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O último teste de carácter. O jogo do 3º lugar do campeonato do mundo.

Há quem olhe para o jogo de atribuição do 3.º e 4.º lugar como um incómodo colocado entre a desilusão das meias-finais e a expectativa da final. Um encontro menor, disputado por duas equipas que já perderam aquilo que verdadeiramente procuravam. Para alguns, um jogo sem importância. Para outros, uma tradição que o Campeonato do Mundo deveria abandonar.

Talvez seja exactamente por isso que este jogo seja tão importante.

Porque quando a possibilidade de ser campeão desaparece, desaparecem também muitas das motivações exteriores que empurram uma equipa. Já não existe a Taça à espera. Já não existe a promessa da eternidade reservada aos vencedores. Resta a capacidade de encontrar, dentro do próprio grupo, razões para continuar a competir. Resta a camisola, o emblema, os companheiros e o país representado. Resta a resiliência.

É nesse momento que a mentalidade deixa de ser uma palavra repetida e se transforma num comportamento observável.

Qualquer equipa pretende jogar uma final. Qualquer jogador encontra energia quando está a noventa minutos de ser campeão do mundo. Muito mais difícil é voltar a levantar-se poucos dias depois de perder uma meia-final, reorganizar as emoções, recuperar fisicamente e apresentar-se novamente preparado para competir. Não pelo maior dos prémios, mas pelo compromisso anteriormente assumido.

O jogo do 3.º lugar mede, por isso, algo que o resultado da meia-final não consegue medir: a forma como uma equipa responde quando o sonho maior já desapareceu.

Em 2022, depois de Marrocos ter perdido a oportunidade histórica de alcançar a final, Walid Regragui reconheceu que o encontro seria difícil do ponto de vista mental. Ainda assim, garantiu que a equipa voltaria a lutar. Do outro lado, a Croácia entrou para vencer. Depois da conquista do terceiro lugar, Zlatko Dalić descreveu a medalha como um “bronze com brilho dourado”. Não era uma final. Mas também não era indiferente.

Uma equipa não pode afirmar que representa um país ou um clube apenas quando existe a possibilidade de levantar uma Taça. Representa-o em todos os momentos. Na vitória, na derrota, na celebração, na frustração e, sobretudo, na forma como reage depois de cair. A representação não é selectiva. O compromisso não pode depender da dimensão mediática do jogo ou do prémio que se encontra no final.

É também por isso que o sentido colectivo se torna tão visível neste encontro. Depois de uma meia-final perdida, alguns jogadores carregam frustração e cansaço físico-emocional, outros a percepção de que talvez não voltem a estar tão perto. Compete à liderança reconstruir o significado daquele último jogo, reorganizar emocionalmente o grupo e transformar uma desilusão numa última responsabilidade colectiva.

Como explica o antigo treinador de basquetebol Phil Jackson, a construção de uma equipa exige que o jogador deixe de olhar apenas para a sua experiência pessoal e se reconheça como parte de algo maior. O colectivo não se prova apenas nos momentos de entusiasmo. Prova-se quando cada um aceita voltar a colocar-se ao serviço dos outros, apesar da dor, da fadiga ou da ausência da recompensa inicialmente desejada.

A História também demonstra que o jogo está longe de ser irrelevante. O terceiro lugar conquistado por Portugal em 1966 continua a ser a melhor classificação da Selecção Portuguesa num Campeonato do Mundo. António Simões afirmou que aquela equipa colocou Portugal no mapa. Para várias gerações, não se tratou de uma simples consolação. Tratou-se de uma das páginas mais importantes da história do Futebol português.

A Bélgica alcançou em 2018 a melhor classificação mundial da sua história através deste jogo. Just Fontaine marcou quatro golos no encontro de 1958 e terminou essa edição com treze, um recorde que permanece. A Croácia transformou os terceiros lugares de 1998 e 2022 em símbolos da capacidade competitiva de um pequeno país. Aquilo que parece secundário no calendário pode tornar-se central na memória de uma nação.

É verdade que os jogadores estão cansados. É verdade que existe uma enorme desilusão emocional. É também verdade que o encontro pode parecer cruel para quem, poucos dias antes, acreditava que seria campeão. Porém, a dificuldade não retira importância ao jogo. Pelo contrário, dá-lhe sentido.

A liderança não se revela apenas quando tudo corre de acordo com o esperado. Revela-se na capacidade de devolver direcção a um grupo ferido. A cultura não se manifesta apenas quando a vitória parece possível. Manifesta-se quando a equipa continua a respeitar os seus princípios, os seus companheiros e o país ou clube que representa, mesmo depois de perder aquilo que mais desejava.

Acabar com este jogo significaria retirar ao Campeonato do Mundo um dos seus testes mais humanos. O teste de quem consegue voltar a levantar-se. De quem encontra compromisso para além da recompensa. De quem percebe que vestir a camisola de uma selecção não confere apenas direitos ou glória, mas também responsabilidades.

O ouro consagra o campeão. O bronze não apaga a derrota da meia-final. Mas pode revelar a qualidade humana e colectiva de uma equipa.

Acabar com este jogo significaria retirar ao Campeonato do Mundo um dos seus testes mais humanos: a capacidade de transformar uma derrota profunda numa última afirmação colectiva.

Por vezes não não necessárias palavras para definir Liderança…

“Estive dezoito anos no Mainz e quando saí pensei: da próxima vez vou ter de trabalhar com menos coração. Disse isso porque todos chorámos durante uma semana. A cidade organizou uma festa de despedida que durou uma semana. Para uma pessoa normal é demasiada emoção. Pensei que não era saudável trabalhar assim. Mas ao fim de uma semana em Dortmund tinha voltado ao mesmo. Encontrar esta situação duas vezes, ser atingido pela fortuna desta forma, é muito raro”.

(Jürgen Klopp, 2013)

“Havia algo irresistível em estar perto desses grupos que me fazia desejar mais conexão.”

No livro “The Culture Code” de (Daniel Coyle, 2018) encontramos um texto interessante sobre a coesão de equipa, a qual, nalguns casos de sucesso atinge o estatuto de “família”. De facto, também no Futebol vai emergindo internamente nas melhores equipas a denominação “família” perante um alto nível de ligação, alinhamento, solidariedade e cumplicidade. No fundo, o tal tão desejado entrosamento. Tal, nem sempre significará resultado desportivo pois para o mesmo também concorrerá a qualidade individual dos jogadores e a qualidade da oposição. Contudo, a qualidade colectiva estará então conquistada.

“Quando se pede às pessoas dentro de grupos altamente bem-sucedidos para descreverem a sua relação umas com as outras, todas tendem a escolher a mesma palavra. Essa palavra não é amigos ou equipa ou tribo, ou qualquer outro termo igualmente plausível. A palavra que usam é família. Além disso, tendem a descrever o sentimento dessas relações da mesma maneira:

“Não consigo explicar, mas as coisas simplesmente parecem certas. Na verdade, tentei sair algumas vezes, mas continuo a voltar. Não há sensação igual. Estes caras são meus irmãos.” (Christopher Baldwin, SEAL Team Six da Marinha dos EUA)

“Não é racional. Ninguém que seja puramente racional faz as coisas que acontecem aqui. Existe um trabalho em equipa que vai muito além de equipa e se sobrepõe ao resto da vida das pessoas.” (Joe Negron, escolas charter KIPP)

“É uma adrenalina, saber que podes correr um grande risco e essas pessoas estarão lá para te apoiar, aconteça o que acontecer. Somos viciados nessa sensação.” (Nate Dern, Upright Citizens Brigade, grupo de comédia)

“Somos todos sobre ser um grupo familiar, porque isso permite correr mais riscos, dar permissão uns aos outros e ter momentos de vulnerabilidade que nunca se poderia ter num ambiente mais normal.” (Duane Bray, IDEO design)

Quando visitei esses grupos, notei um padrão distinto de interação. O padrão não estava nas grandes coisas, mas nos pequenos momentos de conexão social. Essas interações eram consistentes, fosse o grupo uma unidade militar, um estúdio de cinema ou uma escola no centro da cidade. Fiz uma lista:

  • Proximidade física estreita, frequentemente em círculos
  • Grandes quantidades de contacto visual
  • Toque físico (apertos de mão, toques de punho, abraços)
  • Muitas trocas curtas e energéticas (sem longos discursos)
  • Altos níveis de mistura; todos falam com todos
  • Poucas interrupções
  • Muitas perguntas
  • Escuta intensiva e activa
  • Humor, risos
  • Pequenas cortesias atentas (agradecimentos, abrir portas, etc.)

Mais uma coisa: descobri que passar tempo dentro desses grupos era quase fisicamente viciante. Estendia as minhas viagens de reportagem, inventando desculpas para ficar mais um ou dois dias. Encontrava-me a sonhar acordado com mudar de profissão para poder candidatar-me a um emprego com eles. Havia algo irresistível em estar perto desses grupos que me fazia desejar mais conexão.

O termo que usamos para descrever este tipo de interação é química. Quando se encontra um grupo com boa química, percebe-se instantaneamente. É uma sensação paradoxal e poderosa, uma combinação de excitação e profundo conforto que surge misteriosamente com certos grupos especiais e não com outros.”

(Daniel Coyle, 2018)

“É por isso que me levanto para trabalhar todos os dias com um sorriso no rosto”

Etapa de integração na equipa A

“Acho que é com o tempo, com a repetição, com o número de jogo, com o número de estágios, aos poucos… E aquele “uau! estou a jogar com «não sei quem»!” acaba por desaparecer aos poucos. E quando nos sentimos realmente parte da equipa deixamos de olhar para o lado e pensar o “uau!”. Já nos sentimos parte dessa grandeza. Acho que a forma como as pessoas mais velhas recebem e tentam integrar os mais novos é sem dúvida o mais importante.”

(Bernardo Silva, 2024)

“Temos um balneário muito forte em que os jogadores foram seleccionados a dedo, mais do que pelas razões futebolísticas, pelo carácter”

“É o homem que se é que triunfa no treinador que se pode ser.”

(Manuel Sérgio, 2009)

O Celtic de Jock Stein e a histórica vitória do Jamor

A primeira Taça dos Clubes Campeões Europeus ganha por um clube Britânico aconteceu em Lisboa, mais precisamente no Estádio do Jamor, a 25 de maio de 1967. No Diário de Notícias podia-se ler: “Uma das mais belas tardes do Jamor: o “duche escocês” apagou o Inter… Um jacto que durou 90 minutos e deslumbrou milhões de espectadores”.

O Celtic enfrentou a então poderosa equipa italiana do Inter de Milão, liderada pelo revolucionário Helenio Herrera, treinador argentino-italiano conhecido pela sua abordagem táctica inovadora, descrita como “catenaccio”. Herrera foi uma figura icónica no futebol, tendo conquistado vários títulos importantes durante a sua carreira de treinador. No entanto defrontavam-se dois treinadores lendários. O Celtic, liderado por Jock Stein, conquistou a vitória por 2-1, tornando-se então o primeiro clube britânico a vencer a competição. Este foi um momento histórico não só para o futebol escocês, mas para toda a Grã-Bretanha. Mas perante tal confronto de culturas, a vitória do Celtic foi celebrada em toda a Europa.

Isto porque o Celtic era visto como um clube representante do “futebol dos homens comuns”, uma vez que sua equipa era principalmente composta por jogadores da própria Escócia e de outras partes das Ilhas Britânicas, em contraste com o Inter de Milão, que contava com uma equipa de jogadores icónicos internacionais. Além disso, a vitória do Celtic quebrou a hegemonia dos clubes italianos, espanhóis e portugueses, que vinham a dominar a competição até então. Isso trouxe uma sensação de renovação e esperança para os fãs do futebol de outras partes da Europa e culturas, que se viram representados por um clube menos tradicional nestes contextos e menos poderoso.

Deste modo, a disparidade cultural e táctica refletiu-se no estilo de jogo apresentado pelas equipas. O Celtic apresentava uma abordagem mais ofensiva e apaixonada, enquanto o Inter de Milão jogava numa estratégia mais cautelosa e defensiva. Portanto, o confronto não foi apenas sobre futebol, mas também sobre diferentes filosofias e ideologias que cada clube representava. Deste modo, a vitória do Celtic, derrotando na final uma equipa tão forte como o Inter de Milão com uma exibição apaixonada, emocionante e determinada, contribuiu para que a sua vitória transcendesse fronteiras e rivalidades clubísticas.

“Se algum dia vão ganhar a Taça dos Clubes Campeões Europeus, então este é o dia e este é o lugar. Mas não queremos apenas ganhar esta taça, queremos fazê-lo a jogar bom futebol – para fazer os neutrais contentes por termos ganho, contentes por se lembrarem como o fizemos.”

(Jock Stein em discurso à equipa antes do jogo)

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