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A apropriação cultural a Fernando Chalana
“Emular al ídolo es a lo que juegan millones de niños cada día en el mundo entero. (…) Cada vez que estos ídolos se asoman a la televisión con su instrumento (un balón, una raqueta o un coche), se convierten en maestros de miles de niños que los miran con los ojos llenos de admiración.”
(Jorge Valdano, 2014)
Partiu Fernando Chalana. Partiu um dos grandes. É vulgar dizer que o património do Futebol fica mais pobre, mas isso não é bem verdade. O património fica. Pelos seus feitos, pela sua história, nas lendas que criou comprovadas pelos relatos das testemunhas que o viram jogar e pelos arquivos dos jornais e televisão. E pelo homem que foi. No fundo, toda a sua qualidade, manifestada na sua relação com a bola, lateralidade e recursos técnicos, que num todo composto também pela sua enorme humanidade, inteligência táctica e criatividade invulgares, consumavam a tal genialidade que todos lhe reconhecem.
Tal qualidade garantia-lhe uma fantástica eficiência nas suas acções, parecendo tornar simples, o complexo. Eficiência essa que lhe garantia uma regular eficácia que mescladas com uma estética inconfundível e apaixonante tal qual a sua paixão pelo jogo, colocavam-no no panteão dos grandes do Futebol. Do Futebol português, mas também do Futebol mundial. Chalana tornou-se então património. Tornou-se, cultura.
Cultura, que muitas crianças do seu tempo procuravam imitar. No meu tempo, “éramos” na nossa “rua”… Luís Figo, Rui Costa, Paulo Sousa, João Vieira Pinto, Fernando Couto, Maradona, Van Basten, Baresi, Romário, Roberto Baggio, Matthäus, Redondo, Batistuta, Ronaldo “Fenómeno”, etc., etc.. Imitávamos consciente ou inconscientemente as suas acções, os seus comportamentos, até o mais ínfimo detalhe. Porém, provavelmente nessa geração, talvez tenha sido o fabuloso Paulo Futre o mais adorado e a maior vítima de “apropriação cultural”… Pelo menos em Portugal. O seu drible, muitas vezes através de uma ginga e gestualidade desconcertantes, nomeadamente através da peculiar forma como movimentava os braços de forma enganar os adversários, mas também as suas mudanças de velocidade, os seus remates inesperados, muitas vezes até de “trivela”, eram vistos em qualquer espaço aproveitado para campo de futebol. Fosse no baldio, no ringue da escola, no ringue do bairro ou no corredor lá de casa. Porém, até o incrível Futre também se “apropriou culturalmente”.
“Tenho muitas jogadas dele na cabeça. Ainda hoje não sabemos como ele fazia para fintar, um, dois, às vezes três jogadores, só com a cintura, sem tocar na bola. Acho que muitos dos meus movimentos de braços – uma grande virtude minha, quando jogava, vêm também daquele movimento de cintura, sem tocar a bola. Eu tentava imita-lo de qualquer maneira. Quis ser como ele durante toda a minha infância, e depois na minha adolescência. Era único, a minha referência. Eu treinava muito mais do que outros jogadores jovens porque queria chegar perto deste génio, queria ser profissional e chegar perto do nível dele. Mas nunca cheguei, nunca cheguei porque era impossível.”
(Paulo Futre, 2018)
Torna-se fundamental dizer que se engana redondamente aquele que pensa que as mais recentes distorções sobre a “apropriação cultural” são produto de um só “grupo” social. Esse não só é um pensamento falacioso como está ao mesmo nível do objecto da crítica. A estupidez não escolhe raças, países, clubes, partidos ou credos. A história humana comprova-o.
Enganam-se também as opiniões que dizem levianamente que o Futebol é apenas um jogo. O Futebol é intemporal e o enorme impacto social que produz tornam-no muito mais do que apenas um jogo. Paralelamente ao enorme espectáculo que se tornou, é um incrível veículo de transmissão de valores. Reproduz a uma escala mais pequena a essência do ser humano e a sua necessidade em cooperar, ser solidário e competir. De forma saudável, respeitando os outros e primeiramente, a si mesmo e a sua humanidade. Desta forma, manifestando a sua necessidade de viver em sociedade.
O jogo de futebol ensina-nos a não segregar, separar e a respeitar o outro. O outro indivíduo, o “outro”, equipa. Seja pela raça, cor da pele, morfologia, estética, religião, partido político, características técnicas, forma de jogar, etc., etc. Como é habitual dizer-se… “lá dentro são todos iguais”. Acrescentamos… são todos iguais nos valores e justiça perante o jogo, porém com individualidades e ideias colectivas diferentes. A riqueza cultural e diversidade no jogar são qualidades decisivas para vencer. Tal qual, num plano mais macro, são fundamentais para a espécie humana ter subsistido até hoje.
Estas diferenças e diversidade… fazem portanto parte de uma riqueza cultural incrível, que consubstancia outra dimensão fenomenal do jogo, à imagem da sociedade em geral. Uma riqueza que não cresceu isolada, mas sim fruto da difusão, interacção e socialização dos diferentes povos e culturas. Conseguimos, por exemplo, imaginar a riqueza do jogador brasileiro sem a mistura cultural e genética do povo nativo da América do Sul, com as qualidades dos Africanos, Europeus e até Asiáticos? Conseguimos imaginar um golo de grande penalidade ser anulado porque não seria permitido copiar a ideia de Antonín Panenka? Ou o golo na jogada do pontapé de saída do PSG no último jogo? Pelo menos Bournemouth, Eibar, PSG em Sub19 e Real Madrid, estes últimos contra o próprio PSG… com maior ou menor sucesso, fizeram exactamente o mesmo. E ainda a impossibilidade da existência do Barcelona de Guardiola, porque se inspirou em Johan Cruyff, que por sua vez “bebeu” conhecimento em Rinus Michels, que originalmente sofreu influências de Jack Reynolds, entre outros? O próprio Futebol. Não se sabe exactamente o seu ponto de origem tendo em conta as suas inúmeras raízes culturais, mas tendo em conta que foram os britânicos a regulamentá-lo, todos os países inclusive Portugal, realizaram então, a determinado momento, uma apropriação cultural. Imaginamo-nos então sem Futebol? E regressando ao início… Futre não teria sido… o grande Futre.
A cultura é sem dúvida dos bens mais preciosos que podemos ter e que no fundo também nos distingue enquanto seres humanos. Por outro lado, tal como a uma equipa, ninguém consegue, culturalmente, copiar outro indivíduo de forma integral. No máximo, acrescenta a si, transforma a sua identidade e contribui para a diversidade e riqueza cultural da espécie. Sendo por transmissão, ou por “apropriação”. No final do dia, “somos todos simplesmente um” como confessou Justin Britt-Gibson para o Washington Post (Wikipédia, 2022) a propósito do tema, e como defendemos no artigo anterior.
“Foi a minha referência, a minha inspiração, o meu ídolo. Dificilmente estava aqui, a falar neste momento, se não fosse o Chalana. Ele teve muito que ver com a carreira que fiz. Eu tentava imita-lo, era eu jogador do Sporting com 11 anos. Já ia ao Estádio da Luz, para o terceiro anel. Eu não ia ver o Benfica, ia ver este pequeno grande génio.“
(Paulo Futre, 2022)
“Perder é o único pecado no mundo de hoje que não tem redenção”
“O mundo está preso em um sistema de valores que coloca o sucesso acima de tudo, e, por outro lado, condena o fracasso. Perder é o único pecado que no mundo de hoje não tem redenção. Estamos condenados a ganhar ou ganhar.”(Eduardo Galeano)
A profissão… sim… a profissão… precária… de treinador de futebol II
https://www.facebook.com/SaberSobreOSaberTreinar/videos/854666218323987/
“Finalmente, mas talvez a situação mais grave, porque muitos treinadores atraiçoam a própria classe quando minam o trabalho de outros colegas. E isto não é ser-se competitivo. Trata-se de não ter valores. E depois no momento de insucesso do colega, quantos se oferecem aos dirigentes desse clube para o substituir com promessas vãs, por um valor mais baixo ou mesmo a “custo zero”? O derradeiro facto, e talvez o mais triste de todos. E são simultaneamente estes os os responsáveis por transmitir valores e conduzir outros homens.”
in http://www.sabersobreosabertreinar.pt/index.php/2019/03/29/a-profissao-sim-a-profissao-precaria-de-treinador-de-futebol/
Bernardo Silva
“Eu era Sub17 quando começou a era do Barcelona de Guardiola. Ver jogadores como Messi, Iniesta e Xavi dava-me mais força para continuar. Porque eu estava sem jogar pois era mais pequeno que os outros. Assim, ver a melhor equipa do mundo nesse momento e ver que estavam ali três dos melhores do mundo e eram quase mais pequenos que eu…”
(Bernardo Silva, 2019)
Coragem… Específica III
“Because life constantly poses challenges, living demands courage.”
Manuel Neuer
Solidariedade
“A solidariedade social é a condição do grupo que resulta da comunhão de atitudes e de sentimentos, de modo a constituir o grupo em apreço uma unidade sólida, capaz de resistir às forças exteriores e mesmo de tornar-se ainda mais firme em face de oposição vinda de fora.”
(Wikipédia, 2012)
“O Mourinho foi muito honesto comigo e eu gosto de pessoas honestas.”
“(…) ser justo nas decisões e explicá-las de forma transparente, para que todos as compreendam. As decisões, mesmo que muitas vezes difíceis, são bem compreendidas se forem correctas. Esta é a base em cima da qual construí o meu perfil de gestão.”
(Fernando Pinto, Director Executivo da TAP, 2012)
A profissão… sim… a profissão… precária… de treinador de futebol
“Se um presidente despede um treinador que escolheu, também ele devia sair.”
Brian Clough, treinador inglês bicampeão europeu pelo Nottingham Forest, citado por (Ferreira, 2016)
Sendo um tema há muito na nossa órbita, sentimos que a véspera de mais um Fórum da Associação Nacional de Treinadores de Futebol seria um bom momento para o abordar. E mais do que uma opinião, expressamos aqui um conjunto de factos. Avisamos que o texto se vai tornar extenso… mas acreditamos que valerá os minutos despendidos. À frente do Conhecimento do Jogo, da Metodologia e até da Liderança… talvez estejamos perante o assunto mais importante de todos para o Treinador.
Assistimos nos últimos tempos em Portugal a várias manifestações de insatisfação de várias classes de trabalhadores. Sobre a sua pertinência, naturalmente não tecemos nenhuma opinião. Pelas melhores razões, todas as pessoas, têm o direito a fazê-lo e a reivindicar melhores condições profissionais. Nalguns casos, tratam-se mesmo de condições básicas e do direito ao respeito por princípios fundamentais que estão escritos na Constituição portuguesa. Pois… para surpresa de muitos que nos lêem, o Treinador de Futebol está neste enquadramento, mas até agora… nunca se manifestou de forma expressiva. Melhor ainda, arriscamos dizer, que tendo em conta a sua importância, risco profissional e precariedade, é a profissão que se encontra no pior cenário. Sim… profissão… e não ocupação de tempos livres. Sendo-lhe necessária formação, títulos profissionais, formação contínua, supostos vencimentos mínimos… então não se trata de uma questão de opinião. Trata-se de um facto, de uma realidade… porém, extremamente deturpada. Inclusive pelos próprios interessados… os treinadores. O mestre, autor de diversas obras sobre o treino desportivo, Treinador de Mérito e membro da Comissão de Treinadores do Comité Olímpico Português, (António Vasconcelos Raposo, 2018), descreve que a “realidade é que sendo o treinador a figura central do processo da preparação desportiva dos atletas é urgente que se reconheça, em Portugal, a importância social e desportiva desta profissão“.
Neste momento… várias pessoas, na frase “tendo em conta a sua importância”… abanaram a cabeça. Então importa desde já esclarecer este ponto, que também não é uma opinião, é outra constatação da realidade, portanto, outro facto. Geralmente quando se fala em treinador, e só pegando em exemplos portugueses, os primeiros pensamentos que surgem são… José Mourinho, André Villas-Boas, Vítor Pereira, Jorge Jesus, Paulo Fonseca, Leonardo Jardim, Nuno Espírito Santo, Carlos Carvalhal, Marco Silva, Rui Vitória, Jesualdo Ferreira, Carlos Queiroz, etc, etc… O pensamento é intuitivo, porque para além da enorme exposição mediática a que são sujeitos, estes exemplos, com todo o mérito, atingiram um enorme sucesso profissional e auferem mais num mês de trabalho, do que a maior parte dos treinadores na vida inteira. Eles marcam portanto, exemplos de sucesso profissional. Contudo, os outros cerca de 95% que não conseguem viver do seu trabalho, não são profissionais? São menos importantes? Até porque a maior parte dos nomes referidos, também estiveram durante algum tempo nessa situação. E aí… eram menos profissionais? Esse trajecto não foi fundamental para atingirem o sucesso actual?
Referimos exemplos de treinadores de equipas de profissionais, que se encontram no topo competitivo do Futebol. Perante uma sociedade cada vez mais capitalista, a importância do treinador tornou-se decisiva. Nessa perspectiva ele tornou-se figura central na potenciação de talento e da sua transformação em qualidade colectiva e individual. O treinador português (Castro, 2018), concorda que as coisas estejam “muito mais centradas no treinador”. Esta missão trará também reflexos no rendimento desportivo, e consequentemente, na realização de mais valias financeiras. Do primeiro ao terceiro escalão do Futebol Português. Em níveis competitivos mais baixos, com outra mentalidade dirigente, e numa menor proporção, o cenário podia ser similar. Estamos perante uma indústria, que como escrevemos em tempos, talvez tenha sido a que mais sucesso financeiro tenha trazido a Portugal. Sempre com o treinador, paralelamente ao jogador, como figuras centrais do seu sucesso, os quais são reconhecidos mundialmente pela sua qualidade.
Mas a dimensão financeira não será com certeza o mais importante impacto que o treinador traz à sociedade. O treinador, é antes de tudo, e em qualquer contexto, mesmo o da equipa profissional que se encontra “a top” do ponto de vista competitivo, um condutor de homens e intencionalmente ou não, um tremendo veículo de transmissão de valores. Aos que jogam, aos outros profissionais que flutuam à volta da equipa, aos que dirigem, aos que assistem, seguem e apoiam. Que tendo em conta todos os contextos do jogo, são milhões. Isto, como diria o professor Manuel Sérgio, porque estes homens que jogam, são os mesmos que vivem em sociedade. Para os que pensam em sentido contrário, a sua falácia parte sempre do mesmo erro. Separar o inseparável. O autor (Raposo, 2018), também sublinha a ideia ao referir que “as funções desempenhadas pelos treinadores têm um inequívoco impacto nas pessoas que treinam, na sociedade, nas actividades económicas e do mundo do desporto em geral”. E vai mais longe, defendendo que “os treinadores só conseguirão um reconhecimento social pela competência e princípios éticos que demonstrarem possuir“.
Nesta dimensão… humana… não é preciso ser-se muito astuto para perceber que o Treinador de Futebol de Formação apresenta-se como incrivelmente importante. Vários autores e treinadores são peremptórios ao afirmar que a figura do Treinador de Formação substitui muitas vezes o professor do ensino escolar e por vezes até o próprio pai. Pela incompetência que alguns manifestam nesses papéis e simultâneamente pela importância que o treinador representa para o jovem. É o que refere (Morais, 2014), descrevendo que “estudos apontam que até aos 16 anos o treinador é o mais importante para o jogador. Dos 16 aos 20 anos passam a ser os amigos e o treinador é segundo. A partir dos 20 surgem os empresários, namorada /mulher, comunicação social”. São comuns os relatos de pessoas que confessam que os valores que os alicerçam, foram adquiridos através do desporto, particularmente, pela “mão” dos seus treinadores. Muitos acabam mesmo por criar relações que perduram no resto das suas vidas.
“Sempre recordarei os momentos que trabalhámos juntos. Foram os melhores da minha carreira. Obrigado por tudo.”
Paulo Ferreira recordando o seu trabalho com José Mourinho, citado por (Luz, et al., 2012)
“Óbvio que ganhar títulos é importante, mas não é tudo. O que me interessa é que, a certa altura, os meus jogadores me digam: “Treinador, você ajudou-nos e tornou-nos melhores jogadores. Aprendemos muito consigo.””
(Guardiola, 2013)
Do ponto de vista da espécie, para além da preocupação ecológica com o espaço que habitamos e com questões relativas à saúde, sendo que neste ponto, como uma vez mais o professor Manuel Sérgio lembra, a saúde não é só física… é também mental, perguntamos: haverão na nossa vida coisas mais importantes que a relação humana? A importância humana do treinador é portanto… outro facto.
Contudo, estamos perante uma das profissões mais desrespeitadas da nossa sociedade.
Para além do exposto atrás, ignorado por muitas, se não pela maioria das pessoas, que remetem para o papel de treinador apenas decisões táctico / estratégicas, no máximo, preocupações com o treino e com o que se passa “exclusivamente” nesse domínio, existe uma ideia generalizada que o tempo dedicado à função e curto, pois esgotar-se-á no período de treino e jogo. Quanto muito, uns minutinhos de planeamento imediatamente antes desses momentos. Para esse pensamento, trazemos uma novidade, também factual: ser-se competente na função de Treinador, implica muito tempo dedicado a toda a actividade e ao seu envolvimento. Tempo esse, “invisível” para quem está fora do contexto. Planeamento… complexo, análise de jogos e de treinos, sessões “teóricas”, acompanhamento da realidade cultural do clube, diálogo regular com os jogadores e restantes profissionais, “socorrê-los” nos momentos mais imprevisíveis, preocupação com a própria formação contínua sob múltiplas formas e despendendo com isso muito tempo e dinheiro, são apenas alguns exemplos.
No mesmo sentido (Castro, 2018) descreve que “o treinador tem de observar adversários, tem de observar a sua própria equipa, tem que analisar jogadores, tem que planear o treino, tem que planear o jogo, tem um conjunto de tarefas que lhe estão associadas. A vida do treinador não se esgota no treino. A vida do treinador começa no treino. Porque depois do treino há a ligação com todos os outros departamentos”. Não é por acaso que muitos treinadores afirmam estar no processo do acordar ao deitar, restando-lhes inclusivamente, pouco tempo para a família, o que por si só, importa referir, não garante automaticamente… competência. O treinador português (Fonseca, 2013), descreve que “as pessoas não imaginam as horas que damos à equipa. Os meus serões são passados a ver os nossos jogos, os jogos dos adversários ou em reunião com a minha equipa técnica. Há sempre muito para fazer. Nunca vejo telejornais ou filmes. Só futebol. Deito-me sempre tarde e durmo poucas horas”. Paulo Fonseca acrescenta que “é uma função apaixonante e desgastante. Passo o tempo todo a pensar nisto. Gerir emoções é muito complicado. O grupo é extenso, as personalidades distintas e para funcionar temos de ser próximos dos atletas. Não acredito na liderança distante e fria”. E tudo isto, independentemente do contexto ou nível competitivo. Porque como foi escrito na obra de Bruno Leite, et al., pode-se ser “Profissional no Amador”. A competência ou a dedicação não são definidas por aí. Mais um facto.
Depois, estamos perante a profissão de que todos sabem imenso, emitem opiniões e iam “lá fazer melhor”. O pai, o bancário, o médico, o jardineiro, o advogado, o cozinheiro, o personal trainer, o professor, o jornalista, o político, o electricista, o empregado de mesa, etc., não têm qualquer inibição em criticar o treinador. Na especificidade técnica da sua função, e muitas vezes até do ponto de vista humano apenas porque não tomam decisões diferentes das suas… digamos… convicções. E não discriminamos géneros. Também muitas senhoras, profissionais de outras áreas de actividade, não têm igualmente pejo em afirmar que determinado treinador não percebe do que faz, que deveria jogar o “Manel” e não o “Zé”, que a equipa “devia jogar para a frente e deixar de brincar lá atrás”. Alguns vão mais longe e determinam que a equipa precisaria “de trabalhar mais fisicamente” ou que os treinos “deveriam ser mais intensos”. Tudo isto, sem qualquer formação e experiência na área, sem acompanhar a realidade diária da equipa. Tudo isto, independentemente do contexto, do nível competitivo, do escalão etário. E já nem vamos à avaliação do trabalho do treinador para além do resultado desportivo. Aí abriria-se todo um novo universo para estas pessoas. Generalizou-se o… “também percebo de futebol”. Mas como é que se percebe de futebol… se na grande maioria dos casos… nem do ser humano e da sua condição… se percebe? Será que seria relevante colocar um Treinador de Futebol semanalmente na televisão a opinar sobre as decisões do Ministro das Finanças, numa cozinha opinando sobre o trabalho do Chef, ou criticando um Professor de Física na ênfase que dá às matérias, porque o “lançamento de projéteis” será para si mais importante para a vida adulta do aluno do que a “mecânica dos fluídos”?
“Fui mudando de canal e encontrei dois ou três iluminados pumba, pumba, a bater no Jesus. Mas a falar de pormenores e de treino e a dizer que tinha de fazer assim e assado. E eu penso: mas quem é que eles treinaram? Nunca treinaram ninguém na vida. Nunca lideraram ninguém. Mesmo os ex-jogadores. Quem é que eles treinaram? Foram jogadores e alguns deles nem foram exemplo para ninguém. Quando é que eles tiveram de tomar decisões sobre pressão? Onde é que eles foram avaliados e criticados ao mesmo tempo por tanta gente? Não foram. Mas chegam ali e o Jesus isto e isto e isto. Mas o Jesus ao pé deles dá-lhes dez a zero. Ou vinte a zero. E isso custa-me. Tal como eu não tenho hipótese nenhuma de estar aqui a falar de política, porque eu não estudo política e não sei o suficiente. Por exemplo, gosto muito de música, mas é só de ouvir, gosto disto ou daquilo. Não começo a discutir a música como se soubesse alguma coisa daquilo, porque não sei. Tudo bem, as pessoas podem discutir futebol e dar a sua opinião, mas não podem fazê-lo sem respeito.”
Vítor Pereira em entrevista a (Cabral, 2017)
Mais grave se torna quando estas figuras vestem a pele de dirigentes desportivos, e ao contrário do treinador, sem qualquer exigência ao nível da sua formação para o cargo, sem conhecimento da função e do meio, e em muitos casos, sem qualquer experiência. Porque foram eleitos ou convidados para tal. Eles, que estão no topo da pirâmide hierárquica do clube. Portanto, na grande maioria dos casos, as pessoas que lideram e tomam as decisões mais importantes, são as que no futebol, menos qualificações, menos conhecimento, e menos experiência têm. Estas pessoas, são portanto, as que avaliam e decidem a competência e o desempenho dos treinadores. Como em tudo, há também os exemplos opostos, mas esses são tão raros, que acabam por ser notícia.
“Sou também absolutamente crítico da tese de que os treinadores vivem de resultados: esta é a posição mais comum. E a posição, que na sua medida, ajuda a contribuir para estado calamitoso da maioria dos clubes de futebol. O treinador vive de competência, trabalho, dedicação, lealdade. E tudo isso esta equipa técnica tem de sobra. Acho, por isso incorrecto, definir o futuro de alguém pelo penalti marcado ou não marcado, pela expulsão bem ou mal decidida, pela oportunidade falhada, pela bola na trave ou bola na rede. Um projecto de futebol tem de ser muito mais do que isso.”
(Paulo Antunes, 2016), presidente demissionário da SAD do Leixões em solidariedade com a sua equipa técnica
Simultaneamente difunde-se a ideia de que um treinador que ainda não se encontra a exercer a sua actividade, do ponto de vista financeiro a um nível profissional, está em “ocupação dos tempos livres”. Que está então em formação, a ganhar experiência e numa “rampa de lançamento”. Pelo meio esquece-se que já está efectivamente a trabalhar, a influenciar terceiros, e a ter o impacto que descrevemos atrás com as suas decisões e acções. E na maior parte dos casos como Treinador de Formação, que sublinhamos, tem importância fundamental em termos sociais.
De facto, um treinador está ocupando tempo… mas na área para a qual lhe foi exigida formação e investimento. A falácia surge, porque a maioria dos treinadores, não recebem sequer metade do ordenado mínimo nacional. O pouco que ganham é na maioria dos casos pago ilegalmente, porque caso contrário, não lhes sobraria praticamente verba nenhuma. E mesmo assim, em muitos casos, sem valor adicional para despesas, nomeadamente para transportes. Transportes que muitos clubes não garantem, nem sequer para os jogos. Assim, em alguns casos, o balanço torna-se negativo e cria-se então a ideia de “investimento” para chegar a outro nível e contexto, mais importante que esse na cabeça de muita gente.
Com tudo isto, não há descontos, consequentemente não haverá direito aos mais básicos benefícios, por exemplo, seguro de trabalho ou pensão de velhice. Perante este quadro, nem vale portanto a pena falar em subsídios de férias e de Natal. Aliás, a grande maioria destes vencimentos dura apenas os, aproximadamente dez meses do período competitivo. E tudo isto não é uma revelação que estamos aqui a fazer. É do conhecimento geral. Portanto, inclusive das autoridades competentes e poder político. E todos assobiam para o ar, mostrando-se satisfeitos com a realidade… apesar de ilegal. O autor (Bouças, 2019) aponta ser “importante que as pessoas não se esqueçam que ser treinador é uma profissão… e que os treinadores também têm contas para pagar”. Deixamos duas questões.
Não pode um treinador gostar, e investir no papel que tem no Futebol de Formação? Não pode sentir-se feliz e especializar-se para trabalhar com crianças e jovens? Isso tem obrigatoriamente que ser um “degrau” para outra coisa… se calhar até… menos importante?
Não lhes sendo reconhecida importância na função, e se os milhares de treinadores que se encontram nesta precariedade, chegassem à conclusão, que manifestamente têm também poucas probabilidades de alcançar um nível de vencimento mais elevado? E perante este cenário, se desistissem da sua missão? A quem ficariam entregues estas equipas? Aos pais e adeptos em regime de voluntariado? Os mesmos que muitas vezes apresentam comportamentos que lhes deveria valer a interdição de frequentar recintos desportivos? Então e a formação que neste momento é exigida? Terão esses voluntários vontade, tempo ou condições financeiras para se dedicarem a uma primeira formação básica de 2 anos?
“Sou alguém que tenta ajudar os miúdos a serem melhores, por isso estou na formação, por isso estou com jovens. Não tenho a ambição de treinar séniores. Interessa-me o crescimento dos jovens.”
(Pablo Aimar, 2018)
Este cenário empurra o Treinador de Formação, que devia ser um especialista nessa especificidade profissional, para outros contextos, nos quais auferirá, no mínimo, um vencimento mínimo para subsistir. Assim, o treinador português e ex-coordenador do Futebol de Formação do FC Porto, (Castro, 2018), explica que “há uma avidez pela escalada que pode ser fatal para o futebol de formação. Tem de haver extremo cuidado na escolha de recursos humanos para cada escalão. Deve haver um cuidado tremendo no olhar sobre esses treinadores, dar-lhes condições para desenvolverem o seu trabalho, quietá-los. Eles são muito inquietos, os treinadores de hoje em dia, naquilo que é a sua escalada. Olham sempre para cima, nunca para baixo. É perigoso para o futebol de formação“.
Com isto entramos noutra das questões mais controversas em Portugal no âmbito da profissão do treinador. A sua formação. Durante muitos anos assistiu-se a entrega de cursos de treinadores, inclusive de nível máximo, praticamente por decreto. Muitas vezes bastava ter-se tido uma carreira como jogador profissional, e se internacional ainda melhor, para que se obtivesse uma equivalência como treinador. Como se alguém que estivesse doente num hospital durante muitos anos, estivesse por isso, automaticamente habilitado a ser médico. Hoje passou-se do oito para o oitenta. Recorrendo novamente ao exemplo do Médico, este profissional de reconhecida importância fundamental na sociedade, necessita de 6 a 8 anos de formação. Hoje, um treinador, para atingir o nível máximo de formação, precisa de 12 anos… As contas são simples, tendo em conta os requisitos legais: 1 ano de formação para o UEFA C + 1 ano de estágio + 2 anos a trabalhar a esse nível + 1 ano de formação para o UEFA B + 1 ano de estágio + 2 anos a trabalhar a esse nível + 1 ano de formação e estágio para o UEFA A + 2 anos a trabalhar a esse nível + 1 ano de formação e estágio no UEFA PRO. Será isto razoável?
E levanta-se outra questão. Não pode um treinador, como referiu ser exemplo Pablo Aimar, desejar ou sentir-se melhor como treinador de Futebol de Formação, e simultâneamente desejar ter formação “oficial” máxima? Não é dito por muitos responsáveis e treinadores que os melhores treinadores deveriam estar na formação? Então e os melhores não serão também os que adquiriam mais e melhor conhecimento? Perante as regras vigentes… um Treinador de Formação em Portugal só poderá atingir o UEFA A. E se gostar e se especializar-se em trabalhar com crianças até às idades de Infantis, só poderá ter formação até nível UEFA B.
Mas os problemas não ficam por aí. Trabalhar no estrangeiro é também um handicap à aquisição de mais formação em Portugal. Tendo que cumprir uma série de requisitos para se poder candidatar a um nível superior de formação, muitos treinadores, pelas características dos projectos onde se encontram, não os conseguem preencher. Damos um exemplo. A Aspire Academy sediada no Qatar, é uma referência a nível mundial, apresentando uma infra-estrutura fabulosa, técnicos estrangeiros de reconhecida qualidade com especialização no treino de formação e pagos a valores que treinadores de formação dos clubes grandes em Portugal, não auferem. O seu contexto, em escalões etários mais baixos, não contempla competição federada e participação em campeonatos anuais. As competições existem num volume idêntico ao de Portugal, mas são organizadas pela própria Aspire Academy. Sendo este um dos requisitos para a candidatura a qualquer dos três níveis mais elevados de formação, um português que trabalhe neste projecto, terá então, a formação em Portugal vedada. Porém… se a pretender adquirir no estrangeiro, mediante menos requisitos, e na maior parte dos países, a um custo menor, está também perante um processo cheio de constrangimentos, e em muitos casos, mesmo impossível.
Ainda sobre a formação do treinador. Os preços da formação do Treinador. Abstemo-nos de comentar, porque o exposto abaixo fala por si. Tratam-se de posts publicados no twitter, abertos a todos.
Fazendo algumas contas por alto, não contabilizando gastos paralelos, como deslocamentos e alimentação, só na inscrição nos cursos, para atingir o nível máximo de formação, o treinador terá que investir um valor a rondar os 11000€. Quantas profissões apresentam tamanha exigência de investimento? E como referimos atrás, ideia reconhecida por quase toda a gente, a formação do treinador terá que ir muito além dos cursos de treinadores.
“Assim como a formação deficiente dos treinadores, em termos de oportunidades para adquirirem conhecimento. Não é só com o curso nível 1, 2, 3 ou 4… Há um mundo para além dos cursos que tem de ser tocado por todos nós.”
(Luís Castro, 2018)
A dimensão financeira da questão não fica por aqui, pois criou-se ainda uma obrigatoriedade de formação contínua. Por princípio, seria uma boa ideia, uma vez que nem todos os treinadores investem na sua evolução. Porque, como Luís Castro aponta, existe hoje um imenso universo de conhecimento à disposição de todos, e (Pereira, 2019) defende, ser-se “conhecedor e competente deverá também significar a procura constante de mais conhecimento, querer saber sempre mais, mesmo além do conhecimento específico da nossa área”. Deixar que a selecção natural fizesse cair os treinadores que não procuram esse investimento pessoal, não se mantendo actualizados e reforçando o seu conhecimento, seria perigoso para muitos jogadores que estivessem sob a sua liderança. Temos que ser coerentes com o que defendemos atrás e sublinhar a importância, em todos os momentos, que qualquer treinador tem. O problema é que a proliferação de cursos, formações e empresas dedicadas a este propósito, em muitos casos sem qualquer rigor em relação a conteúdos e formadores, vão adulterando a boa ideia inicial, e passando a mensagem que a obrigatoriedade de adquirir os créditos necessários para manter o Título Profissional de Treinador de Desporto sucede principalmente por motivos financeiros. De qualquer forma, constitui-se em mais um encargo para o Treinador, que recordamos ter, na maioria dos casos, um vencimento líquido perto do… zero. Recuperamos a questão colocada acima. Quantas profissões apresentam tamanha exigência de investimento?
Continuando na perspectiva da “carreira”, haverá profissão mais sujeita a avaliação contínua? Existiram casos de treinadores de equipas profissionais da 1ª Liga que nem chegaram a competir oficialmente, porque foram despedidos antes disso. Por outro lado, avaliação essa que quase sempre se encontra sob a perspectiva do resultado desportivo, isto independentemente do escalão e do contexto. E principalmente independentemente da sua competência e qualidade do trabalho realizado, que terá objectivos muitos diferenciados em função desse mesmo contexto.
“Obviamente que o melhor treinador do mundo poderá nunca ter almejado um troféu. Porque vitórias dependem do contexto. Poucas são as equipas cujo contexto permitirá a tal luta pelos títulos, e portanto estar no sítio errado à hora errada, ou estar no sítio certo à hora certa não significa por si que se é bom ou mau. E não são as decisões de X ou Y que define quem são os melhores ou piores. Avaliar o trabalho do treinador não pode passar pelo resultado, mas pelo processo. Não que o resultado não importe, naturalmente. O resultado é o mais importante. Mas entender o processo poderá fazer perceber que o resultado obtido foi ou não o melhor possível. Eu posso ficar em segundo lugar e não ter vencido. Mas naquele contexto, perceber o processo poderá fazer entender que o segundo lugar foi a melhor marca possível e que ninguém teria feito melhor. Porque no futebol há adversários e nunca ninguém joga sozinho! Perceber e valorizar o processo permite projectar o possível resultado. Utilizar somente o resultado nunca permitirá projectar o resultado no futuro.”
(Pedro Bouças, 2017)
Deste modo, em Portugal, um treinador que ganhe sempre irá rapidamente treinar uma equipa sénior de um clube grande e consequentemente irá atingir rapidamente a topo salarial do futebol português, independentemente do que estiver na base desse sucesso. Mas se um treinador a quem em tempos lhe foi reconhecida competência e qualidade de trabalho, aceitar sucessivamente projectos de risco competitivo, que o levem a insucesso nesse domínio, rapidamente também passa a desempregado. E possivelmente, de longa duração.
E estes exemplos, são os que sucedem em menor número. Estes são os que têm direito a um contrato de trabalho. Porque conforme foi exposto atrás, a larguíssima maioria não tem esse direito básico. Portanto, perante um despedimento, nem o direito ao subsídio de desemprego, subsistirá. Ah é verdade! Esquecemo-nos que… ser treinador “não é emprego”. Portanto, se foi despedido, “que vá dar aulas na escola ou que vá ser professor de natação”. Para não dizer vendedor de automóveis.
Terminamos com a crítica ao principal responsável por toda esta situação…. o próprio treinador. Em primeiro lugar porque a classe apresenta-se conformada com a sua situação. Ao contrário dos outros profissionais, talvez nunca tenha sido sequer equacionado um protesto, muito menos uma greve. Depois porque muitos treinadores partilham a mesma mentalidade dos dirigentes e adeptos e com isso deturpam o seu próprio papel. Também são partidários de que só o ganhar interessa. E voltamos a sublinhar: independentemente do escalão e contexto. Por outro lado, quando um clube que se encontra inserido numa competição em que por lei é obrigado a pagar ao treinador um valor, sempre igual ou acima do ordenado mínimo, e na prática, se de facto lhe paga, o faz num valor muito abaixo disso e o treinador aceita porque é uma “oportunidade”… está também a contribuir para o problema. E pior ainda quando o clube lhe pede, no próprio momento da assinatura do vínculo, que também assine documentos nos quais em caso de quebra do compromisso, o treinador prescinde do valor compensatório que por lei teria direito a receber. E aceita… porque se não o fizer, tem logo vários colegas preparados para aceitar o cargo nessa situação. Finalmente, mas talvez a situação mais grave, porque muitos treinadores atraiçoam a própria classe quando minam o trabalho de outros colegas. E isto não é ser-se competitivo. Trata-se de não ter valores. E depois no momento de insucesso do colega, quantos se oferecem aos dirigentes desse clube para o substituir com promessas vãs, por um valor mais baixo ou mesmo a “custo zero”? O derradeiro facto, e talvez o mais triste de todos. E são simultaneamente estes os os responsáveis por transmitir valores e conduzir outros homens.
“A base é a mesma: enquanto estou num local, dedicar-me a 100% ao que estou a fazer. Isso não me dá tempo para pensar noutras coisas. É tão volátil isto do futebol e do treinador de futebol que a ideia a longo prazo é algo que não existe e é importante nós sabermos isso. Sei que me vai acabar a carreira de treinador, é inevitável. Isto pode de alguma forma chocar, mas é preciso estarmos preparados para isso, porque é isso que acontece, daí não fazer planos a longo prazo. No futebol, longo prazo são três semanas e se tivermos dois jogos entretanto…”
Rui Jorge em entrevista a (Cabral, 2017)
“A saúde não depende só do exercício físico. Depende de um exercício físico onde há valores.”
“O futebol é um jogo infinito em que se encaixa toda a complexidade humana, desde os grandes valores até aos mais pequenos. Se os treinadores que são autênticos maestros da vida, ajudarem a iluminar a parte mais nobre do jogo, servirão para melhorar primeiro, os homens que jogam, depois, o jogo em si e, finalmente, todos aqueles que são arrastados pela paixão do futebol.”
(Jorge Valdano, 2014)
“O carácter não é um dom, é uma vitória”
A frase que intitula o artigo é de Ivor Griffith e encaixa naquelas que deveriam ser as verdadeiras vitórias do desporto de formação. Ao invés, semanalmente assistimos a uma deterioração dos valores e consequentemente dos comportamentos de todos os agentes desportivos. Num enquadramento em que a vitória na competição é o mais importante, onde vale tudo para atingi-la, e onde também se assiste a uma incrível normalização violência verbal, não é então para nós surpresa que a escalada para a violência física, protagonizada nas situações sucedidas recentemente nos vários níveis do jogo, suceda.
Também semanalmente, num programa raro na televisão portuguesa tendo em conta os temas abordados, são sublinhados os problemas, as causas e por vezes até são apontadas algumas soluções. Várias vezes da boca de um homem que percebe verdadeiramente o que é liderar e da responsabilidade que a função carrega. Não é difícil perceber onde está a raiz do problema, mas Tomaz Morais, com a ajuda dos companheiros de programa, explicam. Sendo verdade, que pelas funções que ocupam, existem uns mais culpados que outros, como Tomaz Morais sublinha, todos somos culpados.
Somos todos culpados e deixamos um exemplo. Antevemos que muitos dos que se calhar até concordam com esta visão e criticam os outros múltiplos programas da televisão portuguesa que fomentam estes problemas, mas que ainda assim despendem horas da sua semana garantindo-lhes audiência, não gastem onze minutos com o vídeo acima, e no fundo com o tema mais importante de todos.
“A liderança ética deve prevalecer.”
Tomaz Morais
“Tudo aquilo o que aprendi sobre a moral dos homens, aprendi-o nos campos, jogando futebol.”
Albert Camus
Valores Humanos V e a “formação”… do dirigente desportivo
O ex-selecionador nacional de Rugby, Tomaz Morais, sempre com intervenções interessantes na dimensão Liderança, toca em dois temas fundamentais no desporto, nomeadamente no desporto de formação. No primeiro, os valores humanos, ao qual temos dado grande relevância neste espaço, dada a nossa convicção da sua importância basilar em todo e qualquer processo educativo, e o segundo, também consequência do primeiro, sobre a formação do dirigente desportivo.
Esta é uma questão que nos assola, igualmente pela importância capital que tem numa estrutura desportiva. Pensando no caso do Futebol, e em particular do contexto português, hoje presenciamos uma evolução exponencial da qualidade dos treinadores, desde a formação até ao futebol profissional, e também por consequência disso, da quantidade e qualidade dos praticantes. A exigência pela formação dos treinadores, a competitividade dentro da classe e a difusão por diferentes meios de novos conhecimentos e ideias foram causas para esta evolução. Contudo, se pensarmos estruturalmente, numa hierarquia de decisão, encontramos hoje o maior défice de conhecimento, formação e preparação no topo dessa hierarquia, portanto, em quem toma as decisões mais importantes e consequentemente tem o poder para influenciar mais pessoas. Tomaz Morais, toca precisamente nesse ponto.




