“conhecimento é conhecimento. Se és competente isso não interessa.”
“para conduzires tens de ter uma carta de condução. Mas tu podes saber conduzir sem ter carta de condução. Não é no curso que te formas como treinador.”
(Jorge Jesus, 2022)

“para conduzires tens de ter uma carta de condução. Mas tu podes saber conduzir sem ter carta de condução. Não é no curso que te formas como treinador.”
(Jorge Jesus, 2022)
Como já referido em artigos anteriores sobre o Manchester United de Matt Busby, a equipa e o clube são um dos exemplos mais inspiradores de resiliência e superação na história do futebol. Após o trágico desastre aéreo de Munique, em 6 de fevereiro de 1958, que custou a vida de 23 pessoas, incluindo oito jogadores da equipa, o clube enfrentou um dos momentos mais sombrios de sua história. Esse acidente devastou a estrutura do Manchester United, não só pela perda de talento, mas também pelo golpe emocional que afetou profundamente os sobreviventes, incluindo o próprio treinador, Matt Busby, que ficou gravemente ferido.
Busby, que já havia transformado o Manchester United numa potência, teve de reconstruir a equipa praticamente do zero, contando com jogadores jovens, como George Best e Brian Kidd, e com o lendário Bobby Charlton, um dos sobreviventes do desastre. Durante anos, o foco foi reconstruir não apenas a equipa, mas também a confiança e a identidade do clube. Essa reconstrução foi marcada pela força coletiva e pela crença na visão de Busby, que nunca abandonou o sonho de levar o United ao topo da Europa.
Em 1968, dez anos após o desastre de Munique, o Manchester United alcançou essa glória ao vencer o bicampeão europeu Benfica na final da Taça dos Clubes Campeões Europeus, no Estádio de Wembley, em Londres. Já no prolongamento, a vitória por 4-1 foi a coroação da resiliência e do talento da equipa. George Best marcou um dos golos mais memoráveis do jogo, exibindo a habilidade que o tornaria um ícone. Bobby Charlton, que também marcou na final, completou um ciclo de redenção e honra. Esse título foi o primeiro de um clube inglês na competição europeia, e o Manchester United demonstrou que, apesar das tragédias, era possível ressurgir ainda mais forte.
A história do Manchester United de Matt Busby oferece uma poderosa mensagem para todos os clubes: a importância de perseverar, manter uma visão clara e apostar no desenvolvimento de jovens talentos, mesmo quando as circunstâncias parecem insuperáveis. E sublinha que a grandeza de um clube não reside apenas em troféus, mas também na capacidade de ultrapassar a adversidade com coragem, coesão, determinação e ambição.
“É o sonho de qualquer treinador, suponho, construir uma equipa treinando jovens jogadores dos 15 aos 17 anos. Foi por isso que comecei um programa de formação de jovens.”
(Matt Busby)
“É útil olhar para o experimento da maçã podre sob esta perspectiva. Nick conseguiu perturbar a química dos grupos apenas enviando alguns sinais de não pertença. O seu comportamento foi um sinal poderoso para o grupo — não estamos seguros — o que imediatamente fez com que o desempenho do grupo desmoronasse. Jonathan, por outro lado, forneceu um fluxo constante de comportamentos subtis que sinalizavam segurança. Ele conectou-se individualmente, escutou atentamente e sinalizou a importância da relação. Ele foi uma fonte inesgotável de sinais de pertença, e o grupo respondeu de acordo.”
(Daniel Coyle, 2018)
Nos últimos séculos, a sociedade foi dominada por um pensamento analítico, caracterizado pela divisão e dissecação do conhecimento em partes menores para melhor compreensão e controlo. Essa abordagem trouxe grandes avanços científicos e tecnológicos, mas também levou a uma visão fragmentada da realidade. Hoje surge uma tendência oposta: a sobrevalorização do pensamento holístico na demanda de integrar diferentes partes e reconhecer a complexidade do todo. No entanto, esta nova tendência surge eventualmente como compensatória ao tremendo domínio que o pensamento analítico exerceu e vai além do patamar de equilíbrio da análise com a síntese. Deste modo, em diversas áreas observa-se, pensa-se e actua-se excessivamente sobre o todo e esquece-se a importância das partes. O futebol, ainda que repleto de diferentes exemplos, também vai manifestando este problema.
Muitas vezes observa-se o jogo, seja quantitativa ou qualitativamente pela sua totalidade, quer pela estatística e quantidades de acontecimentos recolhidos, quer através da análise qualitativa de comportamentos colectivos, intersectoriais, sectoriais e grupais. Esquecem-se as acções individuais e a execução técnica. O pensamento contagiou muitos treinadores que descuram a dimensão individual do jogo, quer no crescimento dos jogadores a este nível quer no combate às suas lacunas. Esquece-se então o jogador, a sua unicidade e individualidade e o quanto isso pode fazer a diferença no seio de uma equipa e no jogo. Como esclarece Vítor Frade, em entrevista a (Xavier Tamarit, 2013), “o que dirige o Processo é uma matriz, é uma ideia de jogo e de operacionalização, porque a Especificidade só é garantida… não é garantida pelo macro, é garantida pela intervenção que você consegue ter em todas as particularidades, de forma que elas contribuam para o todo, porque senão, não é Especificidade. Caso contrário, você não vai identificar que Joaquim é diferente de Manuel, e isto é diferente daquilo. Portanto, a Especificidade também está aí… e as partes melhorando, melhoram o todo”.
Uma equipa técnica é outro bom exemplo. A competência da mesma é certamente gerada pelo todo que se gera na interação das partes, ou seja, cada técnico. Mas a individualidade, aérea de especialidade, experiência e competência individual, são também fundamentais para que esse todo seja melhor.
Um destes técnicos, Vítor Matos, no passado formando equipa com Pepijn Lijnders no Liverpool de Jürgen Klopp e que agora acompanhou o neerlandês num novo desafio no Red Bull Salzburg, aborda a questão pela dimensão sócio-afectiva e dinâmica do grupo. O treinador português defende a importância da individualidade e das escolhas do treinador na construção da equipa. Certamente, nada de novo. Os bons e mais experientes treinadores terão há muito (para não dizer desde que o futebol é futebol), uma intuição e sensibilidade para tal. Racionalizar isto, na perspectiva de alguém que, pelo trajecto que teve no futebol acreditará na mudança de paradigma vivida nas últimas décadas nomeadamente ao nível do pensamento holístico, complexo e sistémico, é que é se torna raro na hoje em dia. Porque tal como na restante sociedade, vivemos uma tendência para a polarização de crenças e atitudes.
“É um desafio pelas relações que se vão criando. Por isso é tão importante a ideia de jogo e este compromisso coletivo. É normal, quando tens dois ou três jogadores de uma nacionalidade e dois ou três de outra e por aí fora, que eles se relacionem mais entre eles, por grupos. O desafio é que nos consigamos conhecer melhor, de forma a que, no jogo, tudo flua naturalmente. Às vezes, é o próprio jogo que leva a essa naturalidade. Por essas razões, ao olharmos para o mercado, fomos buscar alguém com mais experiência, o Janis Blaswich, um jogador com maturidade, um capitão, que ajudasse a que existisse uma maior maturidade também nestas questões. É importante ter sensibilidade para este tipo de questões. Mas, mais do que aquilo a que nós [treinadores] possamos apelar, os jogadores também têm de, eles próprios, criar o seu próprio espírito de equipa. Acreditamos muito que os jogadores têm ownership, que sejam capazes de construir e criar uma cultura partilhada. Às vezes temos a tendência de não valorizar a parte em relação ao todo, mas a parte faz parte do todo e é fundamental para que tudo flua da melhor forma”.
(Vítor Matos, 2024)
“ressalta o raciocínio base do modelo de jogo da equipa: ataca-se quando se tem a posse da bola, defende-se quando não se tem a posse da bola. Observa-se assim: “uma expressão colectiva no processo ofensivo e uma expressão colectiva no processo defensivo”, ou por outras palavras, “todos os jogadores atacam, todos os jogadores defendem”
(Carlos Queiroz, 1983)
Publicamos um novo tema na dimensão Liderança. Sub-tema de Dimensões de Liderança, abordamos então o tema Liderança Carismática.
Deixamos um excerto.
(…)
“A alma de uma equipa é a alma do seu treinador”.
Miguel Delibes citado por (Jordi Urbea & Gabriel García de Oro, 2012)
(…)
Assim, para os autores (Luís Lourenço et al., 2017), “a liderança, como se demonstra à evidência, tem um forte factor de atribuição. Ela não é um cargo, um posto, mas sim um desempenho que resulta num estatuto atribuído por outros. A liderança é, por isso, um processo social. Liderar-me a mim mesmo não faz sentido. Pressupõe plural, para haver líder têm de haver seguidores. E tem de haver vontade: eu estou disposto a liderar, vocês estão dispostos a seguir”. Deste modo, o líder carismático possui uma visão inspiradora capaz de motivar e envolver os seguidores a um nível emocional profundo. Esta visão é frequentemente apresentada de forma a desafiar o status quo, propondo mudanças significativas na organização ou na sociedade.
(…)
“o desejo de vencer e de ser campeão, não tanto porque se ganhou, mas porque se é um “ganhador”; a combatividade que transmite a vontade de vencer…”
(Manuel Sérgio, 2013)
“Estive dezoito anos no Mainz e quando saí pensei: da próxima vez vou ter de trabalhar com menos coração. Disse isso porque todos chorámos durante uma semana. A cidade organizou uma festa de despedida que durou uma semana. Para uma pessoa normal é demasiada emoção. Pensei que não era saudável trabalhar assim. Mas ao fim de uma semana em Dortmund tinha voltado ao mesmo. Encontrar esta situação duas vezes, ser atingido pela fortuna desta forma, é muito raro”.
(Jürgen Klopp, 2013)
“Então, como há muito negócio e o futebol gera um volume económico espetacular, começa a entrar gente que não tem nada a ver com futebol e que se apodera do futebol. Intermediários e representantes ganham mais dinheiro do que muitos treinadores e jogadores, sem jogarem. Especialistas de todo o tipo. Aparece a ciência e trata de dizer aos donos, aos que têm dinheiro, que há uma forma de controlar o jogo, de medir o jogo, quando é absolutamente falso. Eu acredito na ciência, claro que acredito na ciência, mas naquela ciência que tem em conta a incerteza.”
(Óscar Cano, 2022)
“Tinha o desejo de se tornar o melhor jogador do mundo e possuía a determinação para o conseguir.”
(Alex Ferguson, 2018)
No livro “The Culture Code” de (Daniel Coyle, 2018) encontramos um texto interessante sobre a coesão de equipa, a qual, nalguns casos de sucesso atinge o estatuto de “família”. De facto, também no Futebol vai emergindo internamente nas melhores equipas a denominação “família” perante um alto nível de ligação, alinhamento, solidariedade e cumplicidade. No fundo, o tal tão desejado entrosamento. Tal, nem sempre significará resultado desportivo pois para o mesmo também concorrerá a qualidade individual dos jogadores e a qualidade da oposição. Contudo, a qualidade colectiva estará então conquistada.
“Quando se pede às pessoas dentro de grupos altamente bem-sucedidos para descreverem a sua relação umas com as outras, todas tendem a escolher a mesma palavra. Essa palavra não é amigos ou equipa ou tribo, ou qualquer outro termo igualmente plausível. A palavra que usam é família. Além disso, tendem a descrever o sentimento dessas relações da mesma maneira:
“Não consigo explicar, mas as coisas simplesmente parecem certas. Na verdade, tentei sair algumas vezes, mas continuo a voltar. Não há sensação igual. Estes caras são meus irmãos.” (Christopher Baldwin, SEAL Team Six da Marinha dos EUA)
“Não é racional. Ninguém que seja puramente racional faz as coisas que acontecem aqui. Existe um trabalho em equipa que vai muito além de equipa e se sobrepõe ao resto da vida das pessoas.” (Joe Negron, escolas charter KIPP)
“É uma adrenalina, saber que podes correr um grande risco e essas pessoas estarão lá para te apoiar, aconteça o que acontecer. Somos viciados nessa sensação.” (Nate Dern, Upright Citizens Brigade, grupo de comédia)
“Somos todos sobre ser um grupo familiar, porque isso permite correr mais riscos, dar permissão uns aos outros e ter momentos de vulnerabilidade que nunca se poderia ter num ambiente mais normal.” (Duane Bray, IDEO design)
Quando visitei esses grupos, notei um padrão distinto de interação. O padrão não estava nas grandes coisas, mas nos pequenos momentos de conexão social. Essas interações eram consistentes, fosse o grupo uma unidade militar, um estúdio de cinema ou uma escola no centro da cidade. Fiz uma lista:
Mais uma coisa: descobri que passar tempo dentro desses grupos era quase fisicamente viciante. Estendia as minhas viagens de reportagem, inventando desculpas para ficar mais um ou dois dias. Encontrava-me a sonhar acordado com mudar de profissão para poder candidatar-me a um emprego com eles. Havia algo irresistível em estar perto desses grupos que me fazia desejar mais conexão.
O termo que usamos para descrever este tipo de interação é química. Quando se encontra um grupo com boa química, percebe-se instantaneamente. É uma sensação paradoxal e poderosa, uma combinação de excitação e profundo conforto que surge misteriosamente com certos grupos especiais e não com outros.”
(Daniel Coyle, 2018)
“a imagem do líder é o seu exemplo. Em todas as suas atitudes.”
(Tomaz Morais, 2014)
A última substituição de Roger Schmidt no Benfica x Arouca terá simbolizado a despedida de Rafa do Benfica após oito anos no clube. Mas não só. Por outro lado, foram os primeiros minutos de João Rêgo na equipa principal do Benfica após seis anos no clube e o lançamento de mais um produto do futebol de formação português.
Se ao contrário das últimas décadas, o lançamento de um jovem jogador formado num clube português já não é um acontecimento surpreendente e grande notícia, este caso concreto torna-se especial porque naquele momento o treinador alemão podia ter optado pela estreia do jovem argentino Gianluca Prestianni contratado esta época ao Vélez Sarsfield por 9 milhões de euros.
O nosso foco não se coloca na comparação e na avaliação do potencial e qualidade de cada um dos jogadores em causa. Coloca-se sim na decisão de Roger Schmidt, que pode parecer pequena, mas apresenta potencial para produzir grandes consequências. O momento futebolístico de João Rêgo é fruto do investimento e das qualidades do próprio, eventualmente dos seus familiares, e do trabalho de muitas pessoas durante o seu processo formativo. E ainda, de um grande investimento do clube em conjunto com um pequeno contributo da FPF dada a sua presença nas selecções nacionais jovens.
Deste modo, é dado um sinal. É reforçado e indicado um rumo. Interna e externamente. Um sinal que demonstra confiança e aposta nesse projecto de longo prazo do clube e no trabalho dessas inúmeras pessoas envolvidas no Futebol de Formação. Contribuindo assim, decisivamente, não só para a motivação das mesmas com também para a motivação dos jogadores mais jovens que virão a seguir. Em última instância trata-se da valorização do jogador português de uma forma geral. Sendo ainda que o valor que o argentino custou ao clube fortalece ainda mais a transmissão desta ideia. É portanto, uma dose de “fermento” em todo o processo. O próprio diretor-geral do Benfica Campus, (Pedro Mil-Homens, 2022), aponta isso mesmo, ao sustentar que “um clube como o Benfica só pode ter um projeto de formação na dimensão que tem — investimento, recursos humanos, instalações, expectativas — se o principal objetivo for retirar deste projeto jogadores para o seu futebol profissional”.
Treinadores de futebol de formação do AC, Milan, em entrevista ao canal do clube (AC Milan, 2013) descreveram que a maior recompensa para um treinador de formação pode ter é “ver crianças crescerem e tornarem-se homens e que alguns destes jogadores atinjam o futebol profissional. Isso quer dizer que no percurso, nós ensinámo-lhes alguma coisa valiosa”.
“Gere-se havendo diálogo, escolhendo pessoas para a direção técnica da equipa principal que se alinhem com o projecto do clube. O clube tem um projeto e as pessoas encaixam, com certos graus de liberdade, mas num rumo que é preciso manter. De outro modo o clube perde a sua identidade e o seu ADN.”
(Pedro Mil-Homens, 2022)
“Um dos grandes segredos do nosso sucesso é a forma como Jürgen fala com os jogadores. Há um ditado que diz que a forma como falas com os teus jogadores torna-se a sua voz interior – e é isso que acontece com o nosso grupo todos os dias. Tanta positividade, tanta força de vontade, tanta inteligência de jogo. Ele tem esta vontade constante de surpreender a oposição. O momento em que Jürgen fala com os rapazes antes do treino estabelece o tom. Depois, cabe a mim, aos outros treinadores e aos jogadores, usar este tom para melhorar o nosso estilo. Controlar jogos sendo dominantes e imprevisíveis.”
(Pep Lijnders, 2022)