Plano Anual
Publicamos um novo sub-tema na área Metodologia.No âmbito do Planeamento abordamos o Plano Anual.
“Agir local, pensar global.”
(Silveira Ramos, 2004)

Publicamos um novo sub-tema na área Metodologia.No âmbito do Planeamento abordamos o Plano Anual.
“Agir local, pensar global.”
(Silveira Ramos, 2004)
Publicamos um novo sub-tema na área Metodologia.No âmbito do Planeamento abordamos o Início de trabalho numa nova equipa.
“não é a mesma coisa treinar uma equipa que ganhou tudo na ultima época e treinar outra que não ganhou nada, porque para um treinador que chega numa equipa que ganhou tudo jogando de determinada forma, porque é que os jogadores irão querer seguir por um caminho diferente com outro treinador? Porque é que o Del Neri se foi embora quando veio para o FC Porto?! Tinha estado cá o Mourinho, tinham ganho tudo, campeões europeus e não sei quê, e eram os mesmos jogadores e então eles próprios… cá está, o modelo de jogo é tudo… eles estavam contrariados e «rejeitavam» e por isso nem começou o campeonato. Eles até tiravam os paralelepípedos das rampas com a quantidade de repetições que faziam! E os jogadores entre eles diziam assim, “então, nós ganhamos tudo e não precisámos de andar a fazer isto, nunca fomos para ginásios, era só bola, que é aquilo que a gente gosta e éramos melhores que os outros e ganhámos, e agora vamos ter que fazer estas merdas?! É evidente que estava tudo com cara de azedo até que a coisa partiu e o presidente teve que mandar o homem embora. E ele não tem prestigio?! Não tem curriculum? Não tem feito coisas?! Agora se calhar, tendo em conta uma questão que você me colocou, chegou aqui e «qual é esta cultura, alto lá que eu aqui se calhar com estes gajos… então como é e se calhar até sou eu que estou enganado ou se calhar, não, vamos «conflituar»… Percebe?!”
Vítor Frade, em entrevista a (Xavier Tamarit 2013)
“Os exercícios apenas são potencialmente específicos”
Guilherme Oliveira, citado por (Esteves, 2010)
Continuamos a explorar o Programa de Treino que temos vindo a desenvolver, aprofundando a flexibilidade do mesmo.
Sublinhamos que o Programa não é dirigido a nenhuma Ideia de Jogo Específica. Porém, será ele exequível para todas as Ideias? Essa foi uma das nossas preocupações e intenções, mas lançamos um verdadeiro desafio à criatividade. Será possível criar uma Ideia de Jogo que não seja operacionalizável desta forma? Caso afirmativo, por outro lado, será um óptimo tónico à evolução do trabalho realizado.
À imagem de um Microciclo ou Morfociclo padrão, no qual a preocupação seja transmitir uma Ideia de Jogo à equipa, enquadrando uma série pressupostos para que a “óptima” aquisição deva acontecer, por sua vez o Programa enquadra um ciclo mais alargado (quatro semanas), nas quais são abordadas todas as dimensões da Ideia de Jogo da equipa.
Se a Ideia de Jogo (o projecto do treinador) é o ponto de partida e o Modelo de Jogo (o jogar propriamente dito da equipa) o ponto de chegada, o Programa será um dos veículos, através dos quais podemos fazer esse trajecto. Cremos nós, e esse foi o principal objectivo na sua elaboração, com grande eficiência e eficácia.
No passado texto escrevemos o seguinte sobre o tema:
“Também procurámos que o Programa fosse, por um lado, suficientemente fechado para se conseguir um razoável controlo do processo de aquisição e repetição num plano macro, por outro, que também fosse suficientemente aberto para poder ser implementado com diferentes Ideias de Jogo, diferentes níveis competitivos e ainda diferentes escalões etários.”
Para tal, usámos a Sistematização do Jogo que desenvolvemos no passado, para definir diferentes escalas de actuação. Os momentos, os sub-momentos, os princípios, os sub-princípios e as acções individuais.
Relativamente aos momentos, temos uma sessão por semana direccionada para cada um deles. Quanto aos sub-momentos, procurámos dar maior volume aos que surgem mais vezes no jogo. Por exemplo, em relação à Transição Defensiva é facilmente perceptível que as equipas passam mais tempo na Reação à perda e menos na Defesa do contra-ataque, logo, será lógico dar maior propensão a um sub-momento que pode até evitar que a equipa não tenha que defender um contra-ataque adversário.
Em relação aos princípios, tratam-se de ideias comuns a todas as equipas. No mesmo enquadramento, Transição Defensiva, sub-momento de Reação à perda, damos o exemplo da “Pressão imediata na bola”. É algo que todas as equipas procuram. Se é para procurar recuperar imediatamente a bola ou apenas para conter, não permitindo o contra-ataque adversário e procurar garantir a reorganização defensiva da equipa, isso será território específico da Ideia de Jogo de cada treinador. Como exemplo de sub-princípio, “Referências de pressão”, ou seja, em que circunstâncias a equipa passa da contenção à pressão para recuperar a bola, ou se simplesmente não o faz nunca. Importa referir que os sub-princípios são comuns a diferentes princípios. O exemplo que acabámos de dar confere isso, pois “Referências de pressão” estará também presente noutros sub-momentos do jogo, nomeadamente nos de Organização Defensiva.
O mesmo sucede com as Acções Individuais. Neste caso, defensivas, e damos o exemplo da “Posição de base”, através da qual o defensor procura orientar-se, posicionar-se, adoptar determinada postura corporal, etc., para, da forma mais eficiente possível, passar da contenção à eventual pressão com objectivo de recuperar a bola.
Ora bem, nesta lógica, o Programa define o quando (momentos e sub-momentos do jogo) e o quê (princípios, sub-princípios e acções individuais). Contudo, não define o como e porquê, ficando esse domínio contemplado na Ideia de Jogo Específica de cada treinador.
Deste modo, o Programa também se torna ajustável a cada nível de jogo. Se, por exemplo, o nível é o da Etapa de Iniciação do Futebol de Formação, a Ideia (extremamente simples, reduzida, necessariamente aberta e ampla) e a intervenção do treinador deverão ter determinado carácter. O que não implica que não hajam conteúdos programados, tal como sucede nos programas nacionais do ensino básico. De uma forma geral, abordados de forma mais elementar e muitas vezes apenas usando um exercício / jogo simples como estímulo ao conteúdo desejado, e sem grande intervenção do treinador. Noutro exemplo, se o Programa é aplicado no Futebol de Rendimento Profissional, o detalhe, a exigência, o plano estratégico, etc., deverão estar contemplados através da Ideia de Jogo, conteúdos e da actuação do treinador em cada exercício. Mesmo que não haja intervenção do treinador no exercício. Isso deve ser deliberado e fruto de um pensamento estratégico e operativo naquele contexto específico. Não porque o nível de intervenção pressupõe isso.
Haverá sempre uma questão pertinente no nível de Rendimento. Se o Programa engloba quatro semanas, dado que uma não será suficiente para se atingir todas as dimensões do jogo da equipa na propensão desejada, então, atendendo à eventual necessidade de investimento na dimensão estratégica em função do próximo jogo, essa semana do Programa poderá não atingir em volume de forma satisfatória determinado sub-momento do jogo e / ou da forma desejada (espaço do campo onde determinados princípios se desejam trabalhar). Neste caso, a manipulação do exercício, nomeadamente na sua operacionalização, torna-se decisiva.
Não modificando conteúdos, ao longo da semana o treinador vai encontrar momentos e sub-momentos contrários aos objectivos estratégicos que persegue. Nesses momentos, pode usar o contra-exercício, ou seja, os objectivos inversos aos do Programa em determinado exercício para intervir e tornar-se o protagonista maior no foco e, possivelmente feedback, que pretende. Por exemplo, na semana C do Programa, no exercício C-3OO2B:

Os objectivos, sub-momentos da Organização Ofensiva, são a Criação e Finalização, e ainda com ligação à Reacção à perda na Transição Defensiva. O exercício é passado no meio-campo adversário.
Se, em função do próximo adversário, o treinador tem a preocupação de preparar determinado(s) princípio(s) da Organização Defensiva, sub-momento, Impedir a Criação em bloco médio ou baixo, poderá escolher este e eventualmente outro(s) exercício(s) para garantir essa intervenção. Nesta semana do programa, para além deste, surgem mais 5 exercícios em que pode atingir, ou no objectivo principal, ou no contra-exercício, este propósito. Assim, no enquadramento da equipa técnica e definição de tarefas no treino, poderá trocar o seu papel, inicialmente no objectivo principal, com outro treinador responsável pela equipa / grupo de jogadores que se encontram no objectivo inverso. Ou seja, trocar a sua intervenção para a equipa que, com maior propensão no exercício em causa, defende e transita ofensivamente no exercício. Deste modo, o programa não perde os objectivos iniciais e a estimulação sistemática de determinadas ideias. Simultaneamente o treinador encontra o espaço e o momento para dar mais ênfase a determinada preocupação e objectivo estratégico.
Estamos, e não nos cansamos de repetir, perante um processo altamente complexo. O Programa de Treino, torna-se para nós um caminho muito interessante para o treinador ter um satisfatório controlo sobre o jogo da sua equipa. No caso particular do Futebol de Rendimento, controlo sobre a dimensão da sua Ideia de Jogo e também sobre a dimensão estratégica.
“Treinar deve implicar
que a percepção cumpra sua função
não é a de memorizar, mas de percepcionar
a complexidade do jogo na complexificação.
Resultante…
De cada instante
duma e outra equipa na acção.”
(Vítor Frade, 2014)
“A intervenção do próprio treinador também é contexto!”
(Marisa Gomes, 2015)
Assistia-se a um exercício de treino. Procurando analisar o mesmo, várias pessoas opinavam sobre o seu objectivo e organização. No entanto, ignoravam uma dimensão fundamental na sua operacionalização… a intervenção do treinador. Sem este dado, todas elas podiam estar certas… ou erradas. Isto, porque tratando-se de um exercício que respeite as características do jogo, mesmo que represente apenas numa fracção do mesmo, será consequentemente, um exercício rico em comportamentos, assim, posicionando-se externamente ao processo, diferentes pessoas podem-lhe atribuir diferentes objectivos.
Assim, perante o “mesmo” exercício, alterando-lhe “apenas pequenas” coisas, como por exemplo a forma ou o momento como ele se inicia, este poderá servir objectivos de planeamento muito distintos. No fundo, para sermos correctos, na verdade já não será o mesmo exercício, nem sequer uma sua variante se o analisarmos na perspectiva dos objectivos. A este propósito, (Maciel, 2011), explica que na concepção do exercício “modela-se os contextos para que estes, não perdendo a sua natureza aberta, sejam facilitadores e catalisadores dos propósitos desejados. Em tais configurações de exercitação o papel principal é dos jogadores, devem ser eles a decidir e a interagir, desencadeando uma dinâmica que não deixando de ser determinística, por estar sobredeterminada a determinados propósitos, intencionalidades, não perde a dimensão imprevisível”. Jorge Maciel reforça que “a ideia de propensão tem a ver com o facto de ser mais propício ou provável a ocorrência de determinado acontecimento, no caso do treino de Futebol, determinada interacção. Daí a ideia de modelar o contexto no sentido de tornar mais provável aquilo que se deseja que aconteça. Um aspecto relevante prende-se com o facto de ter de ser deliberadamente propenso, isto é, deve ter subjacente uma intencionalidade ou conjunto de intencionalidades conformes com o modo como queremos que a nossa equipa jogue e conforme as preocupações que entendemos mais prioritárias naquele momento do processo”. Importa salientar que, se o exercício de facto expressa a riqueza do jogo, a oposição será à partida garantida, portanto, o objectivo de planeamento estará numa das equipas / jogador, porém, a equipa / jogador adversário também estará a ser estimulada/o noutros comportamentos.
É deste modo que a intervenção do treinador na operacionalização do exercício se torna fundamental, por forma a incidir o foco, a concentração, para determinado comportamento ou acção, ou melhor, como explica Maciel… interacção. A sua intervenção, a sua expressão corporal, a sua emotividade, o seu feedback, ou mesmo a intencional ausência do mesmo, torna-se decisiva no processo aquisitivo, ou, no conceito mais generalista… na adaptação que o estímulo mesmo provoca no jogador. Na mesma linha de pensamento, Maciel acrescenta que “somente deste modo se torna possível que a configuração dada ao contexto, juntamente com uma intervenção condizente durante a exercitação, despoletem interacções que ao acontecerem façam emergir de forma exponenciada os critérios subjacentes aos nossos princípios de jogo. (…) Destaquei também o papel da intervenção, porque é esta que conjuntamente com a modelação do contexto que vai servir de catalisador e de meio para aproximar os critérios que os jogadores manifestam com os desejáveis para a forma como queremos jogar“. Também (Campos, 2007), defende que “Se tivermos que fazer essa intervenção e parar imediatamente o exercício para fazer perceber claramente que algo é errado, que algo não está correcto ou que algo pode ser importante, também não é só quando as coisas acontecem de negativo é também quando elas acontecem de positivo (…) “. Portanto, o autor acredita que “a focalização da atenção dos jogadores é direccionada pela configuração prática do exercício e por uma intervenção do treinador centrada nos aspectos hierarquicamente mais importantes”.
Como defendemos, esta intervenção não será uma qualquer, nem sobre a totalidade dos comportamentos que emergem do exercício. Deverá ser específica relativamente ao objetivo pretendido, principalmente na perspetiva do treinador que lidera o exercício. Neste contexto, (Casarin, et al., 2010), sustentam que a intervenção do treinador deve “fazer com que uma palavra signifique mil imagens” para o jogador e isto só se constrói com intervenção específica e constante durante o processo de treino”. Também para (Azevedo, 2011), “mesmo que os exercícios estejam em sintonia com o modelo de jogo, se não existir intervenção ou se esta não for adequada, eles podem tornar-se desajustados”. Citado por (Romano, 2007), Vítor Frade (2003, cit. por Martins, 2003), defende existir “a necessidade de ser interventivo antes, durante e depois do processo.” Romano reforça assim, que “em primeiro lugar, parece importante a formação de uma «intenção prévia», de modo a antecipar a activação do córtex pré-frontal (Goleman et al., 2002). Interessa portanto, antes de iniciar o exercício, defini-lo claramente, assim como os objectivos que, através do mesmo, se pretendem alcançar, já que, de acordo com Goleman et al. (2002), quanto maior for a activação antecipada maior é a capacidade da pessoa para executar a acção. Posteriormente, durante o exercício, a intervenção do treinador é também ela decisiva. Ela pode (e deve) condicionar um exercício para os aspectos que se pretendem trabalhar, através de uma intervenção específica, centrada nos princípios que se pretendem abordar. Carvalhal (2003; 2005) afirma que o mesmo exercício pode ter objectivos diferentes consoante o momento, e que a forma como o treinador o conduz e direcciona é que é fundamental”.
Assim, desconhecendo o planeamento do treinador, sem a sua intervenção na operacionalização do mesmo, será uma tarefa extremamente difícil, e perigosa na perspectiva da avaliação do trabalho realizado, procurar identificar os objectivos e consequentemente o sucesso de determinado exercício ou sessão de treino.
“(…) a edificação do Modelo de jogo, dos vários momentos do jogo e a Especificidade é conseguida através dos exercícios propostos pelo treinador e pela sua intervenção nos mesmos.”
(Pedro Batista, 2006)
“Só faz sentido existir o treinador se este for interventivo, mas interventivo no sentido de catalisador da apreensão de tudo aquilo que é conveniente e importante para o crescimento do processo.”
(Vítor Frade, 2003)
Sendo que o nosso arquivo já ultrapassa a centena de exercícios de treino, decidimos enriquece-lo com sessões de treino.
Contudo, é importante sublinhar um aspecto, para a nós, fundamental. Se sentimos que a publicação de exercícios a vulso poderá abrir ao treinador / equipa técnica que planeia o treino um caminho de facilitismo, que o afastará do pensamento crítico, especificidade e necessidades do seu contexto, então a publicação de sessões de treino poderá potenciar este problema. Mas tal como os exercícios que publicamos, o nosso objectivo é exclusivamente propor ideias, metodologia e uma linha de pensamento no planeamento e operacionalização das sessões de treino. Copiar uma sessão inteira, não atendendo ao contexto, ao nível e aos objectivos de cada equipa é, quanto a nós, um erro primário. Neste pressuposto, para Manuel Sérgio, na apresentação de (Jesus, 2013), os treinos do treinador português são “modelares e autênticas aulas universitárias”. Para o treinador português, saber operacionalizar, “montar um treino em função da tua ideia de jogo, chama a tua criatividade”.
Segundo a nossa metodologia, geralmente cada sessão de treino encontra-se dedicada principalmente a um momento do jogo. Contudo, tendo em conta a articulação de sentido, os exercícios encontrar-se-ão intimamente ligados ao momento do jogo anterior ou seguinte, e em muitos desses casos, tal estará previsto nos objectivos.
Publicamos, gratuitamente, uma sessão de treino. Neste caso tendo por objectivo principal o momento de Transição Defensiva:
Na opinião de (Mourinho, 2010), o treinador deve ter “uma estrutura e um objectivo no treino. O treinador deve organizar as coisas com progressão, os jogadores devem perceber o objectivo de cada exercício, e eles devem trazer ao jogo, no puro 11×11, o que eles aprenderam, o que treinaram durante o treino, durante a semana, durante os meses, durante os anos da sua formação”. O treinador português acrescenta que “acredito verdadeiramente e a experiência diz-me que com repetição e progressões, os jogadores têm grandes condições para decidirem bem o jogo”.
“(…) o planeamento tem como missão prever ou antecipar, o máximo possível, todo o trabalho a desenvolver no sentido de reduzir ao mínimo a improvisação, o desenrascanço, conferindo mais rigor e maior eficácia ao processo de treino.”
(Costa, et al., 2015)