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Play Fútbol – Entrevista a Ricardo Ferreira

No episódio em que participei no Play Fútbol, falámos do talento do jogador português — não como um “milagre” individual, mas como um fenómeno construído: qualidade de decisão e execução, criatividade e, sobretudo, uma mentalidade competitiva muito forte que se foi formando ao longo das últimas gerações.

Explorámos o que está por trás dessa identidade (rua, cultura competitiva, treino, autonomia e exigência) e porque é que, quando o ambiente certo existe, o talento não só aparece… repete-se e consolida-se. Geração após geração.

Falámos do Al-Ula SC e da minha passagem pelo SL Benfica, mas a ideia é simples: estes exemplos podem ser reproduzidos noutros locais. O talento está por todo o lado onde o futebol é cultura predominante — “basta” investir em organização, ideias, método, contextos de propensão que favoreçam o seu desenvolvimento e, claro… crença e confiança nesse processo.

“Portugal tem muita qualidade e que, muitas vezes, somos nós portugueses quem faz de nós próprios mais pequenos. Nós, treinadores portugueses, jogadores e não só, somos muito melhores do que, em geral, pensamos.”
Paulo Sousa

O Manchester United de Matt Busby… a concretização do sonho

Como já referido em artigos anteriores sobre o Manchester United de Matt Busby, a equipa e o clube são um dos exemplos mais inspiradores de resiliência e superação na história do futebol. Após o trágico desastre aéreo de Munique, em 6 de fevereiro de 1958, que custou a vida de 23 pessoas, incluindo oito jogadores da equipa, o clube enfrentou um dos momentos mais sombrios de sua história. Esse acidente devastou a estrutura do Manchester United, não só pela perda de talento, mas também pelo golpe emocional que afetou profundamente os sobreviventes, incluindo o próprio treinador, Matt Busby, que ficou gravemente ferido.

Busby, que já havia transformado o Manchester United numa potência, teve de reconstruir a equipa praticamente do zero, contando com jogadores jovens, como George Best e Brian Kidd, e com o lendário Bobby Charlton, um dos sobreviventes do desastre. Durante anos, o foco foi reconstruir não apenas a equipa, mas também a confiança e a identidade do clube. Essa reconstrução foi marcada pela força coletiva e pela crença na visão de Busby, que nunca abandonou o sonho de levar o United ao topo da Europa.

Em 1968, dez anos após o desastre de Munique, o Manchester United alcançou essa glória ao vencer o bicampeão europeu Benfica na final da Taça dos Clubes Campeões Europeus, no Estádio de Wembley, em Londres. Já no prolongamento, a vitória por 4-1  foi a coroação da resiliência e do talento da equipa. George Best marcou um dos golos mais memoráveis do jogo, exibindo a habilidade que o tornaria um ícone. Bobby Charlton, que também marcou na final, completou um ciclo de redenção e honra. Esse título foi o primeiro de um clube inglês na competição europeia, e o Manchester United demonstrou que, apesar das tragédias, era possível ressurgir ainda mais forte.

A história do Manchester United de Matt Busby oferece uma poderosa mensagem para todos os clubes: a importância de perseverar, manter uma visão clara e apostar no desenvolvimento de jovens talentos, mesmo quando as circunstâncias parecem insuperáveis. E sublinha que a grandeza de um clube não reside apenas em troféus, mas também na capacidade de ultrapassar a adversidade com coragem, coesão, determinação e ambição.

“É o sonho de qualquer treinador, suponho, construir uma equipa treinando jovens jogadores dos 15 aos 17 anos. Foi por isso que comecei um programa de formação de jovens.”

(Matt Busby)

Quando apenas se domina a grainha da uva e depois se quer andar na vinha e na adega a produzir vinho

“Nós hoje temos um sentimento de exaustão que é desligado do corpo, o corpo está em local incerto, está esquecido. Houve uma valorização excessiva de uma sociedade baseada no produto, na competição, na produtividade a qualquer preço e não no sentido da existência. Mais, numa sociedade neoliberal, criou-se quase uma auto-exaustão, uma auto-repressão e isso esgota as pessoas.”

(Carlos Neto, 2021)

Em primeiro lugar, não se trata de uma opinião de um cidadão qualquer. O autor da mesma é administrador de uma empresa parceiro oficial de saúde da Liga Portugal e de várias associações de futebol, portanto alguém da área da medicina desportiva e com aparente responsabilidade no nosso futebol. Assim sendo, seria então importante perceber a especificidade do mesmo e não recorrer a lugares comuns e a uma linearidade de pensamento preocupante na explicação de fenómenos que são complexos.

Naturalmente foram ditas várias coisas com as quais concordamos. Mas pelo menos uma mereceu um desacordo tal que nos levou a apontá-la. E a razão para isso passa pela contínua invasão do futebol de formação por adultos com pouquíssimo conhecimento do fenómeno, pela contaminação do jogo com áreas que se distanciam da especificidade do mesmo e pelo afastamento que o mesmo vai protagonizado das práticas que no passado produziam talento de forma brutal. Somando a isto, a condição físico-mental e até a saúda das crianças… deteriora-se. Em cima da mesa não está só a justificação dos “riscos sociedade actual” para o desaparecimento dos jogos na rua, da autonomia e respeito pela individualidade de cada criança. Há muitos adultos sedentos para se intrometerem e lucrarem com o potencial de negócio que o futebol de formação hoje emana. 

Com isto não nos referimos directamente ao entrevistado. Ele será só o último da cadeia. Referimo-nos a treinadores e dirigentes que se apresentam distantes, para não dizer outra coisa, do que o Futebol de Formação requisita. Depois temos auto-intitulados especialistas em “treino individual”, que muitas vezes não dão treinos… individuais… de futebol. Dão treinos de mecanização e robotização de gestos técnicos, de fitness, musculação e atletismo. Perante tudo isto a falta de qualidade no treino é gritante. O próprio jogo é relegado para segundo plano e a intervenção do adulto é catastrófica. Dentro e fora do campo.

No final da linha surgem outros especialistas de outras áreas, mas não de futebol de formação, a explicar que o problema está na quantidade e no volume de treinos e competições. Referem-se a treinos, de cerca de 60 a 90 minutos. Quatro, três e até duas vezes por semana, e na maior parte dos casos um jogo por semana. Um contexto de treino, e até jogo, cheio de descontinuidade, de mais tempo de adultos a instruirem e a dirigirem do que a se jogar ou praticar, e jogos de 60 a 70 minutos, os quais que com eventuais substituições, em média, potencialmente uma criança pode não jogar mais de 30 minutos. Se é que jogar…

Isto num tempo em que se lamenta o sedentarismo e a falta de actividade física nas crianças, e principalmente, como diria o brilhante Professor Carlos Neto, a ausência do jogo, esse veículo fundamental no desenvolvimento da criança.

Miguel Gouveia Brito, não sei se se recorda, quando éramos crianças, muitos de nós jogávamos futebol quase todos os dias. Muitas vezes mais do que 2 horas por dia. Em pisos muitas vezes diferentes e de rigidez e tração diferente. Em contextos de competitividade incrível. Apesar de tudo isto o género de lesões a que se refere eram raríssimas.

Miguel… o principal problema não está na quantidade do treino. Está na qualidade.

“Agora até os miúdos os fazem, sobretudo, correr, quando a sua preparação deveria ser com bola fundamentalmente. Têm apenas uma hora… Dá-lhes uma bola!”

(Ángel Cappa, 2008)

O erro de Otamendi. Uma das diferenças do treinador de Formação para o de Rendimento.

“O futebol é um jogo de erros. E dos erros aprende-se.”

Pequenas decisões, grandes consequências.

“a imagem do líder é o seu exemplo. Em todas as suas atitudes.”

(Tomaz Morais, 2014) 

A última substituição de Roger Schmidt no Benfica x Arouca terá simbolizado a despedida de Rafa do Benfica após oito anos no clube. Mas não só. Por outro lado, foram os primeiros minutos de João Rêgo na equipa principal do Benfica após seis anos no clube e o lançamento de mais um produto do futebol de formação português.

Se ao contrário das últimas décadas, o lançamento de um jovem jogador formado num clube português já não é um acontecimento surpreendente e grande notícia, este caso concreto torna-se especial porque naquele momento o treinador alemão podia ter optado pela estreia do jovem argentino Gianluca Prestianni contratado esta época ao Vélez Sarsfield por 9 milhões de euros.

O nosso foco não se coloca na comparação e na avaliação do potencial e qualidade de cada um dos jogadores em causa. Coloca-se sim na decisão de Roger Schmidt, que pode parecer pequena, mas apresenta potencial para produzir grandes consequências. O momento futebolístico de João Rêgo é fruto do investimento e das qualidades do próprio, eventualmente dos seus familiares, e do trabalho de muitas pessoas durante o seu processo formativo. E ainda, de um grande investimento do clube em conjunto com um pequeno contributo da FPF dada a sua presença nas selecções nacionais jovens.

Deste modo, é dado um sinal. É reforçado e indicado um rumo. Interna e externamente. Um sinal que demonstra confiança e aposta nesse projecto de longo prazo do clube e no trabalho dessas inúmeras pessoas envolvidas no Futebol de Formação. Contribuindo assim, decisivamente, não só para a motivação das mesmas com também para a motivação dos jogadores mais jovens que virão a seguir. Em última instância trata-se da valorização do jogador português de uma forma geral. Sendo ainda que o valor que o argentino custou ao clube fortalece ainda mais a transmissão desta ideia. É portanto, uma dose de “fermento” em todo o processo. O próprio diretor-geral do Benfica Campus, (Pedro Mil-Homens, 2022), aponta isso mesmo, ao sustentar que “um clube como o Benfica só pode ter um projeto de formação na dimensão que tem — investimento, recursos humanos, instalações, expectativas — se o principal objetivo for retirar deste projeto jogadores para o seu futebol profissional”.

Treinadores de futebol de formação do AC, Milan, em entrevista ao canal do clube (AC Milan, 2013) descreveram que a maior recompensa para um treinador de formação pode ter é “ver crianças crescerem e tornarem-se homens e que alguns destes jogadores atinjam o futebol profissional. Isso quer dizer que no percurso, nós ensinámo-lhes alguma coisa valiosa”.

“Gere-se havendo diálogo, escolhendo pessoas para a direção técnica da equipa principal que se alinhem com o projecto do clube. O clube tem um projeto e as pessoas encaixam, com certos graus de liberdade, mas num rumo que é preciso manter. De outro modo o clube perde a sua identidade e o seu ADN.”

(Pedro Mil-Homens, 2022)

O superpoder de Viktor Gyökeres

Etapa de integração na equipa A

“Acho que é com o tempo, com a repetição, com o número de jogo, com o número de estágios, aos poucos… E aquele “uau! estou a jogar com «não sei quem»!” acaba por desaparecer aos poucos. E quando nos sentimos realmente parte da equipa deixamos de olhar para o lado e pensar o “uau!”. Já nos sentimos parte dessa grandeza. Acho que a forma como as pessoas mais velhas recebem e tentam integrar os mais novos é sem dúvida o mais importante.”

(Bernardo Silva, 2024)

O Desporto Escolar enquanto oportunidade para passar valores. A jogadores, treinadores e pais.

“O técnico aponta para o desporto escolar como caminho para criar a cultura desportiva que falta e que poderia gerar interesse e aumentar a presença em estádios e pavilhões para jogos ao vivo, algo ainda em falta num país que já consegue formar atletas incríveis.”

(Vítor Matos, 2024)

O pensamento de Vítor Matos sobre o Desporto Escolar é sem dúvida interessante e importante, sendo fundamental a reflexão sobre o papel do mesmo no desenvolvimento do Desporto associativo.

Se do ponto de vista desportivo, um maior investimento neste contexto propiciaria mais um espaço que procurasse colmatar o desaparecimento das práticas e jogos que se realizavam na “rua”. Simultaneamente permitiria oportunidade de prática e evolução aos jovens que, ou ainda não manifestam o desejo de progredir no seu percurso desportivo, ou que não são seleccionados para o desporto formal (clubes). É sabido que os timings de maturação e desenvolvimento são diferentes para cada um e que muitos, também por essas razões acabam por não encaixar imediatamente nos clubes. Esse é outro problema, outra discussão.

“Está a acontecer uma espécie de fabricação de campeões em laboratório, o que é uma ilusão. Tem de haver um trabalho correto ao nível do clube, da escola, do desporto escolar, da educação física… Porque o trabalho no clube e no desporto escolar é para os que têm mais jeito, mas a educação física é para todos. Mas em todos estes casos há que respeitar as tais etapas de desenvolvimento das crianças e dar-lhes autonomia e liberdade de participação.”

(Carlos Neto, 2017)

Porém, o Desporto Escolar nunca será o verdadeiro substituto da “rua” e o principal meio introdutório da criança ao jogo e ao desporto. Deste modo tudo deverá ser feito para preservar a “rua” e todas as suas qualidades. Desde logo por ser genuinamente prática deliberada, território sagrado da autonomia, da auto-aprendizagem, da criatividade e derradeiramente, da… liberdade. Porque o Desporto Escolar será sempre dirigido por adultos, com tudo o que de bom e mau estes potencialmente podem trazer. Paralelamente, se no mesmo também há assistência, nomeadamente dos pais, isso torna o contexto abissalmente diferente.

E sobre estas duas últimas características, torna-se importante dar dois exemplos negativos, até para percebermos o que urge mudar. No actual Desporto Escolar existem treinadores que o conduzem como se tratasse do desporto de rendimento dos adultos. Existem exemplos de treinadores que, em competição, deixam, sistematicamente, jovens jogadores e jogadoras com pouca ou sem qualquer minuto de utilização. Tudo pelo resultado. Se já seria altamente questionável em treinadores de formação, quando são professores de Educação Física a fazê-lo, se a situação já era grave, torna-se ainda mais perversa. Ou, noutro exemplo, quando o feedback e o estilo de liderança na relação como os jogadores / jogadoras é tão agressivo e autocrático que até com adultos os mesmos seriam questionáveis.

Por outro lado, os maus exemplos também vêm da assistência, propriamente dos pais. Exemplos de palavras agressivas, injuriosa e repletas de ódio, contra árbitros, adversários e os próprios filhos chegam-nos com uma frequência assustadora. Inclusive relatos de agressões entre pais. Futsal, basquetebol, voleibol. Não é o desporto em si e até os maus exemplos que possam vir do desporto de rendimento que são decisivos. O que é decisivo, são a falta de regras, de educação, de valores. Dos adultos. Sendo que a crescente desvalorização dos contextos informais, semi-formais, formais e da própria educação física contribuem decisivamente para sintomas preocupantes que vamos assistindo na nossa sociedade. Porque, quer acreditem, quer não, o desporto e o jogo, são um dos principais veículos de transmissão de… bons… valores.

Assim, concordando com as palavras de Vítor Matos, mas mais do que cresçam em número, preocupa-nos que os espectadores cresçam em qualidade. Será um enorme desafio para o Desporto Escolar, mas também para o federado, a educação desses espectadores. Até porque o cenário alternativo, a proibição de espectadores no Desporto Escolar e mesmo no federado de Formação, colocando a possibilidade de resolver o problema a curto prazo, criará um ambiente hermético que não preparará os jovens desportistas para a pressão que mais tarde irão ser sujeitos na eventualidade de progredirem para o desporto de rendimento. Mas até podemos até acrescentar… em muitas outras vias profissionais. Por outro lado, proibindo espectadores nesses contextos, perder-se-á essa oportunidade preciosa de fazer reflectir e passar valores em quem frequenta a bancada. Porque nunca é tarde para crescer.

“Devemos olhar para os espaços de treino com mais cuidado; devemos olhar para a formação de treinadores com mais cuidado; devemos olhar para o desporto escolar com muitíssimo cuidado e atenção, pois é o desporto escolar que é o início de tudo. Se Espanha, Alemanha e Inglaterra avançaram, esteve tudo muito na base do desporto escolar, na forma como os professores e a dinâmica do ensino despertou os alunos para aquilo que são as necessidades da prática desportiva e despertou os pais para esse fenómeno.”

(Luís Castro, 2018)

O talento, a qualidade e a relação da “rua” no desenvolvimento de ambos. E ainda o potencial.

“Que saudades… (de Jackson Martínez e de James Rodríguez). Com os jogadores que fui tendo depois… percebi que não sou Deus…” 

(Vítor Pereira, 2017)

Os treinadores de Futsal, Nuno Silva e Cláudio Moreira, vão ao encontro de uma ideia que temos vindo a desenvolver. O que é o talento, o que é a qualidade individual e a relação da tão falada “rua” no desenvolvimento de ambos.

Apesar de muito referidos, quer por quem joga e treina, quer em bibliografia e por quem pensa o processo, a verdade é que não estão claros. Nem o que realmente significam, nem a sua abrangência. Nós temos uma proposta aparentemente idêntica à visão destes dois treinadores.

“Como família, éramos naturalmente rijos. Os meus pais eram rijos e o ambiente em que crescemos era rijo. Caíamos e voltamos a levantar-nos. E damos sempre o nosso melhor e tentamos ganhar. Detestávamos perder.”

irmão de Michael Jordan, Ronnie Jordan em (The Last Dance, 2020)

Antes, há ainda outra ideia que é a propensão genética. Ou seja, a influência que os genes herdados terão no talento. Uma noção clássica que ditou durante séculos vários papéis sociais e que também surgiu no desporto. Porém, vários autores como por exemplo Daniel Coyle, Anders Ericsson e Robert Pool têm-se dedicado ao tema e têm descrito um papel residual da genética no desenvolvimento do talento. Mais do que uma propensão genética, referem a importância de uma propensão social ou contextual. Seja qual for a sua influência, é o talento que apontamos como o primeiro patamar para obtenção de um elevado nível qualitativo no jogo de futebol.

“O jogador de futebol ‘faz-se’. Levei esta ideia para o Barcelona e foi uma confusão total. Eles acreditavam que o jogador de futebol nasce feito. Quase toda a gente no futebol ainda pensa assim hoje em dia. Veja, perguntei a jogadores de futebol: quantas horas na tua infância, todos os dias, dedicavas ao futebol? As respostas dos mais velhos variavam entre 6 e 8 e os atuais nunca menos de 4. E Maradona e Messi deram-me a mesma resposta: ‘Quantas horas? Todas!!’. Acreditar que o jogador de futebol nasce ensinado é um grande erro, nem mesmo acontece com os grandes craques. Cruyff é um bom exemplo; os que o viram jogar com aquela espantosa facilidade para tornar fácil o mais difícil, pensavam que ele tinha nascido jogador. Não acreditem, Johan teve a sorte de nascer junto ao campo do Ajax e de a sua mãe ser funcionária do clube. Se tivesse nascido num lar eminentemente musical, com pais profissionais e apaixonados por esta arte, Cruyff, dada a sua grande inteligência natural, teria sido um grande músico, mas não jogador de futebol.”

(Laureano Ruiz, 2014)

Em cima da propensão genética e contextual constrói-se então o talento. Para nós este surge principalmente em regime autónomo, em auto-descoberta, auto-aprendizagem e prática intensiva deliberada. Portanto, na rua, em casa, na escola, etc., mas quase sempre em auto-iniciativa e através de um desenvolvimento não assistido e liderado. É no fundo o estado mais puro do jogador de futebol, porque ainda não foi aculturado por nenhum treinador / clube e nenhuma Ideia específica de jogo ou no mínimo cultura de clube. É certo que durante o processo autónomo, naturalmente a criança e o adolescente também não estão imunes a influências culturais, aliás, desde logo estas levaram-no a jogar futebol… no entanto, nesta fase estas serão sempre uma escolha sua e não imposição.

“Ter talento não é suficiente. Porque o Futebol é um desporto de equipa.” 

(Leonardo Jardim, 2017)

Se entretanto a criança ou adolescente entrarem num clube e na prática federada, então, de forma mais ou menos intensiva de acordo com o escalão, ideias do treinador para o Futebol de Formação e eventualmente a Coordenação Técnica do clube, haverá a tal aculturação mais profunda e dirigida por terceiros, conhecimento do jogo transmitido, valores, etc.  Bons e maus. Tudo isso numa procura da optimização da eficiência e eficácia do jogador no jogo num contexto colectivo, portanto, num objectivo de alcançar qualidade. Porém, se nos aludimos ao Futebol de Formação, é seguro referir que durante este processo praticamente todas as crianças e adolescentes, paralelamente, também continuam a praticar o jogo no contexto informal, continuando assim a fazer crescer o seu talento.

“Entre as muitas histórias contadas por Vilà, sobre Messi, Xavi, Iniesta e outros tantos, apareceu uma particularmente interessante sobre Puyol. O defesa, que só chegou aos 15 anos ao Barcelona, não tinha, no entender de quem mandava, qualidades técnicas suficientes para ficar no clube. Mas aquele rapaz demonstrou tanta vontade, tanta determinação, tanto querer… que, no final, acabou por ficar. Foi aprendendo, foi melhorando, foi ficando. E, mesmo já na equipa A do Barcelona, continuava a treinar-se com Vilà, por fora, porque queria disfarçar os defeitos que tinha e, no fundo, ser melhor. E, até ao final da carreira, foi sempre melhorando. Jogadores ou treinadores, estamos sempre a aprender – e isso vai muito além dos resultados. Basta querer.”

(Mariana Cabral, 2019)

Regressando ao contexto do clube, o desenvolvimento da qualidade individual deveria ser objectivo prioritário em idades mais baixas do Futebol de Formação, e a qualidade colectiva de forma progressiva. Nomeadamente ao nível da complexidade e exigência das imposições comportamentais aos jogadores no seio de uma equipa. E finalmente já perto do escalão de seniores, um desenvolvimento, optimização e exigência sobre o seu rendimento. Individual e colectivo. Mas importa referir que qualidade individual e qualidade colectiva são interdependentes, e portanto que uma cresce com a outra, sendo o inverso também constatável. Tantos são os casos de jogadores que apresentam um alto rendimento em determinado contexto e depois noutro cai abismalmente.

“Aqui no City acho que ainda fiz um upgrade. Há uma preocupação enorme pelo detalhe e em perceber como esta equipa joga. Sinto que cresci imenso.”

(Bernardo Silva, 2019)

E aqui chegamos ao potencial. O potencial é a qualidade que perspectivamos, quer individual, quer colectivamente, e que ainda não produz, ou deixou de produzir rendimento. Deste modo, talento obviamente também perspectiva potencial. Mas num estado muito cru. A construção de uma qualidade em cima do talento, fará crescer esse potencial e aproximará a concretização desse talento em rendimento. E mais ainda em equipa. Porque num jogo colectivo ninguém verdadeiramente joga sozinho.

“Aparente paradoxo então

a auto-eco-hetero afirmação

no crescer colectivo

exalta o da individualidade

mas sem equipa consigo

nenhum jogador é bom,

e o inverso pode também

ser verdade

e assim qualidade tem.”

(Vítor Frade, 2014)

“Desde essa altura comecei a ter um choque social que nunca tinha tido até lá porque era menino de colégio”

O que torna este jogo tão especial é sem dúvida o poder social que exerce sobre tanta gente, e fundamentalmente, tanta gente tão diferente entre si. Nunca é demais repetir isto. Dentro do jogo, entre tantas outras coisas, não existem credos, religiões, cor de pele, orientação política ou nacionalidade, entre tantas outras características que traçam a nossa individualidade. Existem sim, diferentes culturas… de jogo… que se não respeitarem a essência do mesmo, e que no fundo é a essência da própria humanidade, estarão condenadas ao insucesso. Mas podemos ir mais longe. Passando para uma perspectiva macro, condenadas ao insucesso como a própria humanidade o estará se não respeitar o que há de mais precioso em si.

O próprio jogo, mesmo sem a presença de adultos, ensina às crianças o valor do respeito, da solidariedade e da ambição. E a saborosa felicidade resultante do sucesso que a vivenciação desses valores proporciona. Dentro e fora do campo.

“Educar é formar, e neste caso através do desporto. Há que ensiná-los a obedecer, a competir, a superarem-se, a serem humildes… Com estes valores serão melhores pessoas e desportistas.”

Vicente Del Bosque citado por (Jordi Urbea & Gabriel García de Oro, 2012)

“Faltam 30 metros ao futebol português”. De organização e confiança.

“O povo português por vezes se reduz… Reduz a capacidade que realmente tem. Nós dentro da área do futebol, temos muita capacidade. Temos capacidade de improvisar, temos conhecimento, somos competitivos e temos capacidade para liderar. Portugal tem muita qualidade e, muitas vezes, somos nós portugueses quem faz de nós próprios mais pequenos. Nós, treinadores portugueses, jogadores e não só, somos muito melhores do que, em geral, pensamos.“

(Paulo Sousa)

O tema não é novo. Importa declarar que o pensamento não se inscreve em mais uma cruzada em nome de um nacionalismo bacoco. Não aceitar que os seres humanos, independentemente da sua localização geográfica, credos, morfologia, etc., etc., têm mais em comum do que diferenças, representa um passo atrás na nossa evolução. Porém, tal como nas outras espécies, existirão sempre diferenças culturais dentro das mesmas, que promovem qualidades e problemas a um determinado grupo de indivíduos.

O Futebol não é excepção. O autor (José Neto, 2012) declara precisamente isso ao defender que “cada estilo de jogo é produto das idiossincrasias em que se envolveu. A preservação dos traços identitários de cada local são fundamentais para que o Futebol mantenha as suas características genuínas, e, definidoras dos seus “futebóis”. (…) Podemos, por isso, caracterizar por exemplo, as diferentes formas de jogar como decorrentes de um determinado contexto social, cultural, dum tipo de sociedade que lhe dá suporte. (…) a dinâmica imprimida pelas formas de jogar não podem ser separadas do viver das sociedades que lhe estão associadas”. Também José Mourinho sustenta que “Futebol é Futebol. Mas as diferenças culturais são importantes. Não há dois futebóis iguais. O talento na América do Sul nasce todos os dias, mas a organização Táctica e a intensidade do jogo são muito mais altas na Europa. Pelo clima, pela personalidade, pela cultura, pelos árbitros. Há tantos factores que condicionam e fazem o Futebol diferente em todo o mundo”. Falamos então da importantíssima diversidade. Voltando ao plano geral, uma qualidade indiscutível para a sobrevivência das espécies.

Por outro lado, se vamos dando destaque ao tema de forma contínua é porque sentimos que o mesmo é realmente importante, e que consequentemente se torna fundamental convencer aqueles que ainda não o estão. Nomeadamente quem decide e investe. Até porque como diz Paulo Sousa, um dos traços culturais do povo português é a fragilidade da nossa auto-confiança, a facilidade com que nos reduzimos e a forma como facilmente nos deslumbramos com caminhos para o sucesso aparentemente mais fáceis. Aparentemente.

Constituição das equipas em jogos com Benfica, FC Porto, Sporting e Braga hà cerca de 10, 15 anos atrás.

Noutra modalidade, o Rugby, mas trazendo-nos à memória  episódios da Selecção Nacional de Futebol durante o século passado, Sérgio Figueiredo citado por (Carlos Filipe Mendonça, 2006), defende que “(…) os portugueses não sabem ganhar. Não sabem ganhar, porque não acreditam e cedo viram as costas à luta. Ou seja, antes de Tomaz Morais tomar conta da equipa nacional, o nosso rugby perdia quase sempre por uma questão de temperamento. É verdade que os portugueses são uns derrotistas natos. Uns pessimistas compulsivos; e convocam esse pessimismo tanto para as questões mais essenciais, como para as circunstâncias mais simples do dia-a-dia”. O próprio Tomaz Morais, citado pelo mesmo autor declara que Portugal “não cresce por culpa do individualismo, da inveja e do pensamento negativo de quem nos lidera”. Isabel Vaz, em (Luís Lourenço, 2010) reforça, descrevendo que “não gostamos de vencedores, fomos educados a venerar a mediania e a nivelar por baixo como sinal de democracia”.

Apesar de alguns feitos pontuais, no Futebol, o resultado desta forma de pensar e liderar levou-nos, ao nível das selecções e dos clubes, ao insucesso colectivo durante décadas. Mas do ponto de vista individual, fomos sempre produzindo talento, quer por “geração espontânea” quer por fruto de investimento e ocasionais trabalhos de qualidade. O que reforça a ideia de que o talento… esteve sempre presente. Deste modo, talvez estejamos mesmo perante o tema mais importante do nosso futebol e porque não, da nossa sociedade em geral. A nossa incrível capacidade de gerar talento e a forma como acreditamos nele, o potenciamos e rentabilizamos.

Mas o que fundamenta esse talento? A resposta irá sempre ser discutível, relativa e até subjectiva. Porém, é interessante a ideia de Agostinho da Silva, de que “a principal matéria-prima do povo português torna-se aquilo que tem entre as orelhas”. Tal sustentará não só o reconhecimento actual do jogador português como um “produto” de qualidade, como também do próprio treinador português e numa perspetiva mais lata, dos muitos portugueses que proliferam no topo das mais diversas áreas, quer em Portugal, quer no estrangeiro.

Assim, o talento como algo construído pela interacção da cultura com as vivências, “armazenado” na relação corpo-mente, é uma ideia sustentada pelo estudo e trabalho de diversos autores como Daniel Coyle, Matthew Syed, Geoffrey Colvin, Anders Ericsson, Robert Pool, entre tantos outros. Durante muitos anos defendeu-se uma “apetência genética” para o Futebol. Contudo, o jogo de qualidade, ao qual hoje é-lhe inclusive reconhecida a fundamental importância do cérebro, não pré-existe ao homem. O jogo é uma construção cultural humana, assim, nem na mais transgressora ideia epigenética o Futebol estará inscrito nos nossos genes. O próprio (Leon Teodorescu, 1984), referência fundamental no desenvolvimento do pensamento sobre os Jogos Desportivos Colectivos, defendeu que “o desporto é um fenómeno social. O desporto é uma criação do homem, que apareceu e se desenvolveu simultaneamente com a civilização. O conhecimento e a prática do desporto constituem actos de cultura”. Noutro exemplo, os 580 milhões de norte-americanos têm produzido pouco talento no Futebol em comparação com outras regiões e países mais pequenos. Será que têm falta de genética para o Futebol? Geneticamente, divergiram assim tanto, em tão poucos séculos dos europeus que colonizaram a região? Ao invés, na América do Sul, desenvolveu-se uma carga genética incrivelmente superior? Ou simplesmente… não será tudo resultado de predisposição cultural?

Por outro lado, à luz do tradicional dualismo corpo-mente, o qual temos vindo a rebater ao longo do tempo, isolando então a inteligência como factor decisivo na produção de talento, o psicólogo (Eduardo Sá, 2016) explica que “não há crianças “burras”! Eu sei que há termos ásperos, como este, para todos nós. Mas é importante que sejamos claros: tirando raríssimas exceções, de crianças com quadros genéticos ou neurológicos muito graves (e que são, realmente, raríssimas!) não há crianças que nasçam “burras” como, desde sempre, se foi imaginando ou formulando. Recordo que algumas das crianças consideradas assim, que viveram a escola de forma penosa, com resultados catastróficos e com experiências humanas humilhantes, se transformaram em grandes empreendedores, grandes empresários e pessoas cuja singularidade trouxe, realmente, mais-valias ao mundo”.

 

 

Assim, de acordo com o espanhol (Laureano Ruiz, 2014) “o jogador de futebol “faz-se”. Levei essa ideia para o Barça e que confusão que se gerou. Eles acreditavam que o jogador de futebol nasce. Quase todas as pessoas do futebol ainda hoje pensam o mesmo. Olha, eu já perguntei aos jogadores de futebol: quantas horas na sua infância, por dia, você se dedicou ao futebol? As respostas dos antigos variavam de 6 a 8 e os atuais nunca menos de 4. E Maradona e Messi me deram a mesma resposta: “Quantas horas? Tudo!!””.

Segundo (Reuters, 2020), “o caso de amor de Maradona com o futebol ficou claro desde o início. Presenteado com a primeira bola de futebol quando criança, ele dormiu com ela debaixo do braço”. O testemunho do próprio Diego confirma o relato. O argentino, citado por (Leandro Stein, 2020), descreve que “tudo o que eu fazia, cada passo que dava, tinha a ver com isso, com a bola. Se Tota me mandava buscar algo, eu levava qualquer coisa que se parecesse com uma bola para ir jogando com o pé: podia ser uma laranja, bolinhas de papel ou trapos. Assim subia as escadas da ponte, pulando em uma perna e chutando o que fosse com a canhota. Assim ia até ao colégio. As pessoas cruzavam comigo e me olhavam, não entendiam nada. Os que me conheciam já não se surpreendiam”. Também Lionel Messi, de acordo com (Wikipédia, 2022), “desde criança demonstrava grande apego à bola, a ponto de negar-se a ir às compras com a família quando não lhe deixavam levar alguma bola. (…) Quando completou sete anos, ingressou então nas divisões menores do clube do coração, o Newell’s Old Boys. Ainda assim, não se contentava em jogar na Lepra, jogando regularmente futebol na rua da casa ao lado dos irmãos mais velhos Matías e Rodrigo Messi e dos primos maternos Emanuel e Maxi Biancucchi Lionel àquela altura conseguia jogar contra adversários de dezoito anos”.

“Jogávamos sempre à volta da minha casa, em “Las Siete Canchitas”. Era um descampado enorme com vários campos. Uns tinham balizas e outros não. “Las Siete Canchitas” era como um desses centros desportivos com relva sintética e tudo! Não tinha relva nem sintéticos, mas era para nós uma maravilha. Era de terra, de terra bem pura. Quando começávamos a correr, levantava-se tanto pó que parecia que estávamos a jogar em Wembley e com neblina.”

(Diego Maradona, 2001) citado por (Hélder Fonseca & Júlio Garganta, 2006)

Mais tarde, após ter-se apaixonado pela bola, de milhares de horas de relação com ela e de jogos com outras crianças nas “Siete Canchitas”, Maradona foi prestar provas ao Argentinos Juniors. O técnico responsável pela sua avaliação, Francis Cornejo citado por (Leandro Stein, 2020), recorda o momento explicando que “dizem que pelo menos uma vez na vida todos os homens assistem a um milagre, mas a maioria não se dá conta disso. Eu, sim. O meu aconteceu numa tarde de um sábado de março de 1969 sobre a grama molhada do Parque Saavedra quando um garoto baixinho, que me disse que tinha oito anos — e eu não botei fé — fez maravilhas com a bola. Coisas que eu nunca vi ninguém fazer. Tem uma que nunca vou esquecer porque fecho os olhos e continuo vendo como se fosse ontem. Ontem, eu disse? Não, ontem, não. É como se estivesse vendo agora mesmo. Quando a bola chega a um jogador vindo alta no ar, o que ele faz é baixá-la com o pé e depois a deixa cair no chão, então ele chuta ou passa. Isso é o que todos fazem. Mas aquele menino, não, aquele menino fez outra coisa; dominou-a com a canhota no ar e, sem a deixar tocar no chão e com o pé ainda no ar, voltou a pegá-la para dar um chapeuzinho num adversário e disparar rumo à baliza contrária”.

Diego Maradona e companheiros nos primeiros passos no Argentinos Juniors.

Novamente Laureano Ruiz, reforça que “acreditar que o futebolista nasce ensinado é um grande erro, não acontece nem com os grandes craques. Cruyff é um bom exemplo; quem o viu jogar com aquela facilidade assombrosa de facilitar as coisas mais difíceis, achava que ele nasceu jogador. Não acredite, Johan teve a sorte de nascer ao lado do campo do Ajax e a sua mãe era funcionária do clube”.

“A psicologia da aprendizagem ensina que o conhecimento, ou movimento, uma vez aprendido fica armazenado no neocórtex sob forma de engrama (impressão deixada nos centros nervosos pelos acontecimentos vivenciados, activa ou passivamente, pelo indivíduo), que consiste num determinado padrão de ligação entre os neurónios. O engrama, que é sempre utilizado, fica cada vez mais “nítido” e “forte”, ao passo que aquele que não é utilizado, enfraquece e pode até extinguir-se. Se um gesto desportivo for repetido com constância, o seu engrama ficará tão forte ao ponto de permitir a execução do gesto de forma reflexa, através de uma rápida comparação entre as reacções neuromusculares e o engrama. Este aspecto está ligado a mielinização das fibras nervosas e à velocidade de condução dos impulsos, e à caracterização dos tipos de movimentos.”

(Alcino Rodrigues, 2017)

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Deste modo, o talento para determinada área não pré-existe, no máximo existirá uma predisposição na qual se torna extremamente difícil distinguir a genética da influência cultural. Portanto, o talento é também uma construção. No fundo, podemos-nos aproximar de uma ideia de que resulta de muitas horas de prática deliberada de qualidade (pode e deve ser muitas vezes em regime de autonomia e auto-descoberta como o contexto que as brincadeiras individuais de relação com bola e os jogos e futebol de “rua” proporcionam), em cima de uma decisiva motivação intrínseca à qual se podem juntar outras, extrínsecas. Esse talento torna-se então uma apetência, digamos, em bruto, para determinada actividade. A partir daí pode ser esculpida e transformada em qualidade individual e principalmente coletiva no caso dos desportos colectivos, o que necessitará depois de treino “organizado” de qualidade e da figura do treinador, assim, de um conhecimento e experiência mais aprofundadas na área.

 

 

Então o que nos diferencia culturalmente do resto do mundo? O que possibilita que um país com muito menos população que a maioria, com baixos índices de prática desportiva, subsistentes problemas no sistema desportivo, pouco investimento, um sistema educativo caducado e problemas sociais, tenha subido ao patamar dos melhores? Um pensamento divergente, criatividade, capacidade de improvisação e momentos de coragem invulgares, alicerçados por um passado cultural de conquistas, aventuras, “descobertas”, muitas vezes através de meios e estratégias que inventámos porque não dispúnhamos do que outros possuíam. No Futebol em particular: uma enorme paixão pelo jogo e consequentemente muitas horas de prática, de estudo, de discussão, etc., etc.. Como disse Kobe Bryant, paixão tal, que se transforma muitas vezes em obsessão, com os consequentes potenciais perigos acoplados.

 

“É difícil de acreditar! Eusébio, Luís Figo, Cristiano Ronaldo e eu conquistámos prémios de topo e talvez Fernando Santos seja o próximo. Benfica e FC Porto venceram títulos europeus e Portugal conquistou o Europeu. Um pequeno País com vista para o Atlântico, é incrível! Talvez o segredo seja a nossa paixão.”

(José Mourinho, 2017)

Juntando revoluções metodológicas e de liderança idealizadas e postas em prática por cá, passados cerca de 10 a 15 anos do início do impacto das Academias de Benfica, FC Porto e mais recentemente do Braga, que se juntaram ao trabalho anterior desenvolvido pelo Sporting em Alcochete, a solidificação do papel importantíssimo das equipas B, a criação das equipas de Sub23 e o exemplo e desafio que Benfica, Sporting, Porto e Braga também trouxeram aos demais clubes, catapultou a produção de talento em Portugal a um nível nunca visto antes. No entanto, ainda subsistem problemas e desafios. Talvez o principal seja convencer muitos dirigentes que, mesmo assim, ainda não acreditam no talento do jogador português, ou, não têm paciência para esperar por algo que leva o seu tempo. Como disse Leonardo Da Vinci, existem “três tipos de pessoas: as que vêem, as que vêem quando lhes é mostrado, e as que não vêem”. Restará perceber se não vêem porque não conseguem mesmo, ou porque não querem…

Segundo (Wellington Moreira,2012) “o talento é mais facilmente identificado nas empresas que estão em franco crescimento. Aquelas que se encontram estagnadas ou que avançam a passos lentos não fornecem condições de desenvolvimento nem exigem padrões superiores de desempenho para seus colaboradores com elevado potencial. Resultado: além de nivelarem todos os membros da equipa para baixo, não conseguem atrair os melhores”. Assim, o autor conclui que “pesquisas apontam que grande parte dos talentosos brilha quando sua competência encontra o contexto adequado, isto é, suas conquistas são decorrentes de uma cultura organizacional apaixonante, que confere autonomia, estimula a criatividade das pessoas e ainda patrocina um bom clima de trabalho”. Hoje crescemos, principalmente no plano técnico, em organização, qualidade metodológica, qualidade relacional e pensamento colectivo. Isso trouxe sucessos colectivos e individuais, e esse sucesso trouxe exemplos inspiradores, “desbravou caminho” e fez com que as gerações seguintes acreditassem ser possível atingir esse nível, portanto, fez crescer a auto-confiança. E a partir daqui, em cima do que já produzíamos no passado, vamos tendo ciclos de retroalimentação, cada vez de maior sucesso.

Tanto que hoje vivemos sucessos regulares ao nível de todas as selecções, temos ainda uma incrível dificuldade de escolha dada a incrível abundância de jogadores para as mesmas, “vendemos” jogadores para o estrangeiro a valores tremendos (haverá alguma indústria em Portugal em patamar semelhante?) e somos reconhecidos e admirados pela nossa qualidade no jogo e no Futebol de Formação pelos melhores treinadores do mundo. Curiosamente, desenvolveu-se um sucesso paralelo no Futsal e Futebol de Praia…

 

 

Dando também como exemplo a Liga Inglesa pela sua reconhecida competitividade, qualidade e exigência na contratação de estrangeiros, no virar do século, época 2000/2001, José Domingues e Abel Xavier eram os únicos Portugueses a jogar na Premier League, posicionando-se no 40º desse ranking. É factual que esse número oscilou para mais nos anos antes e depois, mas sempre muito longe dos 23 jogadores actuais, que representam o 5º lugar do ranking, apenas atrás de Inglaterra, Brasil, França e Espanha, países de muito maior dimensão, prática desportiva e consequente capacidade de recrutamento.

 

Constituição das equipas no jogo Wolverhampton x Manchester City em Setembro de 2022.

Se há cerca de 10, 15 anos atrás tínhamos jogos entre Benfica, Sporting, Porto e Braga com 5 portugueses nos dois onzes iniciais das equipas, hoje temos um jogo da Premier League com o dobro dos portugueses.

 

“(Um futebol que tem Ronaldo, Figo, Ricardo Carvalho ou Rui Costa) é milagre, mas também fruto de alguma coisa. É o milagre da criatividade dos portugueses, da cultura dos portugueses. Hoje sei que há pouca rua, mas são os frutos do nosso futebol de rua, da aprendizagem espontânea, da aprendizagem sem o adulto a estragar. Sem essa cultura teremos muitos jogadores como a Noruega ou a Dinamarca, aqueles futebolistas de laboratório, com processos muitos lineares. Mas sem o futebol que nos apaixona, da imprevisibilidade. De fazer as coisas que os outros não são capazes de fazer.”

(Silveira Ramos, 2017)

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