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Um “detalhe” pode tornar o talento indecifrável

“(…) a importância de falar primeiro com um pai de um jogador é decisiva.”

(Aurélio Pereira, 2013)

O relato de George Best não é uma novidade. Recordamo-nos de uma grande referência do nosso Futebol no processo de Scouting, Aurélio Pereira, que revelava consciência dos muitos erros cometidos quando, na década de 80, tinha de filtrar e selecionar, em conjunto com a restante estrutura do Sporting, centenas de jogadores em pouquíssimo tempo de jogo para cada um deles. Eram as condições possíveis no momento e só não erra quem não está no processo e não toma decisões.

Porém, hoje o conhecimento e experiência cresceram. Os grandes clubes, e até os de média dimensão têm outras condições e têm obrigatoriamente que errar cada vez menos. Muitos destes têm departamentos de Scouting profissionais, com acesso a muita informação e possibilidades de verem diversos jogos de um determinado jogador. Mas sejamos claros: o erro será sempre uma constante de processos de enorme complexidade como estes. Aqui, tal como no papel de treinador, o fundamental é ter consciência dessa mesma complexidade inerente ao processo, partir daí para uma análise e avaliação e procurar perceber o máximo de ângulos possíveis.

No panorama actual, tal como no treino, na eminência de entrar numa crise existencial, scout, treinador e clubes, ainda se procuram agarrar a dados mensuráveis, por vezes quantitativos, e a “métricas” com que se possam justificar. A si e a terceiros. Não que tudo isto não ajude, mas acabam por afastar tudo o que seja “ruído” e factos difíceis de mensurar ou perceber a sua influência no sistema complexo – jogador. O problema é que o tal efeito borboleta é mesmo real. E para o responsável, o que não passa de um detalhe, poderá influenciar decisivamente a análise e avaliação de um jogador. Quer falemos de rendimento, quer de potencial. Quer falemos de Futebol de Formação, quer de Futebol de Rendimento.

Se o pai de George Best não tivesse explicado a Matt Busby o que se passava com o filho, seria provável que Best não tivesse atingido o panteão dos jogadores lendários em que hoje se encontra. Uma vez mais, não é uma critica a Busby, um dos maiores da história do futebol que até ficou célebre pela aposta que fez em jovens jogadores e pelo crescimento e rendimento que os fez alcançar. O nosso foco vai para a extrema importância de todos os detalhes e da consciência que quem realiza estas escolhas tem de ter sobre isso. Ser mais “técnico”, mais “alto”, mais “inteligente”, mais “rápido”, menos “maturado”, fazer muitos golos, etc., podem ser qualidades importantes para predizer um talento. Porém, um “detalhe” pode ser o suficiente para anular tudo isto. E como no caso ilustrado, um “detalhe” pode tornar esse talento indecifrável. 

“Repara às vezes as pessoas raciocinam duma forma impeditiva, ou seja, parece um contrassenso, então como é que raciocinam? Porque estão possuídas de juízos de valor ou preconceitos. Às vezes até dizem assim: é inato. Não. Sabe-se que o inato é em sí adquirido. E o inato, a genética passou a utilizar termos novos, como epigenético, ecogenético… Precisamente para a importância de que qualquer pentelho, mesmo qualquer gene, na importância da relação com o meio envolvente. E daí que alterações bruscas ou sistemáticas possam lesar isso. É por isso que filogénese e ontogénese são coisas diferentes.”

(Vitor Frade, 2012)