{"id":6209,"date":"2018-02-02T11:48:00","date_gmt":"2018-02-02T10:48:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/?p=6209"},"modified":"2018-02-02T11:48:31","modified_gmt":"2018-02-02T10:48:31","slug":"cada-ser-humano-e-um-universo-de-estudo-o-estranho-caso-de-mafalda-mariano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/2018\/02\/02\/cada-ser-humano-e-um-universo-de-estudo-o-estranho-caso-de-mafalda-mariano\/","title":{"rendered":"\u201cCada ser humano \u00e9 um universo de estudo\u201d. O &#8220;estranho&#8221; caso de Mafalda Mariano."},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>\u201cPara mim, a express\u00e3o \u201ctodos os jogadores s\u00e3o iguais\u201d \u00e9 a maior mentira no desporto. Nem todos s\u00e3o iguais. Nem todos t\u00eam de ser tratados de forma igual. Com o mesmo respeito sim\u2026 (\u2026) Descobrir cada um \u00e9 o mais fascinante na nossa fun\u00e7\u00e3o\u2026&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Pep Guardiola citado por (Santos L. , 2013)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fruto, uma vez mais, do pensamento anal\u00edtico e cartesiano que se enraizou na nossa cultura e racioc\u00ednio, o ser humano continua a ser seriado e catalogado como se de uma pe\u00e7a de mobili\u00e1rio se tratasse. N\u00e3o nos estamos a referir \u00e0 procura de padr\u00f5es comportamentais. Referimo-nos a identifica\u00e7\u00e3o de caracter\u00edsticas muito gen\u00e9ricas como a idade, o sexo, a morfologia ou mesmo a fisiologia, e a partir da\u00ed colocar adultos e crian\u00e7as em categorias mais ou menos estanques. No futebol de forma\u00e7\u00e3o \u00e9 comum depararmo-nos, com opini\u00f5es de respons\u00e1veis t\u00e9cnicos, de que por exemplo, &#8220;<em>mi\u00fados com determinada idade devem jogar futebol de X<\/em>&#8221; ou\u00a0<em>&#8220;as raparigas devem jogar com raparigas e rapazes com rapazes&#8221;.\u00a0<\/em>Ignora-se por\u00e9m, a sua complexidade, e que cada ser humano \u00e9 possuidor de uma individualidade, passe a redund\u00e2ncia&#8230; singular, com um particular crescimento e tra\u00e7os exclusivos. Como Yuri Verkhoshansky, citado por (Silveira Ramos, 2004) defendeu, \u201c<i><strong>cada ser humano \u00e9 um universo de estudo<\/strong>\u201d.<\/i>\u00a0Tamb\u00e9m (Barreiros, 2016) sustenta que <em>&#8220;o desenvolvimento \u00e9 um conceito de raiz biol\u00f3gica que procura exprimir o conjunto dos processos de transforma\u00e7\u00e3o de um organismo ao longo da sua vida. No caso do desenvolvimento humano, este processo inclui inevitavelmente o conjunto das transforma\u00e7\u00f5es da vida ps\u00edquica e os efeitos de intera\u00e7\u00f5es sociais constantes. O desenvolvimento humano \u00e9, por natureza, biol\u00f3gico, psicol\u00f3gico e social, <strong>o que significa tamb\u00e9m que estas dimens\u00f5es do desenvolvimento interagem, produzindo uma not\u00e1vel complexidade e individualidade<\/strong>&#8220;. <\/em>Assim sendo, cada indiv\u00edduo apresenta as suas necessidades particulares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mafalda Mariana, aos 12 anos, teima em provar que o pensamento tradicional est\u00e1 profundamente errado. H\u00e1 quatro anos a jogar em competi\u00e7\u00f5es federadas com rapazes, inclusive dois desses anos contra uma maioria de advers\u00e1rios de idade superior. Come\u00e7ou, aos 8 anos, a jogar Futebol de 7, portanto, numa complexidade de jogo acima da regulamentarmente definida para a sua idade, o Futebol de 5. Na presente \u00e9poca deu um semelhante &#8220;salto&#8221; para o Futebol de 9. Durante este per\u00edodo formou equipa com outros mi\u00fados de enorme talento, que sempre lhe reconheceram o dela, tratando-a como igual. Por vontade e decis\u00e3o pr\u00f3pria tem recusado passar para as competi\u00e7\u00f5es femininas em clubes de maior dimens\u00e3o, por sentir que o actual contexto onde treina e compete, \u00e9 o mais adequado e desafiante \u00e0 sua qualidade. Naturalmente, tamb\u00e9m pela amizade que construiu com os companheiros, aspecto que um regulamento competitivo que separa por completo, rapazes de raparigas no futebol de forma\u00e7\u00e3o a determinado momento, ignora em absoluto.<\/p>\n<div class=\"streamable-embed-container\" style=\"width: 100%; height: 0px; position: relative; padding-bottom: 56.338%;\"><iframe class=\"streamable-embed\" src=\"https:\/\/streamable.com\/e\/aj02k?id=aj02k&#038;width&#038;height&#038;autoplay&#038;muted\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\" style=\"width: 100%; height: 100%; position: absolute;\" allowfullscreen webkitallowfullscreen mozallowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>&#8220;Como te sentes a jogar numa equipa de rapazes contra rapazes?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Sinto-me bem, pois os meus colegas receberam e tratam-me como igual. A maioria dos meus advers\u00e1rios respeita-me.&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Mafalda Mariano, 2017 em <a href=\"http:\/\/futebolfemininoportugal.com\/o-meu-grande-sonho-e-um-dia-ganhar-o-mundial-de-futebol-por-portugal-mafalda-mariano-sg-sacavenense\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">entrevista<\/a> ao website\u00a0www.futebolfemininoportugal.com<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ignora-se tamb\u00e9m que existem aspectos ainda mais decisivos para a evolu\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a do que a pr\u00f3pria complexidade do modelo competitivo. Uma crian\u00e7a, numa equipa de Futebol de 7, \u00e0 qual seja imposto jogo directo e marca\u00e7\u00e3o individual, n\u00e3o ter\u00e1 com certeza mais propens\u00e3o \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o com bola, com o centro de jogo e desafio \u00e0 intelig\u00eancia t\u00e1ctica, que o jogo curto e apoiado e a Defesa Zonal potenciam, mesmo quando solicitados num contexto competitivo de Futebol de 11. Neste sentido, (F\u00e1bio Ferreira, 2013), descreve que\u00a0<em>&#8220;de\u00a0<\/em><em>acordo com Pacheco (2001), <strong>a competi\u00e7\u00e3o em idades mais jovens depende da qualidade da sua pr\u00e1tica e da interven\u00e7\u00e3o por parte dos treinadores, dos dirigentes e dos pais que enquadram a crian\u00e7a na actividade desportiva. Por isso, \u00e9 extremamente importante que se respeite a individualidade biol\u00f3gica, cognitiva e emocional da crian\u00e7a (Fernandes, 2004). Assim sendo, \u00e9 fundamental que no futebol de forma\u00e7\u00e3o as competi\u00e7\u00f5es estejam ao servi\u00e7o dos jovens futebolistas, estando adequadas \u00e0s caracter\u00edsticas das crian\u00e7as e do seu n\u00edvel de desenvolvimento (Pacheco, 2001) tornando-se uma ferramenta de aux\u00edlio para que os objetivos de forma\u00e7\u00e3o sejam atingidos. Pacheco (2001) refere ainda que o problema induzido pela competi\u00e7\u00e3o nos escal\u00f5es mais jovens s\u00e3o as distor\u00e7\u00f5es impostas pelos adultos&#8221;.<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista a (Xavier Tamarit, 2013), o professor V\u00edtor Frade questiona: <em>&#8220;voc\u00ea j\u00e1 viu ou acha que o gajo que vai tocar piano, primeiro vai andar a correr \u00e0 volta do piano ou fazer eleva\u00e7\u00f5es ou flex\u00f5es?! N\u00e3o. <strong>Os putos v\u00e3o, se tiverem dois, \u00abolha, joga tu ali e eu ali\u00bb, se tiverem onze, \u00abseis para aqui e cinco para acol\u00e1\u00bb<\/strong>. \u00c9 isso que eles fazem, \u00e9 Futebol com bola!&#8221;\u00a0<\/em>No entanto, condicionados pelas ideias, preconceitos e receios dos adultos, o autor (Carlos Neto, 2017) deixa a pertinente quest\u00e3o:\u00a0<em>&#8220;qual \u00e9 o n\u00edvel de participa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as na sua forma\u00e7\u00e3o desportiva?&#8221;<\/em>\u00a0E responde. <em>&#8220;<strong>\u00c9 tudo imposto<\/strong>. Tal e qual como nas escolas, onde t\u00eam de estar sentadas, quietas e a ouvir professores cansados, velhos e chatos. O que \u00e9 que elas gostariam de fazer no treino? Algumas vez os treinadores ouvem as crian\u00e7as? Os pais ouvem os pr\u00f3prios filhos? <strong>A forma\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e jovens em Portugal \u00e9 de uma vis\u00e3o autocr\u00e1tica e isto \u00e9 mau, porque as crian\u00e7as do s\u00e9culo XXI mereciam outro respeito e um processo mais democr\u00e1tico. Haveria mais participa\u00e7\u00e3o, um melhor ambiente, mais entreajuda&#8230;<\/strong> como acontece nos pa\u00edses que j\u00e1 o fazem de forma mais adequada, como o Canad\u00e1 e alguns pa\u00edses n\u00f3rdicos. As crian\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o atletas em miniatura. Eu posso fazer um campe\u00e3o \u00e0 martelada. Se repetir exaustivamente, eu chego l\u00e1. S\u00f3 que ele n\u00e3o vai ser criativo, n\u00e3o se vai adaptar, vai morrer cedo. Se eu fizer um atleta inteligente, din\u00e2mico, com capacidade adaptativa, esse \u00e9 que vai ser um bom atleta, e quero na forma\u00e7\u00e3o um modelo que forme estes atletas&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, autor\u00a0(Esteves, 2010),\u00a0partilha a vis\u00e3o de V\u00edtor Frade ao distinguir <strong>especificidade precoce <\/strong>e<strong> especializa\u00e7\u00e3o precoce<\/strong>.\u00a0Segundo Frade as melhores equipas na forma\u00e7\u00e3o, treinam sob a especificidade precoce, evitando os problemas causados pela especializa\u00e7\u00e3o precoce. Para Esteves <em>\u201cquando treino em especificidade precoce, desde cedo, com diferentes graus de complexidade numa progress\u00e3o complexa de muitos anos, consigo um jogador muito mais evolu\u00eddo, pelo simples factor confian\u00e7a. A repeti\u00e7\u00e3o constante leva a sistematiza\u00e7\u00e3o, ao h\u00e1bito e isso com o passar dos anos leva \u00e0 \u00abexpertise\u00bb. As grandes mentes, em diferentes sectores da hist\u00f3ria da humanidade, dificilmente iniciaram as suas traject\u00f3rias em fase adulta. Grandes lutadores iniciam as suas lutas muito cedo, entre 6 a 8 anos, grandes pianistas idem, grandes jogadores iniciam suas traject\u00f3rias no Futebol de rua, na escola, nos campos de pra\u00e7a, logo aos 5, 6 anos\u201d.<\/em> Por outro lado o autor defende que <strong>a <em>\u201cespecializa\u00e7\u00e3o precoce \u00e9 a maior nega\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da individualidade biol\u00f3gica. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel aceitar que todos os seres humanos s\u00e3o diferentes e que a qualquer momento pode surgir um novo Pel\u00e9 ou Maradona se logo ao se iniciar um treino podamos todas as possibilidades de gerar este comportamento, criando uma esp\u00e9cie de f\u00e1brica de jogadores, fazendo tudo igual, sendo que a grande gra\u00e7a est\u00e1 em quem faz o diferente\u201d.\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, o treinador portugu\u00eas (Carlos Carvalhal, 2010) destaca a <i>&#8220;import\u00e2ncia de desenvolver os sentidos e de experimentar as sensa\u00e7\u00f5es em contacto com o meio (perspectiva ecol\u00f3gica) de forma a testarmos todas as nossas capacidades fazendo do ensaio \/ erro uma autodescoberta. <strong>A individualidade \u00e9 assim um conceito obrigatoriamente agregada \u00e0 no\u00e7\u00e3o de criatividade<\/strong>: o que vivencio enquanto jogador potencia as minhas qualidades, exponenciando-as; faz com que codifique de determinada forma o significado do que vivi, determinando tamb\u00e9m a conex\u00e3o que farei com epis\u00f3dios semelhantes no futuro&#8221;.\u00a0<\/i>O professor (Francisco Silveira Ramos, 2013), conclui que &#8220;<strong>o<\/strong><em><strong>\u00a0futebol \u00e9 um jogo coletivo, mas \u00e9 feito de individualidades e temos at\u00e9 que fomentar essas individualidades<\/strong>\u201d.<\/em> O autor sustenta ainda que \u00e9 necess\u00e1rio <em>\u201cque o trabalho para eles seja rico e criativo\u201d.\u00a0<\/em>Rico e criativo, implica experimentar diferentes contextos e desafios, e garantir uma maior propens\u00e3o do mais favor\u00e1vel ao est\u00e1gio de desenvolvimento individual e desejos de cada crian\u00e7a. No fundo, o caminho trilhado autonomamente por cada crian\u00e7a no Futebol de Rua, em regime de auto-descoberta e longe da interven\u00e7\u00e3o do adulto.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>\u201cO poss\u00edvel<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>\u00e9 o futuro do imposs\u00edvel<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>o padr\u00e3o de problemas<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>n\u00e3o se acorrenta por esquemas,<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>nenhuma impossibilidade<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>\u00e9 imposs\u00edvel\u2026<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>N\u00e3o tendo na robotiza\u00e7\u00e3o a verdade<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>a complexidade \u00e9 exequ\u00edvel.\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Frade, 2014)<\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cPara mim, a express\u00e3o \u201ctodos os jogadores s\u00e3o iguais\u201d \u00e9 a maior mentira no desporto. 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