Monge da Silva e a impossibilidade de separar o que o jogo… e a vida… junta
O texto “Teoria do treino: Que qualidades físicas? Que classificação?”, publicado por David Monge da Silva em 1985 na revista Treino Desportivo, é um daqueles documentos que não deve ser lido apenas pelo que diz, mas sobretudo pelo lugar que ocupa na história da teoria do treino em Portugal.
Monge da Silva pertenceu a uma geração que viveu num espaço de transição: entre a prática de campo, a reflexão académica e a necessidade de construir uma linguagem mais rigorosa para o treino desportivo. Foi professor universitário, investigador, formador e preparador físico no Futebol, tendo estado ligado a diferentes modalidades, federações, diferentes contextos de rendimento e à reflexão metodológica sobre o treino.
Esse percurso ajuda a explicar a natureza do artigo. Não se trata de uma especulação afastada da prática. Trata-se de uma reflexão teórica feita por alguém que conhecia o treino, mas que percebia que o treino precisava de outro pensamento.
Logo no início, (Monge da Silva, 1985) identifica um problema central: a confusão terminológica no treino português. Muitos treinadores e técnicos tinham sido influenciados por formações oriundas de países diferentes e, por isso, transportavam linguagens diferentes, conceitos diferentes e classificações diferentes. O resultado era uma teoria fragmentada, muitas vezes incapaz de ajudar verdadeiramente a prática.
Mas o problema de Monge da Silva não era apenas terminológico. Era mais profundo. Não se tratava apenas de escolher melhores palavras. Tratava-se de perceber se as palavras usadas eram capazes de explicar a realidade.
A pergunta do artigo é simples e decisiva: quando falamos de força, velocidade e resistência, estamos a falar de realidades claramente separáveis ou estamos a criar divisões artificiais sobre uma realidade que, no movimento desportivo, é contínua?
É aqui que o texto ganha valor histórico.
Segundo (Monge da Silva, 1985), “quando observamos qualquer actividade desportiva não vemos força, velocidade ou resistência e muito menos as qualidades intermédias”. O que vemos são movimentos. Movimentos que acontecem no espaço e no tempo. E esses movimentos tornam-se possíveis, também, através da contracção muscular.
Esta ideia muda o ponto de partida. Em vez de partir das chamadas qualidades físicas tradicionais, Monge da Silva recua para algo fundamental que está por detrás do movimento: a contracção muscular.
A partir daí, propõe três parâmetros quantificáveis: duração, velocidade e grau de tensão.
A duração corresponde ao tempo durante o qual a contracção muscular se prolonga. A velocidade corresponde à rapidez com que essa contracção e descontração ocorrem. A tensão corresponde ao grau de força produzido para vencer uma resistência exterior.
Para (Monge da Silva, 1985), nenhuma contracção muscular pode ser correctamente caracterizada sem a articulação destes três parâmetros. É daqui que nasce o seu modelo tridimensional das qualidades físicas.
Até aí, o treino tradicional tendia a pensar de forma linear. A força era uma linha. A velocidade era outra. A resistência era outra. Depois, quando a realidade começou a mostrar-se mais complexa, surgiram qualidades intermédias: força rápida, resistência de força, resistência de velocidade. Mas, para Monge da Silva, esse caminho apenas prolongava o erro. Criavam-se mais nomes, mas não se compreendia melhor a realidade.
O modelo tridimensional propõe outra coisa. Em vez de pensar a força, a velocidade e a resistência como compartimentos autónomos, pensa-as como zonas de um mesmo volume. A tensão, a duração e a velocidade são três eixos que se combinam continuamente. Quando um parâmetro se aproxima do máximo, os outros tendem a baixar. Mas a maioria das acções desportivas não vive nos extremos. Vive nas combinações intermédias.
É por isso que (Monge da Silva, 1985) mostra que entre força e velocidade não existe uma fronteira clara. Entre força e resistência também não. Entre velocidade e resistência também não. Segundo o autor, “entre força e velocidade não existem soluções de continuidade que definam onde começa uma e acaba outra”.
A consequência é enorme: classificar pode ajudar a pensar, mas também pode deformar a realidade.vNo Futebol, isto torna-se decisivo.
Monge da Silva percebe que os jogos desportivos colectivos não pertencem aos vértices clássicos do modelo. O jogador de Futebol não é um halterofilista, embora precise de produzir tensões elevadas. Não é um velocista, embora precise de ser rápido. Não é um maratonista, embora precise de resistir. Por isso, a sua preparação não pode ser a soma de métodos importados da halterofilia, do atletismo ou da corrida de fundo.
Segundo (Monge da Silva, 1985), “os jogos desportivos colectivos exigem esforços intermitentes em que o atleta desenvolve grandes tensões musculares mas não é halterofilista, precisa de resistência mas não é maratonista e tem de ser rápido mas não é velocista”. Esta frase continua actual.
Ainda hoje, muitas propostas de treino caem no mesmo erro. Retiram o jogador do jogo para desenvolver capacidades que, depois, se espera que regressem ao jogo por transferência quase automática. Corre-se para ganhar resistência. Levanta-se peso para ganhar força. Fazem-se sprints para ganhar velocidade. Mas o Futebol não pede “força” em abstracto, nem “resistência” em abstracto, nem “velocidade” em abstracto.
O Futebol pede acções situadas. Pede tensão, duração e velocidade em contexto. Pede contracções musculares subordinadas a intenções, decisões, relações, espaços, adversários, companheiros, bola e baliza. É por isso que este artigo está tão próximo do terreno conceptual que mais tarde será aprofundado por Vítor Frade.
Convém sermos rigorosos: não se deve afirmar, sem prova documental directa, que o artigo de Monge da Silva foi um dos alicerces da Periodização Táctica. Essa afirmação seria excessiva e metodologicamente frágil. O que se pode afirmar, com maior segurança, é que o seu pensamento pertence ao mesmo clima intelectual que ajudou a tornar possível a ruptura metodológica protagonizada por Vítor Frade. Monge da Silva surge como uma referência próxima, respeitada e reconhecida pelo próprio Frade, não apenas no plano pessoal, mas também pela importância que teve na sistematização do Treino Desportivo em Portugal.
A sua crítica à separação artificial dos factores do rendimento, a recusa de uma preparação física desligada do jogo e a defesa de um treino mais enraizado nas situações reais aproximam-no das preocupações que viriam a ser radicalizadas pela Periodização Táctica. Ainda assim, há uma diferença decisiva: Monge da Silva ajuda a abrir caminho à crítica; Frade transforma essa sensibilidade num novo paradigma, fazendo da forma de jogar, da especificidade, da intencionalidade colectiva e da operacionalização do Modelo de Jogo o núcleo organizador de todo o processo.
Sintetizando, Monge da Silva é então um autor nuclear na evolução do treino desportivo. Primeiro, porque rompe com a divisão analítica do treino. Depois, porque defende uma leitura globalizante da preparação. Finalmente, porque coloca a contracção muscular e a dinâmica da carga numa lógica específica, e não abstracta.
E Vítor Frade desenvolveu a Periodização Táctica a partir de uma ideia ainda mais radical: no Futebol, o treino deve ser comandado pelo jogar que se pretende construir. A dimensão física não desaparece, mas deixa de existir isolada. Passa a estar subordinada à organização de jogo, aos princípios, aos subprincípios, aos comportamentos colectivos, às acções individuais e às regularidades que a equipa pretende estabilizar.
Portanto, neste sentido, a proximidade entre Monge da Silva e Frade é evidente.
Em (Monge da Silva, 1985), a crítica incide sobre a impossibilidade de separar força, velocidade e resistência como qualidades autónomas. Em (Vítor Frade, 1985), a crítica metodológica aponta para a necessidade de pensar o Futebol a partir da sua especificidade e não a partir de modelos importados de outras modalidades ou de outras lógicas de treino.
Monge da Silva fornece uma gramática. Frade reorganiza essa gramática em função do jogar.
É também aqui que aparecem os conceitos que se tornarão muito importantes na operacionalização da Periodização Táctica: tensão, duração e velocidade da contracção muscular. No morfociclo, estes conceitos deixam de ser apenas categorias fisiológicas ou mecânicas. Passam a ser formas de regular a alternância horizontal em especificidade.
Ou seja, não se trata de treinar “força” num dia, “resistência” noutro e “velocidade” noutro, como se fossem qualidades independentes. Trata-se de manipular, ao longo da semana, diferentes dominâncias da contracção muscular, sempre dentro do objectivo dominante da especificidade do jogar.
Num dia, o regime pode estar mais associada à tensão específica. Noutro, à duração específica. Noutro, à velocidade específica. Mas sublinhamos, tudo deve emergir de exercícios que pertencem ao jogo da equipa. A contracção muscular não é separada da decisão. A carga / estímulo não é separada do comportamento. O esforço não é separado da intenção.
É aqui que a influência conceptual de Monge da Silva ganha força.
Porque, ao substituir a linguagem clássica das qualidades físicas por tensão, duração e velocidade da contracção muscular, abre-se a possibilidade de pensar o esforço de forma mais específica, mais contínua e mais ajustada ao Futebol.
A diferença está no centro de gravidade. Em Monge da Silva, o ponto de partida ainda é a contracção muscular e a dinâmica da carga. Em Vítor Frade, o ponto de partida passa a ser o jogar. Mas a crítica de fundo é comum: o Futebol não pode ser compreendido pela soma das suas partes.
E é isto que é fundamental. Monge da Silva não está apenas a discutir fisiologia. Está a discutir a relação entre modelo de jogo e modelo de preparação. Segundo o autor, é necessário caracterizar o tipo de esforço que o jogador desenvolve em competição, porque é a partir desse modelo que se deve enquadrar o processo de treino.
Isto antecipa uma das grandes ideias do treino contemporâneo: o treino deve nascer da competição que se quer jogar. Não de uma competição genérica, mas do jogo concreto que a equipa pretende construir. No Futebol, isto obriga a uma mudança profunda.
Um exercício não é bom porque “trabalha força”. É bom se provoca o tipo de tensão que o jogador precisa de manifestar no jogo que a equipa quer jogar.
Um exercício não é bom porque “trabalha resistência”. É bom se faz emergir a duração específica de acções, decisões e interacções que a competição solicita.
Um exercício não é bom porque “trabalha velocidade”. É bom se a velocidade que promove tem sentido no jogo: acelerar para pressionar, travar para ajustar, desmarcar para receber, fechar por dentro, temporizar, saltar à pressão, atacar a profundidade, reagir à perda, sair da pressão.
Por isso, o artigo de Monge da Silva continua a ter impacto prático.
Ele obriga o treinador a olhar para o exercício como uma unidade complexa. O espaço, o tempo, o número de jogadores, a dimensão do campo, as regras, as balizas, as pausas, a densidade, a oposição, a direcção, a bola, a fadiga, a concentração e a intenção não são detalhes. São condições que alteram a contracção muscular, a tomada de decisão e a adaptação.
O próprio autor identifica factores da carga como massa muscular solicitada, condições objectivas e concretas de realização do movimento, intensidade, volume e complexidade. A complexidade, em particular, é entendida como dimensão neurológica da carga, relacionada com o grau de dificuldade do movimento e com a solicitação da estrutura perceptivo-cinética.
Este ponto aproxima ainda mais Monge da Silva do Futebol actual. Porque o Futebol não é apenas correr. É correr percebendo. Não é apenas contrair. É contrair decidindo. Não é apenas repetir. É repetir com sentido. Talvez esteja aqui a sua maior actualidade.
O texto de 1985 combate uma consequência nefasta do atomismo: a ilusão de que o conhecimento nasce da divisão infinita, de um atomismo nefasto, como se compreender melhor significasse apenas partir a realidade em unidades cada vez mais pequenas, isoladas e autónomas. É evidente que analisar é necessário. Mas, no Futebol, analisar sem regressar ao todo é perder o essencial.
Passados mais de 40 anos, o atomismo crescente nos clubes e nas equipas técnicas em “especialistas” de tudo — fisiologia, análise de jogo, “técnica e táctica individual”, “performance”, nutrição, psicologia, entre tantas outras áreas — recupera o mesmo problema central: a tendência para dividir o rendimento em partes e, depois, acreditar que a soma dessas partes devolve o jogador inteiro. Não devolve. O jogador não joga com a força, a velocidade, a resistência, a técnica, a táctica e a psicologia em gavetas separadas. Joga inteiro. Decide inteiro. Erra inteiro. Adapta-se inteiro.
Nesse sentido, David Monge da Silva não escreveu apenas sobre qualidades físicas. Escreveu contra a ingenuidade das classificações. Escreveu contra o treino que confunde nomes com conhecimento. E abriu caminho para uma compreensão mais específica, mais global e mais futebolística da preparação.
Quarenta anos depois, a sua pergunta continua viva: que qualidades físicas?
Talvez a resposta mais futebolística seja: nenhuma, se forem entendidas isoladamente.
O que existe é o jogar. E, dentro dele, tensões, durações, velocidades, decisões, intenções e relações que só ganham sentido quando pertencem a uma ideia de jogo.


