{"id":8178,"date":"2019-03-25T17:40:36","date_gmt":"2019-03-25T16:40:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/?page_id=8178"},"modified":"2026-07-10T15:55:37","modified_gmt":"2026-07-10T14:55:37","slug":"conhecimento-do-jogo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/saber-sobre-o-saber-treinar\/conhecimento-do-jogo\/","title":{"rendered":"Conhecimento do Jogo"},"content":{"rendered":"\n<style type=\"text\/css\" data-created_by=\"avia_inline_auto\" id=\"style-css-av-lqq1bolo-a1bf1173a38d7c6d681222d06ce17eaf\">\n#top .av-special-heading.av-lqq1bolo-a1bf1173a38d7c6d681222d06ce17eaf{\npadding-bottom:10px;\ncolor:#f5a728;\n}\nbody .av-special-heading.av-lqq1bolo-a1bf1173a38d7c6d681222d06ce17eaf .av-special-heading-tag .heading-char{\nfont-size:25px;\n}\n.av-special-heading.av-lqq1bolo-a1bf1173a38d7c6d681222d06ce17eaf .special-heading-inner-border{\nborder-color:#f5a728;\n}\n.av-special-heading.av-lqq1bolo-a1bf1173a38d7c6d681222d06ce17eaf .av-subheading{\nfont-size:15px;\n}\n<\/style>\n<div  class='av-special-heading av-lqq1bolo-a1bf1173a38d7c6d681222d06ce17eaf av-special-heading-h1 custom-color-heading blockquote modern-quote modern-centered  avia-builder-el-0  el_before_av_slideshow_full  avia-builder-el-no-sibling '><h1 class='av-special-heading-tag '  itemprop=\"headline\"  >Conhecimento do Jogo<\/h1><div class=\"special-heading-border\"><div class=\"special-heading-inner-border\"><\/div><\/div><\/div>\n<\/div><\/div><\/div><!-- close content main div --><\/div><\/div><div id='full_slider_1'  class='avia-fullwidth-slider main_color avia-shadow   avia-builder-el-1  el_after_av_heading  el_before_av_sidebar   slider-not-first container_wrap sidebar_left'  ><div  class='avia-slideshow av-lqq1c9a2-53e388ecf5848cce573b5bf670d7def6 avia-slideshow-featured av_slideshow_full avia-slide-slider av-slideshow-ui av-control-default av-slideshow-manual av-loop-once av-loop-manual-endless av-default-height-applied   avia-slideshow-1' data-slideshow-options=\"{&quot;animation&quot;:&quot;slide&quot;,&quot;autoplay&quot;:false,&quot;loop_autoplay&quot;:&quot;once&quot;,&quot;interval&quot;:5,&quot;loop_manual&quot;:&quot;manual-endless&quot;,&quot;autoplay_stopper&quot;:false,&quot;noNavigation&quot;:false,&quot;bg_slider&quot;:false,&quot;keep_padding&quot;:false,&quot;hoverpause&quot;:false,&quot;show_slide_delay&quot;:0}\"  itemprop=\"image\" itemscope=\"itemscope\" itemtype=\"https:\/\/schema.org\/ImageObject\" ><ul class='avia-slideshow-inner ' style='padding-bottom: 40%;'><li  class='avia-slideshow-slide av-lqq1c9a2-53e388ecf5848cce573b5bf670d7def6__0  av-single-slide slide-1 slide-odd'><div data-rel='slideshow-1' class='avia-slide-wrap '   ><img decoding=\"async\" fetchpriority=\"high\" class=\"wp-image-8180 avia-img-lazy-loading-not-8180\"  src=\"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/conhecimento-do-jogo-top-johan-cruyff-josep-guardiola.jpg\" width=\"1000\" height=\"400\" title='Conhecimento do Jogo - Top - Johan Cruyff &amp; Josep Guardiola' alt=''  itemprop=\"thumbnailUrl\" srcset=\"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/conhecimento-do-jogo-top-johan-cruyff-josep-guardiola.jpg 1000w, https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/conhecimento-do-jogo-top-johan-cruyff-josep-guardiola-500x200.jpg 500w, https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/conhecimento-do-jogo-top-johan-cruyff-josep-guardiola-600x240.jpg 600w, https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/conhecimento-do-jogo-top-johan-cruyff-josep-guardiola-705x282.jpg 705w, https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/conhecimento-do-jogo-top-johan-cruyff-josep-guardiola-450x180.jpg 450w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/div><\/li><\/ul><\/div><\/div><div id='after_full_slider_1'  class='main_color av_default_container_wrap container_wrap sidebar_left'  ><div class='container av-section-cont-open' ><div class='template-page content  av-content-small units'><div class='post-entry post-entry-type-page post-entry-8178'><div class='entry-content-wrapper clearfix'>\n<div  class='avia-builder-widget-area clearfix  avia-builder-el-2  el_after_av_slideshow_full  el_before_av_textblock  avia-builder-el-first '><div id=\"avia_auto_toc-2\" class=\"widget clearfix avia-widget-container avia_auto_toc avia_no_block_preview\"><div class=\"avia-preview-headline\">Enfold Table of Contents<\/div><div class=\"avia-preview-info\">Title: <\/div><div class=\"avia-preview-in-front\">Table can only be rendered in frontend.<\/div><\/div><\/div>\n<section  class='av_textblock_section av-lqq1bfgb-8d1b6354e37eb0380c517a530b1be76f '   itemscope=\"itemscope\" itemtype=\"https:\/\/schema.org\/CreativeWork\" ><div class='avia_textblock'  itemprop=\"text\" ><blockquote>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><strong><em><span class=\"s1\">\u201cNo desporto, t\u00e3o importante como a aprendizagem de m\u00e9todos \u00e9 a aprendizagem de conte\u00fados. Os m\u00e9todos, sem conte\u00fados, para pouco servem. \u00c9 o conte\u00fado que torna, ou n\u00e3o, apetec\u00edvel o m\u00e9todo. E, no conte\u00fado, n\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 tecnoci\u00eancia, h\u00e1 tamb\u00e9m filosofia e pedagogia e poesia e amor. Sabem estas coisas os especialistas em Desporto?\u201d<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s2\">(Manuel S\u00e9rgio, 2016)<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">H\u00e1 temas que, no Futebol, n\u00e3o podem ser tratados de forma lateral. O conhecimento do jogo \u00e9 um deles. N\u00e3o \u00e9 um luxo intelectual. N\u00e3o \u00e9 um adorno te\u00f3rico reservado a treinadores mais reflexivos. N\u00e3o \u00e9 uma conversa para congressos ou livros. \u00c9 uma das bases mais decisivas da compet\u00eancia no Futebol, porque jogar, treinar, analisar, corrigir, ensinar, planear, liderar ou decidir s\u00f3 ganham profundidade quando assentam numa compreens\u00e3o cada vez mais rica daquilo que o jogo \u00e9, do que pede, do que permite e do que impede. O jogo pode parecer simples a quem o olha de fora. Mas essa simplicidade \u00e9 enganadora. Como escreveu (Miguel Quaresma, 2021), <\/span><span class=\"s3\">\u201co futebol \u00e9 um jogo simples de ver e, aparentemente, de jogar, mas dif\u00edcil de conhecer e complexo de construir e desconstruir. O desafio \u00e9 conseguirmos compreend\u00ea-lo cada vez melhor!\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">\u00c9 precisamente nessa passagem do ver para o compreender que come\u00e7a o verdadeiro problema. Porque olhar n\u00e3o basta. Ver tamb\u00e9m n\u00e3o basta. \u00c9 necess\u00e1rio saber o que observar, o que interpretar, o que valorizar e o que relacionar. V\u00edtor Frade, citando Edgar Allan Poe (1990), formulou isso com enorme precis\u00e3o: <\/span><span class=\"s3\">\u201cO CONHECIMENTO necess\u00e1rio \u00e9 o de OBSERVAR O QU\u00ca\u201d.<\/span><span class=\"s2\"> A frase \u00e9 fundamental porque desloca o problema do mero acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o para a qualidade do olhar. Num tempo em que h\u00e1 cada vez mais imagens, dados, estat\u00edsticas, plataformas e discursos sobre Futebol, continua a ser decisivo perceber que o essencial n\u00e3o est\u00e1 em recolher tudo, mas em distinguir o relevante do acess\u00f3rio. O conhecimento do jogo come\u00e7a a\u00ed: na capacidade de ver melhor porque se entende melhor.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">\u00c9 por isso que a bibliografia reunida neste projecto insiste tanto na liga\u00e7\u00e3o entre conhecimento e rendimento. O autor (Jo\u00e3o Costa, 2001), ao estudar intelig\u00eancia e conhecimento do jogo, colocava a pergunta de forma directa: poder\u00e1 um melhor conhecimento do jogo contribuir para um n\u00edvel de rendimento superior? A resposta, \u00e0 luz da investiga\u00e7\u00e3o e da pr\u00e1tica, parece ser claramente afirmativa. Diversos estudos mostram que os praticantes de melhor n\u00edvel tendem a possuir maior conhecimento declarativo e melhor qualidade de decis\u00e3o do que colegas menos experientes ou menos expostos a contextos competitivos ricos. O que isto sugere \u00e9 simples, embora longe de ser banal: conhecer melhor o jogo ajuda a decidir melhor, e decidir melhor \u00e9 uma das chaves do rendimento.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">A literatura cognitiva vai exactamente no mesmo sentido. Outro autor que estuda o papel do treinador, (Doug Lemov, 2020), lembra que o conhecimento constitui a base de todas as fun\u00e7\u00f5es cognitivas de ordem superior, incluindo o pensamento cr\u00edtico, a resolu\u00e7\u00e3o de problemas e a tomada de decis\u00e3o. E acrescenta algo especialmente importante para o nosso tema: o pensamento cr\u00edtico n\u00e3o se transfere mecanicamente de um contexto para outro; depende fortemente do conhecimento espec\u00edfico do dom\u00ednio em causa. Sem conhecimento, n\u00e3o se pensa criticamente: adivinha-se. Torna-se evidente o transfer deste pensamento para o Futebol. N\u00e3o se pode esperar que um jogador, um treinador ou um analista interpretem bem uma situa\u00e7\u00e3o se n\u00e3o possu\u00edrem, na mem\u00f3ria e na experi\u00eancia, um patrim\u00f3nio s\u00f3lido de refer\u00eancias, princ\u00edpios, padr\u00f5es, rela\u00e7\u00f5es e significados ligados ao jogo. A pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o, como Lemov recorda, \u00e9 baseada no conhecimento. S\u00f3 se come\u00e7a verdadeiramente a ver quando se entende. Foi uma das ideias fortes de Cruyff. O ex-jogador e treinador holand\u00eas, citado por (Simon Kuper, 2011), sustenta:<\/span><span class=\"s3\">\u201cs\u00f3 come\u00e7as a ver quando o entendes\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">No Futebol, esta verdade ganha ainda mais for\u00e7a porque estamos perante um jogo t\u00e1ctico-estrat\u00e9gico, colectivo, din\u00e2mico, incerto e profundamente relacional. N\u00e3o se trata apenas de executar gestos ou reproduzir movimentos. Trata-se de captar configura\u00e7\u00f5es, antecipar possibilidades, reconhecer padr\u00f5es, ajustar comportamentos, interpretar inten\u00e7\u00f5es e decidir em tempo escasso. Como referem (Garganta, 2004) e outros autores, a investiga\u00e7\u00e3o sobre <\/span><span class=\"s3\">expertise<\/span><span class=\"s2\"> nos jogos desportivos colectivos mostrou h\u00e1 muito que as ac\u00e7\u00f5es dos jogadores se apoiam em estrat\u00e9gias cognitivas que guiam a percep\u00e7\u00e3o e a tomada de decis\u00e3o. Isto significa que o jogador de qualidade n\u00e3o \u00e9 apenas o que executa bem; \u00e9, antes de mais, o que l\u00ea melhor, selecciona melhor e escolhe melhor.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">N\u00e3o admira, por isso, que tantos treinadores insistam neste ponto. Julen Lopetegui, citado por (Adriano Fernandes, 2015), lamenta que muitos jogadores cheguem aos 17, 18 ou at\u00e9 30 anos sem perceberem verdadeiramente o jogo, e afirma que <\/span><span class=\"s3\">\u201co melhor jogador ser\u00e1 sempre o que tomar a melhor decis\u00e3o\u201d<\/span><span class=\"s2\">. Rui Quinta, citado por (Ant\u00f3nio Ribeiro, 2009), refor\u00e7a a mesma l\u00f3gica ao dizer que, para o jogador jogar o jogo, tem de ter capacidade de compreens\u00e3o, de resolu\u00e7\u00e3o das tarefas do jogo e de supera\u00e7\u00e3o perante aquilo que o pr\u00f3prio jogo lhe coloca. Paulo Bento, por seu lado, sublinha que quanto melhor se entende o que o \u00faltimo jogo deu e o pr\u00f3ximo jogo pede, mais clara se torna a organiza\u00e7\u00e3o do treino, da equipa e do pr\u00f3prio jogo. Tudo isto aponta para a mesma conclus\u00e3o: o conhecimento do jogo n\u00e3o \u00e9 um suplemento; \u00e9 uma dimens\u00e3o estruturante da compet\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">Mas importa perceber de que conhecimento estamos a falar. N\u00e3o apenas de um saber verbal, escolarizado ou discursivo sobre o Futebol. N\u00e3o apenas de cultura t\u00e1ctica num sentido livresco. Esta dimens\u00e3o do projecto procura desenvolver bem essa distin\u00e7\u00e3o ao identificar dois n\u00edveis de conhecimento do jogo. Um, que se manifesta no plano inconsciente, nas tais inten\u00e7\u00f5es em acto de que falam Pierre Jacob e Gilles Lafargue, citados por (Fernando Cardoso, 2006). Outro, que opera no plano consciente, deliberado, reflectido, representando um saber sobre o saber fazer. Esta diferencia\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante porque ajuda a ultrapassar um erro recorrente: pensar que conhecer o jogo \u00e9 apenas ser capaz de falar sobre ele. N\u00e3o. H\u00e1 um conhecimento que j\u00e1 desceu ao corpo, ao h\u00e1bito, ao sentir da situa\u00e7\u00e3o, \u00e0 resposta r\u00e1pida, ao <\/span><span class=\"s3\">aqui e agora<\/span><span class=\"s2\"> do jogo, na formula\u00e7\u00e3o de V\u00edtor Frade. E h\u00e1 outro conhecimento que organiza, refor\u00e7a, clarifica e expande esse saber-fazer, tornando-o mais consciente, mais transmiss\u00edvel e mais suscept\u00edvel de ser orientado.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">Na verdade, o mais importante \u00e9 precisamente a interac\u00e7\u00e3o entre estes dois planos. Como escreve (Paulo Sousa, 2006), apoiando-se em Garganta, Frade e Guilherme Oliveira, importa desenvolver simultaneamente um saber-fazer e um conhecimento sobre o saber-fazer. O primeiro refere-se \u00e0 capacidade de executar com \u00eaxito determinada ac\u00e7\u00e3o; o segundo inclui tanto uma cultura t\u00e1ctica mais abrangente como uma compreens\u00e3o mais espec\u00edfica do projecto de jogo colectivo. Quando esta articula\u00e7\u00e3o se d\u00e1, o jogador n\u00e3o s\u00f3 age melhor como come\u00e7a tamb\u00e9m a perceber melhor o que faz, por que o faz e em que l\u00f3gica o faz. N\u00e3o se trata de substituir espontaneidade por cerebralismo excessivo, mas de enriquecer a ac\u00e7\u00e3o com entendimento e o entendimento com ac\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">\u00c9 aqui que o papel do treinador ganha relevo particular. Porque o conhecimento do jogo n\u00e3o \u00e9 apenas algo que o jogador adquire espontaneamente pela simples exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00e1tica, embora essa exposi\u00e7\u00e3o continue a ser decisiva. <\/span><span class=\"s4\">O treinador pode ser um catalisador poderoso desse processo<\/span><span class=\"s2\">. Pode ajudar a ver o que antes passava despercebido. Pode organizar o caos aparente. Pode hierarquizar informa\u00e7\u00e3o. Pode acelerar aprendizagens. Pode tornar consciente o que estava apenas vagamente intu\u00eddo. E pode, sobretudo, criar contextos de treino e de an\u00e1lise que aproximem os jogadores de uma compreens\u00e3o mais rica da l\u00f3gica do jogo. N\u00e3o por acaso, Jorge Jesus surge tantas vezes, nos testemunhos que reunimos, como algu\u00e9m que dava aut\u00eanticas aulas de Futebol. J\u00falio C\u00e9sar recorda ter aprendido no Benfica coisas que jamais imaginaria no final da carreira. Filipe Lu\u00eds, agora treinador, no t\u00e9rmino da sua carreira de jogador no Flamengo, vai ainda mais longe ao dizer que cada dia era uma aula de futebol, que Jesus parava uma imagem durante quinze minutos para falar de um detalhe, e que acabou por ser o aluno n\u00famero um. Pode discutir-se estilo, m\u00e9todo ou excessos. Mas uma coisa emerge com clareza desses relatos: o conhecimento do jogo, quando profundo, ensina.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">Esta centralidade do conhecimento ajuda tamb\u00e9m a compreender melhor a rela\u00e7\u00e3o desta dimens\u00e3o com as outras duas grandes dimens\u00f5es que est\u00e3o na g\u00e9nese da compet\u00eancia do treinador: metodologia e lideran\u00e7a. O conhecimento do jogo n\u00e3o existe isolado. Alimenta a metodologia, porque \u00e9 dele que nascem os conte\u00fados, os problemas, os crit\u00e9rios, os princ\u00edpios e as prioridades do treino. Alimenta tamb\u00e9m a lideran\u00e7a, porque grande parte da credibilidade do treinador assenta justamente na percep\u00e7\u00e3o, por parte dos jogadores, de que ele entende profundamente o jogo que quer construir. E da coer\u00eancia entre o jogo que prop\u00f5e e os valores humanos que defende. A rela\u00e7\u00e3o est\u00e1 em tudo. \u00c9 nesse sentido que a frase atribu\u00edda a um jornalista an\u00f3nimo no trabalho de (Nuno Pinho, 2009) \u00e9 t\u00e3o feliz: entre as tr\u00eas dimens\u00f5es vitais do treinador de excel\u00eancia est\u00e3o o conhecimento do jogo nas m\u00faltiplas acep\u00e7\u00f5es, o dom\u00ednio do treino e a capacidade de liderar. N\u00e3o s\u00e3o tr\u00eas universos separados. S\u00e3o tr\u00eas dimens\u00f5es que se entrela\u00e7am, interagem e se refor\u00e7am mutuamente.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">Talvez por isso o nosso projecto aponte que o conhecimento do jogo, influenciado por determinados valores que o treinador deseja manifestar e por reflexos metodol\u00f3gicos, ser\u00e1 a base para a concep\u00e7\u00e3o de uma ideia de jogo e posteriormente para a constru\u00e7\u00e3o de um modelo de jogo. Esta liga\u00e7\u00e3o \u00e9 absolutamente central. O conhecimento do jogo n\u00e3o \u00e9 apenas acervo conceptual; \u00e9 a mat\u00e9ria-prima a partir da qual o treinador constr\u00f3i a sua leitura, a sua inten\u00e7\u00e3o, a sua selec\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios e, finalmente constr\u00f3i o modelo. Aqui, a bibliografia que mobilizamos a partir de diversos autores, analistas e treinadores converge de forma muito expressiva: o modelo n\u00e3o \u00e9 apenas sistema, nem diagrama, nem distribui\u00e7\u00e3o posicional. \u00c9 articula\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios, compromissos, comportamentos, circunst\u00e2ncias e padr\u00f5es. \u00c9, em grande medida, conhecimento organizado do jogo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">As ideias de V\u00edtor Frade s\u00e3o, a este respeito, particularmente ricas. Quando afirma que <\/span><span class=\"s3\">\u201co Modelo \u00e9 tudo\u201d<\/span><span class=\"s2\">, que \u00e9 <\/span><span class=\"s3\">\u201ca Ideia de Jogo mais as circunst\u00e2ncias\u201d<\/span><span class=\"s2\">, ou que <\/span><span class=\"s3\">\u201co Modelo de Jogo come\u00e7a como ideia, inten\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, transcend\u00eancia e depois passa para o plano simb\u00f3lico\u201d<\/span><span class=\"s2\">, est\u00e1 a mostrar que o conhecimento do jogo n\u00e3o pode ser reduzido a taxonomias pobres ou a modelos est\u00e1ticos. O conhecimento do jogo, quando verdadeiro, \u00e9 sempre sist\u00e9mico, relacional, aberto \u00e0 complexidade e atento ao que ainda n\u00e3o foi totalmente detectado. Por isso, o pr\u00f3prio modelo n\u00e3o \u00e9 territ\u00f3rio, como lembra J\u00falio Garganta; \u00e9 mapa, negocia\u00e7\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o, reconstru\u00e7\u00e3o. E por isso Pedro Bou\u00e7as acerta ao falar da necessidade de sistematizar o jogo para minimizar o caos, perceber o que se est\u00e1 a passar e poder dar respostas.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">Neste ponto, o pensamento complexo volta a tornar-se indispens\u00e1vel. Porque o conhecimento do jogo, se for realmente profundo, tem de ser capaz de pensar o Futebol n\u00e3o como soma de elementos separados, mas como tecido de interac\u00e7\u00f5es. N\u00e3o como sequ\u00eancia de ac\u00e7\u00f5es isoladas, mas como emerg\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es. N\u00e3o como mecaniza\u00e7\u00e3o, mas como organiza\u00e7\u00e3o din\u00e2mica da incerteza. \u00c9 isso que \u00d3scar Cano sublinha quando fala de um futebol mais natural, mais pr\u00f3ximo da vida, onde a incerteza \u00e9 determinante e onde o talento e a complementaridade marcam a diferen\u00e7a. \u00c9 isso Mara Vieira, recorrendo a V\u00edtor Frade refor\u00e7a quando insiste que<\/span><span class=\"s4\"> com bola e sem bola, perto ou longe dela, importa pensar o jogo como unidade.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">Tamb\u00e9m por isso o conhecimento do jogo n\u00e3o \u00e9 apenas um saber do treinador. Ultrapassa-o. \u00c9 decisivo para o analista, para a observa\u00e7\u00e3o, para a emiss\u00e3o de <\/span><span class=\"s3\">feedback<\/span><span class=\"s2\">, para a interpreta\u00e7\u00e3o do advers\u00e1rio e da pr\u00f3pria equipa. \u00c9 tamb\u00e9m para um scout quando avalia o conhecimento de jogo de um jogador e mais importante, o que dele \u00e9 mais profundo e demorar\u00e1 mais tempo a alcan\u00e7ar, como por exemplo a rela\u00e7\u00e3o com bola nas ac\u00e7\u00f5es individuais, e o que dele se torna mais r\u00e1pido acrescentar atrav\u00e9s de uma boa equipa t\u00e9cnica.. No fundo, quem trabalha no Futebol e quer realmente acrescentar valor n\u00e3o pode fugir a este problema: precisa de algum n\u00edvel de especializa\u00e7\u00e3o no jogo, precisa de saber o que observa e por que observa, e precisa de transformar dados em informa\u00e7\u00e3o \u00fatil. Caso contr\u00e1rio, como alertava (Pedro Silva, 2006), apoiando-se em Garganta e outros, <\/span><span class=\"s4\">corre o risco de se tornar cada vez mais especialista em inform\u00e1tica e cada vez menos especialista do jogo<\/span><span class=\"s2\">.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">No fundo, o conhecimento do jogo deve ser entendido como uma das bases mais profundas da compet\u00eancia no Futebol porque \u00e9 ele que d\u00e1 densidade \u00e0 leitura, qualidade \u00e0 decis\u00e3o, sentido ao treino, coer\u00eancia \u00e0 metodologia, fundamento ao modelo e credibilidade e coer\u00eancia \u00e0 lideran\u00e7a. N\u00e3o se trata de acumular factos ou opini\u00f5es dispersas. Trata-se de construir uma compreens\u00e3o cada vez mais fina da l\u00f3gica do jogo, das suas regularidades, das suas tens\u00f5es, dos seus problemas, dos seus momentos, das suas rela\u00e7\u00f5es e das suas possibilidades. Trata-se de pensar melhor para ver melhor. E de ver melhor para agir melhor.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">Talvez seja por isso que Mickey Mantle, no filme <\/span><span class=\"s3\">Moneyball<\/span><span class=\"s2\">, surge citado com uma frase que, transportada para este contexto, mant\u00e9m enorme for\u00e7a: <\/span><span class=\"s3\">\u201cit\u2019s unbelievable how much you don\u2019t know about the game you\u2019ve been playing all your life\u201d.<\/span><span class=\"s2\"> H\u00e1, nesta formula\u00e7\u00e3o, uma humildade epistemol\u00f3gica de que o Futebol precisa. Porque o conhecimento do jogo n\u00e3o \u00e9 ponto de chegada. \u00c9 caminho. N\u00e3o \u00e9 patrim\u00f3nio fechado. \u00c9 processo de aprofundamento. N\u00e3o \u00e9 certeza est\u00e1tica. \u00c9 busca exigente. E \u00e9 justamente por isso que merece, neste projecto, um lugar pr\u00f3prio: porque sem ele, as restantes dimens\u00f5es ficam sem ch\u00e3o; com ele, ganham direc\u00e7\u00e3o, sentido e possibilidade de crescimento.<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><strong><em><span class=\"s1\">\u201cTodo o conhecimento \u00e9 bem vindo, toda a discuss\u00e3o \u00e9 bem vinda, qualquer ideia \u00e9 bem vinda, e no fim o que eles t\u00eam de aprender \u00e9 a pensar o futebol por si pr\u00f3prios. Apenas poder\u00e1s dar vida a exerc\u00edcios de treino, ou a sess\u00f5es de treino, quando compreenderes o jogo, tiveres as tuas ideias e vires claramente o que \u00e9 fundamental para ti. (\u2026) No fim \u00e9s tu que produzes a tua pr\u00f3pria metodologia.\u201d<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s2\">(Jos\u00e9 Mourinho, 2016)<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div><\/section>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":8180,"parent":45,"menu_order":4,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-8178","page","type-page","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/8178","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8178"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/8178\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16711,"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/8178\/revisions\/16711"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/45"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8180"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sabersobreosabertreinar.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8178"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}