Tudo tem um fim… ou um novo princípio. Rui Faria enquanto sistema complexo.

“«Muito obrigado por me teres dado este contrato, muito obrigado por me teres trazido para Barcelona, muito obrigado por teres mudado a minha vida». O meu trabalho e a minha dedicação são a minha forma de gratidão. Eu nunca senti, em nenhum momento, que lhes devia alguma coisa. Quando decidi ser treinador principal e vir embora, nunca pensei que estava a ser incorrecto. Não lhes devo nada, paguei-lhes tudo, e por isso senti-me sempre livre para decidir. Se sentisse que não tinham pernas para andar sem mim, se calhar hipotecava um ano ou dois da minha independência. Era capaz de o fazer. Mas eles não precisavam de mim para nada. Tanto um como outro disseram: «Tu estás preparado».”

(José Mourinho, 2003) a propósito do seu percurso como treinador assistente de Bobby Robson e Van Gaal no Barcelona

Tornou-se uma curiosidade na equipa técnica liderada por José Mourinho. Iria Rui Faria acompanhar Mourinho até ao fim? Em vários momentos afirmou a sua felicidade e satisfação na função de treinador assistente e consequentemente a indisponibilidade em abandonar a equipa técnica e iniciar um percurso como treinador principal. Pouco crível para muitos, mas legítimo. Neste contexto, em 2012, (Miguel P., 2012) questionava se “Rui Faria não pode simplesmente… gostar de ser treinador adjunto? Há algum mal nisso? Nem toda gente que “vai para treinador”, quer ser treinador principal. Se ele se revê na metodologia de treino e na liderança do Mourinho, se sente que é útil, se o próprio Mourinho faz questão de dizer várias vezes que o Rui Faria é fundamental. Ele pode muito bem querer continuar com as funções que tem”. Durante muito tempo partilhámos esta opinião e que as pessoas, independentemente do contexto, perante a felicidade, procurarão eternizá-la.

Porém, à luz do pensamento complexo, a autora (Ana K R, 2009), sustenta que “há a convivência da ordem, desordem e organização, sem uma anular a existência da outra”. Rui Faria conviveu e foi feliz com essa “ordem” resultante do trabalho e convivência na equipa técnica de José Mourinho. Porém, como ser complexo que é, mesmo vivenciando uma sensação de equilíbrio, a sua natureza solicita-lhe um novo estímulo, neste caso, um novo desafio. É no fundo, o que exactamente se passa no processo de treino e a sua interacção com os jogadores. Portanto, e reforçado a ideia pela teoria do caos, o ser humano nunca está verdadeiramente em equilíbrio. Pequenas perturbações estão sempre a afectá-lo e podem mudar por completo o estado geral do sistema, podendo levá-lo ao desequilíbrio ou à sua necessidade. Ilya Prigogine, citado por (Esteves, 2010), refere que os “sistemas complexos não podem evoluir (gerar novos padrões) em estados de equilíbrio ou próximos do equilíbrio”. Por isso, para (Manuel Sérgio, 2012), “o ser humano é imprevisível, é por isso que ele é complexo, o que significa ser complexo? No fundo é porque dentro dele também há ordem e desordem, também há certeza e incerteza, é por isso que ele é complexo”. Rui Faria, estará portanto, à procura de um nível superior de complexidade, ou na perspectiva do treino, de adaptação.

“Se o sistema permanecer em equilíbrio, ele morrerá. O “longe do equilíbrio” ilustra como sistemas que são forçados a explorar seu espaço de possibilidades vão criar diferentes estruturas e novos padrões de relacionamento.”

(Nicolis e Prigogine, 1989)

“17 anos… Leiria, Porto, Londres, Milão, Londres de novo e Manchester. Treinar, viajar, viajar, estudar, rir e também algumas lágrimas de alegria. 17 anos e agora a criança já é um homem. O estudante inteligente é um especialista de futebol, pronto para uma carreira bem sucedida enquanto treinador. (…) Vou sentir a falta do meu amigo e essa é a parte mais difícil para mim, mas a sua felicidade é mais importante e, claro, respeito a sua decisão, especialmente porque sei que vamos estar sempre juntos. Sê feliz, irmão.”

(José Mourinho, 2018) sobre Rui Faria

O treinador português: um “produto” de qualidade

“Há sempre que estudar mais. Não compreendo o treinador de futuro sem estudo.”

Manuel Sérgio, 2017

Numa reportagem de Janeiro de 2017, um canal de desporto brasileiro procurava explicar a “moda” em que se tornou o treinador português.

https://www.facebook.com/quezada.arthur/videos/1776565645938732/

Num artigo de Fevereiro do mesmo ano, tocávamos na questão.

“(… ) é evidente a enorme a evolução que o jogo, o treino e a liderança das equipas registaram, resultado da qualidade que muitos treinadores portugueses hoje apresentam, colocando-os no top mundial. Simultaneamente, em todos os níveis do jogo muitos outros crescem, nas ideias e na experiência e preparam-se para mais uma vaga, quem sabe ainda melhor. Facto, valorizado ainda, pela menor dimensão do país, no número de praticantes e de equipas, comparativamente com muitos outros. Também não é assunto novo neste espaço, pois ainda noutro artigo recente, trazíamos o professor Silveira Ramos elogiando o treinador português, pelo seu conhecimento do jogo e pensamento estratégico. Hoje, em vários pontos do mundo o treinador português é visto como sinónimo de qualidade. Constitui-se como mais um “produto” português de enorme sucesso.”

A reportagem foca o processo formativo. Conhecendo o mesmo, reconhecemos a sua evolução e incontestável contributo para este sucesso. Mas este é um processo que não se reduz aos cursos de treinadores. Passa também pelo trabalho desenvolvido das Universidades nas últimas décadas, por diversas obras publicadas por inúmeros autores e actualmente pelos inúmeros espaços na internet que desenvolvem ideias, debatem e contribuem de forma decisiva para a exponenciação do conhecimento. Como grande exemplo, reconhecido por muitos treinadores, alguns deles até focados na reportagem, está o incontornável www.lateralesquerdo.com, online há quase uma década e percursor de centenas de outros espaços, de ideias e até linguagem que hoje se tornou convencional.

Porém, esta é só uma parcela da explicação. Desde logo, (Manuel Sérgio, 2012) descreve que “em Portugal não é a mesma coisa ser treinador de Futebol ou treinador de Basquetebol… as pressões são outras”. O autor (Bouças, 2016) sustenta este pensamento com “os rótulos que os “carneiros” sempre colocam quando alguém que não entendem nem querem esforçar-se para entender foge da norma. Será sempre assim, até que a realidade lhes bata de frente. Por isso há quem vá à frente, afirme, defenda e prove. E há os que atrás se limitam a acenar concordando sempre com o que estará mais aceite e enraizado no pensamento global”. Sem dúvida que José Mourinho marcou uma nova era para o treinador português, indo com enorme coragem mais “à frente, afirmando-se, defendendo-se e provando”. Segundo o treinador (André David, 2017), “após Mourinho aparecer no nosso futebol, a imagem do treinador e da formação dos treinadores ganhou especial relevância e notoriedade, ao ponto de actualmente haver imensos jovens a quererem ser treinadores de futebol”.

Neste âmbito, é também fundamental sublinhar a base metodológica de José Mourinho. A Periodização Táctica idealizada por um homem que personifica todas as qualidades e genialidade do treinador Português. O ex-treinador e professor Vítor Frade. O treinador português (Jesus, 2010), defende que “Portugal tem uma metodologia de treinos que está dez anos avançada em relação ao resto do Mundo. (…) No futuro vão aparecer mais Mourinhos”. O próprio (José Mourinho, 2001), explica que os dados actuais, “indicam que a componente Táctico-técnica e cognitiva sejam as que direccionam todo o processo de treino e um projecto de jogo. Estão assim criados os pressupostos para que seja efectuada uma ruptura epistemológica na periodização e planeamento do processo de treino, e por conseguinte designarmos o novo processo de treino como Periodização Táctica”. De acordo com (Tamarit, 2007), “a “Periodização Táctica” é uma Metodologia de Treino que surge há mais de trinta anos na cabeça do Professor Vítor Frade quando, através de experiências que lhe ocorreram, começa a questionar as Metodologias de Treino existentes até o momento”. O autor acrescenta que Frade exerceu, durante trinta e três anos, como professor na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e foi treinador adjunto em várias equipas da primeira liga Portuguesa, nomeadamente no F. C. do Porto durante mais de vinte anos. Xavier Tamarit ressalva que, portanto, esta metodologia, “não surgiu de um dia para o outro, como por magia, nem é algo extraído de qualquer outra área e extrapolado para este fenómeno de massas chamado Futebol”. Finalmente Tamarit sublinha que “ele é o criador da metodologia de treino conhecida como Periodização Táctica, transgressora com a lógica que era aceite como verdade absoluta pelas teorias e metodologias de treino, assim como, possivelmente, pela totalidade dos desportos. Esta “nova” metodologia surgiu há aproximadamente trinta anos, porém começou a ser mais conhecida através dos êxitos conseguidos pelo treinador português, (…), José Mourinho, que junto da sua equipa técnica conseguiu levá-la à excelência ao nível prático”.

Por outro lado, Paulo Sousa, citado por (Ferreira, 2014), justifica a qualidade dos treinadores portugueses com múltiplas presenças nos níveis competitivos mais elevados. O técnico português sustenta que “é extraordinário e isso só confirma o que disse, que temos qualidade e estamos preparados. Claro que há factores que determinarão os resultados que cada um deles irá obter mas isso não porá em dúvida a competência de todos eles que, com o tempo, irá sendo cada vez maior”.

Assim, segundo Jorge Jesus, citado por (Braz, 2009) e abordando os melhores, “os treinadores portugueses são dos melhores do mundo, ao nível dos holandeses e dos italianos”. O treinador português (Jorge Jesus, 2013), reforça esta ideia, colocando os treinadores “à frente dos outros, mas que estão a frente é garantido. Todos querem aprender connosco”. Ainda (Jorge Jesus, 2015), vai mais longe e opina que “os treinadores portugueses, são actualmente os melhores treinadores do mundo, são os que têm mais conhecimento em todas as áreas que definem o crescimento de uma equipa de Futebol, e portanto se tiveres a possibilidade de trabalhar numa equipa que tem condições financeiras para teres isto tudo, eles têm muito mais facilidade de ganhar esses títulos que qualquer outro treinador do mundo. Tirando o Pep Guardiola porque também penso que é um pouco parecido com os treinadores portugueses”.

Para (Silveira Ramos, 2015), o treinador português encontra-se à frente de colegas de outros países, pois para o treinador e autor, há décadas que o treinador português perspectiva o treino de uma forma mais global, mais holística, contrariando o pensamento analítico e a divisão das dimensões do rendimento protagonizada pela maioria das outras culturas futebolísticas. Porém, para tal, o autor defende que foi preciso errar, foi preciso “trilhar o caminho”, foi necessário inovar, e também aí o treinador português foi corajoso e pioneiro. Qualidades conjugadas com a inteligência. Segundo o treinador português (Nuno Manta, 2017), “o treinador português é super inteligente. Sabe trabalhar o músculo principal, que é o cérebro, e põe o jogador a pensar, português ou não. Independentemente da nacionalidade, os jogadores vêm para cá e normalmente crescem aqui, antes de dar o salto para a Europa”.

Neste enquadramento, novamente (Silveira Ramos, 2017) descreve que “há algo que herdamos da chamada velha guarda dos treinadores portugueses: a estratégia. Portugal foi pioneiro nessa capacidade de aliar a vertente estratégica às metodologias de treino de vanguarda. Isso produziu alguns dos melhores treinadores do mundo. Não percamos isso, não nos agarremos a preconceitos. Identidade não é jogar sempre com os nossos argumentos expostos. Nenhum grande general faria isso… Estratégia é utilizar o que temos de melhor. Uma frase mais para a tal simbiose entre velha guarda e os tempos modernos. Os treinadores portugueses eram aqueles bons malandros, no bom sentido do termo. Eram atrevidos e essas características espero que nunca se percam porque é a nossa natureza e também a explicação para a afirmação de muitos deles no estrangeiro“.

O treinador português (Leonardo Jardim, 2017) acha “que o treinador português é um treinador muito bem visto em toda a Europa e todo o mundo pelo seu conhecimento e pela sua capacidade de adaptação. Nós portugueses temos esta capacidade. Nós temos famílias de emigrantes e temos capacidade de nos adaptar. Mesmo em cenários de alguma dificuldade nós conseguimo-nos adaptar e ultrapassar essas dificuldades e fazer aquilo que mais gostamos que é o nosso trabalho, e apresentar resultados. Ao contrário do que no passado podíamos pensar, a adaptação é uma mais valia.

O autor (Luís Freitas Lobo, 2010), parece subscrever esta ideia ao defender que “tacticamente, o treinador português é dos mais inteligentes do mundo. Domina o treino e a leitura de jogo. É multicultural, sem complexos de ouvir outras escolas mas, ao mesmo tempo, tem um orgulho pessoal que não o deixa converter-se, pelo que, no fim, impõe a sua filosofia”. Lobo, acrescenta que o treinador português, “prova, como diz Capello que “o melhor treinador é o maior dos ladrões”. Aprende em todos os sítios e com todos os outros técnicos, mas, no fim, aproveitando tudo, mete a suas ideias e cria uma filosofia própria global. O Futebol português, não duvidem, sempre esteve cheio de grandes “ladrões””. O autor (Pinheiro, 2013) destaca três pontos que fortes no treinador português:

  • Trabalho realizado em ambiente de adversidade. O autor refere que “treinador português está acostumado a trabalhar com poucos recursos, tanto ao nível humano quanto ao material. Vejamos o exemplo de algumas equipas fantásticas que se alicerçam em jogadores “aparentemente” normais, mas que com grande rigor e organização conseguem resultados fantásticos”;
  • Formação académica. Para Valter Pinheiro, “o advento de técnicos com formação em Educação Física trouxe ao futebol maior rigor e cientificidade”;
  • Capacidade de adaptação. Finalmente o autor sublinha “a capacidade “camaleónica” do treinador português, capaz de se adaptar a contextos difíceis e muitas vezes hostis. Já se tornou normal ver equipas com muitos meses de salários em atraso que em campo revelam uma motivação feroz. Em muitas destas situações o treinador assume-se como a pedra angular que congrega a união da equipa”.

Portanto, no fundo o que faz a diferença no treinador português é o conhecimento que este conquistou, fruto da sua ambição, coragem, inteligência, criatividade, experiências e ideias produzidas, num contexto tão competitivo e adverso como o Futebol Português.

“Sempre fui muito autocrítico e nunca me chega aquilo que faço. Quero sempre mais porque sei que consigo mais. É como o nosso cérebro: nós só exploramos uma parte muito pequena do nosso cérebro. E eu sinto que bem estimulado e motivado sou capaz de virar uma equipa de pernas para o ar.”

Vítor Pereira, 2017

“O Futebol não traduz nem mais nem menos o que é a sociedade neste momento no mundo”

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O autor (Neto, 2012) sustenta que “esta omnipresença do Futebol na nossa sociedade levou, Costa (1990) a considerar esta modalidade com a grande festa dos tempos modernos, que suscita fascínios, ao ponto de ninguém ficar indiferente, constituindo-se como um idioma global”. De acordo com (Reilly & Williams, 2005), citados por (Gil, 2012), “o Futebol é a forma de desporto mais popular do mundo, sendo praticada por todas as culturas à escala planetária”. O autor (Gil, 2012)  reforça o papel do Futebol no mundo moderno, descrevendo que “o futebol deixou de ser considerado apenas um jogo, reunindo, atualmente, o estatuto de atividade profissional altamente remunerada, estando revestido de um crescente interesse comercial, político e social (Ali, 1988, citado por Silva, Castelo & Santos, 2011) altamente dependente da obtenção de sucesso”. Na opinião de (Sérgio, 2012), “o Futebol hoje, é o fenómeno cultural de maior magia no mundo contemporâneo”. Segundo o mesmo autor, “hoje, falar de Futebol é outra forma de falar de religião. Numa altura que se diz, e esta frase é de Nietzsche portanto já é uma frase do século XIX, que Deus morreu, o Futebol é um constante fazedor de deuses. (…) Hoje falar de Futebol é uma outra maneira de falar de religião”. Também Manuel Sérgio, citado (Neto, 2012) por refere que “o Futebol reproduz e multiplica as taras da sociedade. O desporto é altamente competitivo porque a sociedade é altamente competitiva. Se não era de outra maneira. Um indivíduo vai para dentro do campo e sai de lá “pior” do que entrou”. Ainda (Neto, 2012), justifica esta ideia explicando que “vivemos em concorrência, ou em competição, generalizada e, porque assim é, a performance é o seu principal padrão de medida”. José Neto cita ainda Michael Porter, descrevendo que “num mundo de competição global crescente, os países são mais ou menos importantes, consoante são mais ou menos competitivos. Poderemos dizer outro tanto do Futebol? Julgo que sim”. O mesmo autor, citando Toledo (1996 cit. Costa 2005), reforça esta ideia, sustentando que “o Futebol é considerado uma das modalidades mais difundidas nas manifestações desportivas das sociedades modernas, exercendo um grande impacto nos hábitos culturais desportivos dos nossos dias, podendo mesmo constituir-se como laboratório de análise social”.

in Introdução de Saber Sobre o Saber Treinar

O todo… organização defensiva… que está nas partes… sectores e jogadores

É notória a evolução que o Futebol manifestou nos últimos anos. Na liderança, no jogo e no treino. Contudo, o pensamento analítico sobrevive e ainda influencia as três dimensões. Naturalmente, porque como Vítor Frade referiu no I Congresso da Periodização Táctica “foram 400 anos de pensamento analítico ou cartesiano”.

Não é por acaso que Miguel Cardoso, e o seu processo… no fundo, o resultado da interacção da sua liderança com a sua visão do jogo e da forma como treina, tem demonstrado qualidade. Tem demonstrado qualidade no critério, na nossa opinião, mais importante para um treinador. A qualidade de jogo da sua equipa. Porque esta é o grande resultado do seu trabalho e será esta a conduzir a uma regularidade nos resultados. Na conferência de imprensa após o Porto x Rio Ave para a Taça da Liga, a questão do jornalista procurou separar a equipa nos que defendem e nos que atacam. Miguel Cardoso, mostrou o porquê da qualidade das suas ideias.

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O treinador do Rio Ave demonstra, dentro e fora do campo, pensar o jogo como um todo. Num artigo que publicámos recentemente, o responsável técnico pelo ciclismo na Federação da modalidade defendia que o atleta era um todo. Sendo o jogo composto por vários homens, consequentemente também o é um todo. Entendê-lo em complexidade é procurar compreender esse todo. E procurar ir ao plano do detalhe e perceber as suas partes, implica não lhes ignorar as relações e a interação que estabelecem entre si e as consequências que isso provoca no todo. Neste sentido (Azevedo, 2011) explica que “ (…) de acordo com Gaiteiro (2006) podemos afirmar que aquilo a que chamamos “parte” é apenas um padrão numa teia inseparável de relações, não existindo portanto, partes em absoluto”. Um dos principais defensores do pensamento complexo, Edgar Morin (2003, p. 108, 109), citado por (Tamarit, 2013), esclarece que “num holograma físico, o ponto mais pequeno da imagem do holograma contém a quase totalidade da informação do objecto representado. Não apenas a parte está no todo, mas o todo está na parte. O princípio hologramático está presente no mundo biológico e no mundo sociológico… a ideia de holograma ultrapassa, quer o reducionismo que só vê as partes quer o holismo que só vê o todo”. O mesmo autor acrescenta que “então pode enriquecer-se o conhecimento das partes pelo todo e do todo pelas partes, num mesmo movimento produtor de conhecimentos”. Xavier Tamarit reforça “que parece especialmente relevante para o futebol sobretudo se tivermos em consideração o facto de que como sugere, “a relação antropossocial é complexa, porque o todo está na parte, que está no todo”. Importa contudo salientar que da relação do todo com as partes podem resultar estados diversos de complexidade do todo. O todo pode ser menos que a soma das partes, pode ser igual à soma das partes e pode ser mais que a soma das partes. Mas só o todo organizado será maior que a soma das partes“. No fundo foi o que Miguel Cardoso explicou quando expôs a sua visão do jogo e a forma como identificou os problemas da sua equipa.

“É da problemática da complexidade

a natureza do que é nela interacção,

esfacelar tal realidade

é o que promove a mono explicação.”

(Frade, 2014)

Qualidade de jogo

É uma discussão permanente definir o que é qualidade de jogo no Futebol. Isto porque o conceito é muitas vezes associado à dimensão estética do jogo, e essa é naturalmente subjectiva e consequência das experiências, cultura, valores e sentimentos pessoais. Contudo se estamos perante uma actividade que exige rendimento, qualquer estética não sobrevive sozinha. Vítor Frade, 2013, descreve que “só se pode estar a Top estando sistematicamente preocupado com a objectividade, com a eficácia, com a eficiência. Agora tendo em conta o que é o futebol, eu tenho que estar permanentemente perturbado, estando preocupado com isso, e também estando permanen­temente preocupado com a estética do jogo. E a estética é a coisa mais nuanciável para que a objectividade seja objectividade. Se eu exagero na perda da estética vou perder aí, se eu exagero no aumento da estética vou perder ali, e isso é que não é para qualquer um. (…) sou um obcecado pela eficácia porque só se está no alto rendimento se se for eficaz, se se ganhar, mas eficácia é o resultado da eficiência, e a eficiência é o aparecimento regular de urna forma de fazer aparecer as coisas! E essa eficiência, e por isso eu disse, ser um angustiado e perturbado permanentemente pela estética. Portanto, a eficiência tem a ver com a estética, mas têm que se pesar as duas coisas!“

Vítor Frade descreve ainda que “depois já iríamos para o lado estético do Jogo, nas dimensões colectiva e individual! Portanto, isto tem a ver, o que estou a evidenciar, com a eficiência e eficácia mas depois… isto é importante e sem isso não vale a pena pensar as coisas, porque eu penso o treino e jogo para ganhar, e por isso digo que estou permanentemente preocupado com a eficácia e a eficiência, mas continuadamente preocupado também, e até perturbado com o problema estético! Eu revejo agora o Brasil de 80, de 82 e dos anos 70, e deleito-me a ver aquilo. Mas aquilo não é absolutamente transferível para os dias de hoje? Em termos de ataque é, agora eu tenho é que ter preocupações com os equilíbrios da equipa, que eles não tinham naquela altura, porque não era preciso, para continuar a ganhar.“

Na presente edição da Liga dos Campeões, três das equipas que reconhecidamente, actualmente apresentam melhor qualidade de jogo tendo em conta o trinómio Estética-Eficácia-Eficiência competiram no mesmo grupo. Assistimos, muito provavelmente ao futebol que aí vem. O tal que Vítor Frade aponta “para continuar a ganhar”. Um dos comandantes por trás deste sucesso é português, com naturalidade para nós dada a consciência que temos para o quanto os portugueses contribuíram nos últimos anos para a evolução do treino e do jogo. Contudo a coragem que sempre manifestou, não é para todos.

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“Para fazermos uma equipa funcionar, para fazermos uma verdadeira equipa, nós temos que ter os onze jogadores com a coragem de ter iniciativa, terem a coragem de quererem a bola, a coragem de quererem assumir o jogo”.

Paulo Fonseca, no programa ReporTV, “O Jogo”, 2016

A estupidez precoce

Um bom artigo sobre o Futebol de Rua, que desde já aconselhamos a ler, levantou-nos algumas questões. O autor, Carlos Almeida, interroga-se:

“não estaremos nós a promover a «especialização precoce»? A especialização precoce é definida como o início prematuro: (i) no desporto, sobretudo, num só desporto; (ii) na prática/treino formal de alta intensidade; (iii) em contextos de elevada competitividade. Quem quiser colocar em causa esta constatação, que assista a um torneio de Petizes (Sub-7) ou Traquinas (Sub-9) e observe, criteriosamente, os comportamentos de treinadores, de pais e do público em geral. É o envolvimento típico de um jogo de seniores. Chegámos ao ridículo de ouvir o árbitro ser vaiado antes de o jogo começar, para não mencionarmos episódios de discussão entre treinadores ou de pancadaria entre pais.”

Na nossa perspectiva, a questão é outra e não reside na esfera da especialização precoce.

Se pensarmos objectivamente no ponto (i), as próprias crianças procuram desde muito cedo a prática desportiva e nenhuma criança pratica uma só actividade, um só desporto. As suas experiências são por norma ecléticas e multilaterais. Assim, o primeiro problema coloca-se da interpretação que temos de desporto. O mesmo não tem necessariamente de ter contornos formais nem estar dependente ou influenciado por adultos. Dada a natureza humana, a criança explora, experimenta e interage, com tudo o que lhe suscita curiosidade. Assim, estamos perante um universo vastíssimo, o qual contém inúmeras actividades físicas, psico-motoras, outras apenas mentais, etc.. Se entretanto, dedica mais tempo a uma dessas actividades, isso não pode ser considerado errado, é simplesmente uma natural preferência pessoal. Errado é serem-lhe retirados, pela sociedade, tempo e espaço para todas as outras actividades e experiências, nomeadamente as na rua e nos recreios, e em contexto de auto-descoberta.

Hoje falava com um amigo, professor de Expressão Motora, que desabafava que os seus miúdos estão cada vez mais difíceis de gerir, pois quando confrontados com algum espaço para darem expressão ao seu potencial motor, à sua necessidade de jogar e mesmo a alguma liberdade, surge uma “catarse” difícil de controlar. É verdade que nem sempre bem, mas a Expressão Motora e a Educação Física, dentro do sistema de ensino sempre procuraram combater um problema grave e crescente que os adultos estão a impor às crianças. Mas a verdade é que travam uma luta inglória. Num artigo publicado no passado, trazíamos um vídeo com entrevistas a prisioneiros, que tendo em conta as suas vivências, pensavam na vida das crianças de hoje. No passado fim-de-semana, um dos oradores do I Congresso Internacional da Periodização Táctica, voltou a  puxar o assunto. Recuperamo-lo, pois nunca é demais sublinhar o problema.

Simultaneamente, errado é ainda a criança ser empurrada, como imposição social, para uma escola de futebol ou de outra qualquer modalidade, onde a prática analítica, mecânica e altamente directiva não lhe permite descobrir e resolver os problemas que os jogos lhe traz, castrando-lhe a autonomia, mas acima de tudo, não lhe proporcionando o essencial… a satisfação. No fundo, como se não chegassem todas as outras imposições dos adultos, este conceito de “desporto” surge como mais outra imposição, muitas vezes motivado por razões preocupantes, como a falta de tempo para os filhos, ou um desejo dos pais para desde cedo tornarem o filho num futuro desportista profissional.

Quanto ao segundo ponto (ii), dada a nossa perspectiva de intensidade, já amplamente difundida, a mesma não se torna prejudicial à criança. Antes pelo contrário. Porque simplesmente a intensidade que idealizamos, à luz do pensamento complexo, refutando o pensamento cartesiano e portanto não separando decisão de execução, será fazer bem, no tempo certo. Sendo assim, é no fundo o que a criança procura em todas as actividades que explora: torna-se melhor, evoluindo respeitando as suas qualidades, interesses, fadiga, timings… Na perspectiva convencional de intensidade, na qual o que importa é fazer tudo rápido, de forma agressiva, mecânica, despejada de consciência e inteligência, é claro que a mesma é prejudicial para a criança. E vamos mais longe… também o é para o adulto.

“Habituámo-nos ao instantâneo. Temos comida instantânea, fotos instantâneas e café instantâneo, e agora começamos também a esperar êxito instantâneo.”

(Wein, 2004)

O ponto (iii) reflecte tudo o resto. E a questão coloca-se, se estamos perante a competição que por exemplo os jogos na Rua traziam à criança, altamente benéficos e arriscamos mesmo a dizer, necessários ao seu desenvolvimento, ou se estamos perante a péssima competição dos adultos protagonizada em muitos contextos profissionais e amadores, da qual o autor Carlos Almeida dá vários exemplos. Essa mesma “competição” que é importada pelos adultos, todos os fins-de-semana, para o desporto infanto-juvenil.

Portanto, o problema não se situa numa eventual especialização precoce, um chavão também inventado pelos adultos para catalogarem as suas asneiras. O verdadeiro problema é a transferência de muita estupidez dos adultos para a vida das crianças. Assim, podemos, com objectividade, explicar que o problema é a imposição do adulto à criança de uma… estupidez precoce.

“Um estudo, realizado em Inglaterra, revelou que os taxistas desenvolvem muitos mais novos neurónios que os motoristas de autocarro.”

Vítor Frade, 2017 – I Congresso Internacional de Periodização Táctica

“O carácter não é um dom, é uma vitória”

A frase que intitula o artigo é de Ivor Griffith e encaixa naquelas que deveriam ser as verdadeiras vitórias do desporto de formação. Ao invés, semanalmente assistimos a uma deterioração dos valores e consequentemente dos comportamentos de todos os agentes desportivos. Num enquadramento em que a vitória na competição é o mais importante, onde vale tudo para atingi-la, e onde também se assiste a uma incrível normalização violência verbal, não é então para nós surpresa que a escalada para a violência física, protagonizada nas situações sucedidas recentemente nos vários níveis do jogo, suceda.

Também semanalmente, num programa raro na televisão portuguesa tendo em conta os temas abordados, são sublinhados os problemas, as causas e por vezes até são apontadas algumas soluções. Várias vezes da boca de um homem que percebe verdadeiramente o que é liderar e da responsabilidade que a função carrega. Não é difícil perceber onde está a raiz do problema, mas Tomaz Morais, com a ajuda dos companheiros de programa, explicam. Sendo verdade, que pelas funções que ocupam, existem uns mais culpados que outros, como Tomaz Morais sublinha, todos somos culpados.

Somos todos culpados e deixamos um exemplo. Antevemos que muitos dos que se calhar até concordam com esta visão e criticam os outros múltiplos programas da televisão portuguesa que fomentam estes problemas, mas que ainda assim despendem horas da sua semana garantindo-lhes audiência, não gastem onze minutos com o vídeo acima, e no fundo com o tema mais importante de todos.

“A liderança ética deve prevalecer.”

Tomaz Morais

“Tudo aquilo o que aprendi sobre a moral dos homens, aprendi-o nos campos, jogando futebol.”

Albert Camus

Os homens também choram

Porque são homens que jogam e que assumem as decisões. Portanto, antes de todos os outros, são eles que sentem.

“O próximo marco eu!”

Alex Ferguson, após quatro penaltis falhados pelo Manchester United.

Um copo meio vazio, ou demasiado cheio?

“Desmontar os absurdos que condicionam o nosso pensamento e nos acompanham, disfarçados de tópicos, preconceitos, ideais pré-concebidas, clichés, falsos paradigmas, lugares comuns e demais formas de pensamento não é tarefa fácil.”

Mateo, J; y Valle J. citados por (Moreno, 2009)

Já tocámos no assunto no passado, num artigo em que abordámos a fraca formação que o dirigente desportivo neste momento apresenta, tendo em conta o poder de decisão que carrega e subjacente responsabilidade. Porém, não é o único agente desportivo, que de uma forma geral, se apresenta nesta situação. No Futebol de Formação os pais, tendo em conta que a sua grande maioria são de áreas profissionais muito distintas, são com naturalidade outro exemplo. No Futebol Profissional, os agentes desportivos, juntam-se ao grupo. Salvaguardamos, claro, vários exemplos em todas estas funções, que começam a caminhar noutro sentido.

Colocamos ainda, num patamar idêntico ao dos dirigentes, pelo poder que manifestam e que pode até influenciar o desempenho das equipas, muitos jornalistas e “comentadores” desportivos. Profissionais, que para nós, deveriam fazer da investigação um dos seus grandes bastiões, apresentam tantas vezes um desconhecimento gritante do jogo, do treino e até da própria liderança. O argumento de apenas se deverem preocupar com o que a maioria dos espectadores procuram no jogo é deveras redutor. Na nossa opinião o jornalista e o “comentador” desportivo são, tal como os jogadores, treinadores, árbitros, etc., agentes que têm a oportunidade de mudar o jogo e a sua envolvência para melhor. Assim, desperdiçar essa condição é menosprezar a sua própria actividade e importância.

A situação já foi difundida amplamente, mas não podemos perder a oportunidade de elogiar treinadores como Luís Castro, que perante um contexto de tanta adversidade às ideias de qualidade (para nós aquelas que aproximam as equipas do sucesso), resistem, mantém-se corajosos e confiantes no seu pensamento. Luís Castro explicou claramente, a sua forma de pensar o jogo, justificando-a como forma de procurar garantir o tal trinómio estética-eficácia-eficiência, procurando portanto colocar a sua equipa mais perto do controlo do jogo e da vitória. O “pragmatismo” específico do Futebol é isto. Hoje insiste-se num pragmatismo abstracto, que ninguém sabe explicar exactamente o que é, a não ser no “ganhar”, e a verdade é que este pensamento também se estende a muitos outros treinadores. Mas nesta situação, a incompreensão do jornalista pelo discurso de Luís Castro é confrangedora.

Mas perante este cenário, se constatamos um baixo nível de conhecimento, transversal à maioria dos agentes desportivos, não estaremos então a ver a questão pela perspectiva errada?

Também. Porque por outro lado, é evidente a enorme a evolução que o jogo, o treino e a liderança das equipas registaram, resultado da qualidade que muitos treinadores portugueses hoje apresentam, colocando-os no top mundial. Simultaneamente, em todos os níveis do jogo muitos outros crescem, nas ideias e na experiência e preparam-se para mais uma vaga, quem sabe ainda melhor. Facto, valorizado ainda, pela menor dimensão do país, no número de praticantes e de equipas, comparativamente com muitos outros. Também não é assunto novo neste espaço, pois ainda noutro artigo recente, trazíamos o professor Silveira Ramos elogiando o treinador português, pelo seu conhecimento do jogo e pensamento estratégico. Hoje, em vários pontos do mundo o treinador português é visto como sinónimo de qualidade. Constitui-se como mais um “produto” português de enorme sucesso.

Perante isto, provavelmente foram os treinadores que evoluíram tremendamente, o que não teve paralelo nos outros agentes desportivos. Ou seja, não são os outros agentes que estão muito atrás, até porque o seu nível de conhecimento é idêntico noutros países, são é vários os treinadores portugueses que estão muito à frente…

“O treinador não é um resultado, mas é uma competência que tem de ser avaliada.”

(Lobo, 2014)

“Os treinadores não são bons porque ganham. Antes, ganham porque são bons.”

(Bouças, 2010)

Coragem… Específica II

Deixámos propositadamente o som dos comentários. Jornalistas, adeptos, pais, dirigentes, na sua grande maioria transmitem uma enorme falta de coragem na forma como sentem e pensam o jogo. Isto obviamente tem consequências em quem o treina e em quem o joga, porque o “nadar contra a maré” não é fácil. Neste contexto, devemos aplaudir uma equipa de escalão inferior, que a jogar no campo do campeão nacional e líder da primeira liga, a perder 3-0, procura a qualidade no seu jogo.

Há pouco tempo, num artigo publicado no Lateral Esquerdo, Nuno Amado ia na mesma direcção: “há um género de pessoas que, em dívida para com uma tradição que os ensinou a respeitar certas leis caducas, não conseguiram nunca perceber, não obstante as lições catalãs e bávaras dos últimos anos, as verdadeiras vantagens que há em procurar sair a jogar desde trás. As mesmas pessoas podem até acreditar que sair a jogar compensa de facto o risco quando os defesas conseguem suplantar a primeira zona de pressão adversária, e podem até reconhecer que a equipa que a isso se propõe acaba por beneficiar desse risco depois de superar esse obstáculo inicial. Não obstante, parece-lhes sempre demasiado arriscado.”

De acordo com (Manna, 2009), “sair jogando é dar prioridade ao passe desde o início da construção de jogo. O pontapé de baliza ou a participação dos defesas na construção ofensiva torna-se fundamental. Uma perda de bola na zona dos defesas centrais pode ser terrível. Todos evitam realizar o que Pep dá prioridade. Riscos que permitem, facilitar o ciclo de jogo, no qual Pep irá sempre tentar construir desde a sua baliza”. Guardiola sublinha que saindo a jogar bem, podemos chegar ao alvo jogando bem, ao contrário de um mau início de construção que torna tudo mais difícil e aleatório. E lembra que se o primeiro passe é bom, tudo é mais fácil a seguir.

Um regresso de… Mourinho

José Mourinho “disfruta nos seus duelos dialéticos com eles. Gosta de controlar a cena, não se importa que só se fale dele e considera que assim blinda os jogadores e lhes retira pressão.”

(Roncero, 2010)

“ (…) assim como os génios Picasso, Dali, Miró inventaram novas linguagens plásticas, também o meu amigo inventou a linguagem onde os seus jogadores se transformam na expressão corporal do génio do seu treinador. E desta forma nasce a compreensão de uma inesperada cultura Táctica, a consciência de um grupo, a certeza de uma solidariedade… inabaláveis!”

(Sérgio, 2010), em carta aberta a José Mourinho

Duas leituras de 2010 sobre José Mourinho, no auge do sucesso. Será que podemos daqui aferir que, do ponto de vista do jogo, faz falta o Mourinho… feliz? E o que lhe traz essa felicidade? E estará ele consciente do caminho para a obter?

Valores Humanos V e a “formação”… do dirigente desportivo

O ex-selecionador nacional de Rugby, Tomaz Morais, sempre com intervenções interessantes na dimensão Liderança, toca em dois temas fundamentais no desporto, nomeadamente no desporto de formação. No primeiro, os valores humanos, ao qual temos dado grande relevância neste espaço, dada a nossa convicção da sua importância basilar em todo e qualquer processo educativo, e o segundo, também consequência do primeiro, sobre a formação do dirigente desportivo.

Esta é uma questão que nos assola, igualmente pela importância capital que tem numa estrutura desportiva. Pensando no caso do Futebol, e em particular do contexto português, hoje presenciamos uma evolução exponencial da qualidade dos treinadores, desde a formação até ao futebol profissional, e também por consequência disso, da quantidade e qualidade dos praticantes. A exigência pela formação dos treinadores, a competitividade dentro da classe e a difusão por diferentes meios de novos conhecimentos e ideias foram causas para esta evolução. Contudo, se pensarmos estruturalmente, numa hierarquia de decisão, encontramos hoje o maior défice de conhecimento, formação e preparação no topo dessa hierarquia, portanto, em quem toma as decisões mais importantes e consequentemente tem o poder para influenciar mais pessoas. Tomaz Morais, toca precisamente nesse ponto.

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