A natureza do jogo: o caos a desordem e incerteza
“É do inesperado
é do espanto
no jogo quando jogado
que levados somos p’ro encanto.”(Frade, 2014)

“É do inesperado
é do espanto
no jogo quando jogado
que levados somos p’ro encanto.”(Frade, 2014)
“As senhoras da limpeza também fazem o corredor todo e nem por isso jogam Futebol!”
Vítor Frade, citado por (Jorge D., 2012)
https://www.facebook.com/SaberSobreOSaberTreinar/videos/399194524170070/
Organização Ofensiva | Construção + Criação + Finalização | Construção pela primeira linha + Jogo entre-linhas + Passe vertical + Apoio frontal + Finalização à distância | Manchester City 2019
“Eu jogava com o Marco Van Basten no Milão. Eu perguntava-lhe como lhe deveríamos entregar a bola. Ele dizia, “passem-na apenas, e depois comecem a correr para festejarmos”. Ele estava sempre convicto que iria marcar, e normalmente estava certo.”
Carlo Ancelotti, citado por (Henry, 2018)
Acções individuais ofensivas + Organização Ofensiva | Finalização | Controlo de bola aérea + Remate em pontapé à meia volta | Rony Lopes 2019
Dois dias após o nosso artigo sobre o golo histórico de Cristiano Ronaldo, o genial Ricardo Araújo Pereira partilhou a mesma opinião e sentimento.
“(…) o nome foi a única vantagem com que Cristiano Ronaldo nasceu. É um nome que indica ao seu proprietário a carreira que deve seguir. Um nome psicotécnico: um arquitecto Cristiano Ronaldo sabe que nunca vencerá o Pritzker, e um engenheiro Cristiano Ronaldo nunca será quadro de topo da Mota-Engil – a menos que tenha sido ministro das Obras Públicas, mas infelizmente o cargo de ministro também está vedado a Cristianos Ronaldos, como é óbvio. Não, assim que um miúdo recebe o nome de Cristiano Ronaldo, pode começar a engraxar as chuteiras: já sabe que vai ser jogador de futebol.
Foi a única vantagem com que Cristiano Ronaldo nasceu. Tudo o resto foi conseguido por ele. É por isso que, ao contrário do que parece ser a opinião geral, considero que Cristiano Ronaldo é modesto e casto. Modesto e casto, digo bem. E justifico: Ronaldo nasceu, há 26 anos, num lugarejo esquecido da Madeira. À custa exclusivamente do seu esforço, conseguiu ser considerado o melhor do mundo no seu ofício. É isso que faz dele modesto. No lugar dele, tendo feito os sacrifícios que ele fez e obtido o que ele obteve, eu teria mandado fazer um cartaz, todo em néon, com os dizeres “Eu sou o grande Cristiano Ronaldo” e uma seta fluorescente a apontar para mim, pendurava-o ao pescoço e não saía de casa sem ele. Que ele, de vez em quando, dê uma entrevista em que arrisca um tímido elogio a si mesmo, para mim, é sinal de humildade.”
Ricardo Araújo Pereira, 2011
“(percebi que ia ser o melhor avançado) porque tinha desenvolvido desde baixo tudo o que era preciso. Revelava capacidade de finalização extraordinária, tanto com o pé direito como com o pé esquerdo ou com a cabeça. Tinha drible, remate, enganava adversários, tinha poder atlético no choque. Naquela geração não tínhamos mais nenhum assim como avançado, como ponta-de-lança.”
Francisco Silveira Ramos, 2017
Quantos de nós… na nossa infância… rebobinaram vezes sem conta a cassete de VHS, no momento em que Pelé, no filme “Fuga para a vitória“, marca de pontapé de bicicleta aos nazis? Eternizando o momento e sonhando um dia reproduzi-lo no campo da nossa escola? Não sabemos se Ronaldo foi um deles, mas a realidade é que materializou o sonho de qualquer criança fascinada pelo jogo. No nosso imaginário, marcar de pontapé de bicicleta era o derradeiro degrau que imortalizava a lenda. Fosse durante a 2ª Guerra Mundial, na nossa rua, no clube da cidade ou na Liga dos Campeões. Aquele momento… tal como no filme… em que o jogo e a competição passavam para segundo plano, a Arte assumia o papel principal e os adversários nos aplaudiam de pé.
https://www.facebook.com/SaberSobreOSaberTreinar/videos/2018805774815346/
Segundo a (Wikipédia, 2018), “na maioria dos idiomas, a manobra recebe um nome similar aos movimentos do ciclismo e da tesoura, devido à plasticidade da acrobacia. A sua complexidade e seu uso incomum nas partidas de futebol fazem com que a bicicleta seja uma das mais célebres habilidades avançadas do desporto. (…) O remate de bicicleta já foi reproduzido em diversas obras de arte, bem como em esculturas, filmes, propagandas e na literatura.” Deste modo, entre tantos outros feitos, Cristiano Ronaldo sublinhou a sua imortalidade. Desta vez com talvez a acção individual mais célebre do jogo.
Crescemos e fomos educados sob constante avaliação. Nos jogos e brincadeiras com os amigos, na escola, no desporto, na vida profissional e até sentimental. É portanto natural, que tenhamos a tendência para procurar distinguir os melhores nas mais diferentes actividades. No Futebol, torna-se até fundamental, se estamos no domínio da escolha de um plantel ou de um onze, por exemplo. Contudo, a permanente discussão e comparação entre Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, sendo sempre possível, perde sentido. Tendo em conta a sua individualidade, naturalmente terão qualidades similares e tantas outras diferentes. Até se pode tornar interessante discutir a influência de ambos nos diferentes sub-momentos de jogo das suas equipas. Porém, ambos atingiram uma tal dimensão qualitativa, que a discussão sobre a sua importância no jogo das suas equipas, e até na história do jogo deixou de fazer sentido. Ambos entrariam em qualquer equipa da história do Futebol.
Deste modo, à luz do trinómio Estética-Eficácia-Eficiência Ronaldo e Messi figuram entre os melhores da história nas dimensões Eficácia e Eficiência. Como a dimensão Estética, referida no artigo sobre o tema, torna-se “subjectiva e relativa à individualidade, cultura e preferência pessoal de cada indivíduo”… então Ronaldo e Messi são incomparáveis… podem ser uma preferência pessoal, mas no fundo o que importa é que ascenderam ao estatuto de lendários e estão no panteão dos deuses do Futebol.
Nos seus traços e evolução vivenciada, o autor (Lumueno, 2013), acredita que Cristiano Ronaldo “é o jogador mais completo do mundo no momento de finalização. É um fora de série pela eficácia que demonstra nos momentos de decisão. É um tremendo jogador”. O treinador português Fernando Valente, em entrevista também a (Lumueno, 2015), descreve que “Ronaldo formatou, à base de “hard work”, o seu corpo para se tornar uma máquina de execução técnica que lhe permite estar a um nível altíssimo na execução e antecipação de situações de finalização…” Também neste contexto, (Bouças, 2015) acrescenta que “ainda que Ronaldo seja de facto um monstro físico, é ser um monstro de execução técnica que o separa do comum dos mortais. Quantos outros futebolistas não são tão ou mais rápidos, não têm tanta ou mais força, ou não são mais ágeis que o prodígio português? A forma persistente como trabalha fisicamente para ser cada vez melhor é louvável. Mas, quantos não o farão em igual proporção? Ronaldo fisicamente é tudo o que se diz. Mas e como tão bem referiu Fernando Valente é por se ter tornado uma máquina de execução técnica que tem o sucesso que tem. Que marca a infinidade de golos que marca. É na excelência do seu gesto técnico, sobretudo a finalizar (e com qualquer superfície de contacto com que toca a bola!!) que Ronaldo é absolutamente estratosférico! Foi no evoluír do seu gesto técnico a finalizar que atingiu e atinge marcas outrora impensáveis. E não no incrementar das suas capacidades físicas. Ser mais rápido e mais forte não garante sucesso na hora em que o pé toca na bola”.
“Aquele que é um dos melhores finalizadores de toda a história do futebol mundial, porque antecipa espaços, porque percebe antes de todos onde a bola vai cair, porque é um animal de movimentos na grande área, e acima de tudo porque coloca em cima da forma como “adivinha” um gesto técnico seja a rematar ou a cabecear como muito pouco visto antes na história do jogo, entendeu oportunamente o espaço que poderia encontrar para ficar como um jogador marcante, recordado até daqui por cem anos.“
Pedro Bouças, 2017
Como prometido no passado, publicamos a nossa interpretação do jogo de futebol e proposta para a sua sistematização.
Em primeiro lugar poder-se-á questionar a relevância de sistematizar o jogo de e interpretá-lo teoricamente. Apesar do próprio jogo mostrar caminhos e promover a auto-aprendizagem, potenciar essa aprendizagem com outras ferramentas, é para nós fundamental, nomeadamente no papel de treinador. Neste sentido, um modelo simples que explique os momentos do jogo e a sua ligação, garantirá uma enorme ajuda à compreensão do jogo e ao seu ensino aos jogadores.
Isto, independentemente da idade e nível de jogo em que trabalhamos, uma vez que vão surgindo diversos exemplos de alto e baixo conhecimento do jogo em todos os escalões etários e níveis competitivos. Porém, o jogador não se constitui como o único destinatário deste trabalho. Todos os que gostam do jogo, e desejam compreender um pouco mais a sua complexidade e dinâmica, acreditamos que vão encontrar nesta sistematização um caminho acessível.
Para o próprio treinador, não só permite, a partir daqui, uma organização mais complexa das suas ideias de jogo (princípios, comportamentos, acções, etc.) dentro de cada sub-momento do jogo, como também lhe permite categorizar exercícios de treino face à interpretação da sua dominância. Consequentemente, esta proposta, possibilita ainda ao treinador ou ao analista catalogar videos de acções de jogo da sua equipa ou de terceiras de forma acessível. Este tem sido um trabalho que temos desenvolvido, o qual já nos possibilitou uma biblioteca que ultrapassou o milhar de vídeos, e que entre outros objectivos, servirá para ilustrar os comportamentos de jogo defendidos no tema do nosso projecto, a publicar futuramente – Ideia de Jogo.
A sistematização do jogo de Futebol já leva uma considerável história. Desde o momento em que outras modalidades contribuíram para o desenvolvimento da teorização do jogo, destacando-se os trabalhos de Friedrich Mahlo, Leon Teodorescu e Jean-Grancis Grehaigne, passando pelo contributo fundamental em Portugal de Carlos Queiroz e Jesualdo Ferreira, quando em 1983 apresentaram uma proposta de sistematização do jogo de Futebol, à actual visão do jogo sob quatro momentos fundamentais: Organização Ofensiva, Transição Defensiva, Organização Defensiva e Transição Ofensiva, que entretanto se generalizou.

Momentos do jogo
A nossa proposta surge, não só de uma necessidade de desconstruir os momentos de organização para que sejam mais facilmente entendidos e treinados, como principalmente explicar os momentos de transição, os quais, apesar de actualmente aceites e reconhecidos pela sua importância capital no jogo, geram no entanto, ainda muitas dúvidas e por vezes interpretações erradas.
Explicando-a concretamente, a partir dos quatro grandes momentos de jogo, criámos três sub-momentos para cada um deles. Nos momentos de Organização, sentimos que a proposta de Queiroz e Jesualdo continua a garantir resposta para as necessidade desses momentos do jogo. No entanto, necessitámos de distingui-los de forma mais objectiva, uma vez que nos fomos apercebendo de visões muito díspares do que seriam a construção, criação, finalização e em oposição, o impedir a construção, impedir a criação e impedir a finalização.
Assim, no momento de Organização Ofensiva, identificado pela cor verde, entendemos os três sub-momentos:
Em oposição o momento de Organização Defensiva, identificado pela cor vermelha, sub-divide-se em três sub-momentos que irão procurar garantir oposição aos anteriores comportamentos ofensivos:
Esta proposta de distinção entre os momentos de construção e criação, parece-nos altamente pertinente. Durante muito tempo apercebemo-nos que muitos autores e treinadores identificavam estes sub-momentos / fases pelo espaço do campo onde as equipas atacavam e defendiam. Essa interpretação parece-nos errada, uma vez que uma equipa pode estar em construção junto à sua área ou perto da área adversária, pois nos dois casos, perante por exemplo adversários que respectivamente defendam com o seu bloco, posicionado alto ou baixo no campo, poderá estar com todos os jogadores adversários ainda por bater. Por outro lado, uma equipa que posicione a sua última linha alta no campo, um momento de ruptura ou último passe de quem ataca pode surgir ainda no meio-campo de quem ataca. Deste modo, a correlação dos sub-momentos ofensivos e defensivos com espaços no campo está para nós desfasada da realidade que é o jogo. Então, a relação entre as duas equipas, e se quem defende ainda está usar toda a sua organização defensiva ou apenas parte da equipa, e se ao contrário, quem ataca ainda tem duas / três linhas adversárias para ultrapassar ou apenas uma, parece-nos uma visão mais aproximada da interacção e realidade dinâmica que o jogo promove, e assim um melhor caminho para distinguir esses sub-momentos ofensivos e defensivos do jogo.
Mas será nos momentos de transição que a nossa proposta pretende ir mais longe. Independentemente da interpretação dos sub-momentos / fases, da Organização Ofensiva e Defensiva, já Carlos Queiroz e Jesualdo Ferreira procuraram sistematizar essas estruturas complexas do jogo. Há cerca de 15 anos atrás, com a difusão e aceitação dos momentos de transição, surgiram então mais dois momentos do jogo para compreender. Neste âmbito tem surgido alguma confusão de conceitos, e simultaneamente sentimos a necessidade de interpretar a Transição Defensiva e a Transição Ofensiva de forma a encaixar-lhes comportamentos e acções, para posteriormente explicar a sua lógica aos jogadores e trabalhá-los pelo Modelo de Jogo que cada treinador idealiza. Neste sentido, sentimos ainda a necessidade de lhes atribuirmos uma lógica sequencial teórica, tal como sucede nos dois momentos de Organização.
Desta forma, para o momento de Transição Defensiva, para nós representado pela cor amarela, propomos os três sub-momentos:
Em oposição ao momento de Transição Defensiva, surge então o momento de Transição Ofensiva, para nós representado pela cor azul, e ao qual propomos três sub-momentos:
Pelas ideias apresentadas, propomos a seguinte representação gráfica dos momentos e sub-momentos do jogo:

Momentos e Sub-Momentos do jogo.
Interpretando o jogo desta forma, para nós não faz sentido catalogar uma equipa como “uma equipa de contra-ataque” ou uma “equipa de ataque organizado“. Todas as equipas têm de saber jogar em todos os momentos e sub-momentos, para que possam responder às necessidades circunstanciais que o jogo lhes vai apresentando. Contudo, partindo deste modelo, cada treinador, acreditando nas suas ideias, procurando uma adaptação à qualidade, cultura e características individuais dos jogadores com quem irá trabalhar, poderá desenvolver o jogo idealizado, de forma a responder a estes momentos e sub-momentos, o que consequentemente potenciará o seu jogo para mais ou menos tempo nalguns destes momentos e sub-momentos. Assim, procurando ir aos extremos, acreditando num jogo curto e apoiado ou longo e directo, na defesa zona ou na defesa individual, todas as ideias podem ser concebidas a partir deste modelo.
Sentimos ainda que a nossa proposta não se esgota no jogo de Futebol e que poderá ter transfer para outros desportos colectivos, nomeadamente os com características de invasão do meio-campo adversário.
Deixamos ainda um video que procura ilustrar diferentes comportamentos, identificando os momentos e sub-momentos do jogo propostos:
“Não se remata de bico!” ou “Não se passa de trivela!” eram, e ainda são, exemplos de frases ouvidas no futebol de “formação”. Da bancada, e mais grave, da boca de alguns treinadores. Mais uma expressão do pensamento redutor, que em determinado momento da evolução do jogo quis passar a mensagem que apenas algumas acções individuais seriam úteis, conduziam o jogo para um mecanicismo estéril. Acções que saíam “fora da caixa” seriam condenadas e catalogadas como excessos e traços de jogadores inconsequentes. Assim, para aqueles que ambicionavam chegar ao futebol profissional e tinham essa oportunidade, ou desenvolviam estes recursos durante o seu percurso no jogo informal ou estavam condenados a serem os “operários” da equipa.
Portanto, em auto-descoberta tal como sucedia na rua, o jogo ensinava-nos outra coisa. Que qualquer acção podia ser útil e tudo dependia da sua adequação ao contexto e à situação. Se Romário não tivesse experimentado, sentido o jogo e criado o seu jogar na liberdade que a rua lhe permitia, provavelmente não tinha desenvolvido o seu remate tão característico e eficaz.
“A bola rolava expontaneamente pelas ruas da Vila da Penha, em campos improvisados ou nas «quadras» de futebol de sala. Cada porta era uma baliza, cada duas pedras marcavam o lugar de outra. Bolas improvisadas, joelhos rasgados, faltas na escola, a infância de Romário foi igual à de tantos rapazes brasileiros, que nasceram antes ou depois dele.”
(João Pedro Silveira, 2011)
“Não tem padrão
a precisão,
o exacto
depende de cada acto,
na semelhança da configuração
a dimensão técnica está no padrão,
configurando a variabilidade
que como execução
só o exacto da precisão
acerta com complexidade.”
(Frade, 2014)
“Os impérios da táctica e da preparação física imposeram-se ao da técnica, mas como disse Picasso e nos demonstraram Maradona e Messi: “Não há génio sem técnica”.
(Valdano, 2013)
Porque nunca nos devemos esquecer que o Futebol também é isto…