{"id":8000,"date":"2019-02-05T18:44:02","date_gmt":"2019-02-05T17:44:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/?p=8000"},"modified":"2019-02-05T18:51:43","modified_gmt":"2019-02-05T17:51:43","slug":"so-podem-jogar-onze","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/2019\/02\/05\/so-podem-jogar-onze\/","title":{"rendered":"S\u00f3 podem jogar&#8230; onze"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>&#8220;Eu tinha sido suplente, e como a equipa n\u00e3o tinha respondido, tinha alguma esperan\u00e7a de alcan\u00e7ar a titularidade. O discurso do treinador foi apocal\u00edptico para toda a equipa, e muito especificamente para o jogador que ocupava a minha posi\u00e7\u00e3o, a quem ele acusou de n\u00e3o ter atitude, de ser pouco aplicado com as instru\u00e7\u00f5es que tinha recebido e de ter realizado uma exibi\u00e7\u00e3o lament\u00e1vel. Nessa altura, j\u00e1 me imaginava com a camisola de titular no jogo seguinte, mas o treinador encerrou o discurso de uma forma desconcertante. \u201cO que se passa \u00e9 que sabes que \u00e9s a minha debilidade, e que jogues bem ou mal, no jogo seguinte vais ser sempre titular!\u201d. Como \u00e9 f\u00e1cil de perceber, deixei cair de imediato a camisola de titular que j\u00e1 imaginava. A minha sensa\u00e7\u00e3o foi de que estaria de fora para sempre. Uma declara\u00e7\u00e3o de incondicionalidade \u00e9 sempre uma m\u00e1 ideia. Se de facto se tratava de uma debilidade e pretendia declar\u00e1-la para fortalecer a confian\u00e7a no seu melhor avan\u00e7ado, deveria faz\u00ea-la em privado. Porque a partir do momento em que a fez de forma p\u00fablica, os que lut\u00e1vamos pela mesma posi\u00e7\u00e3o perdemos toda a esperan\u00e7a de tornar \u00fatil o nosso esfor\u00e7o. N\u00e3o me considero uma pessoa rancorosa, mas j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o v\u00e1rias d\u00e9cadas desde esse epis\u00f3dio, e como podem comprovar, n\u00e3o o esqueci. A raz\u00e3o \u00e9 simples, temos muito boa mem\u00f3ria para os actos de injusti\u00e7a\u2026&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Jorge Valdano citado por (Castro, 2017)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece-nos, que a cada dia que passa, uma maior irracionalidade toma conta do futebol, e de outras coisas bem mais importantes nas nossas vidas. Tem sido crescente o n\u00famero de vezes que se opinia e mesmo se questionam treinadores em confer\u00eancias de imprensa a prop\u00f3sito de jogadores que n\u00e3o jogam, e que problema ter\u00e3o os mesmos. Naturalmente existir\u00e3o os casos em que a situa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 realmente essa e que determinado jogador, independentemente das causas, n\u00e3o esteja a atravessar um bom momento e isso torna-se causalidade para a decis\u00e3o do treinador sobre quem joga. Mas at\u00e9 nesse quadro, nem sempre \u00e9 assim. Na grande maioria das situa\u00e7\u00f5es, existem jogadores com menor tempo de jogo porque existem companheiros que ou s\u00e3o melhores, ou est\u00e3o melhores, ou simplesmente apresentam um perfil ou caracter\u00edsticas que provocam uma interac\u00e7\u00e3o com os companheiros mais favor\u00e1vel ao contexto geral da equipa. E tudo isto, como Jorge Valdano testemunha, avaliado e decidido pela eterna subjectividade da equipa t\u00e9nica, que ainda assim, estar\u00e1 anos de luz mais apta para o fazer que qualquer adepto ou jornalista.\u00a0A este prop\u00f3sito, dando um exemplo, o ex-jogador portugu\u00eas V\u00edtor Paneira citado por (Pereira, 2016) descreve que o seu antigo treinador no Benfica, Toni, tinha uma preocupa\u00e7\u00e3o:<em> &#8220;havia jogadores que ficavam muito inibidos quando jogavam na Luz e ele tinha a preocupa\u00e7\u00e3o de os proteger para a carreira deles no Benfica n\u00e3o ficar comprometida\u201d. <\/em>Segundo Paneira, ele achava que poderiam n\u00e3o estar preparados para jogar perante oitenta ou noventa mil, na Luz, e desse modo lan\u00e7ava-os nos jogos fora&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o autor\u00a0(Pereira, 2015), <em>\u201cna cabe\u00e7a de qualquer treinador, de qualquer n\u00edvel competitivo, e de qualquer escal\u00e3o, est\u00e1 presente a ideia de que o ideal seria todos terem oportunidades de jogar, todos andarem contentes e super motivados porque a qualquer momento podem estar &#8220;l\u00e1 dentro&#8221;. Mas quanto mais nos aproximamos do TOP, menos vezes isso acontece. <strong>Os melhores v\u00e3o sempre jogar mais, aqueles que fazem a diferen\u00e7a est\u00e3o mais tempo e mais vezes em campo<\/strong>\u201d<\/em>.\u00a0Portanto, quem est\u00e1 a jogar menos, n\u00e3o significa que esteja a atravessar um mau momento, que tenha sido uma m\u00e1 aposta, ou muito menos que n\u00e3o tenha qualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trazemos um exemplo recorrente para justificar este pensamento. Num campeonato com, reconhecidamente v\u00e1rias boas equipas, apenas uma ser\u00e1 campe\u00e3. Poucas outras se apurar\u00e3o para competi\u00e7\u00f5es europeias, ou, noutros enquadramentos, ir\u00e3o subir de divis\u00e3o. Significar\u00e1 isto que as outras, que n\u00e3o alcan\u00e7aram igual sucesso, passaram a ser m\u00e1s equipas? Ser\u00e1 o rendimento, que se calhar at\u00e9 acaba por se demonstrar pontual, tudo? Na nossa perspectiva, n\u00e3o. Algumas equipas apenas n\u00e3o foram t\u00e3o boas, ou n\u00e3o se adaptaram t\u00e3o bem \u00e0quele contexto competitivo. Temos v\u00e1rios exemplos desses todos os anos, nos mais diferentes contextos culturais. O mesmo se passa com os jogadores numa equipa.\u00a0S\u00f3 podem jogar&#8230; onze. E potencialmente, mais tr\u00eas alguns minutos. Uma vez mais&#8230; surge o pensamento anal\u00edtico, que aqui, separa a equipa, ditando que apenas os que jogam s\u00e3o importantes, ou&#8230; bons. O ex-jogador argentino (Saviola, 2010) transmite-nos que\u00a0<em>&#8220;<strong>no Futebol nunca ningu\u00e9m consegue nada sozinho, tudo \u00e9 fruto do trabalho da equipa e eu n\u00e3o esque\u00e7o isso<\/strong>&#8220;.\u00a0<\/em>Na mesma linha de pensamento, o ex-seleccionador nacional de Rugby (Tom\u00e1s Morais, 2006), defende que uma equipa \u00e9 uma\u00a0<em>&#8220;esp\u00e9cie de tribo organizada em torno de um l\u00edder que motiva, elogia, ouve, repreende, exemplifica, cultiva a ideia que o todo tem que ser sempre superior \u00e0 soma das partes e assume que o seu des\u00edgnio \u00e9 encontrar \u201co combust\u00edvel certo\u201d para os \u201cdiferentes autom\u00f3veis&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, um papel mal entendido na equipa, juntando as consequ\u00eancias da press\u00e3o externa, poder\u00e3o sim, levar o jogador a um estado emocional desfavor\u00e1vel para si e consequentemente para a equipa, e a\u00ed sim, empurr\u00e1-lo para um mau momento, digamos, de <strong>forma&#8230; t\u00e1ctica,<\/strong> e isso ser decisivo nas escolhas da equipa t\u00e9cnica. Forma T\u00e1ctica, porque sendo, para n\u00f3s, a t\u00e1ctica, uma dimens\u00e3o complexa que surge da interac\u00e7\u00e3o de todas as outras, portanto, a que expressa efectivamente o rendimento do jogador, ent\u00e3o estar em m\u00e1 forma, significar\u00e1 estar mal tacticamente, significa acima de tudo, estar a jogar mal. O que isso nos mostra na pr\u00e1tica&#8230; \u00e9 que um jogador, no contexto de uma ideia colectiva, n\u00e3o se posiciona ou se movimenta correctamente, n\u00e3o decide e executa bem o jogo. Quest\u00f5es psicol\u00f3gicas, emocionais e f\u00edsicas, poder\u00e3o existir, mas n\u00e3o sendo vis\u00edveis, e n\u00e3o conhecendo exactamente a realidade, nunca passar\u00e3o de conjecturas, muitas vezes, despropositadas. Tal como afirmarmos, que um jogador que n\u00e3o vemos treinar e jogar, esteja em m\u00e1 forma, ou pior ainda, que n\u00e3o tenha qualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Procurar compreender isto, sem estar dentro do contexto de determinada equipa, na mente de um jogador, ou pior ainda, ignorar que a realidade n\u00e3o se explica de forma&#8230; simples&#8230; \u00e9 fomentar essa irracionalidade que nos faz caminhar para uma sociedade cada vez mais perigosa. E cada jogador, mais do que titular, deve procurar sentir-se \u00fatil \u00e0 equipa. Tal como de uma forma geral, cada um de n\u00f3s, mais do que desejarmos, nos sentirmos socialmente protagonistas, talvez seja mais prof\u00edcuo procurarmos, nos sentir \u00fateis. Como apontou (Lu\u00eds Castro, 2017), o que devemos procurar \u00e9 sentirmo-nos felizes e bem com n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&#8220;(&#8230;)\u00a0<em>partimos da import\u00e2ncia dos jogadores se sentirem uns nos outros em vez de se sentirem uns aos outros<\/em><em>. Pela capacidade que isso promove: jogar colectivamente. O que distingue os fen\u00f3menos colectivos \u00e9 a forma como as EQUIPAS se desenvolvem e se fazem como identidade diferente da jun\u00e7\u00e3o dos seus jogadores. A liga\u00e7\u00e3o que estabelecem faz com que funcionem de determinada forma e portanto, temos equipas em que os jogadores s\u00e3o equipa e temos equipas com jogadores da equipa. Parece a mesma coisa mas n\u00e3o \u00e9 porque se SENTEM COISAS DIFERENTES!<\/em> <em>Segundo as neuroci\u00eancias existem um conjunto de neur\u00f3nios respons\u00e1veis por esta fun\u00e7\u00e3o, os neur\u00f3nios-espelhos. De acordo com recentes descobertas, a evolu\u00e7\u00e3o humana fez com que tiv\u00e9ssemos um conjunto de neur\u00f3nios que nos permitem reconhecer as situa\u00e7\u00f5es vivenciadas pelos outros como se fossemos n\u00f3s. O que nos permite ser humanos. O que nos possibilita conseguir uma emotividade colectiva.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Marisa Gomes, 2011)<\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Eu tinha sido suplente, e como a equipa n\u00e3o tinha respondido, tinha alguma esperan\u00e7a de alcan\u00e7ar a titularidade. 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