{"id":12976,"date":"2024-01-03T02:33:56","date_gmt":"2024-01-03T01:33:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/?p=12976"},"modified":"2024-01-03T02:33:56","modified_gmt":"2024-01-03T01:33:56","slug":"querem-matar-o-futebol-a-historia-e-a-irracionalidade-sobre-a-regra-mais-importante-do-jogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/2024\/01\/03\/querem-matar-o-futebol-a-historia-e-a-irracionalidade-sobre-a-regra-mais-importante-do-jogo\/","title":{"rendered":"Querem matar o Futebol! A hist\u00f3ria e a irracionalidade sobre a regra mais importante do jogo."},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><b><i>&#8220;Ok temos de jogar bem. Mas o que \u00e9 jogar bem ou jogar mal? Para mim, sempre foi uma quest\u00e3o de dist\u00e2ncia (entre jogadores)!&#8221;<\/i><\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(Johan Cruyff, 2014)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 o t\u00edtulo demasiado dram\u00e1tico? Acabar com o jogo de Futebol tal como o conhecemos, \u00e9 de facto o que est\u00e1 em causa. Se preferirem uma vis\u00e3o um pouco mais simp\u00e1tica, e \u00e0 imagem de um cl\u00e1ssico filme de fic\u00e7\u00e3o, a mudan\u00e7a em causa implicaria transform\u00e1-lo numa horr\u00edvel <i>\u201ccriatura\u201d <\/i>h\u00edbrida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A regra do fora-de-jogo \u00e9 provavelmente a mais complexa, controversa e que mais debate tem suscitado no Futebol desde a sua introdu\u00e7\u00e3o em 1863.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Torna-se, em primeiro lugar, fundamental perceber todo o seu enquadramento para a podermos discutir. Tanto que o autor e antigo selecionador Brasileiro e posteriormente jornalista (Jo\u00e3o Saldanha, 1968) defendeu que a discuss\u00e3o do jogo, nomeadamente o seu treino, t\u00e1ctica e prepara\u00e7\u00e3o dependeu de <i>\u201cquatro \u00e9pocas marcantes:<\/i><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li><i>Antes da primeira lei do fora-de-jogo;<\/i><\/li>\n<li><i>Depois do aparecimento desta lei;<\/i><\/li>\n<li><i>O surgimento da segunda lei do fora-de-jogo;<\/i><\/li>\n<li><i>O surgimento da medicina desportiva e da prepara\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos jogadores\u201d.<\/i><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes da introdu\u00e7\u00e3o da regra, (Jo\u00e3o Saldanha, 1968) descreve que <i>\u201c<\/i><b><i>apenas havia jogadores que corriam ou ficavam parados dentro do campo, sem posi\u00e7\u00f5es definidas. O futebol era feio e esteve a ponto de sucumbir como jogo ou competi\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o tinha gra\u00e7a<\/i><\/b><i>. N\u00e3o adiantava ser um bom jogador, que soubesse driblar e dominar a bola, porque um perna-de-pau qualquer, comodamente encostado perto a uma das balizas, esperava a bola chegar e fazia o golo que dava tanto trabalho ao outro que era bom jogador. O facto de n\u00e3o existir &#8220;offside&#8221; levava a que um grupinho ficasse perto de uma baliza e outro l\u00e1 do outro lado tamb\u00e9m esperando a bola\u201d. <\/i>Segundo a (Wilkip\u00e9dia, 2023) <i>\u201co jogo ficava sem emo\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo deixando um vazio no campo\u201d.<\/i><span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, mesmo nesta fase da hist\u00f3ria do jogo, transparece ent\u00e3o j\u00e1 existir uma sensibilidade e racionalidade sobre o mesmo e a sua evolu\u00e7\u00e3o. Permitido pelo regulamento desse tempo dada a aus\u00eancia da regra do fora-de-jogo, os jogadores encontravam oportunidades para finalizar com enorme facilidade. Jogava-se em demasiado espa\u00e7o e desse modo est\u00e1vamos perante um jogo diferente, \u201cestranho\u201d e at\u00e9\u2026. sublinhe-se\u2026 menos \u201c<b><i>emocionante<\/i><\/b>\u201d.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Disputava-se portanto, um jogo ca\u00f3tico que provocava a anarquia e onde a sua dimens\u00e3o colectiva era assoberbada pelas rela\u00e7\u00f5es individuais ou no m\u00e1ximo, grupais. Dadas algumas vozes de personalidades hist\u00f3ricas no jogo que se t\u00eam levantado nos \u00faltimos anos contra a regra do fora-de-jogo defendendo mesmo at\u00e9 a aboli\u00e7\u00e3o da regra, tal cen\u00e1rio ca\u00f3tico descrito atr\u00e1s resultante dessa eventual decis\u00e3o foi tamb\u00e9m referido em 2017 num <a href=\"https:\/\/www.jpn.up.pt\/2017\/01\/29\/ha-jogo-sem-fora-de-jogo\/\">artigo<\/a> da JornalismoPortoNet, projecto da Universidade do Porto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, ao contr\u00e1rio do que por vezes se sup\u00f5e, sendo o golo raro no Futebol ao inv\u00e9s da grande maioria dos outros desportos colectivos, isso torna-o mais apetec\u00edvel e mais desejado. E sendo mais dif\u00edcil de obter, ser\u00e1 consequentemente resultado de uma maior necessidade de qualidade individual e colectiva das equipas para o obterem. E deste modo, e n\u00e3o menos importante, maior motivo de celebra\u00e7\u00e3o e felicidade. Ou seja, traz uma maior paix\u00e3o ao jogo, facto que \u00e9 comprovado com a quantidade de adeptos, de sentimentos e de emo\u00e7\u00f5es que provoca. Comer todos os dias uma determinada iguaria tender\u00e1 a torn\u00e1-la banal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando \u00e0 hist\u00f3ria do jogo, perante o cen\u00e1rio ca\u00f3tico descrito, o fora-de-jogo foi criado. A (Wilkip\u00e9dia, 2023) descreve que em 1863 a primeira regra do fora-de-jogo dizia <i>\u201cque um atacante, para n\u00e3o estar em posi\u00e7\u00e3o de fora-de-jogo, teria que ter, pelo menos quatro jogadores \u00e0 sua frente\u201d. <\/i>A introdu\u00e7\u00e3o da regra provocou \u00e0s equipas uma maior necessidade de organiza\u00e7\u00e3o. De acordo com o website (Hist\u00f3ria do Futebol),<i> \u201ccom essa nova lei, as equipas obrigaram-se a adoptar t\u00e1cticas relacionadas com posicionamento dos jogadores em campo, visto que o jogo n\u00e3o podia ser mais jogado de qualquer maneira. O sistema t\u00e1ctico come\u00e7ou a ser utilizada pelas equipas ingleses Nottingham Forest e Blackburn Rovers. O sistema era o 2-3-5 e tinha as posi\u00e7\u00f5es de avan\u00e7ados, m\u00e9dios e defensores\u201d. <\/i>Deste modo, cada posi\u00e7\u00e3o \/ fun\u00e7\u00e3o foi-se tamb\u00e9m especializando e conhecido determinada nomenclatura. Por exemplo, (Jo\u00e3o Saldanha, 1968), descreve o <i>\u201c&#8221;back&#8221; direito, esquerdo; &#8220;half&#8221; direito, &#8220;center-half&#8221;, etc.\u201d.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas rapidamente se percebeu que a regra trazia outros problemas. Neste sentido, segundo a mesma fonte, <i>\u201cem 1866, vem a primeira altera\u00e7\u00e3o: a quantidade de jogadores \u00e0 frente do atacante passava de quatro para tr\u00eas. Em 1907, vem a segunda altera\u00e7\u00e3o na regra: a infra\u00e7\u00e3o s\u00f3 poderia ser sinalizada se o jogador estiver na outra metade do campo\u201d.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda assim, a regra estava longe da perfei\u00e7\u00e3o. Naturalmente, e como sempre, as equipas exploraram ao mil\u00edmetro tudo o que a lei permitiria. Quem defendia partia a equipa e definia para um dos defensores uma miss\u00e3o especial, ao qual os brasileiras chamaram de <i>\u201cbeque-avan\u00e7a\u201d<\/i> (os defensores eram, em ingl\u00eas, <i>backs<\/i>). Segundo (Jo\u00e3o Saldanha, 1968), um seria o <i>\u201c&#8221;beque-espera&#8221; e &#8220;beque-avan\u00e7a&#8221;\u201d.<\/i> Este jogador, como o pr\u00f3prio nome indica, avan\u00e7aria no momento certo para provocar o fora-de-jogo ao deixar apenas um defensor mais o guarda-redes no seu meio-campo. Por outro lado, segundo v\u00e1rios autores, estes dois defensores, normalmente um com maior papel de marca\u00e7\u00e3o e o outro como l\u00edbero, seriam suficientes para anular as outras situa\u00e7\u00f5es ofensivas que escapavam ao fora-de-jogo. Tal \u00e9 referido pelo mesmo autor ao descrever que <i>\u201cdois beques sabidos paravam todo o ataque advers\u00e1rio\u201d.<\/i> Saldanha ainda acrescenta que <i>\u201co ataque tentou defender-se desta artimanha e formava em linha porque a lei tamb\u00e9m dizia que se o atacante estivesse atr\u00e1s da linha da bola n\u00e3o estava fora-de-jogo. Foi por isto, inclusive, que os atacantes ficaram sendo chamados de jogadores da &#8220;linha&#8221;. Mas a artimanha dos beques levava a melhor e enfeiava o jogo\u201d.<\/i> Como consequ\u00eancia, de acordo com (Rodrigo Vergara, 2016), os jogadores <i>\u201c<\/i><b><i>concentravam-se no meio-campo e os jogos acabavam sem finaliza\u00e7\u00f5es, a n\u00e3o ser na marca\u00e7\u00e3o de faltas<\/i><\/b><i>\u201d.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O brasileiro (Jo\u00e3o Saldanha, 1968) foi ent\u00e3o mais longe e sustentou que tal cen\u00e1rio era <i>\u201c<\/i><b><i>era uma contrariedade ao que h\u00e1 de mais puro no futebol &#8211; e o que mais deve ser defendido: o talento. Sempre o talento, que \u00e9 o que desenvolve o futebol e apaixona a multid\u00e3o<\/i><\/b><i>. Por esta imposi\u00e7\u00e3o, a lei teve novamente de ser modificada fazendo surgir a mais importante etapa do futebol\u201d.<\/i> Assim, segundo o (Hist\u00f3ria do Futebol),<i> <\/i>quem estudava o jogo compreendeu a falha e foi promovida uma altera\u00e7\u00e3o \u00e0 regra em 1925. A partir desse momento para que um atacante recebesse a bola de forma legal no meio-campo advers\u00e1rio seriam necess\u00e1rios apenas dois defensores entre si e a baliza advers\u00e1ria. A (Wilkip\u00e9dia, 2023) exp\u00f5e que deste modo <i>\u201cdesafogou-se o meio-campo, j\u00e1 que provocar o fora-de-jogo com um s\u00f3 jogador ficou arriscado e a defesa foi recuada. Por conta disso, os jogos acabaram ficando mais movimentados e a quantidade de golos aumentou vertiginosamente. Como exemplo, a temporada 1924 \/ 1925 da Football League registrou 4700 golos em 1848 partidas. A temporada seguinte (a primeira ap\u00f3s a altera\u00e7\u00e3o na regra), para a mesma quantidade de partidas, foram marcados 6373 golos (aumento de 35,6%)\u201d.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo (Jo\u00e3o Saldanha, 1968), a partir desse momento, <i>\u201ctudo teve de ser modificado, pelo menos onde a lei foi imediatamente compreendida\u201d. <\/i>Ainda do ponto de vista t\u00e1ctico, o autor (Rodrigo Vergara, 2016) descreve que o meio-campo passou a <i>\u201clugar de craques. \u00c9 ali que, trocando passes ou driblando, os bons jogadores avan\u00e7am com a bola sob controle at\u00e9 o destino final: um remate \u00e0 dist\u00e2ncia ou penetra\u00e7\u00e3o de um atacante por tr\u00e1s da defesa at\u00e9 ao golo. Era do que brasileiros e latino-americanos precisavam\u201d<\/i>. O autor sustenta ainda que essas culturas de jogo <i>\u201csempre preferiram carregar a bola e a possibilidade de jogar dessa maneira marcou uma supremacia. Coincid\u00eancia ou n\u00e3o, o futebol brasileiro como o conhecemos s\u00f3 apareceu depois de 1925. At\u00e9 ent\u00e3o, a a Selec\u00e7\u00e3o brasileira s\u00f3 havia ganho um campeonato sul-americano, em 1919. O primeiro reconhecimento mundial veio com o terceiro lugar, em 1938, na Copa da Fran\u00e7a\u201d. <\/i>Consequentemente, estruturalmente as equipas tamb\u00e9m mudaram. O website (Hist\u00f3ria do Futebol) explica ainda que <i>\u201chouve a necessidade de tr\u00eas defesas pelo menos, porque a nova condi\u00e7\u00e3o do fora-de-jogo permitia que o atacante enfrentasse at\u00e9 um defensor e o guarda-redes. Aumentou a emo\u00e7\u00e3o e as oportunidades de golo e evidenciou o talento dos jogadores. Os sistemas t\u00e1cticos tamb\u00e9m foram aperfei\u00e7oadas e surgiram outros (\u2026): o famoso WM: o 4-2-4, o 4-3-3, o 5-2-3, etc.\u201c. <\/i>O autor (Jo\u00e3o Saldanha, 1968) acrescenta que <i>\u201caqueles dois espertalh\u00f5es agora tinham tamb\u00e9m saber jogar \u00e0 bola. N\u00e3o bastava o artif\u00edcio de um deles adiantar-se. Para deter o ataque era preciso que os tr\u00eas beques se adiantassem ao mesmo tempo, e deixassem apenas o goleiro entre o atacante que iria receber a bola, para coloc\u00e1-lo em fora-de-jogo. Mas essa era uma manobra perigos\u00edssima. Antes era feita por um s\u00f3. Agora teria de ser feita por tr\u00eas, numa fra\u00e7\u00e3o de segundos. Um que ficasse parado e tudo iria \u00e1gua abaixo\u201d.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como estes factos sucederam h\u00e1 um s\u00e9culo atr\u00e1s, numa sociedade sempre com pressa de viver, em que o presente j\u00e1 se torna um passado long\u00ednquo, infelizmente torna-se natural que essa mem\u00f3ria se tenha perdido, e que os menos conscientes para a din\u00e2mica do jogo n\u00e3o consigam percepcionar e antecipar o que seria o jogo sem esta lei. Que para n\u00f3s e tantos outros, se tornou fundamental para o Futebol ser o fen\u00f3meno t\u00e3o amado que \u00e9 hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a ignor\u00e2ncia sobre a regra n\u00e3o conhece tempo. Segundo a (Wilkip\u00e9dia, 2023), mesmo no momento da sua institui\u00e7\u00e3o, j\u00e1 se levantavam vozes contra a regra pois <i>\u201catrapalharia o espect\u00e1culo do futebol\u201d, <\/i>at\u00e9 porque<i> \u201cos defesas t\u00eam justamente a fun\u00e7\u00e3o de defender o advers\u00e1rio na sua pr\u00f3pria \u00e1rea\u201d. <\/i>Ora\u2026 noutra perspectiva, ser\u00e1 esse o caminho que o Futebol tem percorrido? O pensamento individual a sobrepor-se ao colectivo? O pensamento atomista e mec\u00e2nico sobrepondo-se ao complexo? Com excep\u00e7\u00f5es pontuais dada essa mesma natureza complexa do jogo, todas as vari\u00e1veis que influenciam o rendimento de uma equipa e ainda o sub-rendimento dos seus advers\u00e1rios, se recordarmos a hist\u00f3ria das \u00faltimas d\u00e9cadas, foram as equipas que abordaram o jogo de forma mais colectiva e complexa que alcan\u00e7aram mais sucessos e principalmente, de forma continuada. Acreditamos que essa n\u00e3o ser\u00e1 s\u00f3 uma das chaves do sucesso no jogo, mas tamb\u00e9m numa vis\u00e3o mais ampla\u2026 tamb\u00e9m da esp\u00e9cie humana, pois como disse Valdano, <i>\u201ca vida \u00e9 um desporto de equipa\u201d.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente, Marco Van Basten, lend\u00e1rio ex-futebolista mas sem grande sucesso no cargo de treinador, foi um dos que defendeu a aboli\u00e7\u00e3o da regra, num momento, pasme-se, em que era <i>director para o desenvolvimento t\u00e9cnico da FIFA. <\/i>O que podemos retirar do seu discurso \u00e9 que comprovou de forma clara que uma coisa \u00e9 a esfera do saber-fazer, e outra mais profunda, do saber-sobre-o-saber-fazer, tal como abord\u00e1mos noutro <a href=\"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/2017\/01\/21\/saber-jogar-e-o-saber-sobre-o-saber-jogar\/\">artigo<\/a> nessa altura. Agora\u2026 treinadores que tiveram mais sucesso e que estiveram durante muito tempo tecnicamente ligados ao jogo \u00e9 que nos causam estranheza como n\u00e3o conseguem antecipar as consequ\u00eancias do que defendem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 certo que Ars\u00e8ne Wenger (agora tamb\u00e9m diretor t\u00e9cnico da FIFA!) n\u00e3o prop\u00f4s o mesmo que Van Basten, mas o que defende ter\u00e1 algumas consequ\u00eancias id\u00eanticas \u00e0 total aboli\u00e7\u00e3o da regra. A jornalista (Isabel Dantas, 2023) cita o t\u00e9cnico franc\u00eas:<\/p>\n<blockquote><p><i>\u201cCom o VAR a detetar infra\u00e7\u00f5es m\u00ednimas, beneficiar o atacante em caso de d\u00favida desapareceu \u2013 e isso tem uma raz\u00e3o de ser.\u201d<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, tinha. A falibilidade do ser humano, neste caso do \u00e1rbitro auxiliar. E isso deveria ser algo considerado natural por um ser humano que deveria compreender e abra\u00e7ar a sua imperfei\u00e7\u00e3o. Contudo, numa sociedade dominada pela competitividade, individualismo e egocentrismo, apenas o outro falha. Ou pior. Falha porque v\u00e1rios exemplos de personagens com muito maior responsabilidade social \u201cerram\u201d de forma consciente e como tal, se um \u00e1rbitro erra e prejudica a equipa, \u00e9 \u201c\u00f3bvio\u201d que tal tamb\u00e9m tem de suceder de forma deliberada. Mas esta ser\u00e1 uma profunda e longa discuss\u00e3o que n\u00e3o desejamos continuar aqui. Contudo, por outro lado, \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o leg\u00edtima defender a aboli\u00e7\u00e3o total do erro arbitral no jogo de Futebol. Mas n\u00e3o ser\u00e1 com esta medida que tal ir\u00e1 suceder. Apenas ser\u00e1 modificar as suas consequ\u00eancias. Para quem defende a aus\u00eancia do erro, bastar\u00e1 ser s\u00f3 um bocadinho mais paciente, pois tendencialmente a tecnologia dar\u00e1 essa resposta no futuro.<\/p>\n<blockquote><p><i>\u201cQueremos uma regra que seja justa. Se um jogador est\u00e1 tr\u00eas cent\u00edmetros fora de jogo na constru\u00e7\u00e3o de uma jogada e muitas coisas acontecem at\u00e9 ser marcado um golo, \u00e9 justo anular esse golo?\u201d<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim\u2026 parece-nos\u2026 \u00f3bvio. Na perspectiva micro e apenas nalguns exemplos, a leitura, o \u00faltimo passe, escond\u00ea-lo, o seu timing, a execu\u00e7\u00e3o perfeita de quem assiste, por outro lado e noutros exemplos, a no\u00e7\u00e3o do comportamento dos defensores advers\u00e1rios, a desmarca\u00e7\u00e3o, a recep\u00e7\u00e3o que \u00e9 realizada em simult\u00e2neo com a leitura do comportamento do Guarda-Redes advers\u00e1rio de forma a decidir rapidamente a finaliza\u00e7\u00e3o, s\u00e3o t\u00e3o importantes como o que Wenger refere que acontecer\u00e1 antes. E se o \u00faltimo passe for realizado directamente pelo Guarda-Redes? \u00c9 menos justo anular esse golo porque n\u00e3o houve \u201cassim tanta coisa\u201d a acontecer antes? \u00c9 a quantidade de coisas que torna a situa\u00e7\u00e3o mais ou menos justa? J\u00e1 vimos, por exemplo, Ederson Moraes a conseguir tais proezas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E s\u00f3 estamos a olhar para a quest\u00e3o do pondo de vista de quem erra e fica fora-de-jogo. Porque\u2026 quem defende, e que de forma tamb\u00e9m complexa garante comportamentos individuais, sectoriais, inter-sectoriais e colectivos como a leitura, o subir e o retirar profundidade sem perder de vista a bola, quando dar mais largura, quando concentrar, quando cobrir, quando conter e quando pressionar, a coordena\u00e7\u00e3o com a restante \u00faltima linha, a orienta\u00e7\u00e3o dos apoios, a decis\u00e3o de quando acompanhar a desmarca\u00e7\u00e3o de ruptura advers\u00e1ria e \/ ou quando voltar a alinhar para procurar colocar um ou mais advers\u00e1rios em fora-de-jogo, apenas nalguns exemplos, n\u00e3o t\u00eam igualmente m\u00e9rito? Se o realiza de forma eficaz, n\u00e3o ser\u00e1 de forma igualmente brilhante? E fundamentalmente\u2026 isto n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m jogar\u2026 bem\u2026 futebol? Como tantas vezes se diz\u2026 <b>defender tamb\u00e9m \u00e9 uma arte<\/b>. Sejamos francos. Wenger foi um extraordin\u00e1rio treinador que revolucionou o futebol ingl\u00eas e internacional. Mas aqui fica patente as raz\u00f5es da sua queda, tantas vezes expressas no jogo das suas equipas. A desvaloriza\u00e7\u00e3o de sub-momentos defensivos em rela\u00e7\u00e3o aos ofensivos.<\/p>\n<blockquote><p><i>\u201cSe um marcador est\u00e1 dois cent\u00edmetros fora de jogo porque tem ombros mais largos do que o advers\u00e1rio, teve realmente a vantagem do fora de jogo para marcar?\u201d<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ars\u00e8ne, o futebol \u00e9 de todos\u2026 e para todos. E esse jogador, para chegar a esse n\u00edvel tamb\u00e9m ter\u00e1 imensas qualidades e \/ ou vantagens. N\u00e3o existe a perfei\u00e7\u00e3o nem saberemos o que isso \u00e9. O que sempre sucedeu, desde o alto rendimento at\u00e9 \u00e0 \u201crua\u201d, inclusive pela \u201cselec\u00e7\u00e3o natural\u201d, \u00e9 o encobrimento ou desenvolvimento das fraquezas de cada um no jogo. Individual e colectivamente. Se tem ombros mais largos ter\u00e1, por exemplo, que se posicionar mais atr\u00e1s e de forma \u00f3ptima para atacar o espa\u00e7o em profundidade, ter\u00e1 que conhecer melhor o jogo e antecipar mais rapidamente a situa\u00e7\u00e3o, a inten\u00e7\u00e3o e o timing do companheiro que realiza o passe, ter\u00e1 que conhecer melhor as desmarca\u00e7\u00f5es circulares, por onde as realizar e ser melhor a acelerar e na velocidade de deslocamento. A pr\u00f3pria recep\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ser\u00e1 decisiva para n\u00e3o perder a vantagem obtida em rela\u00e7\u00e3o ao advers\u00e1rio. Mas ombros mais largos tamb\u00e9m s\u00e3o uma vantagem noutras situa\u00e7\u00f5es, como nos duelos, para proteger a bola em situa\u00e7\u00e3o de apoio frontal, at\u00e9 no plano do detalhe como \u00e9 o caso da integra\u00e7\u00e3o numa barreira. Esses cent\u00edmetros podem fazer a diferen\u00e7a. Se chegarmos \u00e0 conclus\u00e3o que s\u00e3o s\u00f3 desvantagens e que o treino de qualidade n\u00e3o est\u00e1 a ajudar, ou estar\u00e1 ent\u00e3o na fun\u00e7\u00e3o errada, ou n\u00e3o ter\u00e1 qualidade para o n\u00edvel do jogo em que se encontra. Mas este argumento n\u00e3o servir\u00e1 tamb\u00e9m para o opositor directo que o atacante defronta nessa desmarca\u00e7\u00e3o? Nesse caso, ombros mais largos, caracter\u00edstica at\u00e9 mais tradicional nos defesas, tamb\u00e9m poder\u00e1 colocar um advers\u00e1rio em jogo por cent\u00edmetros\u2026<\/p>\n<blockquote><p><i>\u201cAcho que todos concordamos que n\u00e3o \u00e9 o caso.\u201d<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o caro Ars\u00e8ne. Nem todos. E diremos at\u00e9 que se compreenderem, pensarem\u2026 bem\u2026 no jogo e anteciparem o que \u00e9 prov\u00e1vel que suceda e explicarem isso a quem n\u00e3o o consiga fazer, desconfiamos que a maioria rejeitar\u00e1 tal proposta.<\/p>\n<blockquote><p><i>\u201c\u00c9 por isso que estamos a testar aquilo a que chamamos \u2018regra da luz do dia\u2019 para o fora-de-jogo, o que significa que teria de haver um determinado espa\u00e7o entre os jogadores para que uma posi\u00e7\u00e3o fosse considerada fora de jogo.\u201d<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta linha de pensamento, se existem problemas e discuss\u00f5es sobre escassos cent\u00edmetros em jogo ou fora-de-jogo, mudar a regra desta forma n\u00e3o manter\u00e1 a quest\u00e3o, s\u00f3 que em vez da zona mais adiantada do atacante, a discuss\u00e3o passaria para os seus segmentos corporais mais recuados? Ent\u00e3o isso n\u00e3o manter\u00e1 a quest\u00e3o sobre a precis\u00e3o da avalia\u00e7\u00e3o e sobre o timing \/ frame no qual a bola sai do p\u00e9 do atacante que realiza o passe?<\/p>\n<blockquote><p><i>\u201cIsto seria tamb\u00e9m uma evolu\u00e7\u00e3o.\u201d<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terminamos os coment\u00e1rios \u00e0s declara\u00e7\u00f5es de Wenger, refutando, para n\u00f3s, a mais importante. Tal n\u00e3o seria uma evolu\u00e7\u00e3o. Seria sim, regress\u00e3o. Regress\u00e3o t\u00e1ctica aos prim\u00f3rdios do Futebol que descrevemos no in\u00edcio do texto. Isto porque a possibilidade do atacante estar \u00e0 frente do \u00faltimo defensor, mesmo que por alguns cent\u00edmetros, torna-se uma enorme vantagem para o \u00faltimo passe, e desta forma isto traria receio aos defensores em se posicionarem mais alto e at\u00e9 para manterem a \u00faltima linha alinhada. Estar cent\u00edmetros adiantado \u00e9 o suficiente para ganhar vantagem, n\u00e3o s\u00f3 espacial, como tamb\u00e9m para usar o corpo para proteger a posi\u00e7\u00e3o ganha e impedir o defensor de recuperar para o espa\u00e7o entre o atacante com bola e a sua baliza, primeira condi\u00e7\u00e3o da conten\u00e7\u00e3o. E nesta situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m o dissuade de tentar alguma intercep\u00e7\u00e3o ou desarme, pois uma potencial falta, provavelmente dar\u00e1 direito a expuls\u00e3o. Perante este cen\u00e1rio, a tend\u00eancia seria os defensores baixarem e defenderem junto da sua baliza e com isto perderem tamb\u00e9m a capacidade de pressionar alto no campo e de serem \u201cofensivas\u201d sem bola. E como um princ\u00edpio fundamental do jogo passa por procurar <i>\u201ccriar superioridade num\u00e9rica\u201d, <\/i>a equipa sem bola, quer defendendo colectivamente (zona), quer individualmente (homem) procuraria baixar outros jogadores para esse espa\u00e7o, formando-se aglomerados de jogadores pelo campo todo. Sem fora-de-jogo ou com esta nova regra do fora-de-jogo, o mais prov\u00e1vel seria assistirmos \u00e0 regress\u00e3o do Futebol aos seus prim\u00f3rdios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fundo a discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sobre melhorar o jogo ou as suas regras. \u00c9 sobre filosofia e cren\u00e7as, ainda por cima\u2026 confusas. Mais precisamente sobre a preval\u00eancia do Futebol \u201cofensivo\u201d sobre o \u201cdefensivo\u201d. Uma vez mais, defender bem (uma obriga\u00e7\u00e3o no jogo para quem o quer vencer) n\u00e3o implicar\u00e1 obrigatoriamente defender mais, quer isso represente mais tempo, espa\u00e7o ou n\u00famero. Mas, defender bem, at\u00e9 poder\u00e1 significar atacar melhor. Tal como atacar mais, em tempo, espa\u00e7o ou n\u00famero, n\u00e3o significar\u00e1 que se ataque com qualidade. Ah\u2026 e Ars\u00e8ne: pode-se \u201catacar\u201d, defendendo. Inclusive at\u00e9 como algumas vezes as suas equipas no Arsenal nos prensenteavam com os sufocantes pressings a que submetiam os advers\u00e1rios. N\u00e3o era no sub-momento defensivo <a href=\"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/2017\/09\/20\/momentos-e-sub-momentos-do-jogo-uma-proposta\/\">Impedir a constru\u00e7\u00e3o<\/a>, nomeadamente no pressing, que as suas equipas revelavam graves problemas defensivos. Portanto, considerando a relatividade de \u201c<i>espect\u00e1culo<\/i>\u201d e da \u201c<i>est\u00e9tica<\/i>\u201d do jogo, a altera\u00e7\u00e3o proposta, afinal n\u00e3o <i>\u201cacabaria por favorecer mais o futebol de ataque e, consequentemente, o espect\u00e1culo\u201d.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, aqueles que, dentro do campo, sentiram a evolu\u00e7\u00e3o do jogo e o conseguiram racionalizar tornam-se preciosos para que se perceba o que est\u00e1 realmente em causa. Um desses exemplos \u00e9 o ex-internacional brasileiro Tost\u00e3o que, citado por (Rodrigo Vergara, 2016), aponta que <i>\u201c<\/i><b><i>o futebol perderia a gra\u00e7a<\/i><\/b>\u201d. Justificando, \u00e0 imagem do <a href=\"https:\/\/www.jpn.up.pt\/2017\/01\/29\/ha-jogo-sem-fora-de-jogo\/\">artigo<\/a> de 2017, que <i>\u201cno meio-campo, em vez de dribles geniais, ver\u00edamos poucos atletas disputando bolas perdidas. O futebol ficaria parecido com o basquetebol: jogadas concentradas sob os cestos e lances decididos em detalhes\u201d. <\/i>Citado pelo mesmo autor, o jornalista Armando Nogueira vai mais longe e defende mesmo que <i>\u201cisso mataria o futebol\u201d.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como (V\u00edtor Frade, 2017) sustenta, <i>\u201ca regra do fora de jogo n\u00e3o \u00e9 \u201cuma\u201d. \u00c9 \u201ca\u201d lei fundamental do futebol. \u201cEspero que a revolta dos treinadores seja suficiente para evidenciar que isto \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o. Neste sentido: passa a ser outra coisa\u201d\u201d.<\/i> Deste modo, a quest\u00e3o \u00e0 volta do fora-de-jogo n\u00e3o se torna apenas uma quest\u00e3o sobre as regras do jogo. \u00c9 muito mais do que isso. \u00c9 n\u00e3o s\u00f3 uma dimens\u00e3o do DNA do jogo para ele ser o que hoje \u00e9, como tamb\u00e9m levanta quest\u00f5es mais amplas na nossa sociedade sobre a diferen\u00e7a entre o pensamento individualista e o pensamento colectivo.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quer no futebol, quer na sociedade em geral, chegamos \u00e0 conclus\u00e3o que, neste momento, os historiadores t\u00eam um papel \u201cdecorativo\u201d e o seu trabalho n\u00e3o \u00e9 valorizado. A hip\u00f3tese alternativa n\u00e3o \u00e9 melhor porque revela uma falta de intelig\u00eancia absurda. A todos os n\u00edveis estamos na imin\u00eancia de repetir erros do passado. Perante isto, recordamos o poema que V\u00edtor Frade escreveu sobre o tema, j\u00e1 com 7 anos, mas ainda t\u00e3o actual\u2026<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><b><i>\u201cN\u00e3o foi Trump ser eleito<br \/>\nQue me trouxe dor ao peito,<br \/>\nForam as condi\u00e7\u00f5es a jeito\u2026<br \/>\nCruyff que diria<br \/>\nDe van Basten ou at\u00e9 de Guardiola<br \/>\nSobre os \u2018devaneios-porcaria\u2019<br \/>\nA infecionarem-lhe a tola?<br \/>\nPorqu\u00ea Cruyff a medida?<br \/>\nQuase s\u00f3 ele foi \u2018extraterrestre\u2019<br \/>\nComo jogador<br \/>\nE treinador,<br \/>\nE no entender o jogo est\u00e1 o teste!\u201d<\/i><\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(V\u00edtor Frade, 2017)<\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Ok temos de jogar bem. Mas o que \u00e9 jogar bem ou jogar mal? Para mim, sempre foi uma quest\u00e3o de dist\u00e2ncia (entre jogadores)!&#8221; (Johan Cruyff, 2014) Ser\u00e1 o t\u00edtulo demasiado dram\u00e1tico? Acabar com o jogo de Futebol tal como o conhecemos, \u00e9 de facto o que est\u00e1 em causa. 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