{"id":16689,"date":"2026-06-05T00:31:54","date_gmt":"2026-06-04T23:31:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/?p=16689"},"modified":"2026-06-05T00:34:15","modified_gmt":"2026-06-04T23:34:15","slug":"edgar-morin-1921-2026-e-o-seu-pensamento-complexo-no-futebol-portanto-a-periodizacao-tactica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/2026\/06\/05\/edgar-morin-1921-2026-e-o-seu-pensamento-complexo-no-futebol-portanto-a-periodizacao-tactica\/","title":{"rendered":"Edgar Morin (1921-2026). E o seu pensamento\u2026 complexo\u2026 no Futebol. Portanto, a Periodiza\u00e7\u00e3o T\u00e1ctica."},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: center;\"><strong><em><span class=\"s2\">\u201cN\u00e3o se deve subordinar ou reduzir um factor aos outros: o factor central encontra-se na organiza\u00e7\u00e3o destes factores, ao tornarem-se interdependentes. O problema de fundo \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o din\u00e2mica constitu\u00edda, n\u00e3o por elementos mas por interac\u00e7\u00f5es, O n\u00facleo de explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 na organiza\u00e7\u00e3o das interac\u00e7\u00f5es que constituem o fen\u00f3meno total homo.\u201d<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s1\">Edgar Morin, citado por (V\u00edtor Frade, 2002)<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">H\u00e1 pensadores cuja obra parece poder ser separada da vida. Como se as ideias tivessem nascido num gabinete, protegidas do mundo, da hist\u00f3ria, da dor, da pol\u00edtica, da amizade, da perda, do erro e da incerteza. Edgar Morin n\u00e3o pertence a essa fam\u00edlia. Nele, vida e pensamento caminham juntos. Mais do que isso: parecem explicar-se mutuamente. A sua biografia n\u00e3o \u00e9 apenas o contexto exterior da sua obra; \u00e9, em grande parte, a mat\u00e9ria viva a partir da qual a sua obra se foi formando.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Morin atravessou o s\u00e9culo XX como quem atravessa uma tempestade sem deixar de a observar. Nasceu em 1921, perdeu cedo a m\u00e3e, conheceu a guerra, a ocupa\u00e7\u00e3o nazi, a Resist\u00eancia francesa, o comunismo, a ruptura com o dogmatismo, os totalitarismos, as esperan\u00e7as pol\u00edticas e as suas desilus\u00f5es. Viveu suficientemente perto dos acontecimentos para n\u00e3o os transformar em abstrac\u00e7\u00f5es, mas suficientemente desperto para n\u00e3o se deixar capturar por explica\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis. Talvez por isso a sua obra nunca tenha sido apenas sociologia, filosofia, epistemologia, antropologia ou pol\u00edtica. Foi sempre uma tentativa de compreender o humano na sua inteireza.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">O artigo do P\u00fablico que assinala a sua morte capta bem essa dimens\u00e3o ao apresent\u00e1-lo como \u201c<\/span><span class=\"s3\">um mestre da resist\u00eancia<\/span><span class=\"s1\">\u201d. Resist\u00eancia, aqui, n\u00e3o \u00e9 apenas a resist\u00eancia hist\u00f3rica ao nazismo. \u00c9 tamb\u00e9m uma atitude perante o conhecimento. Morin resistiu \u00e0 simplifica\u00e7\u00e3o, \u00e0 arrog\u00e2ncia dos sistemas fechados, \u00e0s verdades prontas, \u00e0s ideologias que procuram encerrar o real numa f\u00f3rmula definitiva. Resistiu \u00e0 separa\u00e7\u00e3o entre vida e pensamento, entre sujeito e objecto, entre ci\u00eancia e humanidades, entre raz\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o, entre indiv\u00edduo e sociedade. Toda a sua obra parece dizer-nos que o maior erro do pensamento moderno foi acreditar que compreender \u00e9 separar.<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: center;\"><strong><em><span class=\"s2\">\u201co nosso sistema de ensino, obriga-nos a isolar os objectos do seu envolvimento, a separar as disciplinas, a desmontar os problemas, mais do que a unir e integrar. Ordena-nos a reduzir o complexo ao simples, ou seja, a separar o que est\u00e1 unido, a descompor e n\u00e3o a recompor, a eliminar tudo aquilo que contenha desordens ou contradi\u00e7\u00f5es ao nosso entendimento.\u201d<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s1\">Edgar Morin citado por (Oscar Moreno, 2009)<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">E \u00e9 precisamente aqui que Morin come\u00e7a a tocar profundamente o Futebol, sobretudo quando este deixa de ser pensado como uma sucess\u00e3o de gestos, capacidades ou momentos isolados e passa a ser compreendido como um fen\u00f3meno humano, colectivo, relacional e imprevis\u00edvel. O Futebol tamb\u00e9m sofreu, durante muito tempo, dessa tenta\u00e7\u00e3o moderna de separar para compreender: separou o f\u00edsico do t\u00e9cnico, o t\u00e9cnico do t\u00e1ctico, o t\u00e1ctico do psicol\u00f3gico, a prepara\u00e7\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o, o jogador da equipa, o exerc\u00edcio do jogo, a decis\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o, a emo\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o e o treino da vida concreta do jogar. Como se a soma das partes pudesse, por si s\u00f3, devolver o todo. Como se, depois de desmontado o jogo nos seus supostos \u201cingredientes\u201d, bastasse voltar a junt\u00e1-los para que o jogar reaparecesse com sentido.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">\u00c9 nesse ponto que a sua vida d\u00e1 for\u00e7a \u00e0 sua obra. Morin n\u00e3o defendeu a complexidade por moda intelectual. Defendeu-a porque a viveu. A sua exist\u00eancia mostrou-lhe que o real raramente obedece a linhas rectas. A Hist\u00f3ria n\u00e3o avan\u00e7a de forma limpa e linear, a pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 pura, a raz\u00e3o n\u00e3o \u00e9 neutra, a ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 exterior ao humano, o sujeito que conhece nunca est\u00e1 completamente fora daquilo que procura conhecer. A vida ensinou-lhe aquilo que depois a obra procurou pensar: tudo o que existe est\u00e1 tecido em conjunto.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Esta express\u00e3o \u2014 tudo o que existe est\u00e1 tecido em conjunto \u2014 poderia servir tamb\u00e9m como porta de entrada para uma compreens\u00e3o mais profunda do jogo. Porque no Futebol nada acontece verdadeiramente isolado. Uma recep\u00e7\u00e3o orientada n\u00e3o \u00e9 apenas t\u00e9cnica; \u00e9 t\u00e9cnica porque \u00e9 t\u00e1ctica, porque nasce de uma leitura, de uma inten\u00e7\u00e3o, de uma rela\u00e7\u00e3o com o companheiro em posse anterior, com o advers\u00e1rio que pressiona, com o companheiro que se move, com o espa\u00e7o que se abre, com o tempo que se estreita e com a emo\u00e7\u00e3o que atravessa o jogador naquele instante. Um passe para tr\u00e1s pode ser conserva\u00e7\u00e3o, convite, protec\u00e7\u00e3o, manipula\u00e7\u00e3o, prepara\u00e7\u00e3o da progress\u00e3o ou simples fuga ao problema. Uma corrida pode ser ruptura, compensa\u00e7\u00e3o, cobertura, fixa\u00e7\u00e3o, atrac\u00e7\u00e3o ou equil\u00edbrio. Uma perda da bola nunca \u00e9 apenas uma perda: revela a qualidade da posse anterior, a estrutura que sustentava essa posse, a proximidade dos apoios, a rela\u00e7\u00e3o entre jogadores, a prepara\u00e7\u00e3o da Transi\u00e7\u00e3o Defensiva e a possibilidade de recuperar imediatamente ou ter de recuar.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Por isso, quando Morin define a complexidade como complexus, isto \u00e9, \u201c<\/span><span class=\"s3\">aquilo que \u00e9 tecido conjuntamente<\/span><span class=\"s1\">\u201d, n\u00e3o est\u00e1 apenas a oferecer uma defini\u00e7\u00e3o conceptual. Est\u00e1 a propor uma forma de estar diante do mundo. Complexidade n\u00e3o significa complica\u00e7\u00e3o e confus\u00e3o. Significa reconhecer que os fen\u00f3menos importantes n\u00e3o podem ser reduzidos a uma s\u00f3 causa, a uma s\u00f3 dimens\u00e3o ou a uma s\u00f3 disciplina. O humano \u00e9 biol\u00f3gico, psicol\u00f3gico, social, hist\u00f3rico, cultural, afectivo e espiritual. Separar estas dimens\u00f5es pode ajudar a analisar, mas \u00e9 muito prov\u00e1vel que tamb\u00e9m mutile a compreens\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">No Futebol, porque este n\u00e3o \u00e9 uma ilha da restante realidade, separar tamb\u00e9m pode ajudar a observar, mas pode igualmente mutilar o jogo. Podemos mapear e distinguir Organiza\u00e7\u00e3o Ofensiva, Transi\u00e7\u00e3o Defensiva, Organiza\u00e7\u00e3o Defensiva e Transi\u00e7\u00e3o Ofensiva; podemos distinguir Constru\u00e7\u00e3o, Cria\u00e7\u00e3o, Finaliza\u00e7\u00e3o, Defender a constru\u00e7\u00e3o, Defender a cria\u00e7\u00e3o, Defender a finaliza\u00e7\u00e3o, Reac\u00e7\u00e3o \u00e0 perda da bola, Recupera\u00e7\u00e3o defensiva, Defesa do contra-ataque, Reac\u00e7\u00e3o ao ganho da bola, Contra-ataque e Valoriza\u00e7\u00e3o da posse de bola. Mas mapear e distinguir n\u00e3o \u00e9 separar. Cada momento transporta vest\u00edgios do anterior e prepara possibilidades para o seguinte. A Organiza\u00e7\u00e3o Ofensiva cont\u00e9m j\u00e1 a Transi\u00e7\u00e3o Defensiva que ir\u00e1 emergir na perda da bola. Sim, porque por mais que o procuremos evitar, a bola ser\u00e1 mesmo perdida. A Organiza\u00e7\u00e3o Defensiva cont\u00e9m j\u00e1 a Transi\u00e7\u00e3o Ofensiva que ir\u00e1 surgir quando a bola for recuperada. A Constru\u00e7\u00e3o e a Cria\u00e7\u00e3o servem para preparar a Finaliza\u00e7\u00e3o. Defender a constru\u00e7\u00e3o pode preparar o Contra-ataque. A forma como uma equipa ocupa o campo com bola denuncia como se proteger\u00e1 sem ela. A forma como recupera a bola denuncia como estava organizada antes de a ganhar.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">A grandeza de Morin est\u00e1 em n\u00e3o ter recusado a clareza. Pelo contr\u00e1rio, procurou-a. Mas percebeu que h\u00e1 uma clareza falsa, obtida pela amputa\u00e7\u00e3o do real, e uma clareza mais exigente, capaz de ligar sem confundir e distinguir sem separar. O pensamento complexo nasce precisamente dessa tens\u00e3o. N\u00e3o elimina a an\u00e1lise, mas impede que a an\u00e1lise destrua o conjunto. N\u00e3o rejeita a raz\u00e3o, mas lembra que a raz\u00e3o se torna pobre quando esquece a incerteza, a contradi\u00e7\u00e3o, o contexto e a vida. Na perspectiva oposta, estes foram os principais malef\u00edcios que o determinismo, o pensamento cartesiano e anal\u00edtico nos trouxeram.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Esta distin\u00e7\u00e3o entre uma clareza falsa e uma clareza exigente \u00e9 decisiva para o treino. A clareza falsa aparece quando o treinador acredita que simplificou o processo apenas porque o dividiu em partes: f\u00edsico, t\u00e9cnico, \u201ct\u00e1ctico\u201d, mental; primeiro correr, depois passar, depois decidir; primeiro preparar o corpo, depois preparar o jogo. Parece claro, porque cada coisa fica no seu lugar. Mas essa ordem \u00e9 muitas vezes uma ordem morta, porque o jogo nunca se manifesta assim. O jogo s\u00e3o conjuntos de comportamentos que cont\u00e9m, de forma insepar\u00e1vel, estes ingredientes. A clareza exigente, pelo contr\u00e1rio, obriga-nos a perceber que o treino deve ser organizado a partir das rela\u00e7\u00f5es que d\u00e3o sentido ao jogar. N\u00e3o se trata de negar a exist\u00eancia do f\u00edsico, do t\u00e9cnico, do mental ou do emocional. Trata-se de perceber que, no jogo, eles nunca aparecem puros. Aparecem sempre em intera\u00e7\u00e3o, ligados, contaminados, co-implicados, arrastados pela inten\u00e7\u00e3o t\u00e1ctica e pela din\u00e2mica colectiva.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">\u00c9 aqui que a liga\u00e7\u00e3o entre Edgar Morin e V\u00edtor Frade se torna particularmente int\u00edma. Morin oferece uma matriz de pensamento: complexidade, interdepend\u00eancia, incerteza, organiza\u00e7\u00e3o, inseparabilidade, rela\u00e7\u00e3o, contexto, circularidade e responsabilidade perante o conhecimento. Frade transporta essa matriz para o cora\u00e7\u00e3o do Futebol, n\u00e3o como aplica\u00e7\u00e3o exterior de uma filosofia ao treino, mas como constru\u00e7\u00e3o de uma metodologia nascida da natureza pr\u00f3pria do jogo. A Periodiza\u00e7\u00e3o T\u00e1ctica n\u00e3o \u00e9 apenas uma forma de organizar a semana. \u00c9 uma forma de pensar o Futebol contra a mutila\u00e7\u00e3o do Futebol. \u00c9 uma ruptura com o paradigma que absolutiza factores e acredita que o rendimento superior nasce da soma optimizada de partes isoladas. Em Frade, como em Morin, compreender n\u00e3o \u00e9 fragmentar at\u00e9 perder o sentido; compreender \u00e9 articular, hierarquizar, contextualizar e fazer emergir uma organiza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Nesse sentido, a sua obra \u00e9 tamb\u00e9m profundamente \u00e9tica. Pensar bem n\u00e3o \u00e9 apenas organizar ideias; \u00e9 assumir responsabilidade perante o mundo. A fragmenta\u00e7\u00e3o do conhecimento produz cegueiras. A especializa\u00e7\u00e3o, quando se fecha sobre si mesma, sabe cada vez mais sobre partes cada vez mais pequenas, mas pode perder a no\u00e7\u00e3o do todo em que essas partes ganham sentido. Regressando ao Futebol, olhemos como exemplo para os cada vez maiores e mais poderosos departamentos de Fisiologia, An\u00e1lise de Jogo, Treino individual, etc.. Morin percebeu que muitos dos problemas contempor\u00e2neos \u2014 pol\u00edticos, ecol\u00f3gicos, educativos, humanos \u2014 n\u00e3o resultam apenas de falta de conhecimento, mas de uma m\u00e1 organiza\u00e7\u00e3o do conhecimento.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Tamb\u00e9m muitos problemas do treino n\u00e3o resultam apenas de falta de informa\u00e7\u00e3o, mas de uma m\u00e1 organiza\u00e7\u00e3o do conhecimento. Pode saber-se muito sobre fisiologia, biomec\u00e2nica, t\u00e9cnica, psicologia, pedagogia, an\u00e1lise de jogo ou lideran\u00e7a e, ainda assim, organizar mal o processo se esses saberes n\u00e3o forem articulados em fun\u00e7\u00e3o do objectivo fulcral: jogar. O problema n\u00e3o \u00e9 conhecer as partes. O problema \u00e9 deix\u00e1-las governar o processo como se fossem aut\u00f3nomas. O problema n\u00e3o \u00e9 falar de resist\u00eancia, velocidade, for\u00e7a, t\u00e9cnica, decis\u00e3o ou emo\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 trat\u00e1-las como entidades independentes, quando no jogo se manifestam sempre numa rela\u00e7\u00e3o concreta com uma inten\u00e7\u00e3o, uma situa\u00e7\u00e3o, uma forma de jogar, uma cultura colectiva e um advers\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">\u00c9 por isso que a Periodiza\u00e7\u00e3o T\u00e1ctica, em V\u00edtor Frade, coloca a t\u00e1ctica como supradimens\u00e3o. N\u00e3o porque a t\u00e1ctica elimine o f\u00edsico, o t\u00e9cnico, o psicol\u00f3gico ou o estrat\u00e9gico, mas porque \u00e9 ela que lhes d\u00e1 sentido no interior do jogar. A t\u00e1ctica n\u00e3o \u00e9 aqui uma disposi\u00e7\u00e3o geom\u00e9trica, nem um conjunto de movimentos prescritos, nem uma ocupa\u00e7\u00e3o abstracta do espa\u00e7o. \u00c9 a organiza\u00e7\u00e3o intencional do jogar. \u00c9 a forma como uma equipa quer resolver os problemas do jogo. \u00c9 o modo como se relaciona com a bola, com o espa\u00e7o, com o tempo, com o advers\u00e1rio, com os companheiros, com o resultado, com a incerteza e consigo pr\u00f3pria. O t\u00e1ctico, neste entendimento, n\u00e3o \u00e9 uma parte ao lado das outras; \u00e9 o princ\u00edpio organizador que faz com que as restantes dimens\u00f5es se expressem com sentido.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">\u00c9 por isso que a inseparabilidade \u00e9 t\u00e3o importante no seu pensamento. N\u00e3o se trata de dizer que tudo \u00e9 igual ou que tudo se mistura. Trata-se de perceber que separar \u00e9 sempre uma opera\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria. O indiv\u00edduo n\u00e3o existe fora da sociedade que o forma, mas a sociedade tamb\u00e9m n\u00e3o existe fora dos indiv\u00edduos que a produzem. O conhecimento n\u00e3o existe fora do sujeito que conhece, mas o sujeito tamb\u00e9m se transforma no pr\u00f3prio acto de conhecer. A ac\u00e7\u00e3o nasce de uma inten\u00e7\u00e3o, mas, uma vez lan\u00e7ada no mundo, entra numa rede de interac\u00e7\u00f5es que a pode desviar, ampliar ou contrariar.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">No Futebol, esta ideia \u00e9 de uma fertilidade enorme. O jogador n\u00e3o existe fora da equipa que o forma, mas a equipa tamb\u00e9m n\u00e3o existe fora das ac\u00e7\u00f5es, decis\u00f5es, emo\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es dos jogadores que a produzem. Da\u00ed a interac\u00e7\u00e3o e interdepend\u00eancia permanente entre qualidade colectiva e qualidade individual. O Modelo de Jogo n\u00e3o existe fora dos jogadores que o interpretam, mas os jogadores tamb\u00e9m se transformam ao viverem esse Modelo de Jogo. O exerc\u00edcio n\u00e3o existe fora da inten\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica que o organiza, mas essa inten\u00e7\u00e3o pode ser desviada, ampliada ou contrariada pelas interac\u00e7\u00f5es que emergem no pr\u00f3prio exerc\u00edcio. O treinador pode desejar uma determinada propens\u00e3o, mas, quando a tarefa come\u00e7a, ela entra na realidade viva do treino: jogadores diferentes, n\u00edveis de compreens\u00e3o diferentes, estados emocionais diferentes, rela\u00e7\u00f5es diferentes, cansa\u00e7os diferentes, resist\u00eancias diferentes, interpreta\u00e7\u00f5es diferentes e possibilidades diferentes.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">\u00c9 aqui que se percebe melhor a profundidade da no\u00e7\u00e3o de Especificidade. Na Periodiza\u00e7\u00e3o T\u00e1ctica, Especificidade n\u00e3o significa simplesmente \u201c<\/span><span class=\"s3\">treinar com bola<\/span><span class=\"s1\">\u201d ou \u201c<\/span><span class=\"s3\">fazer exerc\u00edcios parecidos com o jogo<\/span><span class=\"s1\">\u201d. Significa que tudo o que se faz deve estar relacionado com o jogar que se pretende fazer emergir. A Especificidade n\u00e3o \u00e9 uma apar\u00eancia exterior da tarefa; \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o interna de sentido. Um exerc\u00edcio pode ter bola e estar longe da Especificidade, se n\u00e3o respeitar a l\u00f3gica do jogar pretendido. E uma tarefa aparentemente parcelar pode ser espec\u00edfica, se estiver hierarquizada e articulada com a Intencionalidade Colectiva que orienta o processo. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se se trabalha o todo ou uma parte; a quest\u00e3o \u00e9 se essa parte mant\u00e9m o v\u00ednculo com o todo. A tal fractalidade. Portanto, a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 reduzir ou n\u00e3o reduzir; a quest\u00e3o \u00e9 reduzir sem empobrecer.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">A vida de Morin confirma esta ideia. O jovem resistente, o intelectual pol\u00edtico, o cr\u00edtico do totalitarismo, o investigador transdisciplinar, o pensador da educa\u00e7\u00e3o, o homem atento \u00e0 crise ecol\u00f3gica e civilizacional n\u00e3o s\u00e3o personagens separadas. S\u00e3o express\u00f5es diferentes de uma mesma procura: compreender melhor para viver melhor; viver mais lucidamente para compreender melhor. Tamb\u00e9m V\u00edtor Frade, no campo &#8211; Futebol, representa essa mesma recusa de aceitar a realidade como fragmento. A sua obra nasce de uma inquieta\u00e7\u00e3o epistemol\u00f3gica e metodol\u00f3gica: que exig\u00eancias coloca o Futebol, enquanto fen\u00f3meno antropossocial-total, ao treino? Que tipo de pensamento precisamos para compreender um jogo que \u00e9, ao mesmo tempo, corpo, decis\u00e3o, emo\u00e7\u00e3o, cultura, estrat\u00e9gia, intelig\u00eancia, rela\u00e7\u00e3o, hist\u00f3ria, acaso, ordem, desordem e organiza\u00e7\u00e3o? Que metodologia pode respeitar essa natureza sem a reduzir a um somat\u00f3rio de capacidades? A Periodiza\u00e7\u00e3o T\u00e1ctica surge como resposta a essa inquieta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o como receita, mas como exig\u00eancia. N\u00e3o como moda, mas como forma de pensar. N\u00e3o como conjunto de exerc\u00edcios, mas como uma l\u00f3gica metodol\u00f3gica de operacionaliza\u00e7\u00e3o de uma ideia de jogo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Talvez por isso Edgar Morin nos deixe uma li\u00e7\u00e3o t\u00e3o simples e t\u00e3o dif\u00edcil: n\u00e3o podemos pensar a vida de fora da vida. N\u00e3o podemos compreender o humano amputando-o das suas rela\u00e7\u00f5es. N\u00e3o podemos enfrentar a incerteza fingindo que ela n\u00e3o existe. E n\u00e3o podemos construir conhecimento verdadeiro se continuarmos a separar aquilo que, na realidade, nasce ligado. A incompreens\u00e3o (ou a recusa) deste discurso \u00e9, em grande medida, um dos alicerces dos actuais problemas civilizacionais \u2014 muitos deles impens\u00e1veis h\u00e1 uma, duas d\u00e9cadas. Mas, como o pr\u00f3prio Morin insiste, o desenvolvimento e a progress\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o lineares: avan\u00e7am, recuam, desviam-se, reconfiguram-se. \u00c9 precisamente por isso que a lucidez exige liga\u00e7\u00e3o, contexto e responsabilidade \u2014 para n\u00e3o confundirmos evolu\u00e7\u00e3o com destino, nem complexidade com confus\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Transportada para o Futebol, esta li\u00e7\u00e3o obriga-nos a dizer: n\u00e3o podemos pensar o jogo de fora do jogo. N\u00e3o podemos compreender o jogador amputando-o das suas rela\u00e7\u00f5es. N\u00e3o podemos enfrentar a incerteza competitiva fingindo que o treino a pode substituir por certezas mec\u00e2nicas. E n\u00e3o podemos construir uma metodologia verdadeiramente espec\u00edfica se continuarmos a separar aquilo que, no jogar, nasce ligado.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">A sua obra permanece porque n\u00e3o oferece uma receita, mas uma exig\u00eancia. A exig\u00eancia de pensar mais profundamente. De ligar o que foi separado. De aceitar que a verdade n\u00e3o \u00e9 posse, mas procura. De compreender que viver \u00e9 sempre navegar entre certezas fr\u00e1geis e incertezas inevit\u00e1veis. No fundo, Edgar Morin ensinou-nos que pensar a complexidade \u00e9 aprender a habitar melhor a vida.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">E talvez seja tamb\u00e9m essa a grande li\u00e7\u00e3o que V\u00edtor Frade transporta para o treino: treinar n\u00e3o \u00e9 aplicar receitas fora da vida do jogo. Treinar \u00e9 organizar uma realidade viva para que uma determinada forma de jogar possa nascer, crescer, estabilizar-se e transformar-se. \u00c9 criar contextos onde os jogadores percebem, decidem, executam, sentem, comunicam, ajustam e aprendem em fun\u00e7\u00e3o de uma inten\u00e7\u00e3o colectiva. \u00c9 construir h\u00e1bitos sem matar a criatividade. \u00c9 repetir sem mecanizar. \u00c9 estabilizar sem cristalizar. \u00c9 orientar sem aprisionar. \u00c9 dar forma sem retirar liberdade. \u00c9 fazer emergir regularidades num fen\u00f3meno que continuar\u00e1 sempre aberto \u00e0 surpresa.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Um dos maiores m\u00e9ritos da Periodiza\u00e7\u00e3o T\u00e1ctica \u00e9 aproximar-se assim do pensamento complexo porque recusa a ilus\u00e3o de que o jogo pode ser dominado por uma causalidade linear. No Futebol, o mesmo exerc\u00edcio n\u00e3o produz sempre a mesma aprendizagem, o mesmo princ\u00edpio n\u00e3o se manifesta sempre da mesma forma, o mesmo comportamento n\u00e3o tem sempre o mesmo valor, a mesma estrutura pode gerar din\u00e2micas diferentes e a mesma decis\u00e3o pode ser adequada num contexto e inadequada noutro. Isto n\u00e3o significa abandonar a ordem; significa compreender que a ordem do jogo \u00e9 uma ordem viva. Uma ordem que dialoga com a desordem. Uma ordem que precisa da incerteza para continuar jogo. Uma ordem que n\u00e3o se imp\u00f5e de fora para dentro como uma m\u00e1quina, mas se constr\u00f3i de dentro para fora como uma organiza\u00e7\u00e3o din\u00e2mica.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Por isso, o Modelo de Jogo n\u00e3o pode ser entendido como um desenho morto, fechado num papel. \u00c9 uma inten\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, sim, mas uma inten\u00e7\u00e3o que precisa de ganhar corpo na vivencia\u00e7\u00e3o, na repeti\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, na interac\u00e7\u00e3o, na emo\u00e7\u00e3o, na concentra\u00e7\u00e3o t\u00e1ctica, na experi\u00eancia acumulada e na intelig\u00eancia colectiva que se vai formando. O Modelo de Jogo orienta o processo, mas tamb\u00e9m se revela e se transforma no processo. O treinador projecta, operacionaliza, observa, reflecte, ajusta. A equipa interpreta, resiste, assimila, transforma, devolve. O jogar emerge dessa rela\u00e7\u00e3o circular entre inten\u00e7\u00e3o, treino, competi\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Deste modo, Morin e Frade encontram-se de forma profunda. Morin ensina-nos que o conhecimento deve ser capaz de ligar o que foi separado, reconhecer a incerteza, pensar a rela\u00e7\u00e3o entre todo e partes e evitar a cegueira do pensamento parcelar. Frade ensina-nos que, no Futebol, essa exig\u00eancia tem consequ\u00eancias metodol\u00f3gicas concretas: o treino deve partir do jogar, regressar ao jogar e ser permanentemente orientado pelo jogar. O que se treina n\u00e3o deve ser uma colec\u00e7\u00e3o de conte\u00fados, mas uma organiza\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias com sentido. N\u00e3o se trata de acumular exerc\u00edcios; trata-se de construir uma cultura de jogo. N\u00e3o se trata de preparar jogadores genericamente capazes; trata-se de formar jogadores cada vez mais competentes dentro de uma ideia para jogar em concreto, sem que isso os reduza, antes potenciando a sua autonomia, criatividade e intelig\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Assim, a ponte entre Edgar Morin e V\u00edtor Frade n\u00e3o \u00e9 uma aproxima\u00e7\u00e3o decorativa. \u00c9 uma liga\u00e7\u00e3o de fundo entre duas formas de resist\u00eancia ao pensamento simplificador. Morin resiste \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o do humano. Frade resiste \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o do Futebol. Morin mostra que a realidade n\u00e3o cabe nas gavetas disciplinares que invent\u00e1mos para a estudar. Frade mostra que o jogar n\u00e3o cabe nas gavetas metodol\u00f3gicas que durante d\u00e9cadas separaram f\u00edsico, t\u00e9cnico, t\u00e1ctico e psicol\u00f3gico. Morin lembra que o todo est\u00e1 nas partes e as partes est\u00e3o no todo. Frade obriga-nos a perceber que cada tarefa, cada princ\u00edpio, cada sub-princ\u00edpio, cada rela\u00e7\u00e3o, cada escala do jogo deve transportar a marca do jogar que se pretende construir.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">No fundo, ambos nos convocam para uma mesma responsabilidade: pensar melhor para agir melhor. No caso de Morin, agir melhor perante a vida, a educa\u00e7\u00e3o, a pol\u00edtica, a ci\u00eancia, a cultura e o destino humano. No caso de Frade, agir melhor perante o jogo, o treino, a forma\u00e7\u00e3o, a competi\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o de equipas. Um ajuda-nos a compreender a necessidade de uma raz\u00e3o aberta, humilde, relacional e consciente das suas cegueiras. O outro mostra-nos como essa raz\u00e3o, quando levada a s\u00e9rio no Futebol, exige uma metodologia capaz de respeitar a inteireza inquebrant\u00e1vel do jogar.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Talvez seja por isso que pensar Morin a partir do Futebol n\u00e3o diminui Morin, nem pensar Frade a partir de Morin diminui Frade. Pelo contr\u00e1rio. Mostra que o Futebol, quando verdadeiramente compreendido, n\u00e3o \u00e9 um territ\u00f3rio menor do pensamento. \u00c9 um lugar onde se manifestam, de forma intens\u00edssima, muitos dos problemas que Morin perseguiu ao longo da vida: a rela\u00e7\u00e3o entre ordem e desordem, a inseparabilidade entre sujeito e contexto, a articula\u00e7\u00e3o entre raz\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o, a emerg\u00eancia do novo, a impossibilidade de reduzir o vivo ao mec\u00e2nico, a necessidade de organizar conhecimento sem o mutilar.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">E mostra tamb\u00e9m que a Periodiza\u00e7\u00e3o T\u00e1ctica, quando verdadeiramente compreendida, n\u00e3o \u00e9 apenas uma metodologia de treino. \u00c9 uma forma de pensar o Futebol em complexidade. Uma forma de entender que o jogo n\u00e3o \u00e9 a soma das suas partes, que a equipa n\u00e3o \u00e9 a soma dos seus jogadores, que o treino n\u00e3o \u00e9 a soma dos seus exerc\u00edcios, que o rendimento n\u00e3o \u00e9 a soma dos seus factores e que a aprendizagem n\u00e3o \u00e9 a soma das repeti\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma forma de reconhecer que o jogar emerge de rela\u00e7\u00f5es, de interac\u00e7\u00f5es, de inten\u00e7\u00f5es, de h\u00e1bitos, de emo\u00e7\u00f5es, de decis\u00f5es, de contextos e de uma cultura que se constr\u00f3i no tempo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">No fundo, Edgar Morin ensinou-nos que pensar a complexidade \u00e9 aprender a habitar melhor a vida. V\u00edtor Frade ensina-nos que treinar em complexidade \u00e9 aprender a habitar melhor o jogo. E, talvez, quando estas duas exig\u00eancias se encontram, percebemos que o Futebol, mais do que um conjunto de ac\u00e7\u00f5es, \u00e9 uma forma viva de conhecimento: um conhecimento que se pensa, se sente, se incorpora, se partilha, se disputa, se transforma e joga. Acima de tudo\u2026 o Futebol \u00e9 viver.<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: center;\"><strong><em><span class=\"s2\">\u201ca hiperespecializa\u00e7\u00e3o impede de ver o global (que ela fragmenta em parcelas), bem como o essencial (que ela dilui). Ora, os problemas essenciais nunca s\u00e3o parcel\u00e1veis, e os problemas globais s\u00e3o cada vez mais essenciais. Al\u00e9m disso, todos os problemas particulares s\u00f3 podem ser posicionados e pensados correctamente em seus contextos; e o pr\u00f3prio contexto desses problemas deve ser posicionado, cada vez mais, no contexto do planet\u00e1rio. Ao mesmo tempo, o retalhamento das disciplinas torna imposs\u00edvel aprender &#8220;o que \u00e9 tecido junto&#8221;, isto \u00e9, o complexo, segundo o sentido original do termo. Portanto, o desafio da globalidade \u00e9 tamb\u00e9m um desafio da complexidade. Existe complexidade, de fato, quando os componentes que constituem um todo (como o econ\u00f3mico, o pol\u00edtico, o sociol\u00f3gico, o psicol\u00f3gico, o afectivo, o mitol\u00f3gico) s\u00e3o insepar\u00e1veis e existe um tecido interdependente, interactivo e inter-retroactivo entre as partes e o todo, o todo e as partes. Ora, os desenvolvimentos pr\u00f3prios de nosso s\u00e9culo e de nossa era planet\u00e1ria nos confrontam, inevitavelmente e com mais e mais frequ\u00eancia, com os desafios da complexidade\u201d. Edgar Morin conclui que \u201cefectivamente, a intelig\u00eancia que s\u00f3 sabe separar fragmenta o complexo do mundo em peda\u00e7os separados, fracciona os problemas, unidimensionaliza o multidimensional. Atrofia as possibilidades de compreens\u00e3o e de reflex\u00e3o, eliminando assim as oportunidades de um julgamento correctivo ou de uma vis\u00e3o a longo prazo. Sua insufici\u00eancia para tratar nossos problemas mais graves constitui um dos mais graves problemas que enfrentamos. De modo que, quanto mais os problemas se tornam multidimensionais, maior a incapacidade de pensar sua multidimensionalidade; quanto mais a crise progride, mais progride a incapacidade de pensar a crise; quanto mais planet\u00e1rios tornam-se os problemas, mais impens\u00e1veis, eles se tornam. Uma intelig\u00eancia incapaz de perceber o contexto e o complexo planet\u00e1rio fica cega, inconsciente e irrespons\u00e1vel\u201d.<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s1\">(Edgar Morin, 2003)<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o se deve subordinar ou reduzir um factor aos outros: o factor central encontra-se na organiza\u00e7\u00e3o destes factores, ao tornarem-se interdependentes. O problema de fundo \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o din\u00e2mica constitu\u00edda, n\u00e3o por elementos mas por interac\u00e7\u00f5es, O n\u00facleo de explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 na organiza\u00e7\u00e3o das interac\u00e7\u00f5es que constituem o fen\u00f3meno total homo.\u201d Edgar Morin, citado por [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16690,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[406],"tags":[23,1280,569,88,24],"class_list":["post-16689","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-metodologia","tag-complexidade","tag-destaque","tag-edgar-morin","tag-periodizacao-tactica","tag-vitor-frade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16689","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16689"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16689\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16695,"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16689\/revisions\/16695"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16690"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16689"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16689"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16689"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}