmente, o impacto do seu trabalho. Mesmo, como abordámos há pouco tempo noutro artigo, em condições de trabalho na maioria dos casos, paupérrimas. Rui Quinta, ilustrou precisamente isso no seu trabalho no Sporting Clube de Espinho, no terceiro escalão do Futebol Português. Partilhou que operacionaliza várias sessões de treino por semana num campo secundário, que mais parece um terreno baldio, com piores condições que muitos espaços onde as crianças jogam na Rua. Mas em vez de encarar o cenário como um problema, encara-o como um desafio e uma oportunidade para estimular outras coisas, muitas que eram vividas pelo próprio Futebol de Rua.

Isto levantará sempre uma questão: será que é por essas dificuldades que o treinador português é uma referência a nível mundial? Naturalmente, que inventar soluções para os mais diversos problemas, a precariedade na sua profissão, juntando a uma enorme concorrência e competitividade para o desempenho da mesma, ajudam. Mas, dados os sentimentos que a maioria expressa, o mais importante acreditamos ser a sua paixão pelo jogo, pelo treino e pela missão. Por outro lado, os enormes benefícios que poucos alcançam serão “apenas” um bónus e não será por isso que é movida, a maioria. Se a premissa fosse simplesmente a falta de condições de trabalho, os melhores treinadores do mundo surgiriam de muitos países Africanos, Asiáticos e até da América do Sul. A realidade não é essa.

Para os que são principais responsáveis pela precariedade da função e das condições de trabalho, não adianta apontar que… perante algumas realidades… será bom não ter as melhores condições. É definitivamente um pensamento errado. Para o treinador e para a sua equipa, é sempre melhor ter o máximo de condições. Onde se inclui o campo pelado cheios de buracos. Para que algumas vezes, o treinador possa optar (e não ter que obrigatoriamente recorrer a ele), em detrimento do campo do relvado perfeito. Porque… estímulos diferentes, adaptações diferentes. Porque… é pelo conhecimento, pelo sentir, planear, operacionalizar e liderar, que a gestão do treinador desses recursos se deve realizar. E então aí, eventualmente surgirá também a sua genialidade.

E vamos ainda mais longe… imaginamos o cenário onde a maioria dos treinadores não tem a mente ocupada por preocupações mais básicas, como contas para pagar no final do mês ou o seu futuro. Um cenário, onde simplesmente tem a possibilidade de ser… profissional… numa área em que lidera a nível mundial e eleva Portugal a um reconhecimento e a mais valias económicas… incríveis.

Infelizmente, perdeu-se mais uma oportunidade para abordar este problema basilar. Com quem realmente interessa, porque muitos dos presentes, apesar de terem atingido o topo ao nível profissional, também passaram pelas dificuldades da maioria. Mas como é habitual, a representação política no Fórum, foi extremamente elogiosa ao treinador português, porém parece apenas preocupar-se com a minoria dos treinadores. Sendo assim, voltamos a lembrar: são estes “responsáveis” que estão no topo da hierarquia. Portanto, mais do que são com estes com quem os treinadores trabalham… são contra estes que o treinador trabalha.

“Se não fores feliz, não podes ser treinador.”

(Fernando Santos, 2019)

A estratégia os meios e a identidade

 

https://www.facebook.com/SaberSobreOSaberTreinar/videos/343446756499258/

“Os exércitos não têm identidade, têm é meios. O futebol tem é que ter meios. Se a identidade for isso, muito bem. Se a identidade não for isso eu discordo completamente.”

(Silveira Ramos, 2019)

 

“Se nós formos fazer um estudo da quantidade de golos que ocorrem nos últimos 2 anos em Portugal, com a quantidade de bolas que saíram do Guarda-Redes para os Defesas-Centrais, se calhar é… 3000% a mais do que era nos anos anteriores. Porque agora identidade é toda a gente querer sair com os Guarda-Redes a jogar com os Defesas-Centrais, e às vezes não há condições para isso.”

(Silveira Ramos, 2019)

 

“O Barcelona tem sido muito copiado e eu acho que as pessoas às vezes só copiam metade, só percebem metade do que se lá passa, e portanto, ou copiam tudo ou não copiam nada, portanto acho que é melhor não copiarem nada e cada um procurar os seus meios.”

(Silveira Ramos, 2019)

Finalização

“Eu jogava com o Marco Van Basten no Milão. Eu perguntava-lhe como lhe deveríamos entregar a bola. Ele dizia, “passem-na apenas, e depois comecem a correr para festejarmos”. Ele estava sempre convicto que iria marcar, e normalmente estava certo.”

Carlo Ancelotti, citado por (Henry, 2018)

Acções individuais ofensivas + Organização Ofensiva | Finalização | Controlo de bola aérea + Remate em pontapé à meia volta | Rony Lopes 2019

A falta táctica

Recentemente, num programa televisivo, discutia-se a falta… particularmente a que se vulgarizou na gíria, como “falta inteligente”. Se logo à partida existe uma conotação que a pode identificar como um comportamento inteligente, revela que na opinião de muitos, falta pode significar uma boa decisão. Porém, evidentemente que isso por si só, não nos diz muito. O que não faltam no futebol são lugares comuns, tantas vezes repetidos e que não se questionam.

Se a falta marca presença no regulamento do jogo, obviamente faz parte do mesmo. A sua génese é simples. Numa análise fria, como sucedeu em todos os desportos, e num contexto mais amplo noutros domínios da sociedade, a determinado momento surgiram indivíduos que quiseram obter sucesso na actividade em causa recorrendo a a formas de actuar que a maioria condenou. Com tal, essa maioria criou leis e regras de forma a penalizar esses comportamentos. Ignorar esses comportamentos nesses momentos, não seria certamente a atitude certa para a evolução do jogo ou, na perspectiva mais ampla, de uma sociedade. Tal como ignorá-los agora, não será com certeza a atitude certa de forma a dar continuidade a essa evolução. Defende-se muitas vezes a ideia de que a evolução táctica do jogo, sucedeu nos seus momentos defensivos por resposta a novas ideias ofensivas, e vice-versa. Então o mesmo sucederá com a sua regulamentação.

Um exemplo concreto foi a situação do atraso de bola para o Guarda-Redes, recorrendo aos pés. Durante quase um século de jogo foi um comportamento permitido. Até que, a determinado momento, as equipas perderam um eventual “constrangimento moral”, ou então, noutra perspectiva, ganharam lucidez táctica, e uma vez mais numa análise fria e objectiva, utilizaram essa possibilidade que o jogo oferecia para manterem a posse de bola e evitarem que o adversário atacasse. Os opositores teriam então que pressionar muito alto para evitar a situação, algo que também devemos ter consciência, não muito habitual no jogo da época, pelo menos de forma organizada, o que trouxe problemas ao jogo das equipas. Outra leitura da situação, mais “romântica”, é que as equipas estariam a incorrer em comportamentos anti-desportivos e estavam a abdicar de jogar. A questão é que, na realidade, jogar, é tudo o que as leis do jogo permitem e sancionam. Enquanto se está em jogo… joga-se. Da forma “A”, “B”, “C”, etc… fazendo-se mais ou menos faltas… mas, joga-se. Jogar, não é o que a perspectiva, ou cultura, que cada um de nós tem do jogo, indica como importante. Todos nós formamos opiniões e convicções sobre cada jogar. Se é mais estético, se é mais eficiente, se é mais eficaz. Se esse jogar também expressa os valores humanos que nos alicerçam. Mas não é isso que está aqui em causa.

Portanto sublinhamos: enquanto um jogador está em campo e o jogo decorre, ele joga. Movimentando-se, posicionando-se, ou por exemplo, realizando uma intercepção, um passe, um remate… ou mesmo fazendo uma falta. Repetimos, não estamos a tecer juízos de valor às diferentes decisões que o jogador pode tomar em campo. Mas a realidade é que as leis do jogo permitem que o jogador possa decidir a falta como eventual recurso. Caso contrário seria expulso de imediato. Em determinado momento, o jornalista (Tadeia, 1999), identificou “a proliferação da falta táctica, estratégia usada para impedir o desenvolvimento do futebol do adversário sem causar grandes mossas no cadastro da equipa que as comete”. O mesmo autor opina ainda que “a falta táctica é um flagrante exemplo de benefício do infractor, uma vez que obriga o adversário a recomeçar a sua movimentação, pois permite a recolocação da defesa da equipa que a comete. Por isso, é urgente que este tipo de infracção seja punida nas leis do jogo”. Paralelamente, (Torrijos, 2001) descreve que “a “falta táctica” é efectuada mais pelos médios do que pelos defesas. A falta táctica é a cometida numa zona do campo pouco perigosa de forma a parar um contra-ataque e permitir tempo a que a equipa que a efectua se reorganize. A questão plantou-se quando Albelda fez dez faltas a Zidane no arranque da Liga. O resultado  do castigo (livre directo no centro do campo) é menos penoso que a ameaça de contra-ataque”. Foi então, nessa fase da evolução do jogo, identificado um problema com a acumulação de faltas deste género por determinado jogador. Nessa altura foi então solicitado às equipas de arbitragem que fossem menos permissivas e punissem, disciplinarmente, um jogador que recorresse sistematicamente à falta. A partir daí vemos o árbitro mostrar cartão amarelo enquanto sinaliza gestualmente a acumulação de faltas desse jogador. Um exemplo da evolução do jogo perante um problema identificado. Assiste-se hoje a uma redução no número dessas faltas, o que obrigou as equipas a desenvolverem outras formas de minimizar os contra-ataques perigosos do adversário. Serem mais rigorosas ao nível posicional e na gestão do espaço no equilíbrio defensivo no ataque, é um bom exemplo.

Assim, a discussão pode ser realizada em torno do peso da penalização em determinadas situações de jogo, mas sempre com a consciência que a penalização máxima por qualquer falta, nunca sucederá. Caso contrário, estaríamos perante outro jogo, que não Futebol. Desta forma, enquanto subsistir a falta que não expulsa o jogador da partida, não prejudicando com isso a sua equipa de forma grave, ela será sempre uma possível decisão. E como tal, entrando então no campo da cultura de jogo de cada um, determinada falta, poderá então ser perspectivada como má ou boa decisão. Como decisão inteligente ou não. Neste contexto o autor (Bouças, 2017), dá um exemplo, defendendo que “sem situação controlada em termos numéricos e de espaço, surgem as faltas tácticas como uma marca bem definida das equipas mais inteligentes. No passo à frente, encostar nas costas, e parar em falta com portador sem enquadramento, significa que não há sequer risco de admoestação disciplinar, e de transição defensiva, o jogo pára e entra-se no momento de organização. Onde é substancialmente mais difícil ferir quem tem os melhores, sobretudo quando bem organizados”. Também o espanhol Jesús Botello em (The Tactical Room, 2019), explica que acumulando muitos jogadores em organização ofensiva no meio-campo adversário, “a falta táctica afigura-se vital para evitar contra-ataques”.

Então, se a táctica se constitui como todo o comportamento voluntário em campo. A falta… nessas circunstâncias, torna-se assim, táctica. Prevendo e aceitando depois, o jogador e a equipa, as suas consequências. Na obra “Guía para jugar a fútbol”, os autores (Benigni et al., 2016) também concordam com esta perspectiva ao referirem que “uma das circunstâncias que ocorre cada vez mais no futebol moderno é a chamada falta táctica, que consiste em realizar uma acção voluntariamente incorreta para cortar uma acção contrária, que, continuando, coloca em grande perigo a equipa. Fala-se de uma falta táctica, porque a acção ocorre longe da grande-área, ou seja, na zona de meio-campo, onde, teoricamente, ainda não constitui um grande perigo para a equipe que defende”. O treinador Fran Beltrán em (Club Perarnau, 2013), vai mais longe e explica que o seu Modelo de Jogo “variará se sei que em determinado país são mais ou menos permissivos com o cartão amarelo perante a falta táctica”.

Para nós, a falta enquanto comportamento opcional tem de estar circunscrita aos valores que alicerçam o nosso jogo. Nunca colocando em risco o bem estar físico do adversário, nunca de forma a ludibriar o árbitro e as leis do jogo. Portanto aceitamos e definimos a falta como uma possível decisão, sempre como último recurso em situações nas quais outras acções falharam, e também sempre conscientes das respetivas penalizações que as mesmas enfrentam. Assim, trata-te para nós de uma decisão pontual e não recorrente, mas sim, uma decisão, que em determinadas circunstâncias, se revela… inteligente.

O jogo de Futebol não é aquilo que desejamos que seja. O jogo de Futebol é aquilo que de facto é. Ignorar isto é, ignorar as regras do jogo e jogar em desvantagem. E devemos ter a consciência que os mesmos que apelam ao romantismo do jogo sem faltas, serão os mesmos a crucificar esse romantismo quando o mesmo enfrentar o insucesso.

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