{"id":16698,"date":"2026-07-09T18:13:15","date_gmt":"2026-07-09T17:13:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/?p=16698"},"modified":"2026-07-09T18:25:26","modified_gmt":"2026-07-09T17:25:26","slug":"monge-da-silva-e-a-impossibilidade-de-separar-o-que-o-jogo-e-a-vida-junta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/2026\/07\/09\/monge-da-silva-e-a-impossibilidade-de-separar-o-que-o-jogo-e-a-vida-junta\/","title":{"rendered":"Monge da Silva e a impossibilidade de separar o que o jogo\u2026 e a vida\u2026 junta"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">O texto \u201c<\/span><span class=\"s2\">Teoria do treino: Que qualidades f\u00edsicas? Que classifica\u00e7\u00e3o?<\/span><span class=\"s1\">\u201d, publicado por David Monge da Silva em 1985 na revista <\/span><span class=\"s2\">Treino Desportivo<\/span><span class=\"s1\">, \u00e9 um daqueles documentos que n\u00e3o deve ser lido apenas pelo que diz, mas sobretudo pelo lugar que ocupa na hist\u00f3ria da teoria do treino em Portugal.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Monge da Silva pertenceu a uma gera\u00e7\u00e3o que viveu num espa\u00e7o de transi\u00e7\u00e3o: entre a pr\u00e1tica de campo, a reflex\u00e3o acad\u00e9mica e a necessidade de construir uma linguagem mais rigorosa para o treino desportivo. Foi professor universit\u00e1rio, investigador, formador e preparador f\u00edsico no Futebol, tendo estado ligado a diferentes modalidades, federa\u00e7\u00f5es, diferentes contextos de rendimento e \u00e0 reflex\u00e3o metodol\u00f3gica sobre o treino.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Esse percurso ajuda a explicar a natureza do artigo. N\u00e3o se trata de uma especula\u00e7\u00e3o afastada da pr\u00e1tica. Trata-se de uma reflex\u00e3o te\u00f3rica feita por algu\u00e9m que conhecia o treino, mas que percebia que o treino precisava de outro pensamento.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Logo no in\u00edcio, (Monge da Silva, 1985) identifica um problema central: a confus\u00e3o terminol\u00f3gica no treino portugu\u00eas. Muitos treinadores e t\u00e9cnicos tinham sido influenciados por forma\u00e7\u00f5es oriundas de pa\u00edses diferentes e, por isso, transportavam linguagens diferentes, conceitos diferentes e classifica\u00e7\u00f5es diferentes. O resultado era uma teoria fragmentada, muitas vezes incapaz de ajudar verdadeiramente a pr\u00e1tica.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Mas o problema de Monge da Silva n\u00e3o era apenas terminol\u00f3gico. Era mais profundo. N\u00e3o se tratava apenas de escolher melhores palavras. Tratava-se de perceber se as palavras usadas eram capazes de explicar a realidade.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">A pergunta do artigo \u00e9 simples e decisiva: quando falamos de for\u00e7a, velocidade e resist\u00eancia, estamos a falar de realidades claramente separ\u00e1veis ou estamos a criar divis\u00f5es artificiais sobre uma realidade que, no movimento desportivo, \u00e9 cont\u00ednua?<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">\u00c9 aqui que o texto ganha valor hist\u00f3rico.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Segundo (Monge da Silva, 1985), <\/span><span class=\"s2\">\u201cquando observamos qualquer actividade desportiva n\u00e3o vemos for\u00e7a, velocidade ou resist\u00eancia e muito menos as qualidades interm\u00e9dias\u201d<\/span><span class=\"s1\">. O que vemos s\u00e3o movimentos. Movimentos que acontecem no espa\u00e7o e no tempo. E esses movimentos tornam-se poss\u00edveis, tamb\u00e9m, atrav\u00e9s da contrac\u00e7\u00e3o muscular.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Esta ideia muda o ponto de partida. Em vez de partir das chamadas qualidades f\u00edsicas tradicionais, Monge da Silva recua para algo fundamental que est\u00e1 por detr\u00e1s do movimento: a contrac\u00e7\u00e3o muscular.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">A partir da\u00ed, prop\u00f5e tr\u00eas par\u00e2metros quantific\u00e1veis: dura\u00e7\u00e3o, velocidade e grau de tens\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">A dura\u00e7\u00e3o corresponde ao tempo durante o qual a contrac\u00e7\u00e3o muscular se prolonga. A velocidade corresponde \u00e0 rapidez com que essa contrac\u00e7\u00e3o e descontra\u00e7\u00e3o ocorrem. A tens\u00e3o corresponde ao grau de for\u00e7a produzido para vencer uma resist\u00eancia exterior.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Para (Monge da Silva, 1985), nenhuma contrac\u00e7\u00e3o muscular pode ser correctamente caracterizada sem a articula\u00e7\u00e3o destes tr\u00eas par\u00e2metros. \u00c9 daqui que nasce o seu modelo tridimensional das qualidades f\u00edsicas.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">At\u00e9 a\u00ed, o treino tradicional tendia a pensar de forma linear. A for\u00e7a era uma linha. A velocidade era outra. A resist\u00eancia era outra. Depois, quando a realidade come\u00e7ou a mostrar-se mais complexa, surgiram qualidades interm\u00e9dias: for\u00e7a r\u00e1pida, resist\u00eancia de for\u00e7a, resist\u00eancia de velocidade. Mas, para Monge da Silva, esse caminho apenas prolongava o erro. Criavam-se mais nomes, mas n\u00e3o se compreendia melhor a realidade.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">O modelo tridimensional prop\u00f5e outra coisa. Em vez de pensar a for\u00e7a, a velocidade e a resist\u00eancia como compartimentos aut\u00f3nomos, pensa-as como zonas de um mesmo volume. A tens\u00e3o, a dura\u00e7\u00e3o e a velocidade s\u00e3o tr\u00eas eixos que se combinam continuamente. Quando um par\u00e2metro se aproxima do m\u00e1ximo, os outros tendem a baixar. Mas a maioria das ac\u00e7\u00f5es desportivas n\u00e3o vive nos extremos. Vive nas combina\u00e7\u00f5es interm\u00e9dias.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">\u00c9 por isso que (Monge da Silva, 1985) mostra que entre for\u00e7a e velocidade n\u00e3o existe uma fronteira clara. Entre for\u00e7a e resist\u00eancia tamb\u00e9m n\u00e3o. Entre velocidade e resist\u00eancia tamb\u00e9m n\u00e3o. Segundo o autor, <\/span><span class=\"s2\">\u201centre for\u00e7a e velocidade n\u00e3o existem solu\u00e7\u00f5es de continuidade que definam onde come\u00e7a uma e acaba outra\u201d<\/span><span class=\"s1\">.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">A consequ\u00eancia \u00e9 enorme: classificar pode ajudar a pensar, mas tamb\u00e9m pode deformar a realidade.vNo Futebol, isto torna-se decisivo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Monge da Silva percebe que os jogos desportivos colectivos n\u00e3o pertencem aos v\u00e9rtices cl\u00e1ssicos do modelo. O jogador de Futebol n\u00e3o \u00e9 um halterofilista, embora precise de produzir tens\u00f5es elevadas. N\u00e3o \u00e9 um velocista, embora precise de ser r\u00e1pido. N\u00e3o \u00e9 um maratonista, embora precise de resistir. Por isso, a sua prepara\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser a soma de m\u00e9todos importados da halterofilia, do atletismo ou da corrida de fundo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Segundo (Monge da Silva, 1985), <\/span><span class=\"s2\">\u201c<\/span><span class=\"s3\">os jogos desportivos colectivos exigem esfor\u00e7os intermitentes em que o atleta desenvolve grandes tens\u00f5es musculares mas n\u00e3o \u00e9 halterofilista, precisa de resist\u00eancia mas n\u00e3o \u00e9 maratonista e tem de ser r\u00e1pido mas n\u00e3o \u00e9 velocista<\/span><span class=\"s2\">\u201d<\/span><span class=\"s1\">. Esta frase continua actual.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Ainda hoje, muitas propostas de treino caem no mesmo erro. Retiram o jogador do jogo para desenvolver capacidades que, depois, se espera que regressem ao jogo por transfer\u00eancia quase autom\u00e1tica. Corre-se para ganhar resist\u00eancia. Levanta-se peso para ganhar for\u00e7a. Fazem-se sprints para ganhar velocidade. Mas o Futebol n\u00e3o pede \u201cfor\u00e7a\u201d em abstracto, nem \u201cresist\u00eancia\u201d em abstracto, nem \u201cvelocidade\u201d em abstracto.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">O Futebol pede ac\u00e7\u00f5es situadas. Pede tens\u00e3o, dura\u00e7\u00e3o e velocidade em contexto. Pede contrac\u00e7\u00f5es musculares subordinadas a inten\u00e7\u00f5es, decis\u00f5es, rela\u00e7\u00f5es, espa\u00e7os, advers\u00e1rios, companheiros, bola e baliza. \u00c9 por isso que este artigo est\u00e1 t\u00e3o pr\u00f3ximo do terreno conceptual que mais tarde ser\u00e1 aprofundado por V\u00edtor Frade.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Conv\u00e9m sermos rigorosos: n\u00e3o se deve afirmar, sem prova documental directa, que o artigo de Monge da Silva foi um dos alicerces da Periodiza\u00e7\u00e3o T\u00e1ctica. Essa afirma\u00e7\u00e3o seria excessiva e metodologicamente fr\u00e1gil. O que se pode afirmar, com maior seguran\u00e7a, \u00e9 que o seu pensamento pertence ao mesmo clima intelectual que ajudou a tornar poss\u00edvel a ruptura metodol\u00f3gica protagonizada por V\u00edtor Frade. Monge da Silva surge como uma refer\u00eancia pr\u00f3xima, respeitada e reconhecida pelo pr\u00f3prio Frade, n\u00e3o apenas no plano pessoal, mas tamb\u00e9m pela import\u00e2ncia que teve na sistematiza\u00e7\u00e3o do Treino Desportivo em Portugal.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">A sua cr\u00edtica \u00e0 separa\u00e7\u00e3o artificial dos factores do rendimento, a recusa de uma prepara\u00e7\u00e3o f\u00edsica desligada do jogo e a defesa de um treino mais enraizado nas situa\u00e7\u00f5es reais aproximam-no das preocupa\u00e7\u00f5es que viriam a ser radicalizadas pela Periodiza\u00e7\u00e3o T\u00e1ctica. Ainda assim, h\u00e1 uma diferen\u00e7a decisiva: Monge da Silva ajuda a abrir caminho \u00e0 cr\u00edtica; Frade transforma essa sensibilidade num novo paradigma, fazendo da forma de jogar, da especificidade, da intencionalidade colectiva e da operacionaliza\u00e7\u00e3o do Modelo de Jogo o n\u00facleo organizador de todo o processo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Sintetizando, Monge da Silva \u00e9 ent\u00e3o um autor nuclear na evolu\u00e7\u00e3o do treino desportivo. Primeiro, porque rompe com a divis\u00e3o anal\u00edtica do treino. Depois, porque defende uma leitura globalizante da prepara\u00e7\u00e3o. Finalmente, porque coloca a contrac\u00e7\u00e3o muscular e a din\u00e2mica da carga numa l\u00f3gica espec\u00edfica, e n\u00e3o abstracta.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">E V\u00edtor Frade desenvolveu a Periodiza\u00e7\u00e3o T\u00e1ctica a partir de uma ideia ainda mais radical: no Futebol, o treino deve ser comandado pelo jogar que se pretende construir. A dimens\u00e3o f\u00edsica n\u00e3o desaparece, mas deixa de existir isolada. Passa a estar subordinada \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o de jogo, aos princ\u00edpios, aos subprinc\u00edpios, aos comportamentos colectivos, \u00e0s ac\u00e7\u00f5es individuais e \u00e0s regularidades que a equipa pretende estabilizar.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Portanto, neste sentido, a proximidade entre Monge da Silva e Frade \u00e9 evidente.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Em (Monge da Silva, 1985), a cr\u00edtica incide sobre a impossibilidade de separar for\u00e7a, velocidade e resist\u00eancia como qualidades aut\u00f3nomas. Em (V\u00edtor Frade, 1985), a cr\u00edtica metodol\u00f3gica aponta para a necessidade de pensar o Futebol a partir da sua especificidade e n\u00e3o a partir de modelos importados de outras modalidades ou de outras l\u00f3gicas de treino.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Monge da Silva fornece uma gram\u00e1tica. Frade reorganiza essa gram\u00e1tica em fun\u00e7\u00e3o do jogar.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">\u00c9 tamb\u00e9m aqui que aparecem os conceitos que se tornar\u00e3o muito importantes na operacionaliza\u00e7\u00e3o da Periodiza\u00e7\u00e3o T\u00e1ctica: tens\u00e3o, dura\u00e7\u00e3o e velocidade da contrac\u00e7\u00e3o muscular. No morfociclo, estes conceitos deixam de ser apenas categorias fisiol\u00f3gicas ou mec\u00e2nicas. Passam a ser formas de regular a altern\u00e2ncia horizontal em especificidade.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Ou seja, n\u00e3o se trata de treinar \u201cfor\u00e7a\u201d num dia, \u201cresist\u00eancia\u201d noutro e \u201cvelocidade\u201d noutro, como se fossem qualidades independentes. Trata-se de manipular, ao longo da semana, diferentes domin\u00e2ncias da contrac\u00e7\u00e3o muscular, sempre dentro do objectivo dominante da especificidade do jogar.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Num dia, o regime pode estar mais associada \u00e0 tens\u00e3o espec\u00edfica. Noutro, \u00e0 dura\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Noutro, \u00e0 velocidade espec\u00edfica. Mas sublinhamos, tudo deve emergir de exerc\u00edcios que pertencem ao jogo da equipa. A contrac\u00e7\u00e3o muscular n\u00e3o \u00e9 separada da decis\u00e3o. A carga \/ est\u00edmulo n\u00e3o \u00e9 separada do comportamento. O esfor\u00e7o n\u00e3o \u00e9 separado da inten\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">\u00c9 aqui que a influ\u00eancia conceptual de Monge da Silva ganha for\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Porque, ao substituir a linguagem cl\u00e1ssica das qualidades f\u00edsicas por tens\u00e3o, dura\u00e7\u00e3o e velocidade da contrac\u00e7\u00e3o muscular, abre-se a possibilidade de pensar o esfor\u00e7o de forma mais espec\u00edfica, mais cont\u00ednua e mais ajustada ao Futebol.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">A diferen\u00e7a est\u00e1 no centro de gravidade. Em Monge da Silva, o ponto de partida ainda \u00e9 a contrac\u00e7\u00e3o muscular e a din\u00e2mica da carga. Em V\u00edtor Frade, o ponto de partida passa a ser o jogar. Mas a cr\u00edtica de fundo \u00e9 comum: o Futebol n\u00e3o pode ser compreendido pela soma das suas partes.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">E \u00e9 isto que \u00e9 fundamental. Monge da Silva n\u00e3o est\u00e1 apenas a discutir fisiologia. Est\u00e1 a discutir a rela\u00e7\u00e3o entre modelo de jogo e modelo de prepara\u00e7\u00e3o. Segundo o autor, \u00e9 necess\u00e1rio caracterizar o tipo de esfor\u00e7o que o jogador desenvolve em competi\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 a partir desse modelo que se deve enquadrar o processo de treino.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Isto antecipa uma das grandes ideias do treino contempor\u00e2neo: o treino deve nascer da competi\u00e7\u00e3o que se quer jogar. N\u00e3o de uma competi\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica, mas do jogo concreto que a equipa pretende construir. No Futebol, isto obriga a uma mudan\u00e7a profunda.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Um exerc\u00edcio n\u00e3o \u00e9 bom porque \u201ctrabalha for\u00e7a\u201d. \u00c9 bom se provoca o tipo de tens\u00e3o que o jogador precisa de manifestar no jogo que a equipa quer jogar.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Um exerc\u00edcio n\u00e3o \u00e9 bom porque \u201ctrabalha resist\u00eancia\u201d. \u00c9 bom se faz emergir a dura\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de ac\u00e7\u00f5es, decis\u00f5es e interac\u00e7\u00f5es que a competi\u00e7\u00e3o solicita.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Um exerc\u00edcio n\u00e3o \u00e9 bom porque \u201ctrabalha velocidade\u201d. \u00c9 bom se a velocidade que promove tem sentido no jogo: acelerar para pressionar, travar para ajustar, desmarcar para receber, fechar por dentro, temporizar, saltar \u00e0 press\u00e3o, atacar a profundidade, reagir \u00e0 perda, sair da press\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Por isso, o artigo de Monge da Silva continua a ter impacto pr\u00e1tico.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Ele obriga o treinador a olhar para o exerc\u00edcio como uma unidade complexa. O espa\u00e7o, o tempo, o n\u00famero de jogadores, a dimens\u00e3o do campo, as regras, as balizas, as pausas, a densidade, a oposi\u00e7\u00e3o, a direc\u00e7\u00e3o, a bola, a fadiga, a concentra\u00e7\u00e3o e a inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o detalhes. S\u00e3o condi\u00e7\u00f5es que alteram a contrac\u00e7\u00e3o muscular, a tomada de decis\u00e3o e a adapta\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">O pr\u00f3prio autor identifica factores da carga como massa muscular solicitada, condi\u00e7\u00f5es objectivas e concretas de realiza\u00e7\u00e3o do movimento, intensidade, volume e complexidade. A complexidade, em particular, \u00e9 entendida como dimens\u00e3o neurol\u00f3gica da carga, relacionada com o grau de dificuldade do movimento e com a solicita\u00e7\u00e3o da estrutura perceptivo-cin\u00e9tica.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Este ponto aproxima ainda mais Monge da Silva do Futebol actual. Porque o Futebol n\u00e3o \u00e9 apenas correr. \u00c9 correr percebendo. N\u00e3o \u00e9 apenas contrair. \u00c9 contrair decidindo. N\u00e3o \u00e9 apenas repetir. \u00c9 repetir com sentido. Talvez esteja aqui a sua maior actualidade.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">O texto de 1985 combate uma consequ\u00eancia nefasta do atomismo: a ilus\u00e3o de que o conhecimento nasce da divis\u00e3o infinita, de um atomismo nefasto, como se compreender melhor significasse apenas partir a realidade em unidades cada vez mais pequenas, isoladas e aut\u00f3nomas. \u00c9 evidente que analisar \u00e9 necess\u00e1rio. Mas, no Futebol, analisar sem regressar ao todo \u00e9 perder o essencial. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Passados mais de 40 anos, o atomismo crescente nos clubes e nas equipas t\u00e9cnicas em \u201cespecialistas\u201d de tudo \u2014 fisiologia, an\u00e1lise de jogo, \u201ct\u00e9cnica e t\u00e1ctica individual\u201d, \u201cperformance\u201d, nutri\u00e7\u00e3o, psicologia, entre tantas outras \u00e1reas \u2014 recupera o mesmo problema central: a tend\u00eancia para dividir o rendimento em partes e, depois, acreditar que a soma dessas partes devolve o jogador inteiro. N\u00e3o devolve. O jogador n\u00e3o joga com a for\u00e7a, a velocidade, a resist\u00eancia, a t\u00e9cnica, a t\u00e1ctica e a psicologia em gavetas separadas. Joga inteiro. Decide inteiro. Erra inteiro. Adapta-se inteiro.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Nesse sentido, David Monge da Silva n\u00e3o escreveu apenas sobre qualidades f\u00edsicas. Escreveu contra a ingenuidade das classifica\u00e7\u00f5es. Escreveu contra o treino que confunde nomes com conhecimento. E abriu caminho para uma compreens\u00e3o mais espec\u00edfica, mais global e mais futebol\u00edstica da prepara\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Quarenta anos depois, a sua pergunta continua viva: que qualidades f\u00edsicas?<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Talvez a resposta mais futebol\u00edstica seja: nenhuma, se forem entendidas isoladamente.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">O que existe \u00e9 o jogar. E, dentro dele, tens\u00f5es, dura\u00e7\u00f5es, velocidades, decis\u00f5es, inten\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es que s\u00f3 ganham sentido quando pertencem a uma ideia de jogo.<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-16699 size-medium\" src=\"http:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/teoria-do-treino-que-qualidades-fisicas-que-classificacao-monge-da-silva-1985-364x500.jpg\" alt=\"\" width=\"364\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/teoria-do-treino-que-qualidades-fisicas-que-classificacao-monge-da-silva-1985-364x500.jpg 364w, https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/teoria-do-treino-que-qualidades-fisicas-que-classificacao-monge-da-silva-1985-749x1030.jpg 749w, https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/teoria-do-treino-que-qualidades-fisicas-que-classificacao-monge-da-silva-1985-600x825.jpg 600w, https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/teoria-do-treino-que-qualidades-fisicas-que-classificacao-monge-da-silva-1985-1117x1536.jpg 1117w, https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/teoria-do-treino-que-qualidades-fisicas-que-classificacao-monge-da-silva-1985-1489x2048.jpg 1489w, https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/teoria-do-treino-que-qualidades-fisicas-que-classificacao-monge-da-silva-1985-1091x1500.jpg 1091w, https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/teoria-do-treino-que-qualidades-fisicas-que-classificacao-monge-da-silva-1985-513x705.jpg 513w, https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/teoria-do-treino-que-qualidades-fisicas-que-classificacao-monge-da-silva-1985.jpg 1700w\" sizes=\"auto, (max-width: 364px) 100vw, 364px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto \u201cTeoria do treino: Que qualidades f\u00edsicas? Que classifica\u00e7\u00e3o?\u201d, publicado por David Monge da Silva em 1985 na revista Treino Desportivo, \u00e9 um daqueles documentos que n\u00e3o deve ser lido apenas pelo que diz, mas sobretudo pelo lugar que ocupa na hist\u00f3ria da teoria do treino em Portugal. 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