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Quando apenas se domina a grainha da uva e depois se quer andar na vinha e na adega a produzir vinho

“Nós hoje temos um sentimento de exaustão que é desligado do corpo, o corpo está em local incerto, está esquecido. Houve uma valorização excessiva de uma sociedade baseada no produto, na competição, na produtividade a qualquer preço e não no sentido da existência. Mais, numa sociedade neoliberal, criou-se quase uma auto-exaustão, uma auto-repressão e isso esgota as pessoas.”

(Carlos Neto, 2021)

Em primeiro lugar, não se trata de uma opinião de um cidadão qualquer. O autor da mesma é administrador de uma empresa parceiro oficial de saúde da Liga Portugal e de várias associações de futebol, portanto alguém da área da medicina desportiva e com aparente responsabilidade no nosso futebol. Assim sendo, seria então importante perceber a especificidade do mesmo e não recorrer a lugares comuns e a uma linearidade de pensamento preocupante na explicação de fenómenos que são complexos.

Naturalmente foram ditas várias coisas com as quais concordamos. Mas pelo menos uma mereceu um desacordo tal que nos levou a apontá-la. E a razão para isso passa pela contínua invasão do futebol de formação por adultos com pouquíssimo conhecimento do fenómeno, pela contaminação do jogo com áreas que se distanciam da especificidade do mesmo e pelo afastamento que o mesmo vai protagonizado das práticas que no passado produziam talento de forma brutal. Somando a isto, a condição físico-mental e até a saúda das crianças… deteriora-se. Em cima da mesa não está só a justificação dos “riscos sociedade actual” para o desaparecimento dos jogos na rua, da autonomia e respeito pela individualidade de cada criança. Há muitos adultos sedentos para se intrometerem e lucrarem com o potencial de negócio que o futebol de formação hoje emana. 

Com isto não nos referimos directamente ao entrevistado. Ele será só o último da cadeia. Referimo-nos a treinadores e dirigentes que se apresentam distantes, para não dizer outra coisa, do que o Futebol de Formação requisita. Depois temos auto-intitulados especialistas em “treino individual”, que muitas vezes não dão treinos… individuais… de futebol. Dão treinos de mecanização e robotização de gestos técnicos, de fitness, musculação e atletismo. Perante tudo isto a falta de qualidade no treino é gritante. O próprio jogo é relegado para segundo plano e a intervenção do adulto é catastrófica. Dentro e fora do campo.

No final da linha surgem outros especialistas de outras áreas, mas não de futebol de formação, a explicar que o problema está na quantidade e no volume de treinos e competições. Referem-se a treinos, de cerca de 60 a 90 minutos. Quatro, três e até duas vezes por semana, e na maior parte dos casos um jogo por semana. Um contexto de treino, e até jogo, cheio de descontinuidade, de mais tempo de adultos a instruirem e a dirigirem do que a se jogar ou praticar, e jogos de 60 a 70 minutos, os quais que com eventuais substituições, em média, potencialmente uma criança pode não jogar mais de 30 minutos. Se é que jogar…

Isto num tempo em que se lamenta o sedentarismo e a falta de actividade física nas crianças, e principalmente, como diria o brilhante Professor Carlos Neto, a ausência do jogo, esse veículo fundamental no desenvolvimento da criança.

Miguel Gouveia Brito, não sei se se recorda, quando éramos crianças, muitos de nós jogávamos futebol quase todos os dias. Muitas vezes mais do que 2 horas por dia. Em pisos muitas vezes diferentes e de rigidez e tração diferente. Em contextos de competitividade incrível. Apesar de tudo isto o género de lesões a que se refere eram raríssimas.

Miguel… o principal problema não está na quantidade do treino. Está na qualidade.

“Agora até os miúdos os fazem, sobretudo, correr, quando a sua preparação deveria ser com bola fundamentalmente. Têm apenas uma hora… Dá-lhes uma bola!”

(Ángel Cappa, 2008)

A construção do talento

“As habilidades são apenas circuitos no teu cérebro.”

Daniel Coyle

 

Um tema desta importância e magnitude merecerá uma abordagem mais profunda no futuro e uma página exclusiva no projecto Saber Sobre o Saber Treinar. Inclusivamente, o talento já foi contextualizado num artigo recente sobre a nossa visão do desenvolvimento do jogador de Futebol. Mas tal não nos impede de irmos acrescentando ideias e conhecimento sobre o assunto.

Torna-se fundamental compreender em definitivo que o talento, ao contrário do que durante muito tempo era defendido, trata-se de uma construção. Nenhum ser humano nasce a saber e dominar determinado assunto, área ou actividade. Isso acontece quando várias condições… e tempo… se reunem. O professor Júlio Garganta justifica que se parte “do princípio de que o talento, que um jogador de futebol já nasce, um grande treinador já nasce, um grande músico já nasce. Isso causa-se algumas dúvidas importantes, porque não só porque há vários estudos que comprovam que isso não é verdade, não há em nosso genoma de entre 25.000 a 27.000 genes, nenhum que tenha sido identificado como traduzindo o que é um arquiteto, um jogador de futebol, não digo já se é guarda-redes, avançado, médio, um pivô, um médico ou músico, algo assim, não foi encontrado até agora. Quando olhamos para as histórias de vida dos grandes executantes, em várias atividades humanas, vemos que o que devemos fazer é perceber a história onde começaram, como se desenvolveram, as oportunidades que foram criadas, as que não foram criadas, as que foram conquistadas. E vemos que o talento se treina, se aprende, é muito construído. Muitas pessoas têm, e é por isso que digo que o potencial talento pode existir antes, mas o jogador só existe depois do treino dos jogos”.

É referido no vídeo que “a cultura em que vivemos faz uma grande diferença”. Facilmente se compreende porque é que, entre outros exemplos, um país como os Estados Unidos da América, perante o seu volume populacional, programas desportivos escolares e condições disponibilizadas para a prática desportiva, não gere a quantidade de talento que por exemplo emerge no Brasil. Já para não darmos exemplo de países mais pequenos como Portugal. Entre várias diferentes condições destaca-se o diferente valor social dado ao Futebol o que influencia mais ou menos jovens à sua prática deliberada intensiva. O professor (Silveira Ramos, 2003) sustenta que “tendo o futebol um grande impacto socio-cultural e desportivo, isso provoca uma enorme atração para a sua prática, e normalmente é na rua que, por hábito, começa a paixão e o gosto pela prática do futebol, sendo “iniciada por muitos praticantes de forma absolutamente espontânea, sem qualquer base teórica nem orientações para a sua aprendizagem”.

Ora, essa prática “espontânea” ou deliberada, requisitará uma necessária adaptação do conhecimento da criança ao fenómeno complexo que é o jogo de Futebol. Como é dito no vídeo, o cérebro humano, e ainda mais enquanto criança e jovem, detém uma enorme neuroplasticidade e capacidade de aprendizagem possibilitando a aquisição de qualquer conhecimento ou habilidade… o que no fundo… também é conhecimento como referia Daniel Coyle. Até a reconhecidamente complexa física quântica. Não acredita? A autora (Zeeya Merali, 2023) relata uma experiência educacional que envolveu 54 estudantes, com idades entre os 15 e os 17 anos. Os mesmos “foram seleccionados aleatoriamente de entre cerca de 1.000 candidatos, de 36 escolas do Reino Unido – maioritariamente escolas públicas. Os adolescentes passaram duas horas por semana em aulas online e, após oito semanas, realizaram um teste utilizando questões de um exame de física quântica de pós-graduação de Oxford. Mais de 80% dos alunos foram aprovados e cerca de metade obteve distinção”.

Para não alongarmos muito esta abordagem ao tema, deixamos a visão de dois “cientistas do talento”. Os autores (Anders Ericsson & Robert Pool, 2016), através dos seus estudos, explicam que “se conversares com estas pessoas extraordinárias, perceberás que todas elas entendem isto a um nível ou outro. Podem não estar familiarizadas com o conceito de adaptabilidade cognitiva, mas raramente aceitam a ideia de que atingiram o pico nos seus campos por serem os sortudos vencedores de alguma lotaria genética. Elas sabem o que é necessário para desenvolver as habilidades extraordinárias que possuem porque experienciaram isso em primeira mão“.

“Tive sorte porque na minha geração, onde vivia, havia muitos rapazes da minha idade. Fora da escola, o tempo todo era: “Vamos jogar futebol.” Eu sempre tinha cerca de cinco ou seis rapazes a jogar futebol comigo. É a forma clássica de futebol de rua, não é? Mas o meu irmão Marcel não teve isso porque só havia raparigas da idade dele. Por isso, para ele era completamente diferente. Ele não tinha ninguém da idade dele para jogar. Então ele tinha que jogar ou comigo e com os meus amigos ou com o Ronald, que é mais velho. Por isso, quando as pessoas me perguntam: “Como é que te tornaste num jogador de futebol profissional?” talvez seja uma das razões.”

Dennis Bergkamp em (David Winner, 2013)

“O futebol é um jogo de erros. E dos erros aprende-se.”

O superpoder de Viktor Gyökeres

“Tinhas que ser esperto e usar o que estava à tua volta. (…) Ser preciso, inventar… era essa a ideia.”

“O jogador português gosta de ter clareza táctica, gosta de ter informação táctica.”

“A geração que está, e quando digo geração estou a pensar nos que têm 17 e 39 anos, é formada por jogadores com cultura tática tão grande que quando falam é uau! É incrível. Têm uma linguagem, conhecimento e uma mentalidade completamente diferente. Tem a ver com isso: cresces com uma cultura, com uma paixão pelo jogo tão grande que este tem de ser o resultado. E isso tem de ser incentivado.”

(Vítor Matos, 2024)

Roberto Martínez toca nas duas principais qualidades que faltavam ao “jogador português” para darmos o salto competitivo colectivo e nos aproximarmos dos troféus. A paixão pelo jogo não é uma delas porque essa, desde que há memória do jogo em Portugal, sempre por cá existiu.

A transposição da competitividade que manifestávamos entre nós, não só noutros contextos culturais, mas também no jogo da “rua” para a competição formal e principalmente, internacional, fez crescer o jogador português para o patamar dos melhores. Dessa forma, hoje, não é surpresa para nós termos portugueses nos melhores clubes e equipas do mundo e que a nossa selecção seja reconhecida como uma das melhores.

Ainda em plenos anos 80’s e início dos 90’s o nosso Futebol vivia um clima de desconfiança no seu potencial, de conformismo com a nossa pequenez geográfica e populacional e de nos posicionarmos num segundo plano internacional no âmbito do jogo. Na realidade, não só do jogo, mas aqui o nosso foco vai para o Futebol. Vitórias sobre as “poderosas” Alemanha e Inglaterra, por exemplo, eram surpreendentes e celebradas como feitos dificilmente igualáveis. Hoje, como o nosso seleccionador e jogadores nos transmitem, são exigência. Dos próprios. A mudança cultural foi então enorme.

Um dos grandes, se não o principal momento desta mudança, foi o trabalho de Carlos Queiroz e Nelo Vingada com as selecções jovens no final da década de 80. De imediato foram colhidos frutos competitivos em campeonatos jovens, mas perante o fulcro do Futebol de Formação, não seriam esses os mais importantes. Passados alguns anos, essas gerações, na equipa principal portuguesa, mas também em vários grandes clubes por toda a Europa alcançaram um sucesso continuado. Esse sucesso influenciou e contagiou quem veio a seguir.

Mas a mentalidade não cresceu no vazio. Para além da criação de grupos coesos e fortes, Queiroz e Vingada, estimularam qualidades e passaram, de forma intensiva, ideias e conhecimento sobre o jogo. Além disso produziram conhecimento para terceiros, que ainda hoje se revela actual. A partir daí, clubes, universidades, jogadores e apaixonados pelo jogo na comunicação social e mais tarde na internet, contribuíram para a revolução a que assistimos e da qual hoje colhemos frutos. Como consequência cresceu a confiança nesse género de processo. Federação e clubes investiram, organizaram-se e proporcionaram contextos de qualidade aos jovens jogadores. Ainda que na maioria dos clubes o processo esteja a ser errático, lento e duro.

O jogador português passou, não só de apaixonado por esse conhecimento, como convicto da sua importância na obtenção de sucesso. A esse conhecimento se tem chamado táctica. Porém, ela não se restringe ao conhecimento teórico, a ideias, ou se reduz ao sistema ou mesmo princípios de jogo. A dimensão táctica que nos elevou ao actual patamar, como defende o professor Vítor Frade, não é apenas uma dimensão. É muito mais do que isso. É uma supra-dimensão. O que significa que engloba todo o comportamento do jogador e da equipa. Comportamento que emerge da interação de qualidades físico-motoras, recursos técnicos, conhecimento do jogo, aptidão emocional e / ou mentalidade. O que isto significa, é que o conhecimento do jogo entre outras qualidades, potenciou o sucesso e consequentemente fez crescer a confiança. E de forma geral, a mentalidade. E desse modo, tal sucesso provocou mais procura por conhecimento. Tal como Roberto Martínez aponta. 

Hoje, o apetite do jogador português por informação não é uma questão de moda. É, junto das outras qualidades, um reconhecimento do caminho que nos levou ao sucesso que actualmente vivemos. É esse todo, a táctica, enquanto supra-dimensão, ou por palavras mais simples, o… “jogar” de… sucesso que jogadores e treinadores perseguem, que faz com que um país tão pequeno como também defendeu o nosso seleccionador na mesma entrevista, se torne incrível e único no mundo do ponto de vista da produção de talento para este jogo. Essa vantagem não é portanto genética, é… cultural!

“O indivíduo todo, inteiro

emerge da cultura táctica

que sustenta o bom jogo, primeiro

no jogar o jogo como prática!”

(Vítor Frade, 2014)

O Desporto Escolar enquanto oportunidade para passar valores. A jogadores, treinadores e pais.

“O técnico aponta para o desporto escolar como caminho para criar a cultura desportiva que falta e que poderia gerar interesse e aumentar a presença em estádios e pavilhões para jogos ao vivo, algo ainda em falta num país que já consegue formar atletas incríveis.”

(Vítor Matos, 2024)

O pensamento de Vítor Matos sobre o Desporto Escolar é sem dúvida interessante e importante, sendo fundamental a reflexão sobre o papel do mesmo no desenvolvimento do Desporto associativo.

Se do ponto de vista desportivo, um maior investimento neste contexto propiciaria mais um espaço que procurasse colmatar o desaparecimento das práticas e jogos que se realizavam na “rua”. Simultaneamente permitiria oportunidade de prática e evolução aos jovens que, ou ainda não manifestam o desejo de progredir no seu percurso desportivo, ou que não são seleccionados para o desporto formal (clubes). É sabido que os timings de maturação e desenvolvimento são diferentes para cada um e que muitos, também por essas razões acabam por não encaixar imediatamente nos clubes. Esse é outro problema, outra discussão.

“Está a acontecer uma espécie de fabricação de campeões em laboratório, o que é uma ilusão. Tem de haver um trabalho correto ao nível do clube, da escola, do desporto escolar, da educação física… Porque o trabalho no clube e no desporto escolar é para os que têm mais jeito, mas a educação física é para todos. Mas em todos estes casos há que respeitar as tais etapas de desenvolvimento das crianças e dar-lhes autonomia e liberdade de participação.”

(Carlos Neto, 2017)

Porém, o Desporto Escolar nunca será o verdadeiro substituto da “rua” e o principal meio introdutório da criança ao jogo e ao desporto. Deste modo tudo deverá ser feito para preservar a “rua” e todas as suas qualidades. Desde logo por ser genuinamente prática deliberada, território sagrado da autonomia, da auto-aprendizagem, da criatividade e derradeiramente, da… liberdade. Porque o Desporto Escolar será sempre dirigido por adultos, com tudo o que de bom e mau estes potencialmente podem trazer. Paralelamente, se no mesmo também há assistência, nomeadamente dos pais, isso torna o contexto abissalmente diferente.

E sobre estas duas últimas características, torna-se importante dar dois exemplos negativos, até para percebermos o que urge mudar. No actual Desporto Escolar existem treinadores que o conduzem como se tratasse do desporto de rendimento dos adultos. Existem exemplos de treinadores que, em competição, deixam, sistematicamente, jovens jogadores e jogadoras com pouca ou sem qualquer minuto de utilização. Tudo pelo resultado. Se já seria altamente questionável em treinadores de formação, quando são professores de Educação Física a fazê-lo, se a situação já era grave, torna-se ainda mais perversa. Ou, noutro exemplo, quando o feedback e o estilo de liderança na relação como os jogadores / jogadoras é tão agressivo e autocrático que até com adultos os mesmos seriam questionáveis.

Por outro lado, os maus exemplos também vêm da assistência, propriamente dos pais. Exemplos de palavras agressivas, injuriosa e repletas de ódio, contra árbitros, adversários e os próprios filhos chegam-nos com uma frequência assustadora. Inclusive relatos de agressões entre pais. Futsal, basquetebol, voleibol. Não é o desporto em si e até os maus exemplos que possam vir do desporto de rendimento que são decisivos. O que é decisivo, são a falta de regras, de educação, de valores. Dos adultos. Sendo que a crescente desvalorização dos contextos informais, semi-formais, formais e da própria educação física contribuem decisivamente para sintomas preocupantes que vamos assistindo na nossa sociedade. Porque, quer acreditem, quer não, o desporto e o jogo, são um dos principais veículos de transmissão de… bons… valores.

Assim, concordando com as palavras de Vítor Matos, mas mais do que cresçam em número, preocupa-nos que os espectadores cresçam em qualidade. Será um enorme desafio para o Desporto Escolar, mas também para o federado, a educação desses espectadores. Até porque o cenário alternativo, a proibição de espectadores no Desporto Escolar e mesmo no federado de Formação, colocando a possibilidade de resolver o problema a curto prazo, criará um ambiente hermético que não preparará os jovens desportistas para a pressão que mais tarde irão ser sujeitos na eventualidade de progredirem para o desporto de rendimento. Mas até podemos até acrescentar… em muitas outras vias profissionais. Por outro lado, proibindo espectadores nesses contextos, perder-se-á essa oportunidade preciosa de fazer reflectir e passar valores em quem frequenta a bancada. Porque nunca é tarde para crescer.

“Devemos olhar para os espaços de treino com mais cuidado; devemos olhar para a formação de treinadores com mais cuidado; devemos olhar para o desporto escolar com muitíssimo cuidado e atenção, pois é o desporto escolar que é o início de tudo. Se Espanha, Alemanha e Inglaterra avançaram, esteve tudo muito na base do desporto escolar, na forma como os professores e a dinâmica do ensino despertou os alunos para aquilo que são as necessidades da prática desportiva e despertou os pais para esse fenómeno.”

(Luís Castro, 2018)

A melhor “cueca” da vida de Ricardinho

“Após estreia oficial de Maradona, aos 15 anos, nos Argentino Juniores vindo do banco, no final do jogo, os jornalistas argentinos abordaram-no e ele só falava de um túnel ou uma “cueca” e perguntaram-lhe porquê esse fascínio que ele tinha pelos túneis. E ele ao longo da sua carreira tinha acumulado uma série de túneis e fazia questão de nomear a pessoa que tinha fintado, e o próprio Cabrera tinha sido a primeira vitima. Mas no fundo não era vitima porque sentia-se tão orgulhoso de ter sito o primeiro que contava a toda a gente com pompa e circunstância como se também fizesse parte da história. E de facto fez. Em 1976 Maradona estreia-se e Cabrera torna-se o maior actor secundário de sempre.”

(Rui Miguel Tovar, 2016)

O talento, a qualidade e a relação da “rua” no desenvolvimento de ambos. E ainda o potencial.

“Que saudades… (de Jackson Martínez e de James Rodríguez). Com os jogadores que fui tendo depois… percebi que não sou Deus…” 

(Vítor Pereira, 2017)

Os treinadores de Futsal, Nuno Silva e Cláudio Moreira, vão ao encontro de uma ideia que temos vindo a desenvolver. O que é o talento, o que é a qualidade individual e a relação da tão falada “rua” no desenvolvimento de ambos.

Apesar de muito referidos, quer por quem joga e treina, quer em bibliografia e por quem pensa o processo, a verdade é que não estão claros. Nem o que realmente significam, nem a sua abrangência. Nós temos uma proposta aparentemente idêntica à visão destes dois treinadores.

“Como família, éramos naturalmente rijos. Os meus pais eram rijos e o ambiente em que crescemos era rijo. Caíamos e voltamos a levantar-nos. E damos sempre o nosso melhor e tentamos ganhar. Detestávamos perder.”

irmão de Michael Jordan, Ronnie Jordan em (The Last Dance, 2020)

Antes, há ainda outra ideia que é a propensão genética. Ou seja, a influência que os genes herdados terão no talento. Uma noção clássica que ditou durante séculos vários papéis sociais e que também surgiu no desporto. Porém, vários autores como por exemplo Daniel Coyle, Anders Ericsson e Robert Pool têm-se dedicado ao tema e têm descrito um papel residual da genética no desenvolvimento do talento. Mais do que uma propensão genética, referem a importância de uma propensão social ou contextual. Seja qual for a sua influência, é o talento que apontamos como o primeiro patamar para obtenção de um elevado nível qualitativo no jogo de futebol.

“O jogador de futebol ‘faz-se’. Levei esta ideia para o Barcelona e foi uma confusão total. Eles acreditavam que o jogador de futebol nasce feito. Quase toda a gente no futebol ainda pensa assim hoje em dia. Veja, perguntei a jogadores de futebol: quantas horas na tua infância, todos os dias, dedicavas ao futebol? As respostas dos mais velhos variavam entre 6 e 8 e os atuais nunca menos de 4. E Maradona e Messi deram-me a mesma resposta: ‘Quantas horas? Todas!!’. Acreditar que o jogador de futebol nasce ensinado é um grande erro, nem mesmo acontece com os grandes craques. Cruyff é um bom exemplo; os que o viram jogar com aquela espantosa facilidade para tornar fácil o mais difícil, pensavam que ele tinha nascido jogador. Não acreditem, Johan teve a sorte de nascer junto ao campo do Ajax e de a sua mãe ser funcionária do clube. Se tivesse nascido num lar eminentemente musical, com pais profissionais e apaixonados por esta arte, Cruyff, dada a sua grande inteligência natural, teria sido um grande músico, mas não jogador de futebol.”

(Laureano Ruiz, 2014)

Em cima da propensão genética e contextual constrói-se então o talento. Para nós este surge principalmente em regime autónomo, em auto-descoberta, auto-aprendizagem e prática intensiva deliberada. Portanto, na rua, em casa, na escola, etc., mas quase sempre em auto-iniciativa e através de um desenvolvimento não assistido e liderado. É no fundo o estado mais puro do jogador de futebol, porque ainda não foi aculturado por nenhum treinador / clube e nenhuma Ideia específica de jogo ou no mínimo cultura de clube. É certo que durante o processo autónomo, naturalmente a criança e o adolescente também não estão imunes a influências culturais, aliás, desde logo estas levaram-no a jogar futebol… no entanto, nesta fase estas serão sempre uma escolha sua e não imposição.

“Ter talento não é suficiente. Porque o Futebol é um desporto de equipa.” 

(Leonardo Jardim, 2017)

Se entretanto a criança ou adolescente entrarem num clube e na prática federada, então, de forma mais ou menos intensiva de acordo com o escalão, ideias do treinador para o Futebol de Formação e eventualmente a Coordenação Técnica do clube, haverá a tal aculturação mais profunda e dirigida por terceiros, conhecimento do jogo transmitido, valores, etc.  Bons e maus. Tudo isso numa procura da optimização da eficiência e eficácia do jogador no jogo num contexto colectivo, portanto, num objectivo de alcançar qualidade. Porém, se nos aludimos ao Futebol de Formação, é seguro referir que durante este processo praticamente todas as crianças e adolescentes, paralelamente, também continuam a praticar o jogo no contexto informal, continuando assim a fazer crescer o seu talento.

“Entre as muitas histórias contadas por Vilà, sobre Messi, Xavi, Iniesta e outros tantos, apareceu uma particularmente interessante sobre Puyol. O defesa, que só chegou aos 15 anos ao Barcelona, não tinha, no entender de quem mandava, qualidades técnicas suficientes para ficar no clube. Mas aquele rapaz demonstrou tanta vontade, tanta determinação, tanto querer… que, no final, acabou por ficar. Foi aprendendo, foi melhorando, foi ficando. E, mesmo já na equipa A do Barcelona, continuava a treinar-se com Vilà, por fora, porque queria disfarçar os defeitos que tinha e, no fundo, ser melhor. E, até ao final da carreira, foi sempre melhorando. Jogadores ou treinadores, estamos sempre a aprender – e isso vai muito além dos resultados. Basta querer.”

(Mariana Cabral, 2019)

Regressando ao contexto do clube, o desenvolvimento da qualidade individual deveria ser objectivo prioritário em idades mais baixas do Futebol de Formação, e a qualidade colectiva de forma progressiva. Nomeadamente ao nível da complexidade e exigência das imposições comportamentais aos jogadores no seio de uma equipa. E finalmente já perto do escalão de seniores, um desenvolvimento, optimização e exigência sobre o seu rendimento. Individual e colectivo. Mas importa referir que qualidade individual e qualidade colectiva são interdependentes, e portanto que uma cresce com a outra, sendo o inverso também constatável. Tantos são os casos de jogadores que apresentam um alto rendimento em determinado contexto e depois noutro cai abismalmente.

“Aqui no City acho que ainda fiz um upgrade. Há uma preocupação enorme pelo detalhe e em perceber como esta equipa joga. Sinto que cresci imenso.”

(Bernardo Silva, 2019)

E aqui chegamos ao potencial. O potencial é a qualidade que perspectivamos, quer individual, quer colectivamente, e que ainda não produz, ou deixou de produzir rendimento. Deste modo, talento obviamente também perspectiva potencial. Mas num estado muito cru. A construção de uma qualidade em cima do talento, fará crescer esse potencial e aproximará a concretização desse talento em rendimento. E mais ainda em equipa. Porque num jogo colectivo ninguém verdadeiramente joga sozinho.

“Aparente paradoxo então

a auto-eco-hetero afirmação

no crescer colectivo

exalta o da individualidade

mas sem equipa consigo

nenhum jogador é bom,

e o inverso pode também

ser verdade

e assim qualidade tem.”

(Vítor Frade, 2014)

Memórias do Futebol de Rua. O golo ao ângulo.

A infância e adolescência imprimiu-nos memórias incríveis. Num plano de imaginação e criatividade infindável, as brincadeiras e os jogos que realizávamos na rua tinham um poder fenomenal para nos fazer sonhar. O futebol, culturalmente o jogo de maior impacto na maioria das sociedades, absorvia muitas crianças nesses contextos, fazendo-as visualizar feitos incríveis no próprio jogo da rua. Porém, em paralelo, também um dia num grande estádio numa final de uma grande competição.

Mas essa imaginação levava-nos a sonhos concretos. Na galeria dos mais notáveis, tínhamos o golo em pontapé de bicicleta, o golo em em remate “de primeira”, a jogada em que driblávamos todos os adversários e marcávamos ou assistíamos, a intercepção imperial sobre a linha de golo, o desarme limpo em tackle a um adversário que se preparava para ficar isolado, o túnel perfeito, o drible que desorientava por completo o adversário, a defesa do guarda-redes completamente em voo que interceptava um remate extraordinariamente colocado, e claro está… o fenomenal golo ao ângulo da baliza. Indiscutivelmente um local místico do campo de futebol. Símbolo da perfeição, de lendas e de mitos.

O golo ao ângulo da baliza ou lá próximo, era até antecedido por uma sensação de sucesso na execução de quem rematava, imediatamente após a bola sair do seu pé. Era como que uma espécie de premonição do que estava para acontecer. E nesse caso, no mínimo a bola encontrava o poste ou a barra da baliza, o que não providenciando eficácia, seria na mesma espectacular.

Na rua, ou no jogo de rendimento, este golo lendário promove uma sensação de admiração e êxtase entre jogadores e adeptos, pois é visto como um momento de pura genialidade. Assim, é muitas vezes lembrado e revivido, tornando-se parte da história e da mitologia do jogo.

O “ginásio” ou a execução?

 

O tema desta breve reflexão não é o “trabalho no ginásio”, autónomo, seus eventuais benefícios e / ou malefícios. Esse será certamente um tema a ser abordado no futuro com outra profundidade. Até porque, mesmo aí, existem ínfimas possibilidades do que se pode aí fazer. Começamos por aí, porque para ser trabalho, seja ele aquisitivo, seja de consolidação, precisará de tempo, investimento e de um “volume” de desgaste por parte do jogador. Dessa forma, realizá-lo, fazer outra coisa em alternativa, ou não fazer nada, torna-se uma inevitável decisão.

Se neste momento estamos definitivamente convencidos que a especificidade em volume torna-se decisiva para o sucesso, então não deverá ser esta a prioridade da decisão anterior? Não é esta uma das razões do emergência do talento? Tal como, por exemplo, sucedeu num grande tenista ou pianista? 

Deste modo, será uma razoável decisão de cada jogador, perante um limitado trabalho extra que poderá realizar, investi-lo fora do âmbito do jogo? É claro que a cultura do “físico” não passa só pelo paradigma que se instalou sobre determinada visão do rendimento no Futebol, ele também surge pela imagem que o corpo tem ao nível social e todo o marketing que gravita nessa esfera.

Quando sozinhas, as crianças em casa ou na rua, se é o Futebol que as atrai e que desejam verdadeiramente, dedicam-se à sua relação com a bola e às acções individuais ofensivas. No fundo, aprofundam a sua qualidade na execução com bola. Tal como os miúdos, Bruno Fernandes mostra-nos o mesmo caminho e as razões pelas quais, para uns, se tornou um “predestinado”, “dotado” ou “tocado pela divindade”. Mas no fundo, uma enorme paixão pelo jogo, ambição, motivação em se superar, métodos e feedback de qualidade e muitas horas de prática deliberada.

“Se conversares com estas pessoas extraordinárias, perceberás que todas elas entendem isto a um nível ou outro. Podem não estar familiarizadas com o conceito de adaptabilidade cognitiva, mas raramente aceitam a ideia de que atingiram o pico nos seus campos por serem os sortudos vencedores de alguma lotaria genética. Elas sabem o que é necessário para desenvolver as habilidades extraordinárias que possuem porque experienciaram isso em primeira mão.”

(Anders Ericsson & Robert Pool, 2016)

“Porque é que David Neres não é a solução que o Benfica precisa nesta fase da época?”

Roger Schmidt, tem na gestão da titularidade David Neres, um grande desafio transversal a todos os treinadores. Na perspectiva do “mapa” do jogo, ou seja, vendo o jogo à luz dos seus momentos, o treinador Alemão com certeza reconhecerá ao brasileiro tremendo potencial em Transição e Organização Ofensiva e lacunas em Transição, mas principalmente em Organização Defensiva. De facto Neres, apresenta nesta perspectiva, um grande desequilíbrio nas suas qualidades e parece-nos a principal razão para que Schmidt o esteja a manter fora do onze, procurando uma abordagem inicial aos jogos mais equilibrada.

Neres mostra inequivocamente qualidades invulgares em sub-momentos de criação e de contra-ataque, especificamente no 1×1, criatividade, no último passe, cruzamento, na condução diagonal interior, na combinação e na finalização. Porém, a sua reactividade na perda da bola não é constante, a recuperação defensiva lenta, o equilíbrio emocional em momento defensivo também não é o ideal e em momentos de pressão, fá-lo por vezes com insuficiente intensidade. Intensidade… fruto do deslocamento e agressividade, mas antes disso, do critério que se garante a essas acções.

Deste modo, estamos perante o dilema que retrata a decisão entre o “clássico” jogador “da rua”, com todas as suas raras qualidades e as suas debilidades, e um jogador mais equilibrado sob todos os pontos de vista, competente nos momentos defensivos, criterioso com bola para que a equipa não a perca com facilidade e “viaje junta”, não só de forma a permitir constantes múltiplos apoios ao portador da bola, mas também para que quando de facto a perca seja mais fácil a sua imediata recuperação, dada a densidade de jogadores que coloca nesses espaços. “Viajar juntos” tal qual Alejandro Sierra se referiu ao Sevilha de Sampaoli, mas podemos acrescentar o Barcelona de Guardiola, o Ajax de Louis van Gaal entre outros exemplos.

Daí que a decisão de Schmidt seja colocar jogadores originários ou igualmente com perfil de Médios-Centro na funções de Médios-Laterais. Por isso, e porque na realidade, em Organização Ofensiva, estes jogadores acabam por apresentar, na maioria do tempo, posicionamentos interiores, nos quais Neres também apresenta muita qualidade, porém, parece-nos que é pelos corredores laterais que o brasileiro apresenta maior potencial de criação, nomeadamente nas competições internas com equipas que se fecham muito e por vezes bem na maior parte dos jogos.

O desafio maior seria acrescentar as qualidades em falta a Neres, porém, perante o perfil que conseguimos identificar, será um objectivo extremamente ambicioso e que trará outros riscos. Por exemplo, Jorge Jesus tem neste domínio, no seu histórico, exemplos de sucesso, mas também acumula outros que acabaram por ditar a perda de inúmeros talentos de perfil idêntico nas suas equipas. Para ambos os casos, muito à custa de uma Liderança autoritária e autocrática, longe da que Roger Schmidt protagoniza. No fundo, independentemente de também dever ser o papel do treinador de Rendimento, formar e potenciar, o seu primeiro objectivo deverá ser fazer render e gerir os seus valiosos recursos. Ao invés do treinador de Futebol de Formação.

Schmidt tem optado por outro caminho sempre que dá a titularidade a Neres. Coloca-o como Avançado, o que implicará menos riscos nos momentos defensivos da equipa. Aliás, tal como fez com Rafa. Mas como Ramos e Rafa têm realizado as eventuais melhores épocas das suas carreiras, a vida de Neres no que toca à titularidade da equipa, não se apresenta fácil.

 

Opinião solicitada ao Ricardo Ferreira num artigo do MaisFutebol sobre a situação de David Neres no actual Benfica de Roger Schmidt. Artigo completo em:

https://maisfutebol.iol.pt/benfica/liga/porque-e-que-david-neres-nao-e-a-solucao-que-o-benfica-precisa-nesta-fase-da-epoca

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