{"id":7809,"date":"2019-01-25T18:16:46","date_gmt":"2019-01-25T17:16:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/?p=7809"},"modified":"2019-03-25T18:02:07","modified_gmt":"2019-03-25T17:02:07","slug":"a-falta-tactica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/2019\/01\/25\/a-falta-tactica\/","title":{"rendered":"A falta t\u00e1ctica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente, num programa televisivo, discutia-se a falta&#8230; particularmente a que se vulgarizou na g\u00edria, como &#8220;falta inteligente&#8221;. Se logo \u00e0 partida existe uma conota\u00e7\u00e3o que a pode identificar como um comportamento inteligente, revela que na opini\u00e3o de muitos, falta pode significar uma boa decis\u00e3o. Por\u00e9m, evidentemente que isso por si s\u00f3, n\u00e3o nos diz muito. O que n\u00e3o faltam no futebol s\u00e3o lugares comuns, tantas vezes repetidos e que n\u00e3o se questionam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a falta marca presen\u00e7a no regulamento do jogo, obviamente faz parte do mesmo. A sua g\u00e9nese \u00e9 simples. Numa an\u00e1lise fria, como sucedeu em todos os desportos, e num contexto mais amplo noutros dom\u00ednios da sociedade, a determinado momento surgiram indiv\u00edduos que quiseram obter sucesso na actividade em causa recorrendo a a formas de actuar que a maioria condenou. Com tal, essa maioria criou leis e regras de forma a penalizar esses comportamentos. Ignorar esses comportamentos nesses momentos, n\u00e3o seria certamente a atitude certa para a evolu\u00e7\u00e3o do jogo ou, na perspectiva mais ampla, de uma sociedade. Tal como ignor\u00e1-los agora, n\u00e3o ser\u00e1 com certeza a atitude certa de forma a dar continuidade a essa evolu\u00e7\u00e3o. Defende-se muitas vezes a ideia de que a evolu\u00e7\u00e3o t\u00e1ctica do jogo, sucedeu nos seus momentos defensivos por resposta a novas ideias ofensivas, e vice-versa. Ent\u00e3o o mesmo suceder\u00e1 com a sua regulamenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um exemplo concreto foi a situa\u00e7\u00e3o do atraso de bola para o Guarda-Redes, recorrendo aos p\u00e9s. Durante quase um s\u00e9culo de jogo foi um comportamento permitido. At\u00e9 que, a determinado momento, as equipas perderam um eventual &#8220;constrangimento moral&#8221;, ou ent\u00e3o, noutra perspectiva, ganharam lucidez t\u00e1ctica, e uma vez mais numa an\u00e1lise fria e objectiva, utilizaram essa possibilidade que o jogo oferecia para manterem a posse de bola e evitarem que o advers\u00e1rio atacasse. Os opositores teriam ent\u00e3o que pressionar muito alto para evitar a situa\u00e7\u00e3o, algo que tamb\u00e9m devemos ter consci\u00eancia, n\u00e3o muito habitual no jogo da \u00e9poca, pelo menos de forma organizada, o que trouxe problemas ao jogo das equipas. Outra leitura da situa\u00e7\u00e3o, mais &#8220;rom\u00e2ntica&#8221;, \u00e9 que as equipas estariam a incorrer em comportamentos anti-desportivos e estavam a abdicar de jogar. <strong>A quest\u00e3o \u00e9 que, na realidade, jogar, \u00e9 tudo o que as leis do jogo permitem e sancionam<\/strong>. Enquanto se est\u00e1 em jogo&#8230; joga-se. Da forma &#8220;A&#8221;, &#8220;B&#8221;, &#8220;C&#8221;, etc&#8230; fazendo-se mais ou menos faltas&#8230; mas, joga-se.\u00a0Jogar, n\u00e3o \u00e9 o que a perspectiva, ou cultura, que cada um de n\u00f3s tem do jogo, indica como importante. Todos n\u00f3s formamos opini\u00f5es e convic\u00e7\u00f5es sobre cada jogar. Se \u00e9 mais est\u00e9tico, se \u00e9 mais eficiente, se \u00e9 mais eficaz. Se esse jogar tamb\u00e9m expressa os valores humanos que nos alicer\u00e7am.\u00a0Mas n\u00e3o \u00e9 isso que est\u00e1 aqui em causa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto sublinhamos: enquanto um jogador est\u00e1 em campo e o jogo decorre, ele joga. Movimentando-se, posicionando-se, ou por exemplo, realizando uma intercep\u00e7\u00e3o, um passe, um remate&#8230; ou mesmo fazendo uma falta. Repetimos, n\u00e3o estamos a tecer ju\u00edzos de valor \u00e0s diferentes decis\u00f5es que o jogador pode tomar em campo. Mas a realidade \u00e9 que as leis do jogo permitem que o jogador possa decidir a falta como eventual recurso. Caso contr\u00e1rio seria expulso de imediato. Em determinado momento, o jornalista (Tadeia, 1999), identificou\u00a0<em>&#8220;a prolifera\u00e7\u00e3o da falta t\u00e1ctica, estrat\u00e9gia usada para impedir o desenvolvimento do futebol do advers\u00e1rio sem causar grandes mossas no cadastro da equipa que as comete&#8221;.<\/em>\u00a0O mesmo autor opina ainda que <em>&#8220;a falta t\u00e1ctica \u00e9 um flagrante exemplo de benef\u00edcio do infractor, uma vez que obriga o advers\u00e1rio a recome\u00e7ar a sua movimenta\u00e7\u00e3o, pois permite a recoloca\u00e7\u00e3o da defesa da equipa que a comete. Por isso, \u00e9 urgente que este tipo de infrac\u00e7\u00e3o seja punida nas leis do jogo&#8221;.\u00a0<\/em>Paralelamente, (Torrijos, 2001) descreve que\u00a0<em>&#8220;a &#8220;falta t\u00e1ctica&#8221; \u00e9 efectuada mais pelos m\u00e9dios do que pelos defesas. A falta t\u00e1ctica \u00e9 a cometida numa zona do campo pouco perigosa de forma a parar um contra-ataque e permitir tempo a que a equipa que a efectua se reorganize. A quest\u00e3o plantou-se quando Albelda fez dez faltas a Zidane no arranque da Liga. O resultado\u00a0 do castigo (livre directo no centro do campo) \u00e9 menos penoso que a amea\u00e7a de contra-ataque&#8221;.\u00a0<\/em>Foi ent\u00e3o, nessa fase da evolu\u00e7\u00e3o do jogo, identificado um problema com a acumula\u00e7\u00e3o de faltas deste g\u00e9nero por determinado jogador. Nessa altura foi ent\u00e3o solicitado \u00e0s equipas de arbitragem que fossem menos permissivas e punissem, disciplinarmente, um jogador que recorresse sistematicamente \u00e0 falta. A partir da\u00ed vemos o \u00e1rbitro mostrar cart\u00e3o amarelo enquanto sinaliza gestualmente a acumula\u00e7\u00e3o de faltas desse jogador. Um exemplo da evolu\u00e7\u00e3o do jogo perante um problema identificado. Assiste-se hoje a uma redu\u00e7\u00e3o no n\u00famero dessas faltas, o que obrigou as equipas a desenvolverem outras formas de minimizar os contra-ataques perigosos do advers\u00e1rio. Serem mais rigorosas ao n\u00edvel posicional e na gest\u00e3o do espa\u00e7o no equil\u00edbrio defensivo no ataque, \u00e9 um bom exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, a discuss\u00e3o pode ser realizada em torno do peso da penaliza\u00e7\u00e3o em determinadas situa\u00e7\u00f5es de jogo, mas sempre com a consci\u00eancia que a penaliza\u00e7\u00e3o m\u00e1xima por qualquer falta, nunca suceder\u00e1. Caso contr\u00e1rio, estar\u00edamos perante outro jogo, que n\u00e3o Futebol. Desta forma, enquanto subsistir a falta que n\u00e3o expulsa o jogador da partida, n\u00e3o prejudicando com isso a sua equipa de forma grave, ela ser\u00e1 sempre uma poss\u00edvel decis\u00e3o. E como tal, entrando ent\u00e3o no campo da cultura de jogo de cada um, determinada falta, poder\u00e1 ent\u00e3o ser perspectivada como m\u00e1 ou boa decis\u00e3o. Como decis\u00e3o inteligente ou n\u00e3o. Neste contexto o autor (Bou\u00e7as, 2017), d\u00e1 um exemplo, defendendo que\u00a0<em>&#8220;sem situa\u00e7\u00e3o controlada em termos num\u00e9ricos e de espa\u00e7o, surgem as faltas t\u00e1cticas como uma marca bem definida das equipas mais inteligentes. No passo \u00e0 frente, encostar nas costas, e parar em falta com portador sem enquadramento, significa que n\u00e3o h\u00e1 sequer risco de admoesta\u00e7\u00e3o disciplinar, e de transi\u00e7\u00e3o defensiva, o jogo p\u00e1ra e entra-se no momento de organiza\u00e7\u00e3o. Onde \u00e9 substancialmente mais dif\u00edcil ferir quem tem os melhores, sobretudo quando bem organizados&#8221;.\u00a0<\/em>Tamb\u00e9m o espanhol Jes\u00fas Botello em (The Tactical Room, 2019), explica que acumulando muitos jogadores em organiza\u00e7\u00e3o ofensiva no meio-campo advers\u00e1rio,\u00a0<em>&#8220;a falta t\u00e1ctica afigura-se vital para evitar contra-ataques&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, se a t\u00e1ctica se constitui como todo o comportamento volunt\u00e1rio em campo. A falta&#8230; nessas circunst\u00e2ncias, torna-se assim, t\u00e1ctica. Prevendo e aceitando depois, o jogador e a equipa, as suas consequ\u00eancias. Na obra <em>&#8220;Gu\u00eda para jugar a f\u00fatbol&#8221;<\/em>, os autores (Benigni et al., 2016) tamb\u00e9m concordam com esta perspectiva ao referirem que\u00a0<em>&#8220;uma das circunst\u00e2ncias que ocorre cada vez mais no futebol moderno \u00e9 a chamada falta t\u00e1ctica, que consiste em realizar uma ac\u00e7\u00e3o voluntariamente incorreta para cortar uma ac\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, que, continuando, coloca em grande perigo a equipa. Fala-se de uma falta t\u00e1ctica, porque a ac\u00e7\u00e3o ocorre longe da grande-\u00e1rea, ou seja, na zona de meio-campo, onde, teoricamente, ainda n\u00e3o constitui um grande perigo para a equipe que defende&#8221;.\u00a0<\/em>O treinador\u00a0Fran Beltr\u00e1n em (Club Perarnau, 2013), vai mais longe e explica que o seu Modelo de Jogo\u00a0<em>&#8220;variar\u00e1 se sei que em determinado pa\u00eds s\u00e3o mais ou menos permissivos com o cart\u00e3o amarelo perante a falta t\u00e1ctica&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para n\u00f3s, a falta enquanto comportamento opcional tem de estar circunscrita aos valores que alicer\u00e7am o nosso jogo. Nunca colocando em risco o bem estar f\u00edsico do advers\u00e1rio, nunca de forma a ludibriar o \u00e1rbitro e as leis do jogo. Portanto aceitamos e definimos a falta como uma poss\u00edvel decis\u00e3o, sempre como \u00faltimo recurso em situa\u00e7\u00f5es nas quais outras ac\u00e7\u00f5es falharam, e tamb\u00e9m sempre conscientes das respetivas penaliza\u00e7\u00f5es que as mesmas enfrentam. Assim, trata-te para n\u00f3s de uma decis\u00e3o pontual e n\u00e3o recorrente, mas sim, uma decis\u00e3o, que em determinadas circunst\u00e2ncias, se revela&#8230; inteligente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jogo de Futebol n\u00e3o \u00e9 aquilo que desejamos que seja. O jogo de Futebol \u00e9 aquilo que de facto \u00e9. Ignorar isto \u00e9, ignorar as regras do jogo e jogar em desvantagem. E devemos ter a consci\u00eancia que os mesmos que apelam ao romantismo do jogo sem faltas, ser\u00e3o os mesmos a crucificar esse romantismo quando o mesmo enfrentar o insucesso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recentemente, num programa televisivo, discutia-se a falta&#8230; particularmente a que se vulgarizou na g\u00edria, como &#8220;falta inteligente&#8221;. Se logo \u00e0 partida existe uma conota\u00e7\u00e3o que a pode identificar como um comportamento inteligente, revela que na opini\u00e3o de muitos, falta pode significar uma boa decis\u00e3o. Por\u00e9m, evidentemente que isso por si s\u00f3, n\u00e3o nos diz muito. 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